
Casa Forte

Danielle Steel

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Ttulo original
THURSTON HOUSE

Foto da capa
SOFOTO/DIGITAL VISION

ISBN 972-42-2695-6

Copyright @ 1983
by Benitreto Productions, Ltd.

Impresso e encadernado para
Crculo de Leitores
por Printer Portuguesa Casais de Mem Martins, Rio de Mouro
em Maio de 2002

Nmero de edio 5534

Depsito legal nmero
176 892/02

Digitalizao e arranjo:
Ftima Chaves

       
Para Sam, meu amor,
       e para o seu adorado pai, John.
       Que o crculo do nosso amor vos mantenha sempre aconchegados, seguros e felizes.
       
       D. S.
       
       
A Manso
       
       Quem dormiria aqui antes de eu chegar?
       Quem viveria neste quarto?
       Como  que ele seria?
       Seria o mesmo? Haveria uma rapariga ou duas,
       um rapaz pequeno, uma manso cheia de brinquedos,
       de alegrias, de sonhos...
       Ou no passaria de um lugar solitrio,
       com camas vazias e salas silenciosas?
       
       Teria sido sempre triste e a ansiar por ser amada?
       Teria havido nela uma rapariga que danava e cantava,
       uma campainha que anunciava as refeies,
       e ser que estiveram todos aqui onde eu agora me encontro?
       Ser que sei o seu nome? 
       a fachada...? Foi sempre esta a doce manso,
       onde havia risos, onde havia choros?
       Teria havido nela um co,
       um gato, um cavalo, um rato?
       
       Quem esteve aqui?
       Quem conhece esta manso?
       Conhecem-me?
       Conheo-os a eles?
       E cantaram um rquiem?
       Sinto-os aqui, conheo as suas lgrimas, eu tambm os amei.
       A manso era nova, era deles, era diferente,
       mas, agora, volta a ser a mesma de sempre,
       tal como o foi e ser e continuar a ser.
       E agora ela pertence-me.
       
       
LIVRO I
       
      JEREMIAH ARBUCKLE THURSTON
       
      1
       
       O sol descia lentamente sobre as colinas que emolduram o luxuriante e verde esplendor do vale de Napa. Jeremiah contemplava os raios alaranjados que cruzavam 
o cu e a bruma violcea que se lhes seguiu, mas o esprito encontrava-se a quilmetros dali. Era um homem alto, espadado, desempenado, de braos fortes e sorriso 
dcil. Aos quarenta e trs anos, a sua cabeleira aparecia j salpicada de muitos cabelos brancos, embora as mos ainda mantivessem a mesma fora de quando trabalhava 
nas minas enquanto jovem e de quando comprara a primeira delas no vale de Napa, em 1860. Lanara-se por sua conta e risco e fora o primeiro a descobrir mercrio 
ali. Com os seus dezessete anos, era ento apenas um mido, mas durante anos no pensou em mais nada para alm da explorao mineira, tal como j acontecera anteriormente 
com o pai. Este viera do Este, em 1850, e conseguira transformar em realidade a esperana de encontrar ouro no Oeste. Seis meses depois de chegar, com os bolsos 
a abarrotar de ouro, maridou vir a mulher e o filho. Mas Jeremiah chegou sozinho. A me morrera na viagem. Nos dez anos seguintes, pai e filho trabalharam juntos 
na extrao de ouro, depois de prata quando o ouro comeou a escassear. Entretanto, quando tinha dezenove anos, o pai faleceu, deixando-lhe uma fortuna muito maior 
do que aquela com que Jeremiah alguma vez sonhara. Richard Thurston fora um homem extremamente poupado, e Jeremiah viu-se, de repente, mais rico do que qualquer 
outro homem no estado da Califrnia.
       Porm, para ele, nada se alterou. No deixou de trabalhar nas minas lado a lado com os mineiros, continuou a comprar jazidas e terras, edificando e ampliando 
o seu imprio. Os seus homens diziam que tinha um dom especial, que tudo em que tocava crescia e prosperava, como as minas de mercrio que comeara a explorar em 
Napa quando as de prata comearam a baixar de rendimento. Fez a transio com astcia e rapidez, antes que os outros se dessem conta do que estava a fazer. Mas era 
a terra o que ele mais adorava, a rica terra castanha que costumava deixar correr por entre os dedos e depois apertava carinhosamente na mo. Gostava do seu calor, 
da sua textura, de tudo o que ela representava, enquanto contemplava as colinas, as rvores, o vale bem ordenado, o luxuriante tapete de erva verdejante que se estendia 
diante de si. Tambm comprara vinhedos, dos quais obtinha um vinho maravilhoso. Adorava tudo o que a terra produzia, as mas, as nozes, as uvas, o minrio. Aquele 
vale significava para ele mais do que qualquer outra coisa ou qualquer outra pessoa. Passara trinta e cinco dos seus quarenta e trs anos ali, sempre rodeado das 
mesmas colinas de suaves ondulaes, e nesse lugar desejava ser enterrado quando morresse. Era ali que ele pertencia, o nico stio do mundo onde queria estar. Andou 
por muito lado, mas era ali, no vale de Napa, que se sentia bem, a contemplar o pr do Sol e as suas colmas
       Todavia, enquanto observava o cu a adquirir uma tonalidade aveludada de um cinzento-purpreo, o seu esprito encontrava-se muito longe dali. No dia anterior, 
recebera de Atlanta um pedido de mil frascos de mercrio, o preo oferecido era interessante, mas havia algo que o intrigava. Pressentia qualquer coisa de estranho 
naquela operao, mas no conseguia descortinar o qu. No vislumbrava nada de incorreto no negcio, e at ia pedir informaes ao seu banco sobre o consrcio. A 
causa da preocupao residia na carta que recebera, no estilo do homem que a escrevera. Dava mostras de certa prepotncia e arrogncia. Orville Beauchamp encabeava 
o grupo, e a sua prosa era cheia de floreados, porm havia como que um sexto sentido em Jeremiah que o deixava de p atrs relativamente a ele. 
       - Jeremiah.
       Sorriu ao ouvir a voz familiar de Hannah. H quase vinte anos que ela se encontrava ao seu servio, desde que o marido morrera, pouco depois de a gripe ter 
ceifado a vida da sua prpria noiva. Um dia, aparecera-lhe na mina, vestida com as suas roupas negras de viva e, golpeando o cho com o chapu de chuva, olhou-o, 
indignada.
       - A casa est um asco, Jeremiah Thurston.
       Este olhou-a, espantado, perguntando-se quem diabo seria aquela mulher, e acabou por descobrir que era tia de um homem que trabalhara para ele, coisa que 
ela agora queria fazer. Em 1852, o pai de Jeremiah construra uma cabana num recanto da propriedade, e Jeremiah, que vivera nela com ele, a permaneceu aps a morte 
do seu progenitor. Mas continuou a adquirir terras muito mais extensas, anexando-as s que o pai j comprara no vale de Napa. Aos vinte e cinco anos, comeou a pensar 
que chegara a altura de casar. Queria ter filhos, encontrar algum  sua espera quando voltasse para casa  noite, algum com quem pudesse partilhar a sua boa sorte. 
Ainda no comeara a gastar o dinheiro que tinha, e gostava da idia de algum que esbanjasse um pouco. Uma rapariga bonita, de olhar doce e mos delicadas, um rosto 
que pudesse amar, um corpo que o aquecesse  noite... e acabou por encontr-la atravs de amigos. Pediu-a em casamento dois meses depois de a ter conhecido e comeou 
a construir uma manso para ela. Ergueu-a no centro das suas terras, com umas vistas que se perdiam no horizonte, debaixo de quatro enormes rvores cujas copas se 
encontravam para formar um enorme e belo arco natural que daria frescura  casa no Vero. Foi praticamente um palcio que ele construiu, pelo menos era o que as 
gentes locais achavam. Tinha dois pisos, com dois amplos sales no rs-do-cho, uma sala de jantar com painis de madeira, uma cozinha espaosa com uma chamin suficientemente 
grande para Jeremiah caber nela de p. No primeiro andar, havia uma sala de estar acolhedora, uma sute enorme e um solrio, no segundo andar, seis quartos para 
a numerosa famlia que esperava ter. No seria preciso ampliar a casa quando os filhos nascessem. Jennie ficou encantada com a manso... as janelas altas com vitrais, 
o piano de cauda em que ela tocaria para ele todas as noites.
       Todavia, Jennie nunca o pde fazer. Foi apanhada pela epidemia de gripe que atingiu o vale no Outono de 1868, e morreu ao fim de trs dias. A sorte deixava 
de sorrir a Jeremiah pela primeira vez na vida. Chorou-a como uma me que acabara de perder uma filha. Jennie, que ento s tinha dezessete anos, teria sido a esposa 
perfeita para ele. Durante algum tempo, vagueou pela casa como uma alma penada, at que, desesperado, fechou-a e voltou para a cabana onde vivera at ento; mas 
no encontrou nela a comodidade de outrora.
       Assim, em 1869, instalou-se definitivamente na manso que sonhara compartilhar com Jennie... Jennie... mas no conseguia entrar nos aposentos que lhe destinara, 
nem suportava imaginar o que teria sido viver com ela ali. A princpio, visitou com freqncia os pais da rapariga, mas no conseguia suportar o fato de ver a sua 
prpria dor refletida nos olhos deles, nem a avidez com que a irm mais velha de Jennie, bastante menos atraente, o olhava. Acabou por fechar os aposentos que no 
usava, e raras vezes subia aos andares superiores. Comeou a habituar-se a fazer a sua vida caseira no rs-do-cho. Os dois nicos aposentos que ocupava remodelou-os 
de modo a parecerem-se com o interior da sua velha cabana. Transformou um dos sales em quarto de dormir e nunca mais se preocupou em mobiliar os outros aposentos. 
Ningum mais voltara a tocar no piano desde o dia em que os dedos de Jennie haviam percorrido o seu teclado, quando o instrumento chegara. Tambm abriu a espaosa 
cozinha, onde s vezes comia com alguns dos seus homens quando o iam visitar. Gostava de comer com eles e de saber que se sentiam bem na sua companhia. No tinha 
nada de altivo. No se esquecia do lugar donde viera: uma casa do Este, fria e pequena, onde todos tiritavam de frio durante o Inverno, perguntando-se se haveria 
comida suficiente no dia seguinte. Acabaram por deix-la para seguir os trilhos das caravanas at ao Oeste, para l das montanhas Rochosas, at aos rios,  lama, 
s minas. Tambm tinha presente que, se conseguira reunir uma fortuna, fora graas ao trabalho rduo dele e de seu pai. Era algo que Jeremiah nunca esqueceria.. 
como nunca esqueceria Jennie. Como nunca esqueceria um amigo. A despeito do passar dos anos, nunca mais sentira a tentao de voltar a casar. Por mais atraente que 
uma rapariga fosse, nunca a achava to doce como Jennie, nem to alegre. Durante anos, recordara as suas gargalhadas, as suas exclamaes de alegria quando lhe mostrava 
o progresso das obras de construo da manso. Dera-lhe um imenso prazer constru-la para ela, como um monumento ao seu mtuo amor. Mas deixara de ter significado 
depois da morte de Jennie. Permitiu que a tinta estalasse e que a umidade tomasse conta dos aposentos no utilizados. Usou todos os pratos, tachos e panelas at 
no restar nenhum limpo. Dizia-se at que o salo onde dormia parecia mais um estbulo do que um quarto de dormir. At chegar Hannah. Fora ela que limpara e arrumara 
tudo
       - Olha s para esta casa, rapaz! - ralhou ela, como se no acreditasse naquilo que via, quando chegaram a casa vindos da mina Jeremiah ainda no sabia o que 
fazer com Hannah, mas esta estava determinada a vir trabalhar para ele. No fazia nada desde que o marido morrera, e estava plenamente convencida de que Jeremiah 
precisava dela, e foi o que lhe disse  sua maneira. - Quem s tu? Um porco.
       Jeremiah riu-se ao ver a cara de indignao que a mulher fez. H quase vinte anos que ningum cuidava dele, por isso, aos vinte e seis anos, agradava-lhe 
ter, de repente, Hannah. A mulher ps mos  obra no dia seguinte e, quando ele regressou a casa  noite, encontrou os aposentos que utilizava limpos e arrumados. 
Num esforo de refazer o seu ninho, encheu de papelada o cho da sala, deixou cair cinza de charuto no tapete e at entornou inadvertidamente um copo de vinho. Na 
manh seguinte, para desespero de Hannah, voltou a sentir-se mais em casa.
       - Se no te emendas, rapaz, prendo-te no fundo da mina E tira-me j esse maldito charuto da boca, ests a deixar cair cinza no fato! - Hannah tirou-lhe o 
charuto dos lbios e meteu-o no copo de vinho da noite anterior, enquanto Jeremiah soltava um suspiro, mas ele vinha mesmo a calhar para si. Proporcionava-lhe um 
inesgotvel suprimento de cinza, desordem e sujidade, mantendo-a continuamente ocupada. Sentia-se necessitada e apreciada pela primeira vez desde h muitos anos. 
Por alturas do Natal desse primeiro ano, eram j um par inseparvel. Hannah ia trabalhar todos os dias, e recusava-se a ter um dia de folga. - Ests louco? J imaginaste 
o rebulio em que eu encontraria esta casa depois de dois dias sem c vir. No, no me vers fora desta casa por um dia, por uma hora que seja, ests a ouvir.
       Era dura com Jeremiah, mas este encontrava sempre comida quente quando chegava a casa, os lenis imaculados na cama, tudo no seu lugar. Mesmo os aposentos 
que no eram usados gozavam de uma limpeza perfeita, e quando ele trazia uma dzia de homens da mina para falar de um novo plano de expanso, ou apenas para provar 
o vinho dos seus vinhedos, Hannah nunca se queixava, por maiores que fossem as bebedeiras ou por mais rudes que eles se mostrassem. Com o tempo, e apesar de a picar 
de quando em vez por causa da sua devoo por ele, Jeremiah chegou a ador-la como nunca adorara ningum... exceto Jennie, naturalmente... Hannah era suficientemente 
sensata para nunca lhe fazer quaisquer perguntas acerca dela. Mas quando Jeremiah chegou aos trinta anos, comeou a incit-lo a encontrar esposa.
       - J sou muito velho, Hannah, e, alm disso, ningum cozinha to bem como tu.
       Ao que ela replicou com vivacidade: - Que disparate!
       Ela insistia em que Jeremiah precisava de uma esposa, uma mulher que o amasse e lhe desse filhos, mas ele no fazia caso. Era como se essa possibilidade o 
assustasse, como se temesse que o fato de voltar a amar algum pudesse ser a causa da sua morte, como acontecera com Jennie. No queria pensar nisso, nem alimentava 
esperanas vs. A ferida provocada pela morte de Jennie j no lhe doa tanto. Os anos haviam-se encarregado de a cicatrizar. Sentia-se bem tal como estava.
       - E quando morreres, Jeremiah? - insistia a velhota. - A quem vais deixar isto tudo?
       - A ti, Hannah, a quem mais poderia ser? - gracejava ele, ao que ela replicava, abanando a cabea:
       - Precisas de uma esposa... e filhos...
       Jeremiah, porm, discordava. No sentia qualquer desejo por nada para alm daquilo que j tinha. Estava satisfeito com o que possua: as minas mais importantes 
do estado, terras que amava, vinhedos que eram o seu encanto, uma mulher com quem dormia todos os sbados  noite... e Hannah, que lhe mantinha a casa limpa e arrumada. 
Gostava dos homens que trabalhavam para si, tinha amigos em So Francisco que via de vez em quando e, quando queria mudar de ambiente, viajava para o Este, ou para 
a Europa, ainda que no com tanta freqncia. No precisava absolutamente de nada mais, e muito menos de uma esposa. Bastava-lhe Mary Ellen para lhe satisfazer as 
necessidades, pelo menos uma vez por semana. Sorria ao pensar nela. No dia seguinte, iria v-la depois de sair das minas... como fazia sempre... Deixaria o trabalho 
ao meio-dia, depois de fechar o cofre. No havia quase ningum ali aos sbados, o que lhe permitia cavalgar at Calistoga, at  pequena casa. Anos antes, entrava 
com todas as cautelas para no ser visto, mas as suas visitas j no eram segredo para ningum e, por outro lado, h j muito tempo que ela no ligava ao que as 
pessoas pudessem dizer. Ele prprio lhe dissera que elas no tinham nada a ver com isso, embora as coisas no fossem assim to simples. Ento, instalar-se-ia comodamente 
diante da lareira a admirar os cabelos acobreados de Mary, ou sentar-se-ia na cadeira de balouo, no quintal, a olhar para a copa do enorme ulmeiro, ocultos pela 
cerca; ento, ele pegar-lhe-ia na mo e...
       - Jeremiah! - A voz de Hannah interrompeu-lhe o sonho. O Sol desaparecera atrs da colina e, de repente, sentiu-se uma brisa fria no ar. - Maldito rapaz! 
No me ouves a chamar?
       Jeremiah esboou um sorriso. Ela tratava-o como se ele tivesse cinco anos e no quarenta e trs.
       - Desculpa... Estava a pensar noutra coisa... - Na realidade, noutra pessoa. Fitou o rosto enrugado de Hannah com um brilhozinho nos olhos.
       - O teu mal  que nunca pensas em nada... no ouves... no escutas...
       - Talvez esteja a ficar surdo. J pensaste nessa hiptese? J estou com certa idade.
       - Talvez seja isso.
       O brilhozinho que se vislumbrava no olhar de Jeremiah s encontrou fogo nos de Hannah. Era uma velhota mal-humorada, mas ele gostava dela tal como era. H 
anos que o fazia andar na linha, mas ele aceitava isso como a coisa mais natural do mundo. Afinal de contas, isso fazia parte do encanto de Hannah, e de uma espcie 
de jogo que ambos conheciam muito bem. Mas, nesse dia, estava de semblante carregado.
       - H problemas nas minas do Harte. Sabias? - disse ela, fitando-o do alpendre.
       Jeremiah franziu o sobrolho, antecipando a resposta:
       - No. Que aconteceu? Fogo?
       O fogo era o que mais temiam. Trabalhavam to perto dele que podia haver uma exploso no momento em que menos se esperava, com altos custos materiais e em 
vidas humanas. Jeremiah nem se atrevia a pensar nisso. Mas Hannah abanou a cabea.
       - No se sabe ao certo. Crem que se trata de gripe, mas pode ser outra coisa. Est a espalhar-se com a rapidez do fogo. - No gostava de lhe falar daquelas 
coisas, nem de despertar nele a recordao de Jennie, ainda que a sua morte tivesse sido h j muito tempo. A voz tomou um tom mais doce ao acrescentar: - O John 
Harte perdeu hoje a esposa... e a filhinha... e dizem que o filho tambm est muito mal,  capaz de no passar desta noite...
       Havia uma expresso de dor no rosto de Jeremiah quando se voltou para acender um cigarro. Ficou em silncio por instantes, de olhar fixo na noite, depois 
voltou-se novamente para a velhota.
       - Fecharam a mina - prosseguiu Hannah.
       As minas de Harte eram as segundas maiores do vale, as segundas depois das de Jeremiah.
       - Sinto muito o que aconteceu  esposa e  rapariga disse Jeremiah com voz pesarosa.
       - Alm disso, esta semana perderam sete homens. Dizem que outros trinta j apanharam essa maldita coisa.
       Era algo semelhante  epidemia do ano em que Jennie morrera. No podia fazer-se nada. Absolutamente nada. Jeremiah fizera companhia ao pai de Jennie quando 
esta morrera. Sentaram-se na sala de estar, em silncio, olhando-se com expresso de desespero, enquanto no andar de cima o esprito de Jennie abandonava o seu corpo 
sem que eles pudessem fazer o que quer que fosse para o evitar. Ao recordar esses momentos, Jeremiah teve a sensao de que o corao se afundava no peito como uma 
pedra pesada, e nem sequer conseguia imaginar o que seria a dor de perder um filho.
       No morria de amores por John Harte, mas admirava-o muito. Harte lutara muitssimo para pr de p uma mina de categoria, o que no era fcil com as minas 
dos Thurston mesmo por baixo do nariz. O seu incio de atividade fora muito mais duro do que o de Jeremiah. Abrira a mina quatro anos antes, quando tinha vinte e 
dois anos, e conduzira os seus homens para l do imaginvel. Nem sempre primava pela simpatia. Jeremiah sabia de homens que o haviam deixado para vir trabalhar consigo 
e que o acusavam de ser irascvel, desbocado e de ter punhos rpidos.
       Mas tinha um corao de ouro. Era um homem decente e honrado, e Jeremiah admirava-o. Fora visit-lo uma ou duas vezes, e rapidamente se apercebera de alguns 
erros que o jovem ia cometer, mas Harte no quis dar ouvidos a nenhum dos conselhos de Jeremiah. No queria nada que viesse dele. Desejava triunfar por si s, e 
consegui-lo-ia com o tempo Mas, agora, Jeremiah sentia pena dele, lamentava a crueldade com que o destino o tratara, assentando-lhe um golpe ainda mais atroz do 
que o que ele sofrera outrora. Olhou para Hannah sem saber exatamente o que fazer. Ele e John Harte nunca haviam sido amigos ntimos. Harte preferia ver Jeremiah 
como um rival e manter-se a boa distncia dele, atitude que Jeremiah respeitava
       - No tenhas iluses, Thurston, no sou teu amigo, nem quero ser. S quero que as minhas minas mandem as tuas para o inferno. Lutarei honradamente, com limpeza, 
mas, se puder, far-te-ei fechar as portas dentro de um ou dois anos, e toda a gente de aqui a Nova Iorque ser minha cliente.
       Jeremiah sorrira ao ouvir aquela fanfarronice. Na realidade, havia lugar para os dois, mas John Harte recusava-se a ver as coisas dessa maneira. Mostrava-se 
amvel quando se encontravam, mas no cedia nem um centmetro. J tivera dois incndios e uma sria inundao, e Jeremiah deixou-se levar pelo impulso de lhe oferecer 
a compra de todas as suas propriedades, em resposta, John Harte ameaou partir-lhe a cara se no desaparecesse das suas terras antes de ele contar at dez. Mas aquele 
incidente no tinha nada a ver com o que acontecia agora. Jeremiah decidiu rapidamente o que devia fazer e dirigiu-se em passada larga at ao cavalo. Hannah sabia 
bem qual a inteno. Jeremiah era assim. Todos tinham lugar no seu corao, inclusive John Harte, por mais impulsivo ou desbocado que ele fosse.
       - No me esperes para o jantar. - Aquelas palavras pronunciadas enquanto Jeremiah montava o cavalo eram desnecessrias. Hannah permaneceria ali, se tivesse 
que esper-lo toda a noite. - Vai para casa descansar.
       - Cuida dos teus assuntos, Jeremiah Thurston! - De repente, ocorreu-lhe um pensamento: - Espera um pouco! Em casa de John Harte estariam demasiado transtornados 
para pensarem em preparar algo para comer. Correu para a cozinha, embrulhou um bocado de frango frito num guardanapo e meteu-o, juntamente com um pouco de fruta 
e uma fatia de bolo, num alforje, que entregou ao sorridente Jeremiah.
       - Se  alguma coisa que cozinhaste, de certeza que os vais matar a todos.
       Hannah esboou um sorriso.
       - Come isso, e no te aproximes de nenhum deles. E, sobretudo, no bebas nem comas nada do que te oferecerem.
       - Sim, mam! - E, com estas palavras, deu meia volta com o cavalo e desapareceu na noite aveludada, absorto nos seus pensamentos.
       Levou apenas vinte minutos a chegar ao complexo que circundava as minas de Harte, e ficou surpreendido ao ver o muito que havia crescido desde a ltima vez 
que ali estivera. No se podia negar que John Harte estava a prosperar, mas era evidente que naquele momento algo de anormal se passava. Havia um estranho silncio 
e no se avistava ningum a andar de casa para casa; viam-se luzes acesas em todas as cabanas, especialmente nas situadas no cume da colina. Toda a casa principal 
parecia arder de tanta luz. Diante da porta, havia uma fila de homens que esperavam o momento de apresentar as suas condolncias a John Harte. Jeremiah desmontou, 
prendeu o cavalo a uma rvore que se encontrava perto do grupo silencioso e, com o alforje que Hannah lhe dera ao ombro, dirigiu-se para o fim da fila. Reconheceram-no 
de imediato, e um murmrio passou de boca em boca.
       - ...Thurston ...Thurston
       Enquanto cumprimentava os homens que conhecia, John Harte apareceu no alpendre. Tinha o rosto desfigurado pela dor, e quase se conseguiu ouvir a onda de compaixo 
que percorreu os homens que o aguardavam. Olhou-os fixamente e fez um ligeiro gesto de cumprimento com a cabea  medida que o seu olhar se cruzava com o de cada 
um deles. Viu Jeremiah no fim da fila e deteve-se a observ-lo, enquanto este se aproximava e lhe estendia a mo, dizendo-lhe, com o olhar, o quanto sentia a sua 
dor. Os outros afastaram-se para os deixarem a ss.
       - Sinto muito o que aconteceu  tua mulher, John... Eu... eu tambm perdi uma pessoa muito querida h muito tempo... a epidemia de sessenta e oito...
       As palavras saram confusas, mas John Harte compreendeu perfeitamente o que Jeremiah sentia. Olhou-o com os olhos marejados de lgrimas. Era um homem bem-parecido 
e quase to alto como Jeremiah. Tinha cabelos negros e lustrosos, uns olhos escuros como o carvo e umas mos grandes e delicadas. Nalguns aspectos, os dois homens 
eram muito parecidos, apesar da diferena de quase vinte anos que os separava.
       - Obrigado por teres vindo - disse John Harte com uma profunda voz dilacerada pela dor. Duas lgrimas correram pelas faces do jovem, e Jeremiah, ao v-las, 
sentiu despertar no seu corao o eco da sua antiga dor.
       - Posso fazer alguma coisa por ti? - Lembrou-se da comida que trouxera. Talvez fosse bem recebida por algum da casa.
       John Harte olhou-o fixamente.
       - Hoje perdi sete homens, a Matilda... a Jane... - A voz embargou-se-lhe. - E quanto ao Barnaby... No conseguiu acabar a frase ao mencionar o filho. Levantou 
novamente os olhos para Jeremiah. - O mdico disse que ele no passaria desta noite. E outros trs homens perderam as esposas... cinco filhos... No deverias ter 
vindo. - De repente, deu-se conta do risco de contgio que Jeremiah corria e ficou comovido.
       - Eu tambm j passei por uma situao semelhante, por isso queria ver se podia fazer algo por ti. - Jeremiah reparou que o jovem tinha um ar cadavrico, 
mas atribuiu-o  dor e no  temida gripe. - Acho que no te faria mal um gole. - E tirou uma garrafa de prata do alforje e estendeu-a a John.
       Este hesitou por instantes, pegou nela e fez um gesto com a cabea em direo da porta.
       - Queres entrar? - John Harte receava que a sua visita estivesse apreensiva, e tinha razes para isso, mas Jeremiah fez um gesto de assentimento com a cabea.
       - Claro que sim. Trouxe-te qualquer coisa para comer. No sei se te apetece.
       John fitou-o, surpreendido e emocionado, recordando a ltima vez que Jeremiah lhe oferecera ajuda. Nessa ocasio, quase o expulsara da casa para fora. No 
queria ajuda da parte dele, mas aquilo era diferente. Era um desastre que no tinha nada a ver com fogo ou inundao nas minas. Deixou-se cair no sof de veludo 
verde da sala de estar, deu um prolongado gole e devolveu a garrafa a Jeremiah com um olhar amargurado.
       - No acredito que tenham morrido... ontem  noite... - Apesar dos esforos para conter as lgrimas, Harte comeou a soluar. - Ontem  noite... a Jane desceu 
as escadas a correr para me dar um beijo de boas-noites, apesar de estar com febre, e, esta manh, a Matilda disse... - No conseguiu conter as lgrimas por mais 
tempo. Jeremiah agarrou-o pelos ombros com ambas as mos e manteve-o assim at se acalmar. Era a nica coisa que poderia fazer por ele naquele momento. Harte levantou 
os olhos para Jeremiah, e os olhos deste tambm estavam midos. - Como  que vou conseguir continuar a minha vida sem eles. Como? A Mattie... e a minha pequenina... 
e se o Barnaby... morrerei, Thurston. No conseguirei viver sem eles.
       Jeremiah rezou em silncio para que ele no perdesse tambm o filho, embora soubesse que este tinha poucas hipteses de sobreviver. Enquanto esperava diante 
da casa, ouvira dizer que a salvao do rapaz era quase impossvel. Fixou ento o seu olhar no de John Harte.
       - Mas ainda s jovem, John, tens toda uma vida pela frente. Ainda que neste momento as minhas palavras possam parecer horrveis, quero dizer-te que ainda 
podes voltar a casar e a ter filhos. Isto  a pior coisa que te aconteceu at agora, mas vais conseguir dar a volta  situao e seguir em frente... Tens de o fazer... 
e consegui-lo-s. - Estendeu-lhe novamente a garrafa, e John bebeu outro gole, ao mesmo tempo que abanava a cabea e as lgrimas lhe corriam pelas faces.
       Pouco menos de uma hora depois apareceu o mdico. John ps-se em p de um pulo
       - O Barnaby?
       - Ele quer v-lo
       O mdico no se atreveu a dizer mais nada, mas o seu olhar cruzou-se com o de Jeremiah enquanto John corria pelas escadas acima para junto do filho, e, como 
resposta  pergunta que vislumbrou no olhar de Thurston, limitou-se a abanar a cabea. Jeremiah, que ficara sentado no rs-do-cho, ao ouvir o lancinante grito de 
dor que o pai soltou no quarto do piso superior, apercebeu-se de imediato de que o rapaz morrera. John deixara-se cair de joelhos com o rapaz nos braos, chorando 
a famlia que perdera em apenas dois dias. Em passo decidido, Jeremiah subiu as escadas e abriu cuidadosamente a porta do quarto. Arrancou o rapaz dos braos do 
pai, estendeu-o na cama e fechou-lhe os olhos. Depois, trouxe John Harte, que no cessava de repetir entre soluos o nome do filho, para fora do quarto Quase  fora, 
fez com que Harte bebesse mais alguns goles de lcool e ficou com ele at  manh seguinte, at chegarem o irmo e vrios outros amigos. Ento, Jeremiah, profundamente 
amargurado, voltou para casa. John tinha exatamente a mesma idade que Jeremiah quando Jennie morrera. Perguntou-se se aquela desgraa afetaria John Harte da mesma 
maneira que o havia afetado a si, mas presumia, pelo pouco que sabia de Harte, que este superaria aquela adversidade
       Com ar pesaroso, desmontou diante da manso, quando o sol da manh j ia alto. Contemplou as colinas que tanto amava, questionando-se sobre o cruel destino 
que jogava com tanta facilidade com a vida e a morte sobre a rapidez com que desaparecem as melhores ddivas da vida. Quando entrou, teve a impresso de ouvir as 
sonoras gargalhadas de Jennie, mas s viu Hannah a dormir, sentada numa cadeira da cozinha. No lhe disse nada e encaminhou-se para o salo que nunca usava. Sentou-se 
ao piano que h muito comprara para a sua encantadora menina de olhos risonhos e caracis dourados a danar de um lado para o outro Tentou imaginar como teria sido 
a sua vida se tivesse podido casar-se com ela, quantos filhos teriam tido. Era a primeira vez, desde h muito tempo, que permitia que o esprito se lanasse em semelhantes 
especulaes. Pensou na esposa e nos filhos que John Harte perdera, e concluiu que o melhor que podia fazer era voltar a casar-se. Era o que Harte precisava, uma 
nova esposa que lhe preenchesse o corao, e novos filhos que substitussem os dois que haviam perdido.
       Precisamente o que Jeremiah no fizera. Vivera sozinho os ltimos dezoito anos, e j era demasiado tarde para refazer a vida. No faria nada para alterar 
a situao. No desejava faz-lo. Mas enquanto fitava as teclas do piano, amarelecidas pelo tempo, que ainda ningum tocara, perguntou-se se no deveria ter feito 
o que esperava que John Harte fizesse. Deveria ter-se casado com outra mulher? Ter uma dzia de filhos para encher a casa vazia? Talvez sim, mas nenhuma outra mulher 
conseguira conquistar o seu corao, nenhuma de que gostasse o suficiente para se casar. No, nunca teria filhos. Sentiu a angstia trespassar-lhe o corao... Um 
filho teria sido uma coisa maravilhosa... uma filha... Ento, de repente, lembrou-se dos dois filhos que John Harte perdera e sentiu um aperto dentro de si. No. 
No conseguiria suportar outra perda. Perdera Jennie. J lhe bastava. Estava melhor assim... ou no.
       - Que aconteceu?
       Assustou-se ao ouvir a voz de Hannah. Levantou o olhar das teclas que estava a acariciar e viu a mulher, de p, no meio da sala vazia. Estava cansado e deprimido. 
Fora uma noite longa e triste.
       - O mido do Harte morreu. - Jeremiah quase estremeceu ao recordar o momento em que fechara os olhos do rapaz e trouxera John Harte para fora do quarto. Hannah 
abanou a cabea e comeou a chorar. Jeremiah levantou-se, aproximou-se lentamente dela, ps-lhe um brao sobre os ombros e conduziu-a para fora da sala. No tinha 
mais nada para dizer. - Vai para casa e dorme.
       Hannah levantou os olhos para ele e fungou, ao mesmo tempo que limpava as lgrimas das faces.
       - Deverias fazer o mesmo. - Mas conhecia-o demasiado bem. -  o que tambm irs fazer, no  verdade?
       - Tenho algumas coisas para resolver nas minas.
       - Hoje  sbado
       - Os papis que esto em cima da minha secretria no sabem isso. - Sorriu com ar cansado. No conseguiria adormecer. A viso de Barnaby Harte e do amargurado 
pai no lhe sairiam da cabea. - No demorarei muito
       Hannah tambm j conhecia muito bem aquela frase. Era sbado. Ele costumava ir a Calistoga aos sbados, visitar Mary Ellen Browne. Mas Hannah via que nesse 
dia Jeremiah no estava de humor para isso
       Jeremiah pegou na cafeteira de cima do fogo, encheu uma xcara de caf e olhou para a velha amiga. Depois daquela noite terrvel, mil pensamentos lhe passaram 
pela cabea
       - Disse-lhe que deveria voltar a casar-se e a ter mais filhos. Fiz mal em dizer-lhe isso.
       Hannah abanou a cabea.
       -  precisamente o que deverias ter feito h dezoito anos
       - J pensei nisso. - Olhou para as colinas atravs da janela. Nunca deixara pr cortinas em lado nenhum para poder admirar o vale que tanto adorava, alm 
disso, no havia vivalma em vrios quilmetros em redor
       - Ainda no  tarde. - Na voz de Hannah havia um profundo tom de tristeza. Sentia pena de Jeremiah. Tivesse ou no conscincia disso, era um homem solitrio, 
e ela esperava que John Harte no optasse pela mesma soluo. Hannah nunca tivera filhos, mais por culpa do destino do que por uma questo de opo. - Ainda s suficientemente 
jovem para te casares, Jeremiah
       Este riu-se ao ouvi-la
       - J sou demasiado velho para isso. - Franziu o sobrolho e fitou-a. Estavam ambos a pensar na mesma coisa. - Nunca consegui imaginar-me casado com a Mary 
Ellen, e no h outra mulher. H muitos anos que no h.
       Hannah j sabia que a nica relao feminina de Jeremiah era Mary Ellen, mas compreendia que ele, depois da noite que passara, precisava de desabafar com 
ela. Por alguma coisa era sua amiga.
       - Por que razo  que nunca quiseste casar com ela?
       Era algo que Hannah sempre se interrogara, embora achasse que sabia o motivo E no se enganava muito.
       - No  a rapariga adequada para isso, Hannah. E no digo isto depreciativamente. Ao princpio, foi ela quem no se mostrou inclinada a casar-se comigo, embora 
ultimamente me parea disposta a isso. Queria ser livre... - Sorriu. -  uma mulher independente, e queria cuidar dos seus prprios filhos. Creio que tinha medo 
que as pessoas dissessem que se casava comigo por causa daquilo que eu tinha, ou que tentava aproveitar-se de mim. - Soltou um suspiro. - Em vez disso, chamavam-lhe 
pega. Mas o engraado  que ela pouco se importava com isso. Sabia que era uma mulher decente e que eu era o nico homem da sua vida, por isso estava-se nas tintas 
para o que as pessoas diziam. Uma vez, perguntei-lhe se queria casar comigo... - Hannah ficou espantada e esboou um sorriso. - Mas no aceitou. Foi quando aquelas 
malditas mulheres de Calistoga a fustigaram com as maledicncias. Sempre acreditei que foi a prpria me quem armou aquela confuso toda para que eu me decidisse 
a pedir a mo dela, o que conseguiu, mas a Mary Ellen mandou-me para o diabo. No queria ver-se obrigada a casar-se por culpa de um bando de coscuvilheiras. Alm 
disso, acho que, na altura, ainda estava meio apaixonada pelo bbado do marido. H mais de dois anos que a abandonara, mas ela ainda alimentava esperanas de que 
ele voltasse. Apercebia-me pelo seu modo de falar. - Esboou novo sorriso. - E ainda bem que no voltou. A Mary Ellen foi uma bno para mim.
       E ele tambm o fora para ela. Mobiliara-lhe a casa e ajudava-a a suprir as necessidades dos filhos, apesar dos seus protestos. H quase sete anos que mantinham 
aquele tipo de relao, e h mais de dois que o seu marido morrera. J estavam habituados quela rotina. Ele ia a Calistoga todos os sbados  noite e ficava com 
ela at domingo  tarde. Os filhos de Mary Ellen permaneciam em casa da me quando ele l estava. Os seus contatos eram menos clandestinos do que noutros tempos. 
No havia motivo para continuar a esconder-se dos vizinhos, toda a gente sabia que ela era a namorada de Thurston. "A pega do Thurston", como lhe chamavam ao princpio, 
mas j ningum se atrevia a chamar-lhe isso. Jeremiah tratara do assunto pessoalmente com uma ou duas das pessoas mais impertinentes. Mas ele tambm sabia que Mary 
Ellen pertencia a um tipo feminino mais sujeito a crticas. Era do gnero de rapariga que as mulheres no gostam e de que tm cimes: uma ruiva atraente, de pernas 
compridas e peitos volumosos. Usava grandes decotes e no tinha problemas em levantar o vestido um pouco acima do tornozelo ao descer do passeio, para gudio de 
um qualquer cowboy que fosse a passar. Fora essa beleza que atrara Jeremiah ao princpio. Mas viera tambm a descobrir que ela era uma pessoa bondosa, digna e extremamente 
carente. Adorava os filhos e no havia quase nada que ela no fizesse por eles. H dois anos que o marido a abandonara, e trabalhara como empregada de mesa, bailarina 
e criada de quarto num hotel anexo  estncia termal, contudo, no deixara de exercer essas atividades depois da chegada de Jeremiah. Dizia que no queria nada dele. 
Ele tentara tir-la vrias vezes da sua cabea, mas a ternura e o carinho que Mary Ellen lhe demonstrava impediam-no. Ela preenchia-lhe o vazio que existia no seu 
corao, e cada vez se sentia mais atrado para a sua cama. Ao princpio, ia a Calistoga vrias vezes por semana, mas era muito complicado com os filhos de Mary 
Ellen em casa; por isso, ao fim do primeiro ano, resolveram ver-se s aos fins-de-semana. Custava a acreditar que se haviam passado seis anos desde ento. Mary Ellen 
tinha j trinta e dois anos e continuava a ser uma mulher atraente, mas Jeremiah ainda no conseguia imaginar-se casado com ela. Quando se conheceram, Mary Ellen 
mostrava-se demasiado mundana e extremamente desinibida, porm, ele adorava a sua sinceridade, a sua espontaneidade e a sua coragem. Nunca se deixou abater por aquilo 
que as pessoas lhe diziam do seu envolvimento com Jeremiah, embora este soubesse que por vezes fora uma situao difcil para ela.
       - Casar-te-ias com ela agora?
       Jeremiah no achou a pergunta de Hannah despropositada, mas naquele momento, ao fim de sete anos, no conseguia imaginar-se a casar com Mary Ellen.
       - No sei. - Olhou para a velhota e suspirou. - No achas que j sou demasiado velho para essas coisas?
       Era uma pergunta retrica, mas Hannah foi lesta a responder:
       - No, no acho E penso que deverias refletir sobre isso antes que seja demasiado tarde, Jeremiah Thurston. - Mas ela prpria no achava que Mary Ellen fosse 
a soluo, por muito que gostasse da rapariga. H muitos anos que a conhecia, e sempre a achara atrevida e, s vezes, uma completa idiota. Fora das primeiras a chamar-lhe 
isso por causa do romance com Jeremiah. Mas era uma rapariga de bom corao e era impossvel no se gostar dela. Contudo, j tinha trinta e dois anos, e ele precisava 
de uma esposa mais nova que lhe desse filhos. Mary Ellen j tinha trs e quase morrera ao dar  luz o terceiro. S se estivesse louca  que se exporia a ter outro, 
e ela sabia disso. - Gostaria de ver uma criana nesta casa antes de morrer, Jeremiah.
       Ele esboou um sorriso triste ao pensar nos dois filhos de Harte recm-falecidos
       - Eu tambm gostaria, minha amiga, mas acho que nenhum de ns dois chegar a ver isso. - Fora a primeira vez que dissera semelhante coisa a algum.
       - No sejas teimoso. Ainda ests a tempo. Se procurasses, haverias de encontrar a rapariga certa.
       Aquelas palavras fizeram com que Jeremiah se lembrasse novamente de Jennie, e abanou a cabea, tanto para expulsar essa lembrana da sua mente como para refutar 
as palavras de Hannah.
       - Sou demasiado velho para uma rapariga jovem. Tenho j quase quarenta e quatro anos.
       - Sim, mas ds a impresso de ter j noventa. - Hannah soltou um suspiro de enfado e passou a mo pela barba hirsuta de Jeremiah.
       - Pois h dias em que me sinto como se os tivesse, e esse deve ser tambm o meu aspecto. s vezes, fico surpreendido por a Mary Ellen no se aferrolhar dentro 
de casa quando me v chegar.
       - Era isso que ela te deveria ter feito anos atrs, Jeremiah. J sabes o que penso desse assunto. - Ele sabia, mas Hannah nunca tinha medo de repetir as suas 
opinies. - Vocs comportaram-se como um par de loucos quando comearam o romance, e os dois pagaram um elevado preo por isso.
       Era a primeira vez que Hannah lhe dizia aquilo com tanta clareza, o que deixou Jeremiah surpreendido.
       - Os dois?
       - Foi uma pena ela no ter apanhado o comboio daquela vez, pois perdeste a oportunidade de casar com algum que te pudesse dar filhos. Tambm podes casar 
com ela se for essa a tua inteno.
       Jeremiah esboou um sorriso benevolente.
       - Vou contar-lhe o que me disseste.
       Sob o olhar de Jeremiah, Hannah aclarou a garganta e pegou no xale que deixara nas costas de uma cadeira da cozinha. Entretanto, ele ia fazer a barba e tomar 
um banho antes de ir  mina, e precisava de outra xcara de caf bem forte. A noite que passara com John Harte, at terem chegado os seus parentes para o consolar, 
fora longussima.
       - A propsito, o John ficou-te grato pela comida que mandaste, Hannah. Obriguei-o a comer esta manh.
       - No pregou olho toda a noite?
       Jeremiah abanou a cabea. 
       - Como  que ele teria conseguido?
       - Estou certa de que tu tambm no.
       - No h problema. Durmo logo  noite.
       Hannah esboou um sorriso malicioso e virou-se quando ia a sair a porta.
       - A Mary Ellen  que no vai gostar muito disso, pois no?
       Jeremiah soltou uma gargalhada e a velhota fechou a porta atrs de si.
       
      2
       
       Jeremiah gostava do estranho silncio que havia nas minas aos sbados. Sentia-se uma profunda quietude, no se ouviam vozes, nem sirenas, nem o barulho dos 
fornos Naquela manh de Maro, depois de desmontar, Jeremiah prendeu Big Joe no lugar do costume e dirigiu-se em grandes passadas para o seu escritrio, s viu dois 
vigilantes a beber caf. Os papis por que viera aguardavam-no contratos de encomenda de mercrio e os planos de outras quatro cabanas para alojar os homens que 
trabalhavam para si. As Minas Thurston tinham j o aspecto de um pequeno povoado: sete casas para os homens solitrios e, mais  frente, cabanas para os que haviam 
trazido as famlias. Jeremiah admirava o seu desejo de viver juntos apesar da dureza daquele tipo de vida. H j muito tempo que lhes dera permisso para isso, e 
os homens estavam-lhe imensamente gratos. Agora examinava os planos dos novos alojamentos. O povoado continuava a crescer ao ritmo da produo das minas. Estava 
satisfeito com os contratos que tinha diante de si, especialmente um de Orville Beauchamp, de Atlanta, para novecentos frascos de mercrio, que renderia uns cinqenta 
mil dlares. Beauchamp forneceria, por sua vez, a maior parte do Sul. A julgar pela forma como estava redigido o contrato, tratava-se de um homem de negcios muito 
inteligente. Representava um grupo de sete homens e, aparentemente, era o seu porta-voz. O negcio era suficientemente importante para que Jeremiah viajasse na semana 
seguinte para Atlanta a fim de se reunir com o consrcio e selar o acordo.
       Ao meio-dia, Jeremiah deu uma olhada ao relgio de bolso, levantou-se e espreguiou-se. Ainda no acabara o trabalho, mas passara to mal a noite que agora 
se sentia esgotado e ansioso por ver Mary Ellen. Precisava do carinho e do conforto dela. A desgraa que se abatera sobre John Harte no lhe saa da cabea. A angstia 
que sentia era imensa, mas,  medida que a manh ia avanando, os seus pensamentos comearam a centrar-se em Mary Ellen. Pouco passava do meio-dia quando deixou 
as minas e se dirigiu para o stio onde deixara Big Joe.
       - Bom dia, Mister Thurston! saudou um dos vigilantes
       Quando j ia a subir a colina, Jeremiah vislumbrou, ao longe, um grupo de crianas a brincar atrs das cabanas familiares que construra para os mineiros. 
Trouxeram-lhe  memria a epidemia de gripe nas minas de Harte, e rezou para que ela nunca os apanhasse.
       - Bom dia, Tom
       Embora fossem j uns quinhentos os homens que agora trabalhavam para si em trs minas, Jeremiah ainda conhecia muitos deles pelo nome. Passava a maior parte 
do tempo na primeira mina, a Mina Thurston, mas visitava periodicamente as outras, que eram dirigidas por encarregados extremamente competentes. E, ao mais ligeiro 
indcio de qualquer problema, Jeremiah dirigia-se para o local, onde, por vezes, permanecia vrios dias, caso se tratasse de um acidente ou as minas ficassem inundadas 
de gua, como acontecia todos os Invernos
       - Parece que j chegou a Primavera
       -  o que parece- Jeremiah sorriu.
       Chovera sem parar durante dois meses, e as inundaes nas minas haviam sido devastadoras. Perderam onze homens numa mina, sete noutra e trs naquela Mas agora 
j no havia rasto de tanta inclemncia invernal. O Sol brilhava esplendorosamente, e Jeremiah sentiu-o bater nas costas enquanto conduzia o velho Joe pelo Silverado 
Trail at Calistoga. Esporeou um pouco o velho cavalo, e este lanou-se a todo o galope pelos ltimos dez quilmetros do caminho, enquanto Jeremiah, com o vento 
a fustigar-lhe a barba e o cabelo, s pensava em Mary Ellen
       Ao passar pela rua principal de Calistoga, Jeremiah viu vrios grupos de mulheres a passear de sombrinhas abertas. Era fcil distinguir as que haviam vindo 
de So Francisco para visitar as fontes termais de gua quente: os seus elegantes vestidos contrastavam com os das locais, muito mais simples; alm disso, distinguiam-se 
pela proeminncia dos seus bustos, pelas ostentosas plumas dos chapus e pela qualidade das sedas, facilmente perceptveis na pequena e sonolenta Calistoga. Jeremiah 
sorria sempre ao v-las, e elas no ficavam indiferentes ao v-lo passar montado no seu garanho branco, cuja cor contrastava com a negrura do cabelo do cavaleiro. 
Quando estava de bom humor, tirava o chapu e fazia-lhes uma vnia de cortesia, os olhos sempre a transbordar de malcia. Nesse dia, havia num dos grupos de passeantes 
uma mulher particularmente atraente, de cabelos ruivos, com um vestido de seda verde, a mesma cor das rvores das montanhas, mas isso s lhe trouxe  memria o motivo 
que o trouxera a Calistoga, pelo que esporeou o cavalo para aumentar um pouco mais o seu ritmo. Pouco depois, chegou  casinha bem arranjada de Mary Ellen, situada 
na Rua Trs, a zona menos elegante da cidade
       A, o cheiro a enxofre da estncia termal era mais forte, mas h muito tempo que tanto ela como Jeremiah estavam habituados. No era na estncia termal, nem 
no enxofre, nem sequer nas suas minas que ele pensava quando prendeu Big Joe atrs da casa e subiu a correr as escadas traseiras da mesma. Sabia que ela estaria 
 sua espera, e abriu a porta sem qualquer cerimnia e com o corao a palpitar. Fossem quais fossem os seus sentimentos relativamente quela mulher, uma coisa era 
certa ela ainda exercia sobre ele o mesmo poder mgico que o fascinara quando se conheceram. A sua presena provocava-lhe uma irreprimvel onda de luxria que poucas 
mulheres haviam conseguido provocar. Porm, quando se encontrava longe dela no sentia a sua falta. Foi precisamente por isso que nunca considerara a srio a possibilidade 
de alterar a situao. Mas quando estava junto dela quando a pressentia no quarto ao lado, como naquele momento, todo o seu ser ardia de desejo.
       - Mary Ellen.
       Jeremiah abriu a porta da pequena sala onde ela o esperava, s vezes, ao sbado  tarde. Costumava ir deixar os filhos a casa da me de manh e depois regressava 
para tomar banho, arranjar o cabelo e vestir umas roupas vistosas para o receber. Os seus encontros, por terem lugar s uma vez por semana, ou ainda com menor freqncia 
quando havia algum problema nas minas ou ele tinha de partir de viagem, estavam rodeados de uma atmosfera de lua-de-mel. Mary Ellen detestava v-lo partir. Passava 
os dias e as noites  espera do fim-de-semana. Era surpreendente o modo como, com o passar dos anos, se fora tornando cada vez mais dependente dele. Mas estava certa 
de que Jeremiah no se apercebera disso. A intensa atrao fsica que exercia sobre ele no o deixava dar-se conta da diminuio da sua independncia. Ele gostava 
de ir v-la a Calistoga. Sentia-se bem naquela casinha humilde. No era pois de estranhar que nunca a tivesse convidado para a sua casa de Santa Helena. Na realidade, 
Mary Ellen s vira a casa uma vez. "De certeza que no  casado?", perguntava-lhe, amide, a me, ao princpio, mas toda a gente sabia que Jeremiah Thurston nunca 
se casara, "e, provavelmente, nunca se casar", resmungava a mulher, ao fim dos primeiros anos da ligao amorosa da filha. Mas agora j no resmungava. Depois de 
tantas noites de sbado, que poderia opor? J nem dizia nada quando Mary Ellen lhe levava os filhos. A neta mais velha, de catorze anos, tinha quase a mesma idade 
que Mary Ellen quando se casara. O rapaz tinha doze, e a mais nova das raparigas, nove. Era a que nutria uma adorao especial por Jeremiah Mas eles sabiam o suficiente 
para falarem o menos possvel sobre o assunto  av.
       - Mary Ellen? - voltou a chamar Jeremiah.
       Surpreendido por ela no estar  sua espera no rs-do-cho, como era costume, subiu lentamente as escadas que davam para o piso superior, onde havia trs 
quartos: um para ela, outro para as raparigas e o terceiro para o rapaz. As trs divises juntas tinham menos rea do que qualquer uma da manso de Jeremiah. Mas 
ele deixara de ter problemas de conscincia com isso h j muito tempo. Mary Ellen sentia uma espcie de orgulho por viver pelos seus prprios meios, e era feliz 
naquela casa. Gostava de viver nela. Provavelmente mais do que teria gostado de residir na dele. A de Mary Ellen era mais acolhedora, pelo menos era o que ele achava. 
A sua nunca passara de uma casa enorme e desabitada. Eram to poucos os aposentos que ocupava. A manso fora construda para ser cheia de filhos, gargalhadas e barulho, 
mas, em vez disso, encontrava-se em silncio h quase vinte anos. Muito diferente era o que acontecia na casinha de Mary Ellen, onde se vislumbravam sinais de desgaste 
e dedadas nas paredes outrora cor-de-rosa que j faziam parte da decorao.
       Os passos de Jeremiah soaram com firmeza pelas escadas acima. Ao bater  porta do quarto de Mary Ellen, teve a impresso de que o ar cheirava a rosas. Ouviu, 
ento, um murmrio familiar. Sim, era ela. Por instantes, ainda acreditara que, pela primeira vez em sete anos, ela no estaria em casa. Mas estava. E como ele a 
desejava! Bateu suavemente na porta. Sentia-se um jovem inseguro. Ela provocava nele essa sensao. Ficava sempre um pouco tenso quando a vinha visitar.
       - Mary Ellen? - Desta vez a voz foi suave e carinhosa, quase uma carcia.
       - Entra... estou no... - Ela ia a acrescentar "meu quarto", mas no precisou de proferir as palavras quando ele entrou e pareceu encher o quarto com os seus 
ombros largos. Ao ver Jeremiah, Mary Ellen teve a sensao de que o sangue deixara de circular nas veias. A pele era to aveludada como as ptalas das rosas brancas 
que havia ao lado da cama, e os cabelos acobreados brilhavam  luz do sol que entrava pelas janelas. Estava prestes a deixar cair um vestido de renda sobre um espartilho, 
tambm de renda, que se cingia ao corpo graas a um entrecruzado de fitas cor-de-rosa. Umas fitas da mesma cor apertavam as calas nos joelhos. Ao ver-se observada 
por Jeremiah, ficou corada que nem uma rapariguinha e voltou a cabea para o lado, continuando a debater-se com o vestido, que se recusava a baixar dos ombros. Costumava 
estar pronta quando ele chegava, mas nesse dia demorara mais tempo do que esperara a cortar as rosas para pr no quarto. - Estou quase... s falta... Oh, meu Deus... 
No consigo!
       Era toda inocncia enquanto se debatia com o emaranhado de rendas. Jeremiah avanou para ela a fim de a ajudar a puxar o vestido para baixo, mas, mal comeou, 
o seu gesto mudou subitamente de direo, e o vestido subiu por onde baixara, roando os sedosos cabelos acobreados e indo parar em cima da cama. Puxou-a, ento, 
para si e os lbios de ambos juntaram-se num ardente beijo. Era incrvel a avidez com que vinha ter com ela todas as semanas. Parecia desejoso de absorver a suavidade 
da sua pele e o aroma a rosas dos seus cabelos. Tudo cheirava a rosas nela. Mary Ellen conseguia que ele se esquecesse de que ela tinha outra vida. Os filhos, as 
tarefas e os contratempos deixavam de existir quando se via envolta nos braos do seu amado, semana aps semana, ano aps ano, de olhos fixos naqueles que amava 
e que nunca haviam compreendido a intensidade do amor que ela sentia por ele. Mas Mary Ellen conhecia Jeremiah to bem como ele a si prprio. Ele s queria a sua 
solido, a sua liberdade, os seus vinhedos e as suas minas. No o atraa a vida quotidiana sempre com a mesma mulher e trs filhos de quem no era o pai. Estava 
demasiado ocupado para se entregar quelas coisas, demasiado preso ao imprio que criara e que ainda continuava a construir. Mary Ellen respeitava-o por aquilo que 
ele era, e amava-o o suficiente para no lhe perguntar por que razo no se entregava totalmente a ela. Em vez disso, Mary Ellen s recebia de Jeremiah aquilo que 
ele lhe dava: uma noite por semana, numa espcie de abandono que nunca teriam partilhado se tivessem uma vida matrimonial diria, o que s avivava a sua paixo. 
Ela perguntava-se s vezes se as coisas teriam sido diferentes se pudesse ter tido um filho de Jeremiah, mas no valia a pena estar a pensar nisso. O mdico dissera-lhe 
que outro parto poder-lhe-ia ser fatal e, por outro lado, ele, ainda que sempre se mostrasse carinhoso com os filhos dela quando os via, no parecia desejar ser 
pai. Mas no era neles que pensava quando chegou. O seu esprito estava ocupado pelo que via naquele momento, algo que parecia inundar os seus sentidos: aquela pele 
a cheirar a rosas, delicada como um pergaminho; aqueles olhos verdes como esmeraldas que incendiavam os seus enquanto a deitava delicadamente na cama e comeava 
a desapertar o espartilho cor-de-rosa. Sob os dedos experientes de Jeremiah, a pea soltou-se do corpo de Mary Ellen com surpreendente facilidade, e as calas deslizaram, 
pouco depois, ao longo das graciosas pernas, deixando-a radiantemente nua diante dele. Ali estava o verdadeiro motivo da sua visita... devor-la com os olhos, com 
a lngua e com as mos at a deixar a arfar, sem flego, debaixo dele, desejando ardentemente ser possuda. E naquele dia desejava-a ainda mais do que de costume; 
precisava de saciar-se, de inspirar profundamente o embriagante aroma dos seus cabelos e da sua pele. Queria esquecer a noiva desaparecida e a angustiante noite 
que passara com John Harte. E s Mary Ellen o poderia ajudar. Ela sentia que ele tivera uma semana difcil, embora no soubesse por que, e, como sempre, tentou dar-lhe 
algo mais de si mesma para preencher o vazio que, instintivamente, notava nele. No era uma mulher capaz de traduzir facilmente as impresses em palavras, mas tinha 
dele um conhecimento muito profundo, quase animalesco.
       Sonolenta e saciada, entre os braos de Jeremiah, Mary Ellen levantou os olhos para ele e acariciou-lhe a barba.
       - Sentes-te bem?
       Jeremiah sorriu ao ver como ela o conhecia to bem.
       - Agora, estou... graas a ti... s maravilhosa comigo... - Mary Ellen ficou deleitada com as palavras do amante e contente por ver que ele compreendia o 
que ela tentava dar-lhe.
       - Houve algum problema?
       Jeremiah hesitou durante um longo instante. O que sentira na noite anterior parecia estar estranhamente entrelaado com sentimentos em relao a Jennie, apesar 
do tempo que transcorrera desde a sua morte. Era estranho que aqueles sentimentos tivessem ressurgido agora, mas o certo era que no passavam de reminiscncias de 
dezoito anos atrs.
       - Tive uma noite pssima. Estive com o John Harte... - Mary Ellen ficou surpreendida e, apoiando-se no cotovelo, endireitou-se um pouco para lhe dizer:
       - Pensei que no falavam um com o outro.
       - Fui a casa dele ontem  noite. Perdeu a esposa e a filha... - Hesitou e cerrou os olhos ao recordar a carinha de Barnaby aps o seu ltimo suspiro... - 
e o filho, depois de eu chegar... - Inesperadamente, deslizou-lhe uma lgrima pela face. Mary Ellen tocou-lhe delicadamente e estreitou Jeremiah entre os braos. 
Era to corpulento, to forte e to msculo, e, no entanto, sabia mostrar-se to sensvel e carinhoso. Amou-o ainda mais por aquela lgrima, e por aquelas que se 
seguiram ao sentir-se abraado por ela. - Era to jovem... - E desatou a soluar pela criana cujos olhos fechara horas antes, apertando Mary Ellen ainda mais contra 
si, embaraado com as emoes que no conseguia conter por mais tempo. Era como uma torrente que vinha do mais profundo do seu ser. - Pobre rapaz... perdeu os trs 
num s dia... - A torrente comeou a reduzir-se. Sentou-se na cama e olhou para Mary Ellen.
       - Foi um gesto simptico da tua parte teres ido a casa dele, Jeremiah, no eras obrigado a faz-lo.
       - Eu sabia bem o que ele sentia.
       Mary Ellen sabia de Jennie atravs das suas conversas com Hannah. A velhota conhecia Mary Ellen desde pequena, e encontravam-se frequentemente no mercado 
de Calistoga. Porm, Jeremiah nunca lhe falara de Jennie.
       - A mim tambm j me aconteceu algo parecido acrescentou Jeremiah.
       - Eu sei. - A voz de Mary Ellen soou com uma suavidade semelhante  das ptalas das rosas que tinha ao lado da cama.
       - J imaginava. - Jeremiah sorriu e passou-lhe a mo pela cara. - Desculpa... Ficou embaraado, mas muito mais tranqilo. Ela ajudara-o com o seu carinho. 
- Pobre rapaz, vai passar um mau bocado!
       - Ele conseguir super-lo.
       Jeremiah fez um gesto afirmativo com a cabea e fitou-a.
       - Conhece-o?
       Mary Ellen abanou a cabea.
       - J o vi na cidade, mas nunca falamos. Disseram-me que  teimoso que nem uma mula e duro. Os homens como ele geralmente no vergam, acontea o que lhes acontecer.
       - No acho que seja assim to duro. Mas  muito jovem, muito forte e sabe o que quer. - Jeremiah sorriu. - No gostaria de trabalhar para ele, mas admiro 
aquilo que conseguiu.
       Mary Ellen encolheu os ombros. No sentia grande interesse por John Harte. Estava mais interessada em Jeremiah Thurston.
       - Admiro-te - disse ela, sorrindo e aproximando-se mais dele.
       - No sei por qu. Tambm sou uma mula velha.
       - Mas s a minha mula, que eu amo muito.
       Mary Ellen gostava de dizer aquelas coisas, tanto para se tranqilizar a si prpria como para as transmitir ao seu amado.
       Jeremiah nunca fora realmente seu, e tinha conscincia disso, mas permitia-se imaginar isso uma vez por semana, e ficava satisfeita com essa iluso. Na realidade, 
no tinha outra opo. Certa vez, Jeremiah pedira-a em casamento, mas ela recusara, e agora j passara a ocasio. Contentava-se em v-la uma vez por semana. Agora 
que Jake j morrera e, portanto, nunca mais voltaria, ter-se-ia casado de bom grado com Jeremiah, mas sabia que ele nunca mais voltaria a propor-lhe casamento. Era 
algo que j no fazia parte dos planos dele, e h muito tempo que ela perdera essa esperana. Fora estpida ao no insistir nisso desde o incio. Mas nessa altura 
temia que Jake voltasse... esse maldito bbado...
       - Em que ests a pensar? - perguntou-lhe Jeremiah, que estivera a observar o seu rosto. - Ests com ar zangado.
       Mary Ellen riu-se da perspiccia dele. Jeremiah sempre fora assim.
       - Em nada de importante.
       - Ests zangada comigo?
       Mary Ellen apressou-se a abanar a cabea e a esboar um sorriso. Raramente tivera motivos para se zangar com ele. Jake fora uma histria diferente. Mas agora 
estava morto, depois de lhe ter estragado quinze anos da sua vida, cinco deles  espera que voltasse. Viera a saber que vivia com outra mulher no Ohio. Descobrira 
isso depois da sua morte, quando a rapariga com quem ele vivera viera v-la. Tivera, inclusive, dois filhos dela. Mary Ellen sentiu-se uma idiota. Mantivera sempre 
secreta a sua relao com Jeremiah pensando que o marido regressaria... o marido... que ironia!...
       - Nunca estou zangada contigo, tonto. Nunca me deste motivos para isso. - E era verdade. Jeremiah era um homem encantador e fora sempre bom para ela. Era 
generoso, delicado e ponderado, mas mantinha uma certa distncia entre os dois, no lhe dando qualquer esperana para o futuro. Alm daquele dia, havia sete anos 
de sbados atrs deles. Mas aquela situao no irritava Mary Ellen, s a entristecia de vez em quando. Passava toda a semana  espera dele.
       - Vou partir de viagem em breve. - Jeremiah costumava dar-lhe a notcia com antecedncia. Fazia parte do seu modo de ser: generoso, delicado e ponderado.
       - Para onde desta vez?
       - Para o Sul. Para Atlanta. - Ia frequentemente a Nova Iorque, e no ano anterior fora a Charleston, na Carolina do Sul. Mas nunca a convidava para o acompanhar. 
Negcios eram negcios. E dessa vez no seria diferente das outras. - Sero s os dias necessrios de ir, fazer o negcio e voltar. Talvez duas semanas no total. 
- Fez-lhe uma carcia no pescoo com o nariz e beijou-a. - Vais ter saudades minhas?
       - Que te parece. - A voz era abafada pelo desejo. - E voltaram a desaparecer para baixo dos lenis.
       - Acho que  uma loucura ir para no sei onde... - E voltou a provar-lhe isso mesmo, apertando-a nos seus braos, enquanto ela, contorcendo-se de prazer, 
soltava estridentes gritos de deleite que teriam sido ouvidos por toda a vizinhana se ele no tivesse tido o bom senso de fechar as janelas. Jeremiah conhecia-a 
bem. Era, pois, impossvel que no tirassem o mximo proveito das noites de sbado.
       Na manh seguinte, enquanto ela fazia salsichas com ovos, um pequeno bife e po de milho no velho forno da cozinha, Jeremiah sentia-se um homem novo. No Inverno 
anterior, oferecera-se para lhe comprar um forno novo, mas ela achara que no era necessrio. A ambio no fazia parte do seu carter, para desgosto de sua me. 
Esta recordava frequentemente  filha que Jeremiah era um dos homens mais ricos do estado e que ela era a rapariga mais tola que conhecia Mas Mary Ellen desprezava 
tais consideraes. Tinha tudo o que queria... pelo menos, uma vez por semana, o que era melhor que todos os dias com um homem inferior. No tinha de que se queixar. 
Era livre de fazer o que muito bem lhe apetecesse. Jeremiah nunca lhe perguntava o que fazia no resto do tempo. H anos que, por sua livre vontade, no mantinha 
qualquer contato com nenhum outro homem. Se algum se tivesse acercado dela com propsitos srios, no teria sido obrigada a repeli-lo. Jeremiah tinha o cuidado de 
no lhe exigir nada.
       - Quando partes para o Este? - perguntou Mary Ellen, enquanto comia o po de milho e observava o rosto de Jeremiah. Este tinha uns maravilhosos olhos azuis 
que quando a fitavam lhe derretiam a alma.
       - Dentro de poucos dias. - Jeremiah sorriu, sentindo-se restaurado. Dormira bem, no antes de fazer amor durante vrias horas. - Quando regressar, aviso-te.
       - V l se no encontras a rapariga dos teus sonhos em Atlanta.
       - Porque faria eu uma coisa dessas? - Pegou na xcara de caf e riu-se. - Depois da noite que passamos, como podes dizer tal coisa?
       Mary Ellen esboou um sorriso de prazer.
       - Nunca se sabe.
       - No sejas tonta. - Jeremiah inclinou-se, beijando-lhe a ponta do nariz e, quando Mary Ellen fez o mesmo para receber o beijo, ficou excitado ao olhar para 
o seu decote. Ela trazia um roupo de cetim cor-de-rosa que ele lhe comprara na sua ltima viagem  Europa para visitar os vinhedos franceses. Jeremiah deslizou 
ento a mo at aos seios da mulher, que receberam calorosamente os seus dedos. Sentiu um tremor por todo o corpo. No conseguindo resistir por mais tempo, pousou 
a xcara, contornou a mesa e aproximou-se dela. - Ias a dizer alguma coisa, Mary Ellen. - A voz soou como um sussurro rouco. Jeremiah tomou-a nos braos e dirigiu-se 
para a escada com a sua irresistvel carga.
       - Ia a dizer... que no queria que fosses... - Jeremiah afogou as palavras dela nos seus lbios e, pouco depois, depositou-a novamente em cima da cama. Abriu-lhe 
o roupo, deixando  vista a sua pele desnudada. Era difcil ver onde terminava o cetim do roupo e comeava a seda da sua pele. Puxou-a contra si e possuiu-a de 
novo. E reataram a batalha amorosa, que durou at ao anoitecer, altura em que ele, finalmente, voltou para casa, cansado, feliz e saciado. Mary Ellen Browne deixara-o 
em paz consigo prprio e com o mundo. Quando largou o cavalo no estbulo de Santa Helena, s se recordava da angstia que passara na noite anterior. Quando entrou 
em casa, praticamente nem fora tinha para se despir. Ao faz-lo, ainda conseguiu sentir o aroma a rosas do perfume de Mary Ellen, e adormeceu de sorriso nos lbios 
e o pensamento nela
       
      3
       
       - V l se te portas bem enquanto estiveres fora! - Hannah olhou-o com ar furioso, de dedo em riste, como se estivesse a falar com um mido.
       Jeremiah riu-se.
       - Pareces a Mary Ellen.
       - Talvez te conheamos demasiado bem.
       - Est bem, est bem, portar-me-ei como deve ser! - disse, dando um belisco na bochecha da velhota. Parecia cansado. Tivera uma semana difcil, e ela sabia-o 
bem. Fora ao funeral da esposa e dos dois filhos de John Harte. E existiam j alguns casos da terrvel gripe nas Minas Thurston, mas ningum morrera at ao momento, 
e Jeremiah exigia que todos fossem vistos pelo mdico ao primeiro sintoma. Teria gostado de suspender a viagem para o Este, mas no podia faz-lo. Orville Beauchamp 
insistira, em resposta ao telegrama que Thurston lhe enviara, em que, se queria fechar o negcio, deveria ir pessoalmente quanto antes. E Jeremiah esteve quase a 
mand-lo para o diabo e ceder o negcio a John Harte, mas este no se encontrava em condies de falar de negcios, e muito menos de viajar, por isso Jeremiah resolveu 
seguir em frente e apanhar o comboio para Atlanta. Contudo, no esperava grande coisa daquela viagem. Apesar das boas condies que o negcio oferecia, continuava 
a haver no homem da Gergia algo que o preocupava.
       Antes de partir, pespegou um beijo na testa de Hannah, percorreu com o olhar a acolhedora cozinha, pegou na mala de couro com uma mo, na pasta preta com 
a outra, e, de charuto apertado entre os dentes e os olhos semicerrados por causa do fumo, saiu. Levava um enorme chapu preto descado sobre os olhos, que lhe dava 
um certo ar diablico. Encaminhou-se apressadamente para a carruagem que o aguardava, atirou a bagagem para cima dela, sentou-se ao lado do rapaz que conduzia os 
cavalos e tirou-lhe as rdeas das mos.
       - Bom dia, senhor.
       - Bom dia, rapaz.
       Jeremiah exalou uma espessa nuvem de fumo. Depois, deu uma pancadinha com o chicote nos cavalos e a carruagem arrancou, avanando numa marcha suave pela estrada 
principal. Jeremiah conduzia sem trocar qualquer palavra com o rapaz, absorto no negcio que devia fechar em Atlanta Mas o rapaz observava-o absolutamente fascinado: 
os olhos semicerrados, o sobrolho franzido pela concentrao, o elegante chapu, os ombros largos, as enormes mos e as roupas imaculadamente limpas. O rapaz achava 
aquele homem demasiado limpo para ser mineiro, apesar de dizerem que trabalhava nas minas. Era difcil imaginar aquela criatura poderosa e enorme a comprimir-se 
para entrar numa mina. Aos olhos do rapaz, parecia ainda mais corpulento do que na realidade era.
       Quando estavam a meio caminho de Napa, Jeremiah voltou-se para o rapaz e, sorrindo, perguntou-lhe:
       - Quantos anos tens, rapaz?
       - Catorze. - Estava impressionado pela simples presena de Jeremiah, e gostava do cheiro forte e msculo do charuto. - Bem... fao-os em maio.
       - Que tal vai o trabalho nas minas?
       - Bem, senhor. - A voz tremeu-lhe ligeiramente, mas Jeremiah no estava a p-lo  prova, estava apenas a recordar-se da sua prpria vida quando tinha catorze 
anos
       - Tambm trabalhava nas minas quando tinha a tua idade.  um trabalho muito duro para um rapaz... Na realidade, para qualquer pessoa. Gostas?
       O rapaz fez uma longa pausa, depois resolveu ser sincero. Confiava no ar bondoso do homenzarro do charuto
       - No, senhor, no gosto.  um trabalho muito sujo. Penso fazer qualquer coisa muito diferente quando for grande.
       - O qu, por exemplo? - Jeremiah ficou intrigado, tanto com o prprio rapaz como com a sua sinceridade
       - Uma coisa mais limpa. Trabalhar num banco, por exemplo. O meu pai diz que  um trabalho para os fracotes, mas eu acho que gostaria. Dou-me bem com os nmeros. 
Fao somas de cabea com maior rapidez do que outras pessoas no papel.
       - A srio? - Jeremiah tentou manter um ar srio, mas os seus olhos mostravam que as explicaes do rapaz o divertiam. Havia uma fora no jovem que o enternecia. 
- Gostarias de me ajudar aos sbados de manh.
       - Ajud-lo? - O rapaz ficou atnito. - Oh, sim, senhor
       - Vou ao escritrio todos os sbados de manh e saio de l por volta do meio-dia, porque so as horas mais calmas da semana. Podes ajudar-me com os nmeros. 
No sou to rpido a fazer as somas como tu. - Jeremiah riu-se. Os olhos negros do rapaz pareceram, de repente, moedas de vinte e cinco cntimos. - Que te parece.
       - Fantstico! Fantstico! - O rapaz ps-se praticamente aos pulos no assento, mas moderou, de imediato, as expresses de alegria para parecer mais crescido, 
o que tambm divertiu Jeremiah
       Gostava do rapaz. Na realidade, gostava da maioria das crianas, e elas tambm gostavam dele. Enquanto conduzia a carruagem em direo a Napa, deu consigo 
a pensar nos filhos de Mary Ellen. Eram simpticos. A me soubera educ-los bem. Aquela mulher carregava um pesado fardo, mas nunca permitira que ele a ajudasse 
E ele no ajudara, sobretudo no que dizia respeito aos filhos. S os via em espordicos piqueniques ao domingo  tarde. Nunca estava presente quando se encontravam 
doentes, nem quando causavam problemas na escola, nem quando ela tinha de os repreender, de lhes dar um aoite ou de lhes pegar ao colo. S os via nas suas melhores 
horas de domingo, e mesmo assim com pouca freqncia. Perguntou-se se a deveria ter ajudado mais no que respeitava aos filhos, mas isso era algo que ela no parecia 
esperar dele. No esperava mais do que o que j tinha o corpo de Jeremiah enleado no seu ao longo de horas de intenso prazer, duas vezes por semana, na casinha de 
Calistoga. Ento, de repente, como se achasse que o rapaz lhe conseguia ler os pensamentos, Jeremiah fitou-o com ar preocupado.
       - Gostas de raparigas, rapaz? - No sabia o nome do rapaz, mas no quis perguntar-lhe. No precisava de o fazer, sabia de quem era filho. O pai era um dos 
seus melhores mineiros, um homem que tinha mais nove filhos, a maioria dos quais raparigas. O rapaz era um dos trs irmos que trabalhavam nas minas, precisamente 
o mais novo deles. 
       O rapaz encolheu os ombros como resposta  pergunta que Jeremiah lhe fizera sobre as raparigas.
       - A maioria delas  parva. Tenho sete irms, e quase todas so completamente estpidas.
       Jeremiah riu-se com a resposta.
       - Nem todas as mulheres so estpidas. Acredita, rapaz, so muito poucas as que o so. Muito poucas! - Soltou uma sonora gargalhada e deu uma puxada forte 
no charuto. Certamente, Hannah no tinha nada de estpida, nem Mary Ellen, nem a maioria das outras mulheres que conhecia. De fato, quase todas dissimulavam a sua 
inteligncia. Era algo que gostava de ver nas mulheres, fingir desamparo e simplicidade quando, na realidade, por baixo dessa mscara, havia uma mente mais afiada 
do que uma navalha. Dava-lhe gozo entrar nesse jogo. Ento, de repente, deu-se conta de que talvez estivesse a a razo de nunca ter querido casar com Mary Ellen. 
Ela no se entregava a esse jogo. Era direta e sincera no amor, e diabolicamente sensual, mas no havia qualquer mistrio nela. Ele sabia exatamente o que ela lhe 
podia dar, e at que ponto ia a sua inteligncia, mas mais nada... No havia nela nada para adivinhar, nada para descobrir, nem a mais leve discusso, e isso sempre 
fora algo que o intrigara. Pelo menos nos ltimos anos, ele parecia preferir um pouco mais de complexidade do que a que tivera noutros tempos, e interrogou-se se 
isso no seria um sinal de velhice. O pensamento divertiu-o. Olhou novamente para o rapaz com um sorriso de entendido. - No h nada mais bonito do que uma mulher 
bonita, rapaz - e riu-se de novo -, exceto, talvez, uma colina verdejante, salpicada de flores silvestres. - Nesse momento, tinha uma diante de si, e sentiu o corao 
destroado ao passarem por ela. Detestava deixar aquelas terras para ir para o Este. At regressar, faltaria algo  sua vida,  sua alma. - Gostas do campo?
       O rapaz no se mostrou impressionado, sem saber o que Jeremiah queria dizer com aquilo, e resolveu jogar pelo seguro. J fora suficientemente descarado para 
uma s manh, e agora no queria deitar a perder o que o homem lhe prometera para as manhs de sbado.
       - Sim.
       Jeremiah, pela vacuidade de expresso daquele monosslabo, percebeu que o rapaz no entendera nada do que ele queria dizer:... o campo... a terra... ainda 
se recordava da emoo que sentia com a idade do rapaz quando apanhava um punhado de terra e a apertava na mo... " tua, rapaz, tua... toda tua... cuida bem dela..." 
A voz do pai ainda lhe ecoava nos ouvidos. Comeara com uma coisa to pequena, que fora ampliando e melhorando com o tempo, e agora possua uma vasta extenso de 
terras no vale que amava. Esse amor tinha de nascer conosco e de desenvolver-se dentro de ns, no era algo que pudesse adquirir-se com a idade. Fascinava-o o fato 
de nem todos os homens o terem, mas, mais tarde, chegou  concluso de que era um amor que muito poucos sentiam. E era algo de que as mulheres careciam em absoluto. 
No compreendiam aquela paixo por um "monte de imundcie", como uma delas lhe disse um dia. Nem elas, nem o rapaz que naquele momento viajava a seu lado, mas Jeremiah 
no se importava. Um dia, o rapaz iria trabalhar para um banco, e seria feliz a lidar com papis e somas o resto da vida. No havia nada de mau nisso. Mas se Jeremiah 
tivesse podido seguir plenamente os seus desejos, teria cultivado a terra a vida inteira, vagueado pelos vinhedos, trabalhado nas minas, para  noite chegar a casa 
completamente exausto, mas satisfeito at ao mais profundo do seu ser. Esse aspecto econmico das coisas interessava-o menos do que a beleza natural e o trabalho 
manual exigido para as conservar.
       Pouco faltava para o meio-dia quando chegaram a Napa, depois de deixar para trs os seus subrbios e as cuidadas casas das ruas Pine e Coombs com os seus 
relvados bem tratados. Viam-se tambm belas manses cercadas de frondosas rvores que no eram muito diferentes das que Jeremiah possua em santa Helena. A diferena 
era que a manso de Jeremiah dava a impresso de no ser estimada nem usada. Era a casa de um solteiro, o que se refletia no seu aspecto exterior, apesar dos esforos 
de Hannah. Era o lugar onde Jeremiah vivia e dormia, mas as suas minas e as suas terras significavam mais para ele. E isso era visvel. A influncia de Hannah s 
se fazia sentir na acolhedora cozinha e na horta. Em Napa, por outro lado as casas eram governadas por dedicadas matronas, que tinham o cuidado de manter as cortinas 
de renda das janelas sempre limpas, os jardins repletos de flores e os pisos superiores das casas cheios de crianas. As casas eram muito bonitas e Jeremiah gostava 
de as contemplar quando passava diante delas. Conhecia muita gente ali, e tambm era conhecido, mas levava uma vida mais rural do que os habitantes de Napa, e o 
centro da sua vida residira sempre nos negcios e no na vida social, muito mais importante em Napa.
       Antes de embarcar, passou pelo Banco de Napa, situado na Rua Um, para levantar o dinheiro necessrio para a viagem para Atlanta. Deixou o rapaz no exterior, 
na carruagem, e apareceu, pouco depois, a olhar para o relgio de bolso com uma expresso satisfeita. Teriam de se apressar para apanhar o barco para So Francisco. 
O rapaz teve o prazer especial de acelerar o trote dos cavalos, enquanto Jeremiah dava uma vista de olhos a alguns papis. Chegaram a tempo, e Jeremiah saltou da 
carruagem e pegou na bagagem. Ficou alguns instantes a sorrir para o rapaz.
       - Vemo-nos no primeiro sbado depois do meu regresso. Vem s nove da manh. - De repente, lembrou-se do nome do rapaz: - Danny. At ento, Dan. E cuida de 
ti durante a minha ausncia.
       Jeremiah no conseguiu evitar a recordao de Barnaby Harte, morto pela gripe, e sentiu um n na garganta, enquanto o rapaz, sorridente, lhe dizia adeus com 
a mo. Subiu ento para o barco a vapor que o levaria para So Francisco. Reservara um pequeno camarote, como sempre fazia nas viagens para a cidade. Sentou-se rapidamente 
e tirou um molho de folhas da pasta. Teria muito trabalho para fazer nas cinco horas de viagem. O Zinfandel era um barco muito bonito, e Danny contemplava, fascinado, 
a roda de ps a afastar-se do cais.
        hora do jantar, Jeremiah saiu do camarote e sentou-se a uma mesa. Uma mulher que viajava com quatro filhos e uma ama fitou-o vrias vezes desde o outro 
extremo da sala, mas ele s deu por isso quando a jovem senhora, embaraada por no ter conseguido chamar a ateno daquele gigante bem-parecido, saiu da sala e 
o olhou com ar altivo. Pouco depois, Jeremiah estava na coberta, a fumar um charuto e a olhar para as luzes de So Francisco, enquanto o Zinfandel atracava. Pensava 
mais que de costume em Mary Ellen, sentia-se surpreendentemente s, Depois de desembarcar, dirigiu-se para o Hotel Palace na carruagem do mesmo. A esperava-o a 
sute do costume. De tempos a tempos, visitava uma casa de m reputao cuja patroa no lhe desagradava, mas agora no se sentia inclinado a faz-lo. Em vez disso, 
ficou no quarto a contemplar a cidade e a pensar noutros tempos. A noite passada com John Harte deixara-lhe uma sensao de melancolia de que no conseguia libertar-se, 
inclusive ali, num lugar que se encontrava a anos-luz de Napa, das suas belezas e angstias.
       O prprio hotel s tinha onze anos e oferecia todas as comodidades possveis. Incapaz de dormir, Jeremiah desceu e deu uma volta pelo vestbulo. Estava cheio 
de gente vestida com roupas caras, de mulheres que exibiam jias resplandecentes, de casais que regressavam de jantares e festas. Havia um esplendoroso ambiente 
de festa. Jeremiah foi ento dar um passeio pela Market Street, voltando depois para o hotel a fim de se deitar. Iria ter um dia cheio de compromissos antes de partir 
para Atlanta na noite seguinte. No o atraa muito a longa clausura no comboio. As viagens de comboio sempre o haviam aborrecido. J na cama, antes de adormecer, 
perguntou-se por que razo nunca se lembrara de trazer Mary Ellen, mas achou a idia totalmente absurda. Ela no pertencia quela parte da sua vida nem nenhuma outra 
mulher, no havia lugar para ningum na sua vida de negcios nem na sua vida privada ou ser que havia. Adormeceu antes de encontrar a resposta e, na manh seguinte, 
j esquecera por completo a pergunta. Tinha apenas uma vaga sensao de mal-estar quando tocou a campainha para lhe servirem o pequeno-almoo. Este chegou, meia 
hora depois, numa enorme bandeja de prata, juntamente com o casaco, que pedira para engomar na noite anterior, e os sapatos, engraxados na perfeio. No havia a 
menor dvida de que o Palace era um dos melhores hotis do pas, e Jeremiah sabia no existia nenhum outro em Atlanta que se lhe pudesse comparar, coisa que no 
o preocupava minimamente. O que temia eram os seis interminveis dias de comboio at  Gergia.
       Como no havia compartimentos privados disponveis, reservara uma carruagem para seu uso particular. Num extremo, havia um pequeno bar. Tambm tinha  sua 
disposio uma zona com uma secretria onde podia trabalhar com o comboio em andamento, e uma cama facilmente dissimulvel. Sempre que viajava de comboio sentia-se 
como um animal enjaulado. E a comida que serviam nas estaes no era grande coisa. A nica vantagem daquela viagem residia na oportunidade de trabalhar, pois no 
teria ningum com quem falar durante os seis dias de travessia do pas.
       No segundo dia de viagem, quando se apeou na estao de Elko, Nevada, sentia-se j desesperadamente cansado. Entrou no restaurante para tomar uma refeio 
breve e previsivelmente indigesta, composta de alimentos fritos, como todas as refeies que lhe haviam servido, e apercebeu-se da presena de uma mulher surpreendentemente 
atraente. No parecia ter mais de trinta e cinco anos, era pequena e esbelta, e tinha cabelos negros como os seus. Os olhos eram enormes, quase violceos; a pele, 
delicada e cremosa. Jeremiah reparou que vestia com elegncia. O vestido de veludo s poderia ter vindo de Paris. Deu consigo a fit-la durante a refeio, e no 
conseguiu resistir  tentao de lhe falar quando saram do restaurante ao mesmo tempo, em passo apressado, para no perderem o comboio. Jeremiah manteve a porta 
aberta para que ela sasse, e ela esboou um sorriso e corou, o que ele achou realmente encantador
       -  uma viagem cansativa, no acha? - disse ele, enquanto acelerava o passo em direo ao comboio
       - Eu diria terrvel - respondeu ela, e riu-se.
       Jeremiah reparou, pelo sotaque, que era de origem britnica. Trazia um anel na mo esquerda com uma safira enorme e deslumbrante, mas no vislumbrou nenhum 
anel de noivado. Ficou intrigado, o suficiente para, nessa tarde, percorrer o comboio  sua procura. Encontrou-a na carruagem-salo, a ler um livro e a beber uma 
xcara de ch. Ela levantou os olhos para ele com ar surpreso e Jeremiah sorriu-lhe, sentindo subitamente uma certa timidez. No sabia o que dizer-lhe, mas no conseguira 
tir-la da cabea durante toda a tarde, coisa rara nele. Havia nela um estranho magnetismo. De repente, a mulher fez-lhe sinal para se sentar num assento vazio em 
frente dela.
       - No se quer sentar?
       - No se importa?
       - De modo nenhum.
       Jeremiah sentou-se diante dela e apresentaram-se. Ela chamava-se Amlia Goodheart, e ele no tardou a saber que h mais de cinco anos que ficara viva e que 
ia para Sul visitar uma filha e o segundo neto recentemente nascido. O primeiro nascera em So Francisco semanas antes. Amlia Goodheart vivia em Nova Iorque.
       - A sua famlia est muito dispersa. - Jeremiah sorriu, fez uma pausa para apreciar o sorriso dela e admirar os seus olhos fascinantes.
       - Demasiado dispersa para o meu gosto. As minhas duas filhas mais velhas casaram-se o ano passado. Os outros trs ainda vivem comigo.
       Amlia Goodheart tinha quarenta anos e era uma das mulheres mais bonitas que ele alguma vez conhecera. Jeremiah no conseguia desviar o olhar dela. Entretanto, 
chegou a hora de jantar, sem que ele fizesse meno de se levantar. Ento, de repente, convidou-a para jantar quando parassem na estao seguinte. Desceram do comboio, 
de brao dado, e Jeremiah sentiu um tremor dentro de si enquanto caminhavam lado a lado. Era o tipo de mulher que se desejava proteger de todos os perigos e, ao 
mesmo tempo, exibir: "Olhem, ela  minha!" Era inimaginvel que conseguisse sobreviver sozinha sequer uma hora. No entanto, era divertida e afetuosa, e demonstrava 
grande perspiccia. Enquanto falavam, Jeremiah sentia-se um adolescente disposto a cair aos seus ps. Estava cegamente apaixonado por ela. Depois de jantar, convidou-a 
a tomar uma xcara de ch na sua carruagem particular. Uma vez a, Amlia falou do marido com afeto. Confessou a Jeremiah que dependera totalmente dele e que agora 
tentava a todo o custo conseguir desembaraar-se sozinha no mundo; exemplo disso era aquela viagem para visitar as duas filhas mais velhas. Era bvio que era a primeira 
aventura sozinha, que lhe estava a dar grande gozo, e perguntava-se por que razo no comeara a fazer isso h mais tempo. Mesmo as menores inconvenincias pareciam 
no a perturbar. Era a mulher perfeita, e Jeremiah, enquanto a fitava, cada vez se convencia mais de que ela era a mulher mais bela que alguma vez vira na vida
       Pela primeira vez desde h muitos anos, uma mulher conseguira expulsar Mary Ellen Browne da sua mente. E to diferentes que eram. Uma, simples, fiel, calejada 
pelo tempo e forte, a outra, mais delicada, mais complexa, mais elegante, mais equilibrada e,  sua maneira, talvez mais forte do que Mary Ellen. Sentia-se atrado 
pelas duas, mas, naquele momento, era Amlia que merecia a sua ateno. Ela referiu que s trouxera uma criada consigo, pois uma prima mais velha do que ela adoecera 
depois de se ter oferecido para a acompanhar, o que no impedira Amlia de fazer a viagem na mesma. Queria ver as suas meninas, "e de nada me serviria a companhia 
de outra mulher. A prima Margaret dificilmente conseguiria cuidar de mim"
       Amlia riu-se do pensamento, o que provocou um sorriso em Jeremiah. Havia algo vulnervel naqueles olhos violetas, e, de repente, ele sentiu um forte desejo 
de a estreitar nos seus braos, mas no se atreveu a faz-lo. Em vez disso, falaram da Europa e de Napa, dos vinhos que ele produzia, dos filhos dela, da infncia 
dele e das suas ocupaes atuais. Jeremiah no se teria importado de ficar ali sentado a falar com ela toda a noite, porm, quando j passava da meia-noite, viu-a 
reprimir um bocejo. Embora tivessem passado quase oito horas juntos, ele detestou o momento em que teve de a acompanhar  sua carruagem
       - No precisa de nada?
       Amlia sorriu perante a expresso de preocupao de Jeremiah
       - Creio que no. - E, com um sorriso ainda mais afetuoso, acrescentou - Muitssimo obrigada pelas horas maravilhosas que me proporcionou.
       Amlia deu-lhe um aperto de mo e Jeremiah voltou a notar o seu perfume. J o sentira na sua carruagem e voltou a not-lo quando regressou. Era um perfume 
extico, fresco, profundamente sensual. A carruagem ficara to impregnada daquele aroma, que Jeremiah teve a sensao de que Amlia continuava ali consigo. Era o 
que ele mais desejava desfrutar da sua presena numa viagem interminvel.
       Para Jeremiah, aquela noite pareceu-lhe uma eternidade. Passou-a a pensar na elegante mulher que conhecera e que dormia noutro lugar daquele comboio. H muito 
tempo que no sentia aquela atrao por uma mulher. Desceu, ansioso, na primeira estao em que o comboio parou, esperando v-la caminhar pelo cais, a apanhar o 
ar fresco da manh, mas s viu algumas criadas a passear os cachorros das suas patroas e um ou dois homens solitrios a desentorpecer as pernas. De Amlia, nem rasto. 
Voltou para a sua carruagem particular, desiludido como uma criana. Finalmente, ao meio-dia, percorreu todo o comboio e descobriu-a a ler um livro e a tomar uma 
xcara de ch. 
       - At que enfim que a encontro! - exclamou Jeremiah, como se tivesse encontrado uma criana perdida. Amlia levantou os olhos e esboou um largo sorriso.
       - Estive perdida
       Jeremiah sorriu, completamente apaixonado por aqueles olhos que o fitavam.
       - Para mim, esteve. Andei  sua procura durante toda a manh.
       - Mas eu estava aqui
       Jeremiah mostrava-se impaciente por passar mais algum tempo na sua companhia, pelo que, sem rodeios, voltou a convid-la para a sua carruagem particular. 
Ela aceitou sem hesitar, mas enquanto a conduzia pelo corredor do comboio, Jeremiah perguntou-se se no estaria a criar uma situao embaraosa a Amlia. Afinal 
de contas, ele era um homem solteiro, e nunca se sabia quem  que poderia estar no comboio. Raramente tinha preocupaes desse tipo, mas no queria prejudicar Amlia 
de modo nenhum.
       - No seja tonto, Jeremiah, j no sou nenhuma mida pequena. - E fez um gesto com a mo elegante como que para afugentar os escrpulos.
       Jeremiah reparou na bela esmeralda que ela ostentava na mo. Ficou espantado com o fato de no ter medo de usar jias no comboio, mas Amlia no parecia estar 
minimamente preocupada com isso. Na sua mente, cheia de coisas agradveis, no tinha cabimento o receio de mexericos ou de ser roubada, nem to-pouco muitos outros 
medos que afligiam as outras mulheres. Depois de dois dias juntos, Jeremiah nutria por ela uma admirao imensa. Quase lamentava no a ter conhecido anos antes, 
e foi isso mesmo que lhe disse. Amlia, ao ouvir as palavras, ficou visivelmente emocionada e acariciou-lhe o rosto com o olhar.
       - Que palavras bonitas...!
       - Digo e mantenho. Nunca conheci ningum como voc... Tem mais personalidade do que qualquer outra pessoa que conheo, Amlia. - Jeremiah olhou-a com ar terno. 
- O seu marido foi um homem cheio de sorte.
       - Eu  que tive muita sorte. - A voz era to suave como uma brisa de vero.
       Jeremiah estendeu-lhe a mo. Sentaram-se em silncio, de olhos fixos um no outro, enquanto a paisagem campestre deslizava perante eles. O resto do mundo deixara 
de existir.
       - Nunca quis voltar a casar?
       Amlia abanou a cabea e esboou um sorriso afvel.
       - Na realidade, no. Estou contente tal como estou. Bastam-me os filhos para me fazerem feliz e me manterem ocupada... a minha casa... os meus amigos...
       - Deveria haver mais do que isso.
       Trocaram outro longo olhar, e Jeremiah voltou a tocar-lhe ternamente nos dedos. Tinha umas mos extremamente delicadas. No era de estranhar que o marido 
lhe tivesse oferecido aqueles magnficos anis. Combinavam bastante bem com ela, tal como as roupas caras e elegantes que usava. E, enquanto a fitava, Jeremiah interrogou-se 
como teria sido a sua vida se tivesse casado com uma mulher como aquela. Era estranho imagin-la em Napa... e ele a voltar para casa depois de trabalhar todo o dia 
nas minas.
       - Em que est a pensar? - Os olhos daquele homem fascinavam-na. Havia neles um mundo desconhecido.
       - Em Napa... nas minhas minas... em como seria a minha vida consigo l...
       Amlia pareceu surpreendida ao ouvir as palavras; depois, sorriu.
       - Suponho que seria uma vida muito interessante. Certamente muito diferente da de Nova Iorque. Na realidade, no conseguia sequer imagin-la. H ndios no 
local onde vive? 
       Jeremiah riu-se.
       - Sim, h alguns. No da forma como os imagina. Mas agora so pessoas normais, muito dceis.
       - J no ululam nem atiram machados de guerra? - Jeremiah abanou a cabea e riu-se de novo da ironia de Amlia.
       - Lamento, mas no.
       - Que decepo, Jeremiah.
       - Temos outras maneiras de nos divertirmos.
       - Quais?
       Jeremiah lembrou-se, de repente, das noites de sbado que passava em Calistoga, mas fez um esforo para pensar noutras coisas.
       - So Francisco fica a apenas sete ou oito horas do lugar onde vivo.
       - Passa muito tempo l? - Jeremiah abanou a cabea.
       - Para dizer a verdade, no. Levanto-me s cinco da manh, tomo o pequeno-almoo, saio para a mina e volto para casa ao anoitecer. s vezes, muito mais tarde. 
Tambm trabalho ao sbado de manh... - Hesitou por instantes... - e ao domingo. J estou impaciente para voltar para as minas.
       - Deve ser uma vida muito solitria, amigo. - A expresso de tristeza de Amlia tocou o corao de Jeremiah. - Que diferena  que poderia fazer quela mulher 
o fato de ele trabalhar demasiado ou de estar s? - Por que razo  que nunca se casou, Jeremiah? - Parecia desolada.
       - Se calhar, por estar sempre muito ocupado. De qualquer forma, j estive quase a dar o n, h perto de vinte anos.
       Jeremiah esboou um sorriso de aparente despreocupao.
       - Deve ser o meu destino.
       - No diga disparates! Ningum devia envelhecer sozinho. - Mas era o que tambm lhe sucederia, a menos que voltasse a casar-se.
       - As pessoas casam-se unicamente para no ficarem sozinhas quando envelhecerem?
       - Claro que no. Casam-se para terem companhia, amizade, amor... algum com quem rir, falar, partilhar as alegrias e as tristezas, algum que possam acariciar, 
amar, que lhes d proteo, algum com quem possam sair para contemplar as primeiras neves... - Enquanto falava, Amlia pensava no olhar da filha, extremamente apaixonada 
pelo marido e pelo filho recm-nascido. E, levantando os olhos para Jeremiah, acrescentou: - No creio que saiba do que estou a falar, j perdeu muita coisa da vida. 
Os meus filhos so a maior alegria da minha vida. E para si nunca  demasiado tarde. No seja tonto, Jeremiah! Deve haver um milhar de mulheres  sua espera, escolha 
uma, case-se com ela e tenha um monto de filhos antes que seja tarde. No se prive dessas coisas...
       Jeremiah ficou surpreendido com a veemncia daquelas palavras. Havia algo no tom de voz de Amlia que lhe tocava o corao.
       - Est a dizer-me para pensar duas vezes na vida que tenho levado. - Jeremiah sorriu e recostou-se no assento de veludo verde-escuro. - Talvez tenha de me 
salvar de mim mesmo casando-se comigo na primeira cidade em que paremos. Que acha que diriam as suas filhas?
       Amlia riu-se, mas tinha um olhar terno quando respondeu.
       - Diriam que eu enlouquecera, e, desta vez, teriam razo.
       - Acha que sim? - O olhar de Jeremiah cravou-se no dela.
       - Acho.
       - Acha que seria uma loucura... voc e eu...?
       Amlia sentiu um estranho calafrio percorrer-lhe a espinha. Havia um ar srio no olhar de Jeremiah, e ela no queria brincar com os sentimentos dele. No 
passavam de dois estranhos num comboio, mas Amlia sabia que aquele homem no lhe era indiferente. Porm, ainda lhe restava algum bom senso. Tinha uma vida para 
viver, uma casa em Nova Iorque, trs filhos em casa para cuidar, duas filhas adultas e dois genros.
       - Jeremiah, no brinque com uma coisa sria como essa. - A voz era to suave como a seda e to doce como um beijo na face de uma criana. - Gosto muito de 
si. Quero ser sua amiga, mesmo depois de deixarmos o comboio.
       - Tambm eu. Case comigo! - Jeremiah nunca dissera uma loucura daquelas, e estava prestes a cometer a maior insensatez da sua vida, mas sentia-se consciente 
disso.
       - No posso. - Amlia deu-se conta de estar subitamente a empalidecer, depois corou, para voltar  sensao de palidez.
       - Porque no?
       Jeremiah falava muito a srio, o que piorou a situao. Amlia estava a comear a ficar assustada com o modo como ele a olhava.
       - Por amor de Deus, Jeremiah, tenho trs filhos para criar. - Era uma desculpa sem ps nem cabea, mas tambm a nica que lhe ocorrera.
       - E da. Poderamos lev-los para Santa Helena. No seramos os nicos a criar os filhos a.  um lugar respeitvel, apesar dos ndios. - Sorriu. - Construiremos 
uma escola especial para eles.
       - Jeremiah! Pare! - Amlia levantou-se de um pulo. - Pare de dizer essas loucuras. Gosto de si,  um dos homens mais interessantes e decentes que conheci. 
Mas ainda mal nos conhecemos. Sou uma estranha para si, tal como voc o  para mim. No sabe se bebo, se sou meio louca, se jogo, se sou uma farsante, se bato nos 
filhos.. se assassinei o meu marido. - Um leve sorriso iluminou-lhe o olhar, e Jeremiah estendeu-lhe a mo, que ela tomou e beijou. - Belo homem, seja gentil comigo, 
no me provoque desta maneira. Na prxima primavera, fao quarenta e um anos, Jeremiah. J sou demasiado velha para estes jogos. Casei-me com aquele que havia de 
ser meu marido quando tinha dezessete anos, e fomos felizes durante dezoito, mas j no sou uma rapariga nova,  difcil voltar a ter filhos... Agora sou av. No 
me estou a ver a fugir consigo para a Califrnia. Gostaria de o fazer. Era capaz de ser divertido, mas, dentro de alguns dias, voc estar em Atlanta, e eu em Savannah, 
com o meu segundo neto. Devemos comportar-nos com sensatez se no quisermos que um de ns fique magoado, e creia que no quero que esse algum seja voc. Sabe o 
que desejo para si? Uma rapariga nova, uma dzia de filhos, e um amor semelhante quele que vivi durante vinte anos. Eu tive o meu, mas voc no, e espero que o 
encontre muito em breve. Os olhos encheram-se-lhe de lgrimas, e virou a cara.
       Jeremiah aproximou-se e, sem dizer palavra, envolveu-a nos braos, apertou-a contra si e os seus lbios procuraram os dela. Amlia no o repeliu. Pelo contrrio, 
beijou-o com um fervor e uma paixo que se vira obrigada a reprimir durante muitos anos. E ele fez o mesmo. Quando se voltaram a sentar, estavam quase sem alento.
       - Voc est louco, Jeremiah! - disse Amlia com pouca convico, e ele sorriu-lhe
       - No. Posso ser muitas coisas, mas isso no. - E fixou novamente os seus olhos nos dela. - Voc  a mulher mais espetacular que conheci. Espero que tenha 
conscincia disso. No se trata de uma iluso momentnea, nem to-pouco de um capricho. Em quarenta e trs anos, s pedi a duas mulheres para se casarem comigo. 
E, se voc quisesse, casaria consigo na prxima cidade em que o comboio parasse. E quer que lhe diga uma coisa? Seramos felizes o resto das nossas vidas. Estou 
to seguro disso como de estar aqui sentado.
       O engraado  que ela suspeitava de que Jeremiah tinha razo.
       - Poderamos s-lo, mas tambm poderamos no o ser. De qualquer modo, acho que o mais sensato  no o tentarmos
       - Por qu?
       - Talvez no seja to corajosa como voc. Preferia t-lo s como amigo.
       Para ele, depois do beijo que acabava de receber, no estava seguro de que era aquilo que Amlia queria. Para quebrar a tenso que comeava a criar-se entre 
eles, Jeremiah levantou-se e dirigiu-se a um armrio em madeira de nogueira, onde pusera uma dzia de garrafas do seu melhor vinho.
       - Quer tomar uma bebida? - Trouxe algumas garrafas do meu vinho
       - Com muito gosto
       Jeremiah desarrolhou a garrafa e encheu dois copos de vinho tinto, cheirou-o, pareceu satisfeito e deu o primeiro a Amlia.
       - Aqui ningum a ver a beber
       Ela no o teria feito em nenhum outro lugar do comboio. O certo  que, desde o primeiro gole, ficou surpreendida com a finura daquele vinho e sentiu-se reconfortada 
ao beb-lo. Aquele homem voltou a deix-la impressionada. Enquanto pousava o copo em cima da mesa, olhou para ele com uma certa tristeza.
       - Quem me dera no gostar tanto de si.
       - Quem me dera que gostasse mais de mim.
       E desataram os dois a rir. Apearam-se na estao seguinte e partilharam um jantar rpido. Antes de voltarem para o comboio, compraram um enorme cesto de fruta. 
Jeremiah ainda tinha queijo que sobrara do dia anterior. Comeram-no com fruta e beberam vinho pela noite dentro, enquanto discutiam a condio da espcie humana. 
A pouco e pouco, comearam a ficar brios e a rir de tudo o que diziam. Ambos sabiam que haviam encontrado um amigo para toda a vida. Amlia era a mulher mais atraente 
e inteligente que Jeremiah alguma vez conhecera. Durante os dias seguintes, ele absorveu todas as palavras de Amlia e partilhou todo o seu vinho com ela. Tomaram 
todas as refeies juntos, jogaram s cartas, riram, contaram anedotas e partilharam confidncias que nenhum deles fizera antes a ningum. Quando chegaram a Atlanta, 
Jeremiah sabia que estava mais do que ligeiramente apaixonado por Amlia. De fato, estava louco por ela e, ao mesmo tempo, sabia que Amlia nunca acederia a casar-se 
com ele. Jeremiah julgava saber o motivo. Nas profundezas da sua alma, ela ainda no conseguira libertar-se da memria do marido, e talvez nunca viesse a conseguir. 
Continuava a repetir insistentemente que Jeremiah precisava de uma rapariga nova e dos seus prprios filhos. Ele falou-lhe de John Harte e dos dois filhos falecidos, 
e confessou que no estava seguro de querer correr esse risco.
       - No conseguiria suportar a morte de um filho. H muito tempo, perdi a mulher que amava, e isso foi suficiente - disse Jeremiah, a altas horas de uma noite, 
a meio da segunda garrafa de vinho.
       - No se pode viver com semelhante apreenso - retorquiu Amlia. s vezes, na vida, temos de arriscar um pouco, sabe isso muito bem...
       - Sem o seu corao, no... - Jeremiah fechou os olhos quando o rosto de Barnaby Harte apareceu de novo na sua mente. No conseguiria suportar.
       Amlia agarrou-lhe o brao.
       - Tem de superar esse receio. No perca a oportunidade. Ainda tem toda uma vida  sua frente... Aproveite... bolas! No deixe passar a ocasio. Faa o que 
lhe digo. Procure a rapariga certa, v atrs dela se for necessrio, mas consiga o que deseja... o que precisa... o que merece...
       - E o que  que preciso e mereo? - Nem sequer estava seguro do que queria.
       - Uma rapariga com fogo... com paixo... com amor nas veias, uma rapariga to cheia de vida que quase tenha de lanar-lhe o lao e prend-la para a capturar.
       Jeremiah riu-se.
       - Parece que est a falar de si.  isso que eu deveria fazer consigo?
       - Ser melhor que no o faa, Jeremiah Thurston. Voc sabe bem a que tipo de mulher  que estou a referir-me: uma pequena bola de fogo que o encha de calor, 
felicidade e alegria.
       - Vai ser uma carga de trabalhos para mim. - Mas teve de admitir que, de certa forma, a idia no lhe desagradava. - E onde  que posso encontrar uma rapariga 
dessas?
       - Em qualquer lugar. Procure-a sem descanso, se necessrio for. Ou talvez ela lhe venha a cair nos braos quando menos esperar.
       - At agora, ainda no o fez; pelo menos, at esta viagem. - Jeremiah olhou-a com ar malicioso e ela riu-se. Estivera prestes a deixar-se apaixonar por aquele 
homem. Mas no podia faz-lo. Havia ainda muita coisa que ela queria fazer sozinha, e ele merecia algo melhor.
       - No se esquea do que lhe disse! - insistiu, nos ltimos momentos da viagem.
       O comboio j estava a entrar na estao de Atlanta. Jeremiah j fizera as malas. Encontravam-se de p na carruagem particular de Jeremiah, que dera as instrues 
necessrias para a deixarem  disposio de Amlia e da criada. A viagem at Savannah levar-lhes-ia s mais umas horas, mas no era nisso que Amlia estava a matutar. 
S pensava nele, e ele nela.
       - Por que diabo  que no quer casar comigo? - Jeremiah olhou-a ternamente, com um misto de paixo e desconsolo. -  uma tonta.
       - Sei que sou. - Os olhos de Amlia encheram-se subitamente de lgrimas. - Mas quero algo melhor para si.
       - Voc  o melhor que existe.
       Amlia abanou a cabea, e as lgrimas deslizaram pelas faces enquanto esboava um sorriso.
       - Amo-o, meu querido amigo.
       Amlia envolveu-o nos seus braos e ele puxou-a para si num abrao que durou at o comboio parar. Ento, Jeremiah afastou-a um pouco de si para voltar a mir-la.
       - Tambm a amo. Cuide de si, minha querida. Irei v-la a Nova Iorque muito em breve.
       Amlia fez um gesto afirmativo com a cabea e disse-lhe adeus com a mo quando desceu do comboio; Jeremiah fez o mesmo quando o comboio se ps em marcha. 
Pensou ento no destino que a trouxera at ele e que agora os separava. Nunca tivera uma mulher como ela na vida... e provavelmente no voltaria a ter... e o mais 
surpreendente era que ter-se-ia casado, sem pensar duas vezes, com aquela desconhecida. Era estranho. Apaixonara-se por Amlia em questo de dias, momentos... horas... 
e, com Mary Ellen Browne, tinha-se contentado com toda uma vida de domingos. A caminho do hotel, enquanto apreciava as vistas da cidade, Jeremiah pensou que aquilo 
era algo que merecia uma profunda reflexo.
       
      4
       
       A Casa Kimball erguia-se com esplndida elegncia sobre o horizonte de Atlanta. Um enxame de homens precipitou-se sobre Jeremiah para aligeir-lo da bagagem 
e conduzi-lo at ao suntuoso vestbulo, onde deambulava um exrcito de criados. A decorao era mais prpria de um grande salo de baile do que de um vestbulo de 
hotel. Comparativamente, fazia empalidecer a grandiosidade do Hotel Palace de So Francisco, mas Jeremiah continuava a preferir as comodidades, mais familiares, 
do Palace. Para ele, era o melhor hotel do mundo. Mas a Kimball ficava num excelente segundo lugar. Jeremiah recuperou a pasta na sua sute, deu uma olhadela pelos 
aposentos, tomou uma bebida e, pouco depois, ouviu bater  porta E apareceu um criado de Mr. Beauchamp. Negro e impressionantemente alto, envergava uma luxuosa libr. 
Entregou-lhe um envelope de cor creme, fechado com um enorme selo dourado.
       - Da parte de Mistress Beauchamp.
       - Obrigado
       Depois de abrir apressadamente o envelope, retirou o carto e ficou a saber que o convidavam para jantar s oito dessa noite Horrio francs, pensou, enquanto 
agradecia ao criado e lhe pedia que dissesse aos Beauchamp que podiam contar com ele. Fazendo uma pequena vnia, o homem, resplandecente na sua libr, desapareceu. 
Jeremiah vagueou pelos aposentos a pensar na noite que o esperava. O quarto estava maravilhosamente decorado com tecidos finos e antiguidades francesas, mas Jeremiah 
sentia um vazio  sua volta. Ouviu bater  porta. Era uma criada negra que trazia, numa bandeja de prata, um julepo (1) e um prato de bolachas acabadas de sair do 
forno. Geralmente, depois de uma longa viagem de comboio, era o que mais lhe teria apetecido, mas agora s conseguia pensar em Amlia. Dentro de poucas horas, ela 
estaria a chegar a Savannah, onde andaria atarefada a ajudar a filha.
       
            (1) Bebida  base de usque com acar, gelo e menta (N do T)
       
       Mas a nica coisa que Jeremiah queria agora era voltar a estreit-la nos braos. Perturbado por esse desejo, bebeu um longo gole de julepo e foi at  varanda 
contemplar a cidade. Crescera muito nos vinte anos que haviam decorrido desde a guerra civil e, em muitos aspectos, era uma cidade em expanso. Todavia, uma boa 
parte dela tinha a mesma aparncia de antes da guerra, e Jeremiah sabia que os sulistas ainda estavam ressentidos por terem sido absorvidos pela Unio. Gostavam 
dos seus antigos costumes e continuavam amargurados por terem perdido a guerra. Por instantes, ficou curioso em saber como seriam os Beauchamp e os amigos. Sabia 
que eles tinham muito dinheiro, mas suspeitava que Beauchamp era um novo-rico exibicionista. Era fcil deduzir isso pela libr carregada de incrustaes em ouro 
que o criado envergava e pelo enorme selo dourado do convite
       Jeremiah tomou banho e tentou dormir uma sesta antes de sair para o jantar, mas, quando se deitou na enorme cama de dossel, no conseguiu fazer outra coisa 
alm de pensar na deslumbrante mulher de cabelos negros e enormes olhos escuros, quase to escuros como as miangas cor de azeviche que adornavam o seu vestido na 
noite em que se tinham conhecido. Porque seria que se recordava de todos os pormenores das suas roupas. Nunca tal lhe acontecera Mas a elegncia, a beleza e a sensualidade 
que ela irradiava despertavam nele um desejo incontrolvel de a ter perto de si. Sentiu um n na garganta, que tentou desfazer com outro gole de julepo, mas nada 
parecia conseguir afugentar Amlia da sua cabea, o que o fez perguntar-se como poderia falar de negcios com a cabea cheia dela. O jantar dessa noite, porm, era 
simplesmente um ato de cortesia. Sabia que as conversaes sobre o negcio s teriam lugar no dia seguinte. Os sulistas eram demasiado corretos para misturar os 
negcios com o prazer. Nessa noite, os Beauchamp limitar-se-iam a oferecer um jantar tranqilo em sua casa, para mostrar ao incivilizado homem do Oeste um pouco 
da hospitalidade do Sul. Enquanto vestia a jaqueta, sorriu para a sua prpria imagem refletida no espelho, de fato branco vestido. Contrastava vivamente com a pele 
bronzeada e os cabelos negros, como os de Amlia.. Amlia... Amlia... Amlia... Quem lhe dera nunca ter sado do comboio! Desceu para o vestbulo e dirigiu-se  
carruagem que Orville Beauchamp lhe enviara.
       O criado foi lesto a saltar para o cho e a abrir-lhe a porta; depois voltou a saltar para o lado do cocheiro, enquanto uma infinidade de damas elegantes 
com deslumbrantes vestidos de noite, acompanhadas de cavalheiros impecavelmente trajados, passavam junto deles a caminho de jantares, concertos e outros acontecimentos 
sociais que constituam a vida noturna de Atlanta.
       A carruagem disparou pela esplendorosa Peachtree Street abaixo, entrando na zona residencial da cidade, em direo  casa dos Beauchamp, cuja suntuosidade 
estava quase  altura das demais ao seu redor. Era uma casa relativamente nova, construda, obviamente, depois da guerra. No era excessivamente extravagante, mas 
podia dizer-se que era bonita. De repente, Jeremiah lamentou que Amlia no estivesse ali com ele a partilhar a noite. Depois, teriam regressado ao hotel e passado 
um bom bocado a comentar as vestimentas e os pontos fracos dos convidados, a rir e a beber um pouco mais do vinho que ele trouxera de Napa. E era em Amlia que ele 
pensava quando cumprimentou Elizabeth Beauchamp, a outrora bela mas agora apagada esposa de Orville Beauchamp. Era uma loura bastante plida, de pele branca como 
o vidro leitoso e olhos que pareciam chorar de desespero. Elizabeth Beauchamp transmitia uma imagem de extrema fragilidade, dando a impresso de se poder finar a 
todo o momento, mas tambm no parecia muito preocupada com essa eventualidade. Com a sua voz triste e queixosa, falava constantemente dos tempos anteriores  guerra 
e da sua vida na plantao "do pap". Orville parecia no ouvir nada do que ela dizia, embora, de vez em quando, a repreendesse, dizendo-lhe:
       - Basta, Lizabeth! Aos nossos convidados no lhes interessa a tua vida na plantao do teu pai. Tudo isso j passou.
       Estas palavras pareciam fustig-la como um chicote, fazendo-a mergulhar silenciosamente nas suas prprias reminiscncias. Orville era de uma linhagem completamente 
distinta, menos aristocrtica do que a da esposa. De feies mais rudes, Beauchamp fechava constantemente os olhos como se estivesse a pensar em algo importante. 
E era evidente que a nica coisa importante para Orville eram os negcios. Tinha cabelos to escuros como os de Jeremiah e a tez morena. Explicou que os seus avs 
eram do Sul de Frana, e que tinham vindo para Nova Orlees antes de se mudarem para a Gergia. E no escondeu que no possuam nada quando chegaram, tal como o 
seu pai trinta anos depois. Foi Orville quem fez a primeira fortuna da famlia, quem tirou partido da industrializao do Sul durante e depois da guerra. Construra 
um pequeno imprio, que ainda no era to grande como desejava, mas seria um dia, especialmente com a ajuda de Hubert, o seu filho, que tinha o mesmo nome do av 
de Orville.
       No entanto, Jeremiah teve a impresso de que Hubert no era to esperto como o pai. Tinha a mesma voz queixosa da me e parecia muito mais interessado em 
gastar o dinheiro do pai do que em fazer o necessrio para o ganhar. Falou dos cavalos de corrida que comprara no Kentucky e do bordel de que mais gostava em Nova 
Orlees. Em suma, foi uma noite entediante para Jeremiah. Tambm estavam presentes dois outros membros do consrcio com que ia negociar. Eram homens de mais idade, 
com opinies fortes e esposas desinteressantes, as quais passaram a maior parte da noite a cochichar umas com as outras. Jeremiah reparou que praticamente no dirigiam 
a palavra a Elizabeth Beauchamp, que parecia ignor-las por completo. Era fcil de ver que ela as considerava de um nvel muito mais baixo que o seu, dadas as suas 
razes aristocrticas na plantao "do pap".
       Outra coisa que no passou despercebida a Jeremiah foi a singular obsesso da famlia Beauchamp pela fortuna dos outros, por quanto dinheiro tinha fulano 
ou beltrano e como o haviam conseguido. Elizabeth perdera tudo com a guerra. O pai suicidara-se depois da destruio da sua plantao, e a me morrera, pouco tempo 
depois, com o desgosto. Talvez mais pela fortuna que perdera do que pelo desaparecimento do marido, pensou Jeremiah.
       Os Beauchamp tambm tinham uma filha que, segundo Orville, era uma "jia perfeita", mas, a julgar pelo que vira, Jeremiah punha srias dvidas. Nessa noite, 
fora a um baile... - com todos os rapazes de Atlanta atrs de si, com toda a certeza - disse o orgulhoso pap, antes de acrescentar: - E tm razo para isso... O 
vestido custou-me uma fortuna.
       Jeremiah esboou um sorriso amarelo ao ouvir tais palavras, cansado da obsesso que aquela gente tinha por dinheiro, e,  medida que a monotonia grassava 
 sua volta maior era o desejo de estar com Amlia em Savannah. Que diferena de ambiente teria encontrado a, e riu-se dos seus pensamentos. No era propriamente 
a mudana de atmosfera que o atraa, mas a oportunidade de estar perto de Amlia, de inalar o seu sensual perfume, de beijar os seus lbios e de passar horas a olhar 
para ela. O mero fato de pensar nela animou os seus lbios com um sorriso, que Elizabeth Beauchamp julgou ser dirigido a si. A mulher deu umas dbeis palmadinhas 
na mo antes de se levantar e conduzir as senhoras para a outra sala, enquanto os homens fumavam charutos e bebiam conhaque. S ento  que veio  baila o negcio 
que o trouxera a Atlanta, o que foi um alvio depois daquela noite incrivelmente fastidiosa.
       Jeremiah ganhou novo alento quando os primeiros convidados saram pouco depois das onze, aproveitando para se despedir, com o pretexto de que estava exausto 
da longa viagem e queria voltar para o hotel a fim de descansar antes de comear as negociaes na manh seguinte. A carruagem de Beauchamp levou-o de novo at ao 
hotel, e, meia hora depois, encontrava-se na varanda da sua sute a contemplar a cidade. Pensou novamente nas horas que partilhara com Amlia e pareceram-lhe quase 
um sonho. Os Beauchamp estavam j esquecidos. S pensava nela. 
       - Boa noite, amorzinho - sussurrou, enquanto voltava para o quarto, a pensar de novo nas palavras de Amlia ".. Case-se, Jeremiah... tenha filhos!" Mas no 
eram filhos que desejava ter naquele momento. S a queria ter a ela. "Amo-o!", dissera-lhe Amlia. "Amo-o." Palavras fortes de uma mulher forte. O esprito e o corao 
pareciam transbordar dela quando, pouco depois, se deitou, sentindo-se desesperadamente s na elegante cama de dossel.
       
      5
       
       As negociaes com o consrcio de Orville Beauchamp chegaram a bom termo e, ao fim de uma semana aps a chegada de Jeremiah a Atlanta, o negcio foi fechado. 
Jeremiah comprometia-se a enviar-lhes novecentos frascos de mercrio para serem distribudos entre eles; destinavam-se  fabricao de munies e armas de fogo de 
pequeno calibre, assim como para a indstria mineira de todo o Sul. Jeremiah ganharia um pouco mais de cinqenta mil dlares no negcio. Ficou extremamente satisfeito 
com os termos do contrato, que tambm satisfizeram Orville Beauchamp, o qual cobraria uma comisso por ter conseguido o negcio. Na realidade, ele fizera vrios 
subcontratos relativos  revenda do seu quinho de mercrio. Ao contrrio dos outros, este no se destinava a ser usado nas suas fbricas. Orville era mais um intermedirio 
e um negociante de cavalos, e interessavam-lhe os negcios rpidos e chorudos. Fechado o contrato, Beauchamp estendeu a mo a Jeremiah.
       - Acho que deveramos celebrar logo  noite, caro amigo.
       Desde o instante em que as negociaes se iniciaram, cessara a vida social entre eles. Jeremiah jantara todas as noites no hotel. Os Beauchamp no o haviam 
voltado a convidar para jantar, mas agora existia motivo para celebrao. Os sete sulistas e as respectivas esposas, assim como Jeremiah, foram convidados para jantar 
em sua casa.
       - A Lizabeth ter imenso prazer nisso - insistiu Orville, radiante de satisfao.
       Todavia, Jeremiah no conseguia imaginar Elizabeth Beauchamp a sentir prazer com a presena de quinze parceiros de negcios ao jantar. Mas o problema era 
de Orville, no dele. Depois daquela longa semana, Jeremiah sentia-se cansado e ansioso por voltar para casa. S tinha comboio da a trs dias, pelo que ficou retido 
em Atlanta durante aquele fim-de-semana, sem nada para fazer, para grande contrariedade sua. Esperava com ansiedade o momento do regresso a casa.
       Por uma ou duas vezes, esteve tentado a ir passar uns dias a Savannah, mas no quis embaraar Amlia. Ela estava de visita  filha, e a sbita apario de 
um estranho teria sido difcil de explicar. No tinha, pois, outro remdio seno ficar por Atlanta. Esperava, pelo menos, no ter de encontrar-se com Orville Beauchamp 
com muita freqncia. Aquela semana, ainda que muito proveitosa, fora bastante cansativa para si. A carruagem foi busc-lo de novo s oito, e desta vez pediram-lhe 
para usar fato de cerimnia. Pelos vistos, Beauchamp gostava de fazer as coisas em grande. No entanto, Jeremiah teve de reconhecer que tudo na casa estava com um 
aspecto magnfico. Havia centenas de velas acesas nos candelabros espalhados pelas paredes e enormes ramos de flores por toda a parte, orqudeas, azalias, jasmins 
e outras flores de intenso perfume que Jeremiah nunca vira. Essas fragrncias davam um toque ainda mais extico ao ambiente E, enquanto as velas cintilavam, os convidados 
iam chegando, cobertos de sedas, cetins e jias
       - Est com um timo aspecto, Mistress Beauchamp - saudou Jeremiah. Mas apercebeu-se, de imediato, de que acabara de dizer uma inconvenincia. "Ter bom aspecto" 
no era propriamente a mxima aspirao de Elizabeth Beauchamp. Parecia aceitar a sade dbil e a palidez de bom grado.
       - Obrigada, Mister Thurston - respondeu, arrastando as palavras e dirigindo o olhar para os prximos convidados
       Jeremiah desviou-se para o lado e comeou a falar com um dos homens com quem estivera a negociar durante toda a semana. Pouco depois, Hubert juntou-se-lhes, 
desejoso de lhes contar os seus planos relativamente a um cavalo que queria ver no Tennessee. Jeremiah vagueou sem destino pela sala, conversou com os homens, foi 
apresentado s respectivas esposas e, finalmente, a uma jovem e bonita loura que Hubert convidara. Tinha certas parecenas com a me do rapaz, embora numa verso 
mais viva, s e bonita. Pelos olhares que lhe lanava, enquanto se dirigiam para a sala de jantar, Orville parecia ach-la particularmente atraente. Quando estavam 
prestes a sentar-se  mesa, Beauchamp reparou que o nmero de convidados era mpar, e gritou para a esposa.
       - Onde est a Camille.
       Elizabeth ficou algo nervosa, e Hubert riu-se antes de responder ao pai.
       - Se calhar ficou para trs com algum dos seus galanteadores!
       Nem a gargalhada nem o comentrio haviam sido um modelo de amabilidade fraterna. A me repreendeu-o de imediato.
       - Hubert! - E, virando-se para o marido, acrescentou: - Quando desci, estava l em cima, a vestir-se.
       Orville franziu o sobrolho e disse algumas palavras em voz baixa  esposa. Estava visivelmente irritado com o comentrio de Hubert. Camille era a menina dos 
seus olhos, o que no era segredo para aqueles que o conheciam.
       - Lizabeth, diz-lhe que estamos prontos para o jantar.
       - No creio que j tenha acabado de se vestir...
       Elizabeth detestava confrontaes com a filha. No gostava de lhe dar ordens, ainda que fosse s transmitir-lhas. Camille fazia sempre o que lhe apetecia, 
e aquela noite no era exceo.
       - Diz-lhe que estamos  espera dela. - Os convidados aproveitaram a oportunidade para tomar outro julepo. Elizabeth Beauchamp desapareceu pelas escadas acima 
e voltou alguns minutos depois um pouco mais tranqila. Cochichou algo ao marido. Este fez um gesto afirmativo com a cabea, parecendo satisfeito com a resposta. 
Nada daquilo impressionou Jeremiah, que, enquanto vagueava por entre os convidados, ia apanhando fragmentos de conversas. Finalmente, atravessou as belas portas 
envidraadas abertas para o jardim e ficou, por instantes, a respirar o balsmico ar primaveril, antes de voltar para a sala de jantar.
       Dessa vez, porm, ao passar pela ombreira da porta, parou, fascinado pelo que viu: uma delicada jovem de cabelos negros e uma pele to branca que fazia lembrar 
a rainha das neves. Os olhos eram azuis como o cu de vero, e trazia um vestido de tafet azul-plido e um colar de pedras preciosas tambm azuis, que mais no 
faziam do que realar a cor dos olhos. Jeremiah nunca vira uma criatura to deslumbrante como aquela. O mais surpreendente era o fato de ela ser uma perfeita combinao 
de certas caractersticas dos seus pais: os cabelos escuros do pai, os olhos azuis e a pele leitosa da me. Era prodigioso que de duas pessoas perfeitamente normais 
tivesse nascido aquela pequena deusa, aquela viso que agora vagueava entre os convidados, quase danando ao andar, distribuindo beijos, gargalhadas e olhares provocantes. 
Enquanto a contemplava com indisfarvel admirao, Jeremiah sentiu, de repente, o palpitar do corao. Ela tirava a respirao a qualquer pessoa. Tinha imensas 
parecenas com Amlia, os mesmos cabelos escuros, a pele cremosa. Era capaz de ser a rapariga que Amlia fora noutros tempos, mas, agora, Jeremiah estava concentrado 
em Camille, que passava, toda empertigada, entre os convidados, fazendo-os rir, lanando olhares provocantes aos homens e s mulheres e acabando por, com ar de enlevo, 
enlaar o seu brao no do pai.
       - Continuas a mesma menina travessa de sempre! - ouviu Jeremiah dizer a uma mulher, com alguma malcia, mas era fcil de ver que o qualificativo no destoava 
do comportamento da rapariga. E tambm no era difcil perceber que punha os nervos da me em franja e que era objeto do dio do irmo Mas, fosse como fosse, Jeremiah 
estava divertido a v-la cabriolar, presumindo que ela sempre fora assim brincalhona desde o momento em que comeara a andar. Era igualmente bvio que o pai a adorava
       - Mister Thurston! - Orville Beauchamp pronunciou o nome como se fosse entregar-lhe um prmio. - Permite que lhe apresente a minha filha, Mister Thurston. 
- E sorriu. - Camille, apresento-te Mister Thurston, da Califrnia
       - Muito prazer, Miss Beauchamp - disse Jeremiah, beijando-lhe graciosamente a mo e observando o brilho dos seus olhos. - Era uma rapariga travessa, mas tinha 
um raro encanto, como o de um duende traquinas ou de uma fada algo maliciosa. Jeremiah nunca vira uma criatura to devastadoramente adorvel como ela. Perguntou-se 
que idade  que teria, e chegou  concluso de que no devia ter mais de dezessete anos. De fato, completara-os em dezembro, e desde ento a sua vida era um constante 
torvelinho de festas e bailes. A tutora fora despedida no incio do ano, fato que a deixara encantada. - Boa noite, Mister Thurston! - Camille fez uma reverncia, 
oferecendo a Jeremiah um fascinante vislumbre dos seus jovens e firmes seios, sem que ignorasse o que estava a fazer. Havia muito poucas coisas que Camille fazia 
sem planejar de antemo. Era inteligente e sagaz, sempre consciente dos efeitos que produzia ao seu redor.
       O jantar foi anunciado imediatamente aps a apario de Camille, e Jeremiah ofereceu o brao a Elizabeth Beauchamp com a impresso de que a sua vida acabara 
de dar uma volta completa. E teve a agradvel surpresa de ficar sentado entre Camille e outra dama. Esta estava enredada numa interminvel conversa com o seu companheiro 
da direita, e Jeremiah ficou apenas com Camille Beauchamp para conversar. Achou-a to inteligente, divertida e provocante como supusera, mas ficou surpreendido ao 
descobrir que tinha outras qualidades. Parecia possuir uma extraordinria compreenso das questes prticas e um excelente instinto para o negcio. Fez uma srie 
de perguntas inteligentes sobre o mais recente negcio de Jeremiah, e este ficou espantado com a quantidade de coisas que Camille sabia dos negcios do pai. E com 
a quantidade de coisas que Orville lhe contara. Esse era um tema que Jeremiah certamente nunca teria abordado com uma filha, se a tivesse.
       - Foi o seu pai que lhe ensinou tudo isso? - Jeremiah estava perplexo. O mais lgico e natural teria sido que Orville ensinasse aquelas coisas a Hubert, embora 
o rapaz no mostrasse a nsia de aprender da irm.
       - Algumas coisas. - Camille pareceu gostar do elogio que Jeremiah dirigia  amplitude dos seus conhecimentos. - Outras, limitei-me a escutar. - Sorriu, com 
um ar de falsa inocncia, o que divertiu Jeremiah.
       - Fez mais do que escutar, senhorita. Soube discernir os diferentes aspectos dos assuntos e chegar a concluses muito interessantes.
       Camille dissera algumas coisas que Jeremiah considerava exemplos surpreendentes de uma espantosa agudeza de esprito, e ele geralmente no gostava de falar 
de negcios com mulheres, especialmente com as muito jovens. Muitas delas teriam dissimulado o riso e ficado de olhos esbugalhados se ele tivesse tentado abordar 
s uma dcima parte das idias que trocou com Camille.
       - Gosto de tudo o que se relaciona com o trabalho dos homens. - Camille afirmou isto como sendo a coisa mais natural do mundo, como se tivesse dito que gostava 
de chocolate quente ao pequeno-almoo.
       - Por qu? - perguntou Jeremiah, intrigado. - Quase todas as mulheres acham esse assunto aborrecido.
       - Pois eu no acho. Gosto. - Olhou-o nos olhos. - Gosto de saber como  que as pessoas fazem dinheiro.
       A resposta foi to chocante que Jeremiah ficou, por instantes, sem palavras.
       - O que a faz pensar assim, Camille?
       O que haveria atrs daqueles olhos azuis e daqueles caracis negros? Certamente nenhum dos pensamentos prprios de uma rapariga de dezessete anos. Os pontos 
de vista de Camille desconcertavam-no, mas tinham para ele o atrativo de algo novo e original. No havia nela qualquer fingimento, no escondia nada atrs do leque 
de renda. Dizia o que pensava, por mais chocante que fosse.
       - Eu acho que o dinheiro  muito importante, Mister Thurston - declarou ela, arrastando encantadoramente as palavras. - E torna as pessoas importantes. Quando 
deixam de o ter, deixam de ser importantes.
       - Isso nem sempre acontece.
       - Ai acontece, acontece. - Camille proferiu o seu veredicto de forma brusca. - Olhe o pai da minha me. A partir do momento em que perdeu o dinheiro e a plantao, 
nunca mais foi ningum, e ele sabia-o bem, por isso matou-se, Mister Thurston. Agora olhe para o meu pai. Tem dinheiro e  importante, mas, se tivesse mais dinheiro, 
seria ainda mais importante. - Ento, fixando-o olhos nos olhos, acrescentou. - O senhor  um homem muito importante.  o que o meu pai diz. E deve ter uma carrada 
de dinheiro. - Disse isto como se ele tivesse barris cheios de dinheiro no alpendre e na cave, imagem que fez rir Jeremiah, deixando-o entre o embaraado e o divertido. 
       - Tenho mais terras do que dinheiro. 
       - Vai dar ao mesmo. Nalguns stios  a terra, noutros, o castelo... so coisas diferentes em lugares diferentes, mas significam sempre o mesmo.
       Jeremiah sabia do que Camille estava a falar, e perguntou-se se ela tambm tinha conscincia disso. Era quase aterrador se fosse esse o caso. Como  que ela 
podia saber tanto de negcios, dinheiro e poder?
       - Julgo que est a falar de poder. Est a referir-se ao tipo de poder que as pessoas alcanam quando so importantes ou tm xito.
       Era uma questo difcil de entender para um jovem de dezessete anos, especialmente para uma rapariga. Camille pareceu pensativa por instantes, depois fez 
um gesto afirmativo com a cabea
       -Acho que tem razo,  isso que quero dizer. Gosto do poder. Gosto daquilo que ele provoca nas pessoas, na sua forma de comportamento, na sua forma de pensar. 
- Olhou para a me e depois de novo para Jeremiah. - Detesto pessoas fracas. Acho que o meu av devia ser um homem fraco, para se matar daquela maneira.
       - Foi uma poca terrvel para o Sul - observou Jeremiah em voz baixa, para que o seu anfitrio no os ouvisse. - Foi uma mudana tremenda para muita gente, 
e houve quem no conseguisse sobreviver a ela.
       - O meu pai sobreviveu. - Camille olhou-o com orgulho. - Foi precisamente nessa altura que ele fez toda a sua fortuna. - Era algo que muitos teriam evitado 
referir e, muito menos, falar com jactncia disso. Ento, com a mesma rapidez com que trouxera  baila o tema proibido, assim o abandonou, e voltou-se para Jeremiah 
com aqueles olhos azul-celestes e um sorriso que teria derretido o corao de um homem de ferro. - Como  a Califrnia?
       Com um estilo que contrastava com o dela, Jeremiah comeou a falar-lhe do vale de Napa. Camille escutou-o educadamente por instantes, mas depressa mostrou 
o seu aborrecimento. No era uma apaixonada pelo campo. Interessava-lhe mais o que ele lhe contara de So Francisco. Ela falou, ento, de uma recente viagem a Nova 
Iorque, que achara absolutamente fascinante, e referiu que o pai lhe prometera que a levaria  Europa se no estivesse casada aos dezoito anos. Orvil ainda tinha 
um primo afastado em Frana, mas o que Camille queria realmente ver era Paris. Enquanto ela tagarelava sem parar, Jeremiah, totalmente absorto na sua delicada beleza, 
deixou de prestar ateno ao que ela dizia. E vieram-lhe  memria as palavras de Amlia no comboio: "... Procure uma rapariga nova... case-se... tenha filhos." 
Era uma dessas raparigas que pem a cabea  roda dos homens maduros. Mas no viera a Atlanta  procura de esposa, mas sim em negcios. Tinha uma vida normal e s 
 sua espera no vale de Napa, quinhentos mineiros em trs minas, uma governanta, uma manso e Mary Ellen... De repente, como numa viso, quase conseguiu ver Camille 
a danar no meio de tudo aquilo. Foi como que um delrio momentneo, que acabou por dominar, obrigando o esprito a voltar para a realidade do jantar, embora com 
grande esforo.
       Conversaram durante todo o jantar e, quando um pequeno grupo de msicos comeou a tocar no grande salo, Jeremiah, delicadamente, convidou Elizabeth Beauchamp 
para danar, mas ela disse-lhe que nunca danava e que talvez preferisse danar com a filha. Camille encontrava-se junto deles naquele momento, e Jeremiah no teve 
alternativa seno oferecer-lhe o brao, apesar de se sentir algo ridculo a danar com uma rapariga daquela idade. Ridculo, mas ao mesmo tempo encantado, e embaraado 
por verificar que sentia uma atrao quase sufocante por ela. Teve de lutar contra a fora do seu encanto enquanto rodopiavam pela sala, fascinado pelas duas plidas 
safiras que eram os seus olhos.
       - Gosta tanto de danar como de ouvir falar de negcios?
       - Oh, sim! - respondeu com um sorriso. - Adoro danar.
       Era como se a conversa anterior nunca tivesse tido lugar, como se a sua nica preocupao houvesse sido sempre o baile. Jeremiah teve de fazer um esforo 
para no desatar a rir e chamar-lhe sirigaita, o que sem dvida alguma era.
       -  um danarino maravilhoso, Mister Thurston. - Era uma aptido inata nele, de que se orgulhava, mas no conseguiu conter o riso perante um elogio to exagerado. 
Enquanto rodopiavam pela sala, nos braos um do outro, Jeremiah pensou que h muitos anos que no se sentia to feliz, mas no sabia por qu. Estava quase aterrado 
ao dar-se conta da atrao que sentia por ela. 
       - Obrigado, Miss Beauchamp.
       Camille viu um brilhozinho nos olhos de Jeremiah e tambm riu, fazendo os possveis para parecer sensual e travessa ao mesmo tempo, o que obrigou o homem 
a reprimir de novo os seus instintos. De repente, tudo o resto foi esquecido... Amlia, Mary Ellen... S conseguia pensar na deslumbrante criatura que tinha entre 
os braos. O final do baile foi quase um alvio para ele. Quando terminou a ltima valsa, deu-se conta do calor que fazia na sala, do fulgor cintilante das velas, 
do intenso odor das flores... e do brilho no olhar da rapariga quando esta levantou novamente os olhos para ele. Tinha um ar to delicado que lhe fazia lembrar uma 
daquelas bonitas flores do Sul que se encontravam nos enormes ramos que decoravam o salo. Jeremiah teve vontade de elogiar a sua beleza, mas no se atreveu a faz-lo. 
Afinal de contas, Camille no passava de uma rapariga de dezessete anos, e ele tinha mais do dobro da idade dela. Martirizado por aqueles pensamentos, conduziu-a 
at junto da me. Pouco depois, despediu-se de todos eles. Ao dar as boas-noites  rapariga, segurou-lhe a mo por instantes, enquanto os olhos dela se cravavam 
nos dele, e as suas palavras, extremamente doces, penetravam at ao fundo da sua alma e estimulavam algo mais primitivo dentro dele.
       - Voltaremos a encontrar-nos antes de partir? - Havia alguma tristeza na voz de Camille.
       Jeremiah sorriu. Era a nica coisa que lhe ficava daquela viagem: ser o objeto da paixonite de uma rapariga de dezessete anos e ficar enredado no seu feitio. 
Se era esse o caso, pensou, o melhor que tinha a fazer era regressar quanto antes para a Califrnia.
       - Na realidade, no sei. Deixo Atlanta dentro de dias.
       - Que vai fazer entretanto? - perguntou Camille, abrindo os olhos, com a curiosidade prpria de uma criana. - O pap disse-me que j fecharam o negcio.
       - Pois j. Mas s h comboio para So Francisco na prxima segunda-feira.
       - Oh, que bom! - A jovem bateu palmas com alegria e fitou-o com um grande sorriso nos lbios. - Ento, ter tempo para brincar.
       Jeremiah soltou uma gargalhada e deu-lhe um beijo na cara
       - Boa noite, pequena. J no tenho idade para brincar. Sou demasiado velho.
       E, sobretudo, demasiado velho para brincar com ela. No disse mais nada. S voltou a dar a mo  sua anfitri antes de subir para a carruagem. Na viagem de 
regresso ao hotel, deixou os pensamentos vaguear por aquela noite e, especialmente, pela sedutora Camille. Era uma menina extravagante, mas, com aqueles enormes 
olhos azuis e a sua astcia, conseguia sempre tudo o que queria, disso no havia qualquer dvida. Era fcil de perceber por que razo o pai a adorava tanto, apesar 
de ela tambm ser uma rapariga endiabrada. Fosse como fosse, o certo  que, enquanto pensava nela, Jeremiah sentiu uma estranha pontada de desejo, que o deixou um 
pouco aturdido, ao imaginar-se novamente a danar a valsa com ela entre os seus braos. Naturalmente, desejar uma rapariga como Camille tinha qualquer coisa de imoral. 
Fez, ento, um esforo para a afastar da sua mente e tentou substitu-la pela viso de Amlia, depois, de Mary Ellen, mas nenhuma delas conseguiu apagar Camille 
do seu pensamento. Finalmente, recostou-se no assento, desalentado. Naquele instante, s sabia uma coisa, se a tivesse ali ao seu lado, menina ou no, estreit-la-ia 
entre os seus braos. Havia nela algo de to extico, to sedutor e sensual, que quase o fazia perder a razo. Por motivos que no conseguia compreender, Jeremiah 
sentiu-se assustado E, de repente, ficou ansioso por deixar Atlanta e voltar para a Califrnia Porque, se ficasse era impossvel prever o que poderia acontecer.
       
      6
       
       O dia seguinte amanheceu quente e resplandecente de sol, e o ar cheirava a Primavera. Jeremiah levantou-se lentamente da cama, vestiu o roupo e foi at  
varanda. Estava determinado a atacar uma pilha de papis que espalhara propositadamente em cima da secretria, mas, mais uma vez, os seus pensamentos saltaram para 
a bela ninfa que conhecera na noite anterior, o que o deixou furioso consigo mesmo. E o pior de tudo era que teria de esperar mais dois dias e meio em Atlanta pelo 
comboio para a Califrnia.
       Jeremiah premiu o boto de chamada do quarto, e, pouco depois, apareceu um criado para levar o seu pedido para o pequeno-almoo. Meia hora depois, chegou 
um tabuleiro cheio de salsichas com ovos, bolachas, mel, sumo de laranja, caf e um cesto de fruta fresca, mas, ao olhar para tudo aquilo, no sentiu qualquer apetite, 
s o desejo de voltar a ver Camille lhe povoava o esprito. Desesperado, deu um murro na mesa, ao mesmo tempo que soou outra pancada na porta. Surpreendido, foi 
abri-la e deparou-se-lhe o criado dos Beauchamp.
       - Sim? - Jeremiah estava desconcertado e embaraado com o murro que dera na mesa, embora o criado no o tivesse ouvido.
       - Um bilhete para o senhor.
       O criado sorriu e entregou a Jeremiah um envelope com o seu nome escrito com uma letra delicada e cheia de floreados. Depois de alguns instantes de hesitao, 
Jeremiah pegou no envelope. O seu portador ficou  espera da resposta, tal como lhe haviam dito
       "Est um dia magnfico para passear no parque", rezava o bilhete numa letra quase infantil. "No quer juntar-se a ns esta tarde. Almoamos em casa, depois 
vamos todos at ao parque. Estar em segurana", acrescentou Camille provocadoramente, "e talvez tambm possa ficar para jantar."
       Tal como tivera ocasio de comprovar na noite anterior, a rapariga no tinha nada de tmida. Jeremiah no sabia o que fazer. O simples pensamento de voltar 
a v-la atormentava-o, mas no sabia se Orville Beauchamp gostaria de ver o seu parceiro de negcios a passear pelo parque com a sua filha de dezessete anos E aparecer 
 sua porta de casa  hora das refeies. Achava um abuso. No entanto, queria v-la. No conseguiu reler o bilhete sem perder a serenidade. Finalmente, voltou-se, 
atirou-o para cima da mesa e pegou numa pena e numa folha de papel. No sabia o que havia de dizer a uma rapariga de dezessete anos. No estava habituado a cortejar 
raparigas de to tenra idade, porm, Camille Beauchamp no tinha nada de infantil. Era, em quase tudo, uma mulher jovem, bonita e tentadora. Se puder contar com 
a complacncia de sua me, Miss Beauchamp", escreveu, adoraria almoar e passear pelo parque com a sua famlia e os seus amigos". no queria escrever nada que pudesse 
sugerir um encontro clandestino ou sequer um encontro solitrio. Entretanto, continuo seu obediente servo, Jeremiah Thurston. 
       Tanto Camille como Jeremiah s perceberam o verdadeiro significado das palavras quando se voltaram a encontrar. Jeremiah sentiu o corao bater com tal fora 
que parecia que lhe ia sair do peito. A rapariga trazia um vestido simples de renda branca, e os brilhantes cabelos negros, presos apenas por uma fita de cetim azul, 
danavam em longos e graciosos caracis sobre as costas. Enquanto passeavam pelo parque antes do almoo, Camille parecia, mais do que nunca, uma menina pretensiosa 
e, ao mesmo tempo, uma jovem mulher extremamente bela. 
       - Fico to contente por ter decidido vir, Mister Thurston. Ter que ficar num hotel sem fazer nada deve ser tremendamente aborrecido.
       - Se .
       Jeremiah escolhia as palavras com cautela. Camille no era uma pessoa aborrecida. Porm, provocava-lhe uma sensao de perigo. A sua beleza era em si perigosa. 
Pela primeira vez na vida, sentia-se capaz das loucuras mais desenfreadas. Apetecia-lhe agarr-la pela cintura, pux-la para os seus braos, atirar a sombrinha para 
o cho e passar-lhe os dedos pelos cabelos. Virou a cara para o lado, para lutar contra os seus prprios desejos e quebrar o feitio. E perguntou-se se a sua recente 
conteno perante Amlia no o fazia desejar Camille com maior intensidade.
       - No se sente bem? - A rapariga dera-se conta da sua dolorosa expresso e, com ar preocupado, pousou a mo delicada sobre o brao de Jeremiah. - Faz um calor 
to terrvel aqui, no Sul. Talvez no esteja acostumado...
       Ao ouvir aquelas palavras de inquietao, Jeremiah voltou-se para Camille. Como era inocente! Sentiu-se quase desfalecer de desejo por ela. Nunca pensara 
que os seus sentimentos fossem to fortes. Todavia, ela no passava de uma menina. Mas, de cada vez que dizia isso a si prprio, no ficava plenamente convencido. 
Na realidade, ela tinha mais de mulher do que de menina. O prprio Orville Beauchamp sabia isso...
       - De modo nenhum, estou timo. Est-se to bem aqui, no seu jardim. - Jeremiah fingiu admirar os canteiros de flores para no a encarar. De sbito, soltou 
uma gargalhada. Era absurdo que um homem da sua idade estivesse to apaixonado por uma rapariga, por mais encantadora que ela fosse. Ento, voltando-se de novo para 
Camille, resolveu contar-lhe como se sentia, com a esperana de aliviar o seu obsessivo desejo.
       - Sabe uma coisa, Miss Beauchamp? - A menina d-me a volta  cabea.
       A franqueza das suas palavras deixaram-no um pouco mais aliviado. Os seus sentimentos no eram srdidos, mas doces. E Camille riu-se, deleitada.
       - A srio? Tambm j  crescidinho... - Foi a resposta adequada para a situao. Riram-se, e Jeremiah deu-lhe o brao e dirigiram-se, de brao dado, at casa, 
para almoar. Falaram do tempo e das festas a que Camille fora recentemente. Ela queixou-se de que os jovens de Atlanta eram uns imbecis. - Eles no so... - Levantou 
os olhos para ele e franziu o sobrolho, esforando-se por encontrar a palavra apropriada. - No so... importantes, como voc ou o pap.
       - Um dia, podem chegar a ser muito mais importantes do que ns.
       - Sim - concordou Camille, admitindo que Jeremiah podia ter razo, - mas, entretanto, so uns maadores... uns chatos.
       - Que desconsiderao, cara Miss Beauchamp.
       Sem saber exatamente por que, aquela rapariga divertia-o. Mesmo quando se mostrava insuportvel e mimada, achava-a encantadora e divertida.
       - As pessoas amveis tambm me aborrecem. - Camille piscou o olho a Jeremiah, e este no conseguiu conter o riso.
       - A minha me  sempre amvel. - Revirou os olhos e deu uma risadinha, meneando o dedo na direo da progenitora.
       - Devia ter vergonha. A amabilidade  uma das virtudes mais encantadoras numa dama.
       - Ento, no sei muito bem se quero ser uma dama quando crescer, Mister Thurston.
       - Que barbaridade!
       H muitos anos que Jeremiah no passava um bocado to divertido como aquele. Quando, na mesa preparada para o almoo, se sentou ao lado de Camille, Orville 
Beauchamp pareceu particularmente deleitado ao ver Thurston to divertido com a filha. No mostrara a menor estranheza por voltar a ver Jeremiah entre eles, pois 
Camille explicara-lhe rapidamente que convidara Mister Thurston para almoar e dar um passeio pelo parque. Tudo o que a rapariga fazia parecia ter a aprovao do 
pai. S a me se mostrava em constante estado de nervosismo, sempre com medo de um aziago golpe do destino. Em vivo contraste com a felicidade e a alegria de que 
dava mostras a sua filha, exibia o ar mais melanclico que Jeremiah alguma vez vislumbrara numa mulher. Camille aparentava sempre um ar descontrado. Mas quando 
no estava, no o dissimulava, como sua me sabia muito bem.
       - A minha filha est a portar-se bem, Mister Thurston? - perguntou Beauchamp do outro lado da mesa
       - Sem dvida alguma, Mister Beauchamp. Estou encantado.
       Camille tambm parecia estar encantada, a julgar pelo brilho no olhar quando levantou os olhos para Jeremiah. A rapariga manteve ento uma postura mais recatada 
at final do almoo. S quando passeavam no parque  que voltou a embaraar Jeremiah.
       - Voc no acha que eu tenha idade suficiente para ser levada a srio, pois no? - Camille olhou-o nos olhos e ficou  espera de uma resposta, mas Jeremiah 
fingiu um ar de despreocupao.
       - Que quer dizer com isso, Camille?
       - Sabe muito bem ao que me refiro.
       - Levo-a muito a srio,  uma rapariga excepcional.
       - Mas acha-me uma criana. - Parecia irritada. Porm, no teria motivo para estar se tivesse podido ouvir a rapidez com que o sangue lhe corria nas veias.
       -  uma criana encantadora, Camille. - O sorriso de Jeremiah era clido, mas no tanto como o fogo que se vislumbrava no olhar de Camille, que o fitava, 
furiosa.
       - No sou uma criana. Tenho dezessete anos - declarou a rapariga, como se quisesse dizer noventa e trs, mas Jeremiah no se riu.
       - Eu tenho quarenta e trs. Podia ser seu pai, Camille. No h nada de mal em ser-se menina. Em breve, deixar de o ser, e ento querer que as pessoas a 
vejam como quando era jovem.
       - Mas no sou uma criana. E voc no  meu pai.
       - Oxal fosse. - Jeremiah falava num tom apaziguador, mas o fogo no olhar de Camille no decrescia.
       - Voc no desejava ser meu pai.  mentira. Lembro-me muito bem de como me olhava enquanto danvamos ontem  noite. Mas hoje no pra de dizer que sou filha 
do Orville Beauchamp, que no passo de uma criana. Pois bem, no tenho nada de criana, sou muito mais mulher do que pensa.
       Ato contnuo, encostou o seu corpo ao de Jeremiah e beijou-o nos lbios. Este ficou to surpreendido que quase deu um passo atrs, mas sentiu que, se tinha 
de mover-se para algum lado era precisamente na direo de Camille e, sem pensar, deixou que o desejo tomasse conta da situao: estreitou-a entre os braos e beijou-a 
com toda a paixo que sentia por ela. Quando os seus lbios se separaram, Jeremiah ficou horrorizado com o que fizera. Nem sequer se recordava que fora ela quem 
o beijara primeiro.
       - Camille... Miss Beauchamp... peo imensa desculpa...
       - No seja tonto... fui eu que o beijei... - Camille parecia no ter perdido o sangue-frio, e demonstrava que conservava o domnio sobre si mesma, dando-lhe 
o brao e dizendo-lhe, ao ver que os outros se haviam distanciado: -  melhor continuarmos a andar para que no se apercebam de que...
       Jeremiah aceitou, sem dizer palavra, o brao que Camille lhe oferecia e, pouco depois, desatou a rir. Nunca lhe acontecera uma coisa daquelas. Camille era 
a rapariga mais terrvel que conhecera
       - Como  que se atreveu a fazer tal coisa.
       - Ficou chocado? - Camille parecia um pouco preocupada, mas dominava nela uma clara expresso de felicidade
       Jeremiah teve vontade de parar de novo para a sacudir at ela gritar e depois abra-la contra si e teve de fazer um verdadeiro esforo para continuar a escut-la
       -  a primeira vez que fao semelhante coisa, sabe.
       - Espero bem que no. As pessoas podem comear a falar
       Jeremiah riu-se. Nunca imaginara ser beijado por uma rapariga de dezessete anos e, muito menos corresponder ao beijo. Enquanto pensava que tudo aquilo era 
um sonho, Camille fitou-o com os olhos cheios de curiosidade
       - Vai dizer-lhes.
       - Que acha que aconteceria se eu cometesse semelhante indiscrio. De certeza que a acorrentariam  cama durante uma semana ou um ano e o seu pai encher-me-ia 
de alcatro e penas e correria comigo da cidade ao pontap.
       A rapariga riu-se, evidentemente divertida perante tal perspectiva.
       - De qualquer forma, no acho que as coisas cheguem to longe. No  essa a minha maneira habitual de ir-me embora de uma cidade.
       - Ento no se v embora. - Os olhos de Camille eram quase suplicantes
       - Lamento, mas tenho mesmo de ir. Os meus negcios na Califrnia esto  minha espera
       Camille no ps qualquer objeo s palavras de Jeremiah, mas os seus olhos ficaram tristes.
       - Quem me dera que no tivesse de se ir embora. No h ningum como voc aqui. 
       - Estou certo de que h. Deve estar sempre rodeada de jovens janotas.
       - J lhe disse, so todos uns estpidos e uns chatos insistiu Camille, mal-humorada. Nunca conheci ningum como voc, sabe?
       - Bonitas palavras, Camille. - Jeremiah poderia ter dito a mesma coisa, mas no quis dar-lhe esperanas. - Espero que um dia nos voltemos a ver.
       - Est s a fazer-se simptico.
       De repente, pareceu que ia rebentar num pranto. Pararam de novo, e ela, levantando os olhos para ele, disse:
       - Detesto isto aqui.
       - Detesta Atlanta? - perguntou Jeremiah, surpreendido. - Por qu?
       Camille olhou para l das rvores do parque. Sabia muito bem o que estava a dizer. Sabia que a sua vida era muito diferente da que a me levara quando era 
nova. No ouvira dizer outra coisa durante toda a vida.
       - Seria diferente se vivssemos em Charleston ou Savannah, mas... Atlanta  diferente. Aqui, tudo  feio e novo. As pessoas daqui no so to gentis como 
as de outras partes do Sul, e quando l vamos, elas no nos tratam com mais simpatia. A minha me... conhece a diferena, no pra de nos falar nisso.  como se 
o meu pai no fosse suficientemente bom para ela, e acha que eu sou como ele. Fez uma careta. E com o Hubert ainda  pior.
       Jeremiah riu-se.
       - Detesto viver aqui. Toda a gente pensa assim. Aceitam a mam... mas falam pela calada do pap, do Hubert e de mim... No fazem isso no Norte. Estou farta 
disto tudo. Por muito dinheiro que os meus pais tenham, no param de falar de mim, de quem foi o meu av, donde vem a fortuna.. A mam no tem um chavo, mas acham 
que  to rica como nos velhos tempos... J viu coisa mais estpida?
       Os olhos de Camille chamejavam quando fitou Jeremiah. Ele sabia exatamente o que a rapariga queria dizer, mas era um assunto difcil de discutir com ela. 
O que o surpreendia era que Camille o tivesse trazido  baila de forma to cndida, era uma rapariga assombrosa. Nada lhe estava proibido, nem sequer os beijos e 
os abraos dele.
       - Daqui a poucos anos, Camille, ningum se preocupar com isso. A aceitao vem com o tempo, e talvez a... - gaguejou... - fortuna do seu pai... seja ainda 
demasiado recente. Mas, com o tempo, acabaro por esquecer. Quando os seus filhos andarem por a, s se lembraro de quem foi o seu av e de como andou bem vestida 
nos ltimos vinte anos. - Jeremiah, porm, no acreditava nisso, to-pouco ela. O Sul era diferente.
       - No me importo. Um dia, sairei daqui, irei para o Norte.
       - As coisas no so assim to diferentes. Em Chicago e em Nova Iorque, e inclusive em So Francisco, algumas vezes, as pessoas so esnobes, embora a seja 
um pouco diferente porque h muitos forasteiros.
       -  pior no Sul. Sei que . - Camille no estava totalmente enganada. Os olhos de ambos voltaram a encontrar-se enquanto ela observava o rosto de Jeremiah. 
- Quem me dera viver na Califrnia consigo.
       Jeremiah sentiu um choque ao ouvir aquilo e, de repente, perguntou-se se iria ser objeto de outra investida, coisa que no lhe desgostaria de todo. - Camille, 
porte-se bem! - Pela primeira vez, pareceu algo severo, mas ela tambm gostou daquela faceta de Jeremiah. - Por que razo  que ainda no se casou? Tem alguma mulher 
na Califrnia? - As coisas estavam a piorar. Nada detinha aquela rapariga"
       - Que quer dizer com isso? - Jeremiah virou a cara para o lado com certo ar de enfado.
       - Uma amante. O meu pai tem uma em Nova Orlees. Toda a gente sabe. No sabia? - Jeremiah ficou boquiaberto e olhou-a fixamente nos olhos. - Essas coisas 
no se dizem, Camille.
       - Mas  verdade. A minha me tambm sabe. - Ento perguntou: - E voc no tem nenhuma?
       - No. - Jeremiah afastou Mary Ellen da cabea. Afinal de contas, ela no era uma amante, e aquela criana no tinha o direito de saber nada disso. Nem de 
qualquer outra coisa sua. Era demasiado descarada. Que sabe dessas coisas? Sabia demasiado para uma rapariga de dezessete anos. De repente, Jeremiah mostrou o seu 
desagrado quando comearam a fazer o caminho de volta. Mas a maneira como ela lhe ps a mo sobre o brao voltou a avivar a paixo. -  uma atrevida, sabia? Uma 
megera. Se fosse minha filha, ou minha esposa, dava-lhe uns aoites todos os dias.
       - No daria, no. - Camille riu melodiosamente, adivinhando-lhe os pensamentos. - Amar-nos-amos com tal fervor que nem sequer pensaria em semelhante barbaridade.
       - Que a faz estar to segura disso. Punha-a mas era a esfregar o cho, a arrancar ervas daninhas e a trabalhar nas minas... - Ao dizer isto, Jeremiah estava 
a ceder novamente ao jogo da rapariga. Mas como no faz-lo? Havia nela algo completamente irresistvel.
       - No, no me poria a fazer essas coisas. Teramos uma criada.
       - Nem pensar. Trat-la-ia como uma ndia.
       Era bvio que Camille no acreditava numa nica palavra do que ele dizia. Ao abandonarem o parque, Jeremiah deu consigo demasiado prximo dela, submerso no 
seu delicado perfume, no ruge-ruge das sedas, no calor do brao delicado, na graciosidade do pescoo... das orelhinhas.. e viu-se de novo inundado por nova onda 
de desejo. De repente, afastou-se dela. Que raio estava aquela rapariga a fazer-lhe? Quando levantou de novo os olhos para ele, havia algo de diablico no olhar 
de Camille.
       - Gosto muito de si, sabe? - disse Camille. A tarde estava no fim e o aveludado do cu era to suave como a sua pele.
       - Tambm gosto de si, Camille.
       Jeremiah vislumbrou, com espanto, uma lgrima ao canto do olho da rapariga.
       - Voltaremos a ver-nos?
       - Espero que sim. Um dia.
       A partir daquele instante, falaram muito pouco. Regressaram a casa, de brao dado, e Jeremiah experimentou uma sensao de perda quando se despediu de Camille 
e voltou Para o hotel. Durante toda a noite, s voltas na cama, s a custo a conseguiu tirar da cabea. E mais perturbado ficou quando, no dia seguinte, recebeu 
um bilhete de Orville Beauchamp a convid-lo para jantar. Quando viu Camille, deu-se conta das desesperantes saudades que sentira desde a noite anterior, o que era 
uma situao ridcula para ele. Mas os seus olhos acariciaram o rosto da rapariga, e ela pareceu aliviada por voltar a v-lo, como se tivesse temido nunca mais o 
encontrar. E mal tiraram os olhos um do outro durante todo o jantar. Orville tambm deu por isso, e o filho parecia divertido. Quando, finalmente, Orville e Jeremiah 
se encontraram a ss  hora dos charutos e do conhaque, Orville Beauchamp olhou diretamente para ele. Falou sem prembulos, e Jeremiah sentiu como que um murro no 
peito ao ouvir o som do nome dela.
       - Thurston, a Camille  tudo para mim. - Jeremiah corou, como se fosse um jovem.
       - Compreendo-o perfeitamente.  uma rapariga encantadora. - Oh, Deus! Que fizera? Teria Orville sabido que a beijara? Sentiu-se como um mido travesso que 
est prestes a receber uma dura reprimenda, mas no podia negar que era merecida. E ficou nervosamente  espera.
       - O que me interessa saber  at que ponto  que a acha encantadora - disse Beauchamp, de olhos fixos nos de Thurston. 
       A franqueza de Orville quase deixou Thurston sem palavras. Na realidade, ele merecia o que estava a acontecer. No tinha o direito de namoricar uma rapariga 
to nova. Todavia, surpreendentemente, Orville no parecia preocupado, o que no obstava a que Jeremiah tivesse de encontrar uma resposta adequada. 
       - No sei se percebo o que quer dizer. 
       - Suponho que ouviu bem. At que ponto  que se sente atrado pela minha filha?
       - Oh, meu Deus... Ela  muito atraente... Mas apresento as minhas desculpas se, de algum modo, ofendi involuntariamente o senhor ou Mistress Beauchamp... 
eu... realmente, no h desculpa para... 
       - Deixe-me falar! Os homens parecem moscas tontas  volta dela. Novos, velhos, todos ficam meio loucos quando ela os fita com os seus olhos azuis, e a Camille, 
no tenha a menor dvida disso, Thurston, tem plena conscincia do seu poder. No me queixo de nenhuma afronta. S quero fazer-lhe uma pergunta direta de homem para 
homem. Mas talvez seja melhor explicar-me primeiro. Ela  o ser que mais amo nesta vida Se tivesse de abdicar de tudo, dos negcios, do dinheiro, da casa, da mulher, 
para poder salvar algum... esse algum seria Camille. Na realidade, ela  a nica pessoa que me preocupa. - Reconsiderou as palavras e acrescentou: - Bem, quase 
a nica pessoa - Sorriu, e o seu semblante ficou mais sereno. - E quero tir-la do Sul. No  o stio adequado para uma rapariga to inteligente. Aqui, so todos 
uma cambada de mentecaptos, muito bem-educados. Bajuladores, mas sem dinheiro, e os que o tm, como eu, no pertencem ao tipo de homem que desejo para Camille. So 
broncos e rudes, pouco refinados, e mais de metade deles no possuem a inteligncia dela,  uma rapariga notvel em muitos aspectos, eu diria que excepcional, por 
isso no se encaixa aqui. Os homens como o av so dbeis, choramingas e pobres, os outros valem muito pouco. Thurston, no h aqui ningum suficientemente bom para 
ela. Nem em Atlanta, nem em Charleston, nem em Savannah, nem em Richmond, nem em nenhum lugar do Sul. Estava a pensar em lev-la a Paris no prximo ano para a apresentar 
 aristocracia. - Jeremiah duvidava que Beauchamp conseguisse aquilo que queria, mas s vezes eram surpreendentes os milagres que o dinheiro possibilitava. - De 
fato, h muito tempo que ando a prometer-lhe a viagem. Porm, quando voc entrou na nossa casa a semana passada... tive uma idia extraordinria.
       Jeremiah sentiu todo o seu corpo gelar. Toda a sua vida estava prestes a dar uma volta. Tinha esse pressentimento.
       - Voc  o homem perfeito para ela E a Camille parece ter um fraquinho por si.
       Jeremiah pensou logo no beijo com que ela o atacara no dia anterior, e que no o repugnara em absoluto.
       - Voc  um bom homem. Ouvi toda a gente dizer, e eu prprio gosto muito de si. Sempre confiei mais no instinto do que em qualquer outra coisa, e, desta vez, 
o instinto diz-me que voc daria um bom marido para ela. No  qualquer pessoa que tem mo na Camille.
       Jeremiah riu-se, era uma idia irresistvel, e ficou de olhos fixos no seu anfitrio.
       - Bem, que me diz? Estaria interessado em casar com a minha filha?
       Era a pergunta mais direta que alguma vez lhe haviam feito, como se lhe quisessem vender gado, terras ou uma casa, e mesmo assim tinha o insano desejo de 
dizer que sim. Jeremiah teve de inspirar fundo e pousar o copo antes de responder a Orville e romper o silncio que se instalara entre eles.
       - No sei por onde comear, e no estou certo do que devo dizer-lhe, Beauchamp. A Camille  uma rapariga excepcional, no h a menor dvida a esse respeito. 
E sinto-me profundamente lisonjeado por tudo aquilo que acaba de dizer.  fcil de ver o grande carinho que tem pela sua filha, e a Camille  plenamente merecedora 
dos sentimentos que nutre por ela. - Jeremiah sentiu novamente o corao a palpitar. Na realidade, no deixara de o fazer desde o momento em que a vira pela primeira 
vez, mas o que dissesse agora poderia afetar o resto da sua vida. Era importante que pesasse as palavras com mais cuidado com que pesava as pepitas de ouro. - No 
entanto, devo lembrar-lhe que tenho quase o triplo da idade dela
       - No ser tanto. - Orville Beauchamp no pareceu muito preocupado.
       - Tenho quarenta e trs anos. E ela, dezessete. Julgo que a ela no lhe agradar esta diferena de idades. Alm disso, vivo a quatro mil quilmetros daqui, 
num lugar muito menos sofisticado que este. Disse que pensava apresent-la  aristocracia de Frana... Sou um simples mineiro... levo uma vida pacata, numa casa 
vazia, a quinze quilmetros da cidade mais prxima. No  uma vida muito atraente para uma jovem.
       - Se fosse esse o nico obstculo, s teria de mudar-se para a cidade. Para So Francisco. No h razo que o impea de dirigir as suas minas da. J devem 
estar organizadas. Caso contrrio, no poderia encontrar-se aqui neste momento.!
       Jeremiah teve de reconhecer que era verdade. Poderia construir uma casa na cidade e, com o tempo, ela ir-se-ia acostumando  vida do campo. Orville esboou 
um sorriso. - Talvez a mudana lhe fizesse bem. s vezes, penso que a vida que leva aqui  demasiado frvola, embora tenha de confessar que sou, em parte, responsvel 
por isso. No quero que se aborrea, por isso no paramos de a levar a festas e bailes. Mas o seu estilo de vida, Mister Thurston, poderia fazer-lhe um grande bem. 
- O pai de Camille franziu o sobrolho. - Mas no  essa a questo. A verdadeira questo  conseguir chegar a am-la?
       Jeremiah Thurston soltou um suspiro, como se fosse o ltimo.
       - Nunca imaginei que tivesse de pronunciar-me sobre isso, mas creio que  muito possvel que a ame j. Para dizer a verdade, no compreendo o que sinto por 
ela, e tenho-me debatido com isso desde a primeira vez que a vi, quanto mais no seja por respeito em relao a si. Ela no passa de uma rapariga, e eu talvez seja 
demasiado velho para ela. Como j lhe disse, levo uma vida simples e pacata, e h muito que deixei de ter esse tipo de sonhos. - Todavia, as horas que passara com 
Amlia no comboio haviam encontrado um profundo eco na sua alma e, antes disso, vira morrer o filho de John Harte nos seus braos. Pela primeira vez desde h vinte 
anos, queria ter o que nunca possura, uma esposa a quem amar e o seu prprio filho, algo muito diferente da convivncia com Hannah ou das noites de sbado com Mary 
Ellen Browne E, de repente, aparecera-lhe Camille, como uma viso de sonho, a personificao de tudo o que nunca tivera nem pensara vir a ter. - A semana passada 
aconteceu-me uma coisa inslita, - foi a nica coisa que conseguiu dizer, - e preciso de mais algum tempo para refletir. - Havia uma grande confuso de sentimentos 
na sua cabea. Primeiro, Amlia, agora, aquilo.
       Orville Beauchamp no pareceu descontente
       - Sim, ela ainda  demasiado jovem. E no quero que comente nada disto com ela.
       Jeremiah ficou surpreendido
       - Tambm no tinha a menor inteno de o fazer. Preciso de tempo para refletir. Quero ver o que acontece quando voltar para a minha vida diria, para a casa 
vazia, para as minas. - Suspirou perante aquela perspectiva e pensou, pela primeira vez, que era um homem desesperadamente solitrio.
       De repente, teve a sensao de que precisaria dela l. Nunca lhe acontecera aquilo com nenhuma mulher...  exceo de Jennie... - No sei muito bem o que 
sinto pela Camille. Neste preciso momento, apetecia-me pedir-lhe a mo dela... - A voz era profunda e rouca por causa da emoo... - mas quero ter a certeza de que 
a nossa unio seria a coisa mais acertada para os dois. Que idade  que ela tem agora? - Naquele momento, s conseguia pensar nos olhos de Camille, nos seus braos... 
nos seus lbios..
       - Dezessete.
       - Se dentro de seis meses os meus sentimentos relativamente  Camille se mantiverem, virei pedir a sua mo. Com sua licena, virei a Atlanta e pedirei a sua 
filha em casamento. Ento, voltarei seis meses depois e lev-la-ei comigo.
       - Por que esperar tanto? Porque no a leva daqui a seis meses, se for essa a sua deciso?
       - Se ela aceitar casar comigo, quero construir-lhe uma casa decente na cidade.  o mnimo que posso fazer por ela. Esteja descansado, Beauchamp: se me casar 
com a sua filha, dar-lhe-ei a melhor vida possvel. - Os olhos de Jeremiah pareciam corroborar as suas palavras, e Beauchamp fez um gesto afirmativo com a cabea.
       - No tenho a mnima dvida.  por isso que lhe falei assim. E mantenho o que disse. Casar-se consigo ser a melhor coisa que lhe poder acontecer.
       - Assim espero.
       Os olhos de Jeremiah exibiam um brilho estranho. Tinha a sensao de ter feito o negcio mais importante da sua vida. Os novecentos frascos de mercrio acordados 
poucos dias antes no significavam nada para si. Mas Camille... era um sonho tornado realidade. Estava convicto de que voltaria da a seis meses. Quando, finalmente, 
saiu com Orville do seu isolamento na sala de jantar, Jeremiah olhou para Camille com outros olhos.
       - Que lhe disse o meu pai? - sussurrou ela. - Viram-nos a beijar?
       Todavia, a rapariga no parecia muito preocupada com semelhante possibilidade. Jeremiah achou graa  sua atitude Agora, era ele que tinha vontade de a tomar 
nos braos e de a beijar nos lbios.
       -Sim - respondeu ele em voz baixa, provocando-a. - Vo mand-la para um convento, onde ficar  guarda das freiras at cumprir os vinte e cinco anos.
       - No  possvel! - Soltou uma sonora gargalhada e gritou-lhe. - O meu pai nunca faria tal coisa! Ficaria rodinho de saudades!
       Aquelas palavras fizeram com que Jeremiah pensasse no sacrifcio que Beauchamp faria se ele se casasse com a filha e a levasse consigo, mas o homem tinha 
razo, era melhor para Camille. Na realidade, ela nunca seria aceite no Sul, fato que no ignorava. O sangue dos Beauchamp corria-lhe nas veias, e nunca lhe iriam 
perdoar isso. O irmo parecia no se importar, mas era evidente que aquele estado de coisas preocupava Camille. At a me se comportava como se algo cheirasse mal 
na casa, e falava de Savannah como de uma terra perdida para sempre, apesar de l ir vrias vezes por ano. Vivia no exlio.
       - Na realidade - explicou Jeremiah, sentindo-se estranhamente descontrado depois de ter acabado de decidir o seu destino, estivemos a falar de outro negcio. 
- Talvez tenha de voltar a Atlanta para fechar o contrato dentro de seis meses.
       Camille pareceu intrigada.
       - Mais mercrio? - perguntou, surpresa. - Pensei que o consrcio tinha o suficiente para um ano.
       Jeremiah estava cada vez mais espantado com aquilo que ela sabia e, sobretudo, com a sua perspiccia.
       -  algo mais complicado do que isso Explico-lhe noutro dia. - Olhou para o relgio. - Est a fazer-se tarde. Tenho de voltar para o hotel para ver se j 
me fizeram as malas. Vou-me embora amanh, pequena.
       De repente, teve a estranha sensao de que ela j lhe pertencia, mas no o demonstrou. Virou-se e disse algo  me, mas esta no pareceu prestar-lhe muita 
ateno. Afastou-se deles, deixando-os ss de novo.
       Camille fitou-o com os seus grandes olhos cheios de tristeza.
       - Se tiver tempo, talvez lhe escreva antes de c voltar.
       - Adoraria. - Mas Jeremiah precisava de tempo para refletir.
       A rapariga lanou-lhe ento um estranho olhar, como se soubesse...
       - O pap disse-me que este ano me levaria a Frana; talvez no esteja c quando voc vier...
       No entanto, Jeremiah sabia que estaria. A no ser que Beauchamp a vendesse, entretanto, a algum conde ou duque. A simples idia provocou-lhe um sentimento 
de revolta. Camille no era um objeto que se pudesse vender daquele modo, nem sequer a ele. Era uma mulher, um ser humano... uma criana... De repente, mais do que 
nunca, desejou dispor de tempo para pensar se Camille poderia ser ou no feliz com ele. Queria voltar a contemplar as colinas da janela do quarto onde dormia, e 
tentar imagin-la a consigo.
       - A Califrnia  to longe... - A voz de Camille era dbil e triste, e Jeremiah pegou-lhe na mo e apertou-a.
       - Voltarei. - Foi tanto uma promessa para Camille como para si prprio, pois naquele instante no sabia o que fazer. A sua vida nunca voltaria a ser a mesma, 
mas desejava mud-la por completo. Baixou os olhos para a rapariga que tinha diante de si e proferiu as palavras que ela desejava ouvir: - Amo-a, Camille... nunca 
se esquea disso... - Beijou-lhe delicadamente os dedos, depois, a face. Ato contnuo, deu um firme aperto de mo a Orville Beauchamp, enquanto trocavam um olhar 
cmplice, e saiu, no deixando ningum indiferente, comeando por ele prprio.
       
      7
       
       O barco chegou a Napa s primeiras horas da manh de sbado, e Jeremiah desembarcou com a inteno de alugar uma carruagem que o conduzisse at Santa Helena. 
Telegrafara para as minas a dizer que estaria de volta segunda-feira de manh. Dispunha, pois, de todo o fim-de-semana para pr em ordem a papelada e a correspondncia, 
e dar uma volta pelos vinhedos. J no cais, olhou ao seu redor e inspirou profundamente o ar que lhe era to familiar. Ao longe, as colinas pareciam ainda mais verdes 
do que trs semanas antes, quando deixara Napa. Ento, viu o rapaz que o conduzira at  estao e a quem prometera trabalho para as manhs de sbado: o pequeno 
Danny Richfield.
       - Ol, Mister Thurston! - gritou o rapaz, agitando o brao, do alto do assento da carruagem.
       Jeremiah avanou para ele, esboando um sorriso. Era bom encontrar algum conhecido, ainda que tratando-se de um rapaz que mal conhecia. Quando chegou prximo 
do moo, deu-se conta de que pouco mais novo era que Camille. Era uma sensao estranha. Enquanto sorria para Danny, atirou as malas para cima da carruagem.
       - Que fazes aqui?
       - O meu pai disse-me que o senhor chegava hoje, e ento perguntei-lhe se me deixava vir busc-lo de carruagem.
       Jeremiah sentou-se de um pulo ao lado do rapaz e, enquanto se dirigiam para casa, ps-se a par das ltimas novidades. Durante as duas horas e meia que durou 
a viagem, no parou de olhar ao seu redor com ar de felicidade. A paixo pelo vale de Napa era cada vez maior.
       - Est feliz por ter voltado, no est?
       - Estou, muito. - Jeremiah esboou um sorriso de felicidade. - No h no mundo outro lugar como este vale. No tenhas a mnima iluso a esse respeito. Talvez 
um dia cedas  tentao de vaguear pelo mundo, mas de uma coisa podes ter a certeza: nunca encontrars um lugar de que gostes mais do que este.
       Todavia, o rapaz no pareceu muito convencido com aquelas palavras. Havia lugares muito mais bonitos e interessantes no mundo, e ele sabia bem. Alm disso, 
queria ser banqueiro quando fosse grande. Qual seria o gozo de ser banqueiro no vale de Napa? No mnimo, queria ir para So Francisco... ou para Saint Louis... Chicago... 
Nova Iorque... Boston.
       - Divertiu-se.
       - Diverti.
       Enquanto olhava para o rapaz, voltou a recordar-se de Camille. Como estaria? Onde se encontraria naquele instante? Gostaria daquele lugar? Perguntas parecidas 
com estas no paravam de lhe matraquear o esprito durante a longa viagem de regresso, sobretudo agora que estava de volta ao vale de Napa. De repente, tentou ver 
tudo atravs dos olhos de Camille, imaginando a sua reao quando a trouxesse ali.
       Quando a carruagem se deteve diante de sua casa, Jeremiah manteve-se sentado durante um longo instante e olhou  sua volta. Que pensaria Camille de tudo aquilo?, 
interrogou-se. No era fcil imagin-la naquele lugar. E eram tantas as coisas que h muitos anos no fazia... como plantar canteiros de flores, pr cortinas, coisas 
em que Hannah deixara de insistir desde h muito tempo e que agora, de repente, significavam muito para si. Mas estava a precipitar-se. Viera para casa para ver 
o que sentia por ela, no para refazer todo o seu mundo com o fim de o adaptar s necessidades de Camille. Ou seria aquilo que queria fazer na realidade? Parecia 
j ter tomado uma deciso definitiva, mas havia algo que ainda tinha de resolver. E sabia muito bem o qu. Agradeceu ao rapaz por o ter conduzido at ali, e entrou 
silenciosamente em casa. Jeremiah no ignorava em que dia da semana se encontrava. Queria ir at s minas para ver como  que as coisas iam, mas depois daquilo... 
tinha de ser justo para com.. quem? Com Camille?, interrogou-se... ou para com Mary Ellen Browne?... Quando estava a chegar  concluso de que tinha a cabea demasiado 
cheia, viu Hannah, que o observava com a habitual cara de poucos amigos.
       - Bem, no pareces com muito m cara. - No houve da parte de Hannah abraos nem exclamaes de boas-vindas, mas Jeremiah sorriu-lhe. 
       - Apanhaste-me de surpresa. Que tal te tens dado desde a minha ausncia?
       - No muito mal. E tu, rapaz?
       Jeremiah riu-se. Para ela, continuava a ser um rapaz, e provavelmente continuaria sempre a s-lo.
       - Sabe bem sentir-me em casa de novo. - E assim era na realidade. O vale onde vivia significava mais para ele do que qualquer outro lugar do mundo. Mesmo 
tendo a sensao de que faltava algum ali ao seu lado. Mas talvez fosse por pouco tempo. Levantou os olhos e Hannah continuava de olhar fixo nele.
       - Que se passa, rapaz? Ests c com uma cara de caso! - Conhecia-o melhor do que ningum, o suficiente para ver que lhe acontecera algo enquanto estivera 
fora. - Portaste-te mal l para o Sul?
       - Um pouco. - Os olhos de Jeremiah sorriram.
       - Que queres dizer com "um pouco"?
       Era difcil de explicar, e Jeremiah no sabia por onde comear.
       - Bem, vejamos. Fechei um negcio muito importante. - Estava a tentar contornar o assunto, mas Hannah no gostava de rodeios.
       - Estou-me nas tintas para isso, tu sabes bem o que quero dizer. Que mais fizeste?
       - Conheci uma senhorita encantadora. - Jeremiah decidiu acabar com a curiosidade de Hannah. Os olhos da velhota brilharam.
       - Tinha assim tanto encanto, Jeremiah? Tiveste de pagar-lhe ou foi  borla?
       Jeremiah soltou uma gargalhada e a velhota sorriu.
       - Fizeste-me uma pergunta muito grosseira e imprpria de uma dama.
       -No sou nenhuma dama. V l, desembucha! - Jeremiah sorriu.
       - No, no tive de pagar-lhe. Tem dezessete anos e  filha do homem com quem fiz o negcio de que te falei. 
       - Agora andas atrs de crianas, Jeremiah? No achas que uma rapariga de dezessete anos  um pouco nova para ti? 
       Jeremiah franziu o sobrolho. Hannah tinha razo, e era 
       precisamente disso que ele tinha medo Sem querer, ela pusera o dedo na ferida E tentou varrer Camille do seu esprito.
       - Sim, receio que seja. Foi o que lhes disse, a ela e ao pai, antes de me vir embora. 
       De repente, manifestou-se alguma amargura no rosto de Jeremiah, e Hannah agarrou-o pelo brao, impedindo-o de sair da sala.
       - No, no vs j a fugir como uma vaca ferida, tonto. No estou  espera que andes atrs de uma cadela velha como eu. Talvez dezessete anos no sejam assim 
to poucos anos como isso. Diz-me como ela ? - Hannah tivera a sbita intuio de que podia tratar-se de uma coisa sria. - V l, Jeremiah. Fala-me dessa rapariga 
que conheceste. Gostas muito dela, no gostas, rapaz. - O olhar cruzou-se com o dele e, de repente, a velhota quase ficou sem alento. Nunca vira tanto amor nos olhos 
de um homem. No entanto, ele mal a conhecia. - Pelo que vejo, Jeremiah ests apaixonado, no ests? - O tom de voz era suave.
       Jeremiah fez um ligeiro gesto afirmativo com a cabea
       -  provvel que esteja, querida amiga. No sei. Preciso de pensar. Nem sequer sei se ela seria feliz aqui. Est habituada a um tipo de vida muito diferente 
no Sul.
       - Pois eu acho que seria uma rapariga cheia de sorte se resolvesses traz-la para c - ripostou Hannah bruscamente.
       Jeremiah sorriu
       - Eu  que seria um homem cheio de sorte.  uma rapariga muito especial, mais inteligente do que muitos homens, e mais bonita do que qualquer outra mulher. 
No se pode pedir mais.
       -  boa rapariga?
       Era uma pergunta inesperada e provocou uma estranha agitao na alma de Jeremiah. Boa rapariga. No a conhecia o suficiente para saber. Jennie era boa, decente, 
carinhosa, encantadora, amvel, Mary Ellen era uma mulher decente e Camille Era boa, inteligente, divertida, deliciosa, sensual, apaixonada, atraente.
       - Creio que sim.
       Por que razo  que haveria de no ser? Tinha dezessete anos Mas Hannah arranjara-lhe um novo motivo de preocupao, e ficaram de olhos fixos um no outro. 
       - Que vais fazer com a Mary Ellen, rapaz?
       -Ainda no sei. No pensei noutra coisa enquanto vinha para c no comboio.
       - J tomaste alguma deciso? D-me a impresso que sim.
       - Ainda no sei. Do que preciso, mais do que qualquer outra coisa,  de tempo... tempo para mim... para tomar uma deciso...
       O que significava manter-se afastado de toda a gente. Sabia o que tinha de fazer com Mary Ellen, mas amedrontava-o o simples pensamento de comunicar-lhe a 
sua deciso. Lembrou-se das palavras que ela proferira naquela ltima tarde de sbado... "V l se no encontras a rapariga dos teus sonhos em Atlanta." "No sejas 
tonta", ripostara-lhe ele... "No sejas tonta..." Todavia, fora o que fizera... Como conseguira fazer uma coisa daquelas ao fim de tantos anos? E agora ia pensar 
em dar uma volta completa  sua vida como nunca fizera por ningum, nem sequer por Mary Ellen Browne. A nica coisa que lhe dera fora uma noite por semana, e agora 
queria oferecer toda a sua vida quela rapariga travessa... No entanto, sentia algo por ela que nunca sentira por ningum. Era uma paixo que lhe abrasava a alma. 
Teria calcorreado quilmetros sem fim para ela, t-la-ia trazido ao colo atravs do deserto, teria arrancado o corao para lho oferecer. De repente, viu Hannah 
de olhos fixos nele.
       - Ests com um ar cansado.
       - Sim, acho que estou. 
       Jeremiah sorriu. Era uma espcie de cansao, um estado de insanidade mental por que nunca passara. E que se pode fazer num caso como este?
       - Vai atrs dela, se gostas assim tanto da rapariga, mas primeiro tens de fazer outra coisa.
       Ambos sabiam do que se tratava, e ele temia faz-lo. Mary Ellen fora muito boa para ele, e no queria feri-la depois de tantos anos, mas nada o deteria. No 
tinha alternativa. Voltou-se e olhou para o vale. Que lugar maravilhoso! Era difcil imaginar que algum pudesse sentir-se infeliz naquele lugar, mas, naturalmente, 
podia haver quem no o visse com os mesmos olhos. Voltou-se, ento, para Hannah.
       - Viste o John Harte? - Hannah abanou a cabea.
       - Ouvi dizer que no quer ver ningum. Trancou-se em casa e esteve bbedo durante mais de uma semana, e agora trabalha nas minas lado a lado com os seus homens. 
Perdeu quase metade deles durante a epidemia. - O semblante de Hannah tomou um ar triste. - Ns perdemos dois, mas no houve mais desgraas enquanto estiveste fora. 
Disse-lhe quem eram os homens com uma expresso desolada. Porque no havia modo de evitar calamidades como aquela? Que injusta era, por vezes, a vida. - Dizem que 
o John Harte se comporta agora como um louco. Trabalha noite e dia, grita com toda a gente e embebeda-se mal sai das minas. Acho que vai andar assim mais algum tempo.
       Jeremiah lembrou-se de novo da sua falecida noiva e, de repente, temeu pela vida de Camille. E se a rapariga adoecesse durante a sua ausncia? E se a encontrasse 
morta quando regressasse a Atlanta? Sentiu-se inundado por uma sbita onda de terror. Hannah vislumbrou-o no seu rosto e abanou a cabea.
       - Ests mesmo apanhado, rapaz
       - Eu sei. - Mal conseguia falar depois do pavor que sentira momentos antes.
       - Espero que ela te merea, pois vai ficar com um homem bom. - A velhota suspirou. - E receio que a Mary Ellen Browne esteja prestes a perder o melhor homem 
que alguma vez conheceu.
       - No... - Jeremiah voltou-se de novo. - No continues... Bolas!
       Talvez fosse um erro acabar a relao com ela agora, mas seria ainda pior no lhe dizer nada e casar-se com Camille... No, aquilo no seria justo para Mary 
Ellen. Soltou um profundo suspiro e levantou-se. Queria tomar banho e mudar de roupa antes de ir para a mina. Depois, teria de enfrentar Mary Ellen. H poucas semanas, 
lamentara ter de deix-la para partir de viagem, e agora ia dizer-lhe adeus. Que estranha era a vida! Olhou para a velha governanta e sorriu.
       - Pode ser que o que acontecer seja para o bem de todos.
       - Assim o espero. Sobretudo, para o teu.
       Jeremiah sorriu e saiu da sala Meia hora depois, encontrava-se no dorso do seu cavalo a caminho da mina.
       
      8
       
       Nessa noite, quando Jeremiah prendeu o cavalo  rvore que se erguia atrs da casa de Mary Ellen, no havia qualquer sinal das crianas. Deu a volta  casa, 
encaminhou-se para a porta principal e bateu. Mary Ellen abriu a porta quase de imediato. Envergava um bonito vestido de algodo cor-de-rosa e os cabelos acobreados 
brilhavam. E, antes que Jeremiah pudesse dizer sequer uma palavra, deitou-lhe os braos  volta do pescoo e beijou-o com ardor. Por instantes, ele hesitou, mas 
depois sentiu-se vencido pela habitual torrente de paixo e puxou Mary Ellen para si, sentindo, uma vez mais, o prazer do seu corpo nos seus braos. Porm, ao lembrar-se 
do intuito da sua visita, afastou-se dela e tentou evitar o seu olhar enquanto se dirigiam para a sala de estar.
       - Como tens passado, Mary Ellen?
       - Com muitas saudades tuas.
       Enquanto se sentavam na pequena sala, os olhos de Mary Ellen, que refletiam a felicidade de ver Jeremiah de novo, procuraram os dele. Raramente se encontravam 
ali, o que deixou Mary Ellen pouco  vontade, com a sensao de que ele era outra pessoa. Havia sempre um certo torpor quando regressava de uma viagem, mas ela sabia 
que, uma vez na cama, os seus sentimentos voltavam a ser como sempre haviam sido.
       - Sinto-me to feliz por teres voltado!
       Ao ouvir aquelas palavras, Jeremiah sentiu um aperto no corao. Era uma mescla de dor, pena e culpa. Mary Ellen olhava-o com ar implorante, e Jeremiah sentiu 
o estmago a revoltear-se. De repente, a viso de Camille voltou  sua mente, e ouviu de novo a voz de Amlia... "case-se"... e tinha razo. Mas pelo preo de abandonar 
Mary Ellen...
       - Tambm me sinto feliz por estar de volta. - No lhe ocorreu mais nada. - Como esto os midos?
       - timos. - Sorriu, quase envergonhada. - Levei-os para casa da minha me para o caso de vires. Ouvi dizer que chegavas hoje.
       Jeremiah sentia-se um estpido. Que podia dizer? H uma rapariga de dezessete anos em Atlanta...
       - Ests com ar cansado. Queres comer alguma coisa? - No disse a frase "antes de irmos para a cama", mas poderia t-lo feito.
       Jeremiah ouviu as palavras com toda a clareza e abanou a cabea.
       - No, no... estou bem... e tu, como  que tens passado?
       - Bem. - Sem dizer mais nada, Mary Ellen deslizou a mo para dentro da camisa de Jeremiah e beijou-o carinhosamente no pescoo. - Tive muitas saudades tuas.
       - Tambm tive saudades tuas. - Jeremiah estreitou-a entre os seus braos e apertou-a contra si, como que para a aliviar da dor que estava prestes a infligir-lhe; 
de repente, pensou que talvez fosse melhor no lhe dizer nada. Que necessidade tinha ele de o fazer? Todavia, f-lo-ia. E ele sabia-o. E ela tambm parecia saber. 
- Mary Ellen... disse pausadamente. Temos de falar.
       - No, agora no, Jeremiah. - Parecia assustada, e Jeremiah sentiu o corao bater com mais fora.
       - Sim, temos de falar... Eu... eu tenho de dizer-te uma coisa...
       - Por qu? - Os olhos de Mary Ellen estavam arregalados e tristes. Ela sabia o que se avizinhava. Estava certa disso. - Neste momento, no preciso de saber 
nada. Basta-me que estejas aqui comigo.
       - Sim, mas...
       Mary Ellen olhou para ele, aterrorizada. Seria algo mais do que a confisso de um deslize que cometera durante a viagem? De repente, teve a sensao de que 
ele ia mudar a sua vida por completo.
       - Jeremiah... - Pressentira isso mesmo antes da sua partida. Sempre receara que esse momento chegasse. - Que aconteceu? Talvez precisasse de saber.
       - No sei bem...
       Aquela incerteza ainda era pior. Era fcil de ver o estado de confuso em que Jeremiah se encontrava.
       - H outra mulher? - As palavras eram tensas, o semblante triste.
       Ao olhar para ela, Jeremiah sentiu como que uma facada no corao. Como  que ia conseguir dizer-lhe?
       - Creio que sim, Mary Ellen. No sei ao certo. - Procurou desesperadamente no pensar mais em Camille, mas as imagens da rapariga no desapareceram do seu 
esprito. - No tenho a certeza. Nas ltimas trs semanas, a minha vida deu uma volta completa.
       - Oh... - Mary Ellen recostou-se no pequeno sof, fingindo estar calma. - Quem ?
       -  muito jovem. Demasiado. - As palavras no podiam ser mais contundentes. - Pouco mais do que uma criana. E nem sequer sei o que sinto por ela... - As 
palavras foram perdendo a intensidade, e Mary Ellen ganhou novo alento. Inclinou-se para Jeremiah e ps a mo em cima da dele.
       - Que importa isso? No tens de me contar uma coisa dessas. - Afinal de contas, talvez tudo continuasse na mesma, mas Jeremiah abanou a cabea.
       - Mas eu acho que devo contar-te. A coisa pode ter grandes conseqncias. Disse ao pai que precisava de seis meses para refletir. Depois... talvez volte a 
Atlanta...
       - Para por l ficares? - Mary Ellen pareceu chocada. No compreendia, mas Jeremiah abanou a cabea de novo.
       - No. S podia dizer a verdade. Vou busc-la. - Mary Ellen ficou aturdida como se tivesse levado uma bofetada.
       - Vais casar-te com ela?
       - Talvez.
       Ficaram um longo instante sem dizer palavra, sentados lado a lado, como que paralisados. Mary Ellen fitou-o, ento, com uma expresso de tristeza no olhar.
       - Jeremiah, por que razo  que nunca nos casamos?
       - Porque no era o momento certo para nenhum dos dois, suponho. - Eram palavras sensatas ditas com brandura. - Na realidade, no sei. Sentamo-nos bem tal 
como estvamos. - Recostou-se no sof com um suspiro de cansao. De repente, deu a sensao de estar esgotado. - Talvez no seja um homem feito para o matrimnio. 
Essa  uma das coisas em que preciso de pensar muito bem.
       - So os filhos?  isso que queres?
       - Talvez. H muito tempo que deixei de pensar nisso, mas ultimamente... - Olhou-a com um ar triste. Mary Ellen... - no sei...
       - Porque no tentamos de novo?
       Jeremiah ficou to comovido que sentiu uma pontada de dor no peito quando ps a sua mo sobre a de Mary Ellen.
       - Como poderias cometer semelhante loucura? Disseste-me que da ltima vez estiveste s portas da morte.
       - Talvez desta vez fosse diferente. - Mas havia pouca convico no olhar.
       - Ests com mais idade agora, e j tens trs filhos maravilhosos.
       - Mas no so teus. - A voz de Mary Ellen soou como uma carcia. - Eu estaria disposta a tentar, Jeremiah... estaria disposta...
       - Sei que estarias. - Ento, ao no saber que mais lhe dizer, silenciou-a com um beijo, e apertou o corpo dela contra o seu at ficarem ambos sem alento. 
Foi Jeremiah quem, finalmente, quebrou o silncio. - Mary Ellen... no...
       - Porque no? - Os olhos estavam marejados de lgrimas... - Por que diabo no?... Amo-te, no sabes isso? - A voz de Mary Ellen tinha um tom to apaixonado 
que o deixou de corao destroado.
       Jeremiah tambm a amava, nutrindo por ela uma amizade e uma compaixo que j durava h sete anos. Mas nunca quisera casar-se nem viver com ela... tal como 
desejava faz-lo com Camille. Enleou-a nos seus braos e deixou-a chorar.
       - Mary Ellen, por favor...
       - Por favor, o qu? Por favor, adeus? Foi para isso que vieste aqui, no foi?
       Com os olhos tambm inundados de lgrimas, Jeremiah fez um gesto afirmativo com a cabea.
       - Mas  uma loucura. Nem sequer conheces essa rapariga... essa... criana!... E a nica coisa que queres  pensar nela nos prximos seis meses. Se precisas 
de meio ano para matutar no assunto, no deves estar bem certo do que vais fazer.
       Mary Ellen lutava pela sua vida, mas sentia que era uma luta inglria. Jeremiah levantou-se, olhou para o rosto destroado da mulher, que comeara a soluar, 
e tomou-a novamente nos braos. Nada mais havia para lhe dizer. Subiu lentamente as escadas, deitou-a em cima da cama e passou-lhe a mo pelos cabelos, procurando 
acalm-la como se ela fosse uma criana.
       - Mary Ellen, no fiques assim... Vais conseguir superar tudo isto...
       No entanto, ela mantinha um olhar desconsolado. Para ela, nada voltaria a ser como antes. As noites de sbado vazias estendiam-se  sua frente como um longo 
caminho solitrio. E que diriam as pessoas? Que Jeremiah a deixara? Nem queria imaginar as palavras da me... "Eu bem te tinha dito que isso acabaria assim, como 
se fosses uma pega..." E era precisamente aquilo que ela se sentia: a pega das noites de sbado de Jeremiah Thurston. Todos aqueles anos de orgulho, e agora ele 
abandonava-a. Deveria t-lo agarrado anos antes, disse para consigo, mas sabia que dificilmente se teria decidido a faz-lo. Ambos viviam muito bem com as coisas 
tal como estavam.
       Jeremiah sentou-se ao lado da cama, na nica cadeira que havia no quarto. No conseguiu reprimir um soluo. Finalmente, ela fitou-o com os seus enormes e 
tristes olhos verdes.
       - Nunca imaginei que isto pudesse acabar assim.
       - Nem eu. No precisava de to dizer hoje, mas no teria sido justo contigo. No queria faz-lo daqui a seis meses. Alm disso, ainda tenho de pensar.
       -E... - Soltou um pequeno soluo... - como  que ela ?
       - Para te dizer a verdade, no sei.  muito jovem e inteligente. - E, mentindo piedosamente, acrescentou: - Mas no  to bonita como tu.
       Mary Ellen sorriu. Jeremiah fora sempre amvel com ela.
       - No sei se hei-de acreditar.
       - Mas  verdade. s uma mulher muito bonita. E certamente haver outros homens. Mereces algo mais do que as noites de sbado, Mary Ellen. H muito tempo que 
isso me preocupa. Foi egosmo da minha parte.
       - No me importava.
       Jeremiah suspeitava que sim, mas ela nunca quisera for-lo a nada. Ento, lentamente, dos olhos de Mary Ellen recomearam a brotar lgrimas. A dor de a ver 
chorar foi tanta que Jeremiah beijou-lhe as plpebras e secou-lhe as lgrimas com os lbios. Mary Ellen estendeu ento os braos para Jeremiah e puxou-o para si, 
mas, desta vez, ele no conseguiu resistir-lhe. Apertou-a contra si e, num instante, ressurgiu o desejo que sempre sentira por ela. Nessa noite, quando Jeremiah 
adormeceu com a cabea junto  dela, nos lbios de Mary Ellen havia um sorriso. Ao apagar a luz, deu-lhe um beijo na face.
       
      9
       
       - Jeremiah!
       Na manh seguinte, quando Mary Ellen acordou, ele fora-se embora, o que a fez dar um pulo da cama, de olhos espavoridos.
       - Jeremiah!
       Desceu as escadas a correr, arrastando o roupo de cetim cor-de-rosa pelos degraus. A sua atraente figura fez com que Jeremiah se virasse para a observar 
desde a porta da cozinha.
       - Bom dia, Mary Ellen. Estava a pr duas canecas cheias de caf em cima da mesa. Fiz caf para estar pronto para beber quando te levantasses.
       Ela assentiu com a cabea e voltou a sentir-se amedrontada. Na noite anterior, ficara convencida de que ele mudara de idias, mas agora j no estava to 
segura disso. A voz era branda e assustada.
       - Vamos  igreja?
       s vezes era o que faziam. Mas agora j nada era como antes. Jeremiah fez um ligeiro gesto afirmativo com a cabea, bebeu um gole de caf e pousou a caneca.
       - Vamos. - Fez uma embaraosa pausa. - Depois, vou para casa. - Ambos sabiam que seria a ltima vez, mas Mary Ellen ainda no desistira da luta.
       - Jeremiah... - Mary Ellen soltou um profundo suspiro e pousou a caneca. - No tens de mudar nada. Compreendo. Foi honesto da tua parte teres-me falado... 
da rapariga...
       Quase se engasgava a dizer a palavra, mas no queria perder o seu homem.
       - Era a nica coisa que podia fazer. - Jeremiah parecia mais insensvel. Sabia que ia causar-lhe uma grande dor, mas no podia fazer outra coisa. Sentia-se 
com mais fora do que na noite anterior, o que aumentou os receios de Mary Ellen. - Tenho um grande carinho por ti. No podia estar a mentir-te acerca daquilo que 
me ia na cabea.
       - Mas ainda no ests seguro do que vais fazer. - As palavras saram como um lamento; o rosto estava tenso.
       - Queres esperar at que esteja? Dormir comigo at  minha noite de npcias?  isso que queres? - Levantou-se e, erguendo a voz, acrescentou: - Permite-me, 
por amor de Deus, que faa as coisas com honestidade. No piores ainda mais a situao.
       - E se acabares por no casar com ela? - Era uma objeo pattica, e Jeremiah abanou a cabea.
       - No sei. No me perguntes. Se no casar com ela, queres-me de volta? - Virou-lhe as costas e Mary Ellen ficou de olhos fixos nelas. - Depois de tudo isto, 
s poders odiar-me.
       - Nunca poderei odiar-te. Tens sido extremamente honesto comigo ao longo de todos estes anos.
       Aquelas palavras pioraram ainda mais o nimo de Jeremiah, e quando se voltou de novo para ela, tinha os olhos midos. De repente, avanou para ela e abraou-a.
       - Perdoa-me, Mary Ellen. No queria que a nossa relao terminasse assim. Nunca pensei que isto pudesse acontecer.
       - Nem eu.
       Mary Ellen sorriu, com os olhos marejados de lgrimas, quando ele a estreitou nos braos. Nessa manh, no foram  igreja. Em vez disso, voltaram para a cama 
e fizeram amor at  tarde, altura em que, finalmente, colocou a sela em cima de Big Joe, montou e ficou a olhar para Mary Ellen, que se encontrava debaixo do alpendre, 
com o seu roupo cor-de-rosa.
       - Cuida de ti, minha querida...
       As lgrimas corriam lentamente pelas faces de Mary Ellen.
       - Volta!... Estarei aqui  tua espera!... - Sem conseguir articular mais nenhuma palavra, Mary Ellen levantou uma mo.
       Jeremiah lanou-lhe um ltimo olhar e partiu para casa, sem ela, sem Camille, sem ningum. S. Como sempre estivera.
       
      10
       
       Nesse ano, no vale de Napa, o vero foi farto e quente. Os frascos de mercrio foram enviados para o Sul tal como ficara acordado na Primavera, as minas prosperaram, 
as uvas amadureceram, e Jeremiah sentia-se cada vez mais inquieto. Mais do que uma vez, teve a tentao de ir ver Mary Ellen a Calistoga, mas, apesar de estar a 
passar as noites de sbado mais solitrias da sua vida, no chegou a faz-lo. Em vez disso, foi vrias vezes a So Francisco visitar o seu bordel preferido. Mas 
persistia nele uma dor que ningum parecia conseguir mitigar. Hannah observava, preocupada, as suas idas e vindas, e a sbita expresso de alvio que mostrava o 
seu rosto sempre que, ao ir recolher o correio, encontrava uma carta de Camille.
       Camille enviara uma srie de cartas a Jeremiah desde que ele regressara. Eram cartas divertidas sobre as suas amizades, os bailes a que ia e as festas que 
os seus pais davam, sobre vrias viagens a Savannah, Charleston e Nova Orlees, e sobre uma rapariga desesperadamente feia que Hubert conhecera e que perseguia sem 
descanso porque o pai possua os melhores estbulos do Sul. As cartas eram divertidas e demonstravam uma extrema percepo das coisas. Jeremiah deleitava-se a ler 
as piruetas que Camille fazia com a pena, deixando sempre algumas insinuaes no final... como que para o seduzir... dar-lhe esperanas... para o trazer de volta 
a Atlanta. Ainda no havia qualquer evidncia de verdadeira paixo, e chegou a dizer-lhe que ele teria de a conquistar de novo quando voltasse. Ao chegar o ms de 
Agosto, Jeremiah no conseguiu agentar mais e reservou lugar no comboio. S se haviam passado quatro meses desde que a vira, mas agora j sabia o que queria, e 
Hannah tambm o sabia quando Jeremiah deixou Santa Helena. A velhota sentiu pena de Mary Ellen, que h vrios meses passava por grande sofrimento, mas tambm estava 
contente com a perspectiva de ver Jeremiah trazer uma mulher jovem para casa, que, em breve, ganharia vida com os gritos dos seus filhos e as gargalhadas da sua 
esposa.
       Jeremiah telegrafara a Orville Beauchamp a avis-lo da sua chegada, mas pedindo-lhe, ao mesmo tempo, que nada dissesse a Camille. Queria fazer-lhe uma surpresa 
para ver a sua reao. Quatro meses significavam muito tempo na vida de uma rapariga da sua idade, pelo que podia ter mudado de idias. Durante a longa viagem para 
o Sul, Jeremiah no conseguiu fazer outra coisa seno pensar naquele encontro iminente; e desta vez no havia nenhuma Amlia no comboio. Praticamente no falou com 
ningum, e encontrava-se nervoso e cansado quando chegou a Atlanta e viu a carruagem de Beauchamp  sua espera a fim de o levar para o hotel.
       Instalou-se numa esplndida sute e enviou um bilhete aos Beauchamp, que lhe responderam de imediato. Pediam-lhe o prazer da sua companhia ao jantar, e Orville 
Beauchamp assegurava-lhe de que ainda no dissera nada a Camille sobre a sua chegada. Jeremiah comeou, ento, a imaginar a surpresa dela ao v-lo de novo. Todavia, 
a alegria foi obscurecida de imediato por uma sombra de medo Quando nessa noite, s oito horas, subiu para a carruagem de Beauchamp, tinha as mos midas. Ao ver 
de novo a casa da sua amada, sentiu o corao bater mais forte.
       Conduziram-no  sala de visitas, faustosamente decorada, na parte da frente da manso, e, de imediato, apareceu o prprio Orville Beauchamp para lhe dar um 
forte aperto de mos. Quando recebera o telegrama da costa oeste, percebera logo que a viagem de Jeremiah significava boas notcias
       - Como tem passado? Que alegria voltar a v-lo por aqui, homem!
       Parecia verdadeiramente emocionado, e Jeremiah esperava que a filha se mostrasse igualmente encantada com a sua vinda.
       - Muito bem.
       - S espervamos v-lo daqui a dois meses. Havia uma pergunta nos olhos do pai de Camille.
       Jeremiah sorriu
       - No conseguia estar afastado dela mais dois meses, Mister Beauchamp - declarou Jeremiah com voz suave.
       O rosto do pequeno homem moreno iluminou-se de satisfao.
       - Sempre pensei que tomasse essa deciso... No esperava outra coisa de si...
       - Como est a Camille? Ainda no sabe que estou aqui?
       - No. - Mas veio na altura certa. A Lizabeth encontra-se na Carolina do Sul a visitar uns amigos, o Hubert tambm foi para fora, para comprar um maldito 
cavalo. Como tal, eu e a Camille encontramo-nos sozinhos e, por outro lado, a vida social da cidade  quase inexistente. Foram todos passar o vero fora. Mas, este 
ano, ela tem andado um bocado nervosa - sorriu - sempre ansiosa  espera do correio e fala de voc a todos os amigos e amigas. - No lhe disse que a rapariga se 
referia a ele como "o homem mais rico do Oeste e grande amigo do pap". No precisava de saber isso; s que ela falava dele aos amigos.
       - Talvez mude de opinio quando me vir de novo. - Era a preocupao que o atormentara durante toda a viagem. Afinal de contas, ela era uma rapariga muito 
jovem, e ele, um homem bastante mais velho. Talvez agora o achasse demasiado velho para ela.
       - Porque faria ela isso? - Beauchamp pareceu surpreendido.
       -  normal nas raparigas, como sabe. - Jeremiah sorriu, mas Beauchamp riu-se.
       - No, a Camille, no. Esta garota sabe o que quer desde que nasceu.  teimosa que nem uma mula. - Voltou a rir-se, orgulhoso da sua nica filha. - Talvez 
no devesse dizer-lhe, mas estou certo de que voc saber dom-la bem.  boa rapariga, Thurston, ser uma tima esposa. - Semicerrou os olhos quando olhou para Jeremiah. 
- Ainda mantm a inteno de casar-se com ela? - No conseguia imaginar que aquele homem viesse de to longe at Atlanta para outra coisa. E tinha razo.
       Jeremiah falou ento pausadamente.
       - Sim, no tenho outro propsito. E suponho que o senhor tambm no ter mudado de idias.
       - Pelo contrrio. Acho que faro um casal perfeito. - Orville levantou o copo para brindar a Jeremiah, que recebeu o gesto com um sorriso. Agora s faltava 
convencer Camille.
       Dez minutos depois, a rapariga entrou na sala, abrindo a porta de supeto, e pela manso flutuou uma viso envolta em seda amarela. Colares de topzios combinados 
com prolas danavam no seu pescoo, e nos seus cabelos soltos numa cascata de caracis escuros, detrs da orelha, havia uma rosa perfeita tambm amarela. Deslizou 
pela sala, de olhos fixos no pai, depois lanou um olhar indiferente ao amigo dele. Fazia um calor terrvel, e passara horas no quarto. Mas ao dar-se conta de quem 
era o homem que estava a falar com o pai, parou, tomou flego e, de repente, desatou a correr para ele e atirou-se-lhe para os braos, enterrando a cabea no seu 
peito Quando se afastou de Jeremiah, havia lgrimas nos seus olhos e um enorme sorriso. A sua expresso, que a fazia mais bonita que nunca, bastou para que o corao 
de Jeremiah voasse at ela e a ela ficasse unido para sempre. Nunca sentira nada semelhante por outro ser humano, e ficou sem alento ao contempl-la
       - Voltou!
       Foi um espontneo grito de alegria de Camille que fez rir o pai. Era algo digno de ser visto com agrado: o corpulento homem e a delicada rapariga, to apaixonados 
que a diferena de idades no importava absolutamente nada. A nica coisa que interessava naquele momento era a felicidade que os olhos dela irradiavam e a estima 
que havia nos dele. A paixo era desenfreada.
       - Claro que voltei, pequena. Disse-lhe que o faria!
       - Sim, mas no to cedo!
       Camille danava  volta de Jeremiah, batendo as palmas, e a rosa que tinha no cabelo caiu aos ps dele. A rapariga apanhou-a e, fazendo uma reverncia, deu-lha 
com um gesto discreto. Jeremiah riu-se. Era um riso nascido do xtase e do alvio que sentia E pde ver nos olhos da jovem que ela ainda gostava dele.
       - A mesma provocadora de sempre, Camille. Se acha que vim demasiado cedo, posso voltar para casa. - Enfiou a mo dela na sua sem desviar os olhos dos da rapariga.
       - No se atreva a faz-lo. No permitirei que se v embora de novo. Se o fizer, irei a Frana com o pap e caso com um duque ou um prncipe.
       -  uma ameaa encantadora! - Mas no deu mostras de preocupao. - Mais dia, menos dia, terei de partir.
       Quando?
       A pergunta foi mais um lamento de pavor, e Orville sorriu. Tinha a impresso de que fariam um casal perfeito. No havia a menor dvida de que Thurston amava 
a sua filha e de que ela estava apaixonada por ele. Do mesmo modo que Thurston estava encantado por poder desfrutar do afeto de uma rapariga, Camille sentia-se lisonjeada 
perante as atenes de um homem muito mais velho. Mas havia algo mais, algo que ardia entre eles, algo demasiado quente para se tocar.
       - No falemos j da minha partida, pequena. S cheguei hoje.
       - Por que razo  que no nos avisou da sua chegada? - perguntou, fazendo beicinho, no preciso momento em que o jantar foi anunciado e se dirigiram para a 
sala de jantar.
       - Mas avisei. - Jeremiah sorriu para Beauchamp, o que fez com que ela desse uma pancadinha de repreenso no brao do pai com o leque.
       - Foste indecente, pap! No me disseste nem uma palavra!
       - Achei que seria mais divertido se a visita de Mister Thurston te apanhasse de surpresa. - E no se enganara.
       Camille sorriu para os dois.
       - Quanto tempo ficar entre ns, Jeremiah? - perguntou Camille com ar imperial, gozando o seu poder. Sabia muito bem que Thurston era um homem muito importante, 
por aquilo que o pai lhe dissera vezes sem conta, e atravessara o pas de um extremo ao outro s para a ver. Ela tambm no se cansara de dizer aos seus amigos que 
se tratava de um homem importante. Era algo que significava muito para si.
       Jeremiah organizara as coisas nas minas de modo a permanecer um ms fora. Era o tempo mximo de ausncia que se poderia conceder, o que lhe permitiria passar 
mais de duas semanas com Camille; de qualquer modo, mesmo que ela desse O sim, teria de regressar a Santa Helena para organizar as coisas. Haveria muito que fazer. 
J tinha um plano. Hannah ficara nervosa que nem uma gata quando ele partiu e f-lo prometer que lhe escreveria a dar-lhe a conhecer a resposta de Camille. Mas os 
seus pensamentos no se centravam em Hannah naquele momento, mas na bela rapariga que tinha ao seu lado. Estava ainda mais bonita do que na primavera, e parecia 
mais mulher. Fez-lhe inmeras perguntas sobre as minas e queixou-se de que, nas suas cartas, nunca lhe dava muitas novidades.
       - No escrevi a muitas raparigas ao longo da minha vida. - Jeremiah sorriu-lhe.
       Pouco depois, Orville enxotou-a da sala. O mordomo serviu-lhes conhaque e charutos, e Beauchamp olhou para o futuro genro.
       - Pensa declarar-se esta noite?
       - Com sua permisso, sim. 
       - J sabe que a tem.
       Jeremiah soltou um pequeno suspiro enquanto acendia o charuto.
       - Gostaria de saber o que significo para ela.
       - Ainda tem dvidas?
       - Algumas. A Camille podia ter levado a coisa para a brincadeira, sem ter a menor idia de que estou disposto a pedir-lhe a mo. Poderia ser um fato aterrador 
para uma rapariga da sua idade.
       - Para a Camille, no. - Beauchamp insistiu na mesma tecla, como se a filha fosse diferente das outras raparigas, mas Jeremiah no estava to certo de que 
ela ia aceitar a sua proposta de casamento. - Gostaria de anunciar o noivado de imediato?
       - Sim. Antes de regressar. E comearia a pr em prtica os meus planos quando voltar para a Califrnia.
       - E que planos so esses? - Beauchamp fitou-o, interessado, curioso por saber o que Jeremiah tinha em mente para a sua filha.
       - Mais ou menos, os que me sugeriu antes. - Jeremiah foi cauteloso. Afinal de contas, Camille ainda no o aceitara, o que no impedia que no tivesse j pensado 
maduramente no assunto. Beauchamp tinha razo. Camille acabaria por acostumar-se a passar umas temporadas em Napa, o que a ele lhe daria ocasio de ir ver as minas 
de vez em quando. Construiria para ela uma casa em So Francisco, onde residiriam pelo menos durante os meses de Inverno, como era moda. Explicou os seus planos 
a Beauchamp, que se mostrou agradado.
       - E quando a casa estiver construda, aproximadamente dentro de cinco ou seis meses, voltarei para o casamento e depois levo-a para a Califrnia. Que lhe 
parece?
       - Perfeito. Em dezembro, ela ter dezoito anos. S faltam quatro meses... Acha que a casa poder estar acabada nessa altura?
       -  um prazo bastante curto, mas talvez sim. Eu estava a pensar em fevereiro ou maro, mas... - Jeremiah sorriu; parecia um mido. - Tambm gostaria que o 
casamento fosse em dezembro. - Agora, sem Mary Ellen, sentia-se muito s. - Farei todos os possveis para que esteja tudo pronto nessa altura. - Ento, de repente, 
levantou-se e, visivelmente nervoso, comeou a andar aos crculos pela sala.
       - No se preocupe com isso, homem. - Beauchamp sorriu. Pensou, ento, que chegara a altura de Jeremiah falar com Camille. Levantou-se para se ir embora e 
deixar que fosse o prprio Jeremiah a ir ao encontro dela no jardim. Estava sentada no seu balano preferido.
       - Vocs os dois j esto a falar h sculos. Beberam demais? - foram as primeiras palavras da rapariga.
       Jeremiah riu-se.
       - No muito.
       - Acho uma estupidez as mulheres terem de sair da sala para os homens poderem falar. De que falaram?
       - De nada importante. De negcios, das minas, um pouco de tudo.
       - E de nada mais?
       Camille era uma rapariga inteligente, e no desviou os olhos de Jeremiah enquanto imprimia um ligeiro movimento de vaivm ao balano.
       De olhos fixos nos dela, Jeremiah retorquiu numa voz suave e profunda:
       - Falamos de ti. - Sentiu o corao bater mais depressa. O balano parou.
       - Que disseram? - A voz da rapariga soou como um suspiro no aromtico ar do Sul.
       - Que queria casar contigo.
       Mantiveram-se alguns instantes em silncio. Ento, Camille, fitou-o com os seus enormes olhos acrianados.
       - A srio? - Ela sorriu-lhe e Jeremiah sentiu o corao a derreter-se. - Ests a troar de mim.
       Com voz sria e profunda, Jeremiah esclareceu:
       - No, Camille, no estou a troar de ti. Desta vez, vim a Atlanta para te ver e te pedir em casamento.
       A rapariga soltou um profundo suspiro e, de repente, como certa vez h algum tempo atrs, os seus lbios colaram-se aos de Jeremiah, que, desta vez, correspondeu 
ao beijo at a deixar sem alento. Depois, tomando-a carinhosamente nos braos, disse-lhe com voz terna:
       - Amo-te, Camille, e quero levar-te comigo para a Califrnia. 
       - Agora? - Camille pareceu espantada e Jeremiah sorriu. 
       - Agora, no. Daqui a alguns meses, quando tiveres dezoito anos e eu tiver acabado de construir uma casa para ti. - Estava de p diante dela. Tocou-a carinhosamente 
na face com uma mo e ajoelhou-se a seus ps, aproximando a cara dela da sua. - Amo-te, Camille... do fundo do corao... mais do que aquilo que algum dia possas 
imaginar. - Os olhares encontraram-se e ficaram fixos um no outro. De repente, a voz de Jeremiah fez estremecer a rapariga. - Queres casar comigo?
       Camille, que ficara sem palavras, assentiu com a cabea. H muito que esperava aquele momento, mas sempre lhe parecera um sonho distante. Ento, atirou os 
braos  volta do pescoo de Jeremiah.
       - Como ser a casa?
       Jeremiah, que no esperava tal pergunta naquele instante, deixou-se rir.
       - Como tu quiseres, meu amor. Mas ainda no me respondeste. Pelo menos, com palavras claras e concretas. Queres casar comigo, Camille?
       - Sim! - gritou, encantada, puxando Jeremiah para si, mas afastou-o, de imediato, com ar preocupado. - Terei de ter filhos se for tua mulher?
       Jeremiah ficou estupefato perante as inesperadas palavras. A pergunta embaraara-o. Era um assunto que ela tinha de discutir com a me, no com ele. E deu-se 
conta, uma vez mais, de que Camille ainda era extremamente jovem, apesar de s vezes parecer uma mulherzinha.
       - Acho que poderemos ter um ou dois filhos. - Jeremiah quase sentiu pena da rapariga. Ela prpria ainda era uma criana. - Importar-te-ias muito? - Era uma 
das coisas que ele mais desejava. Nos ltimos quatro meses, no pensara noutra coisa: nos filhos que teriam. Mas, agora, semelhante perspectiva parecia desanim-la.
       - Uma amiga da minha me morreu ao dar  luz o ano passado.
       Era um fato chocante, e Jeremiah sentia-se cada vez mais incomodado. Decididamente, no estava disposto a falar daquele assunto com ela.
       - Isso nunca acontece a mulheres jovens, Camille. - Mas ele sabia que acontecia. - No deverias preocupar-te com isso. As coisas acontecem naturalmente entre 
marido e mulher...
       Ela interrompeu-o, pouco impressionada com a argumentao.
       - A minha me diz que  o preo que as mulheres pagam pelo pecado original. Embora no ache justo que sejam s as mulheres a pagar. No quero engordar, nem...
       - Camille! - Jeremiah sentiu-se angustiado por aquilo que acabara de ouvir. - Querida... por favor... No quero que te preocupes com nada.
       Jeremiah tomou-a de novo nos braos, o que a fez esquecer aquilo que a me dissera, e a conversa passou para a casa que iria construir-lhe, para o casamento 
que teria lugar quando ela completasse os dezoito anos... para o anncio do noivado logo que a me regressasse... para a festa que o pai daria... para temas muito 
mais importantes, pelo menos para Camille, que o da maternidade.  noite, quando foi para a cama, a rapariga estava to excitada que no conseguiu pregar olho. Depois 
da conversa com Jeremiah, foi com ele anunciar a boa nova ao pai. Este deu um aperto de mo a Jeremiah, beijou a filha na face e, quando se foi deitar nessa noite, 
estava encantado. A filha ia ser uma mulher muito rica e muito feliz, o que o deixava imensamente satisfeito. E ainda mais radiante estava pelo fato de ter posto 
a idia na cabea de Thurston na primavera anterior.
       E a nica coisa em que Jeremiah conseguiu pensar naquela noite foi na pequena e deliciosa beldade de cabelos escuros que em breve jazeria nos seus braos. 
E no via a hora de isso acontecer. Estivera s durante aqueles ltimos meses e no voltara a ver Mary Ellen. Tambm no recebera notcias de Amlia, embora lhe 
tivesse escrito um ou dois meses antes para Nova Iorque a contar-lhe o que se passava com Camille. Mas agora tinha muito em que pensar... na noiva... e na espetacular 
manso que iria construir-lhe. Quanto  questo de ela no querer filhos, no estava preocupado. Era natural que uma jovem tivesse receios relativamente a isso. 
A me aconselh-la-ia, certamente, antes da noite de npcias, e o problema resolver-se-ia por si mesmo. Da a um ano, ou talvez antes, a sua esposa estaria a dar 
 luz, disse para consigo, quase vencido pelo sono. Nessa noite, adormeceu com um grande sorriso nos lbios e viu-se, em sonhos, na companhia de Camille, a contemplar 
os filhos a brincar nos prados verdejantes de Napa...
       
      11
       
       Elizabeth Beauchamp regressou de pronto a Atlanta mal recebeu a carta de Orville a dar-lhe a novidade. Hubert fez o mesmo, embora tivesse sido um pouco mais 
difcil de localizar. A famlia reuniu-se imediatamente, e enviaram-se convites a todos os amigos de Atlanta solicitando a sua presena na festa de noivado. E embora 
muitos deles se encontrassem ainda fora da cidade, foram mais de duzentos os que apareceram no dia da festa, na qual Camille, que envergava um vestido de organdi 
branco enfeitado com pequenas prolas, estava deslumbrante como nunca. Parecia uma princesa de um conto de fadas, com a sua pele cremosa e os seus cabelos negros, 
ao lado de Jeremiah, exibindo um sorriso radioso nos lbios e um anel de noivado com um diamante de doze quilates no dedo.
       - Meu Deus,  quase to grande como um ovo! - gritara a me ao ver a pedra do anel. Camille, irradiando felicidade, pusera-se a danar pela sala, enquanto 
o pai ria. - s uma desmiolada acrescentou a me, tambm a rir. E vais ser to rica, Camille! - Lanou um olhar de reprovao a Orville, que preferiu no lhe responder 
desta vez. Estava demasiado absorto a contemplar a filha.
       - Eu sei. E o Jeremiah vai construir-me uma manso maravilhosa, com tudo o que h de mais moderno e tudo o que quero! - Parecia uma menina de nove anos e 
a me franziu o sobrolho.
       - Que rapariga mais mimada que vais ser, Camille!
       - Eu sei. - A nica nuvem que lhe ensombrou o rosto foi a perspectiva de ter um filho, mas talvez fosse um pequeno preo a pagar. Falaria disso com a me, 
e perguntar-lhe-ia se poderia fazer algo para evitar durante algum tempo o seu motivo de preocupao. Ouvira falar dessa questo a algumas mulheres, mas, de momento, 
no queria tocar nesse assunto. Ainda faltava bastante tempo para a noite de npcias. - Tens conscincia da sorte que tens?
       - Tenho.
       Camille saiu precipitadamente da sala quando a criada lhe disse que Jeremiah se encontrava no piso inferior
       As duas semanas que Jeremiah passou em Atlanta foram quase um sonho: festas, piqueniques, presentes, anncios e beijos roubados, com as mos ao redor da esbelta 
cintura de Camille. No via o momento de a levar para sua casa, e foi de corao destroado que se despediu dela. desta vez No conseguia esperar mais tempo para 
a levar consigo Mas, antes, tinha muito que fazer: comprar um terreno e construir uma manso para a futura esposa. Passou toda a viagem de volta a delinear exatamente 
o que tinha em mente, e dessa vez, antes de voltar para Napa, passou trs dias em So Francisco a ver lotes de terreno de grandes dimenses, depois foi a vrios 
arquitetos para que eles comeassem a desenhar o projeto. No dia antes de regressar a casa, encontrou exatamente aquilo que queria para ela. O lote era enorme, quase 
a mesma rea de um quarteiro de casas, na orla sul de Nob Hill, com vista sobre toda a cidade. Semicerrou os olhos e sentiu que encontrara o lugar desejado. A manso 
seria ainda mais imponente do que as residncias dos Huntington, dos Croker, dos Mark Hopkins ou dos Tobins. E quando ao fim dessa manh foi ao ateli do arquiteto 
e descreveu aquilo que desejava, no conseguiu conter o riso quando o homem lhe disse que s da a dois anos  que teria exatamente aquilo que queria
       - Nem pensar, meu amigo. - O arquiteto pareceu desconcertado quando Jeremiah sorriu e acrescentou: - Eu pensava em algo menos de dois anos.
       - Um?
       O homem empalideceu e Jeremiah abriu ainda mais o sorriso. No conhecia Jeremiah Thurston... nem Camille Beauchamp, sobretudo quando se tratava de conseguir 
aquilo a que se haviam proposto. Jeremiah imaginava-a to exigente como ele, quando crescesse um pouco mais, e se habituasse a ser Mistress Thurston, e no estava 
muito longe da verdade
       - Estava a pensar em quatro meses, talvez cinco. - O homem ficou quase sem fala e Jeremiah riu-se.
       - No est a falar a srio, pois no? 
       - Estou a falar muito a srio
       Quase sem acabar de pronunciar aquelas palavras, Jeremiah sentou-se  secretria do arquiteto e passou um cheque de uma soma fabulosa. Eram os melhores arquitetos 
da cidade e haviam sido altamente recomendados pelos seus banqueiros. Entregou o cheque ao arquiteto e disse-lhe que lhe entregaria outro igual quando a obra terminasse, 
dentro de quatro, cinco meses no mximo. Era uma soma irrecusvel, que ajudava a ultrapassar o problema do tempo. Com aquela importncia de dinheiro, poderiam contratar 
um exrcito de trabalhadores para erguer a manso dentro do prazo exigido, no lote de Nob Hill, que, horas mais tarde, Jeremiah comprou, passando um cheque. Era 
um homem com quem era fcil negociar. E quando, ao entardecer, apanhou o barco que o conduziria a Napa, sentia-se plenamente satisfeito com o dia de negcios que 
tivera atrs de si. O prprio arquiteto iria a Napa da a uma semana para mostrar o projeto a Jeremiah e, com um pouco de sorte, as obras iniciar-se-iam dentro de 
dias. Jeremiah no queria perder nem um segundo, desejava que a casa estivesse terminada quando trouxesse a esposa do Este. J decidira passar a lua-de-mel em Nova 
Iorque, logo a seguir ao casamento, que se celebraria no ms de Dezembro, e depois levaria Camille para a casa de Napa e para a magnfica manso de So Francisco. 
Viveriam na cidade durante os meses de Inverno e, ao primeiro indcio de Primavera, mudar-se-iam para Napa at ao fim do Vero. Jeremiah pensou que seria uma vida 
perfeita, como perfeito era o projeto que o arquiteto lhe apresentou na semana seguinte. O homem tomara plena conscincia da importncia do projeto de Jeremiah: 
um homem de quarenta e tal anos, que se ia casar, pela primeira vez, com uma rapariga de dezessete que lhe inflamara o corao, os sonhos e a alma. Seria uma casa 
digna de uma princesa, onde poderiam criar os filhos, e que resistiria a uma dzia de geraes. Seria um verdadeiro palcio, com uma cpula de vitrais a adornar 
a parte central da casa, por cima do salo principal, e quatro pequenos torrees em cada esquina. Haveria colunas na parte da frente, e a fachada sobressairia pela 
sua imponncia. O edifcio estaria rodeado de extensos e bem cuidados jardins separados do exterior por uma sebe alta e um requintado porto, por onde entrariam 
e sairiam as carruagens. Parecia mais uma manso rural do que uma habitao citadina. Jeremiah estava entusiasmadssimo, e sobretudo encantado com a cpula de vitrais, 
que projetariam no interior da casa raios de luz de cores vivas que dariam a impresso de luz solar, inclusive nos dias cinzentos. Era um presente especial para 
Camille, a quem queria dar uma vida repleta de sol. O projeto da casa estava perfeito em todos os pormenores. Nela se combinavam harmoniosamente os estilos rococ 
e vitoriano de um modo que agradava  vista e satisfazia a alma de Jeremiah. Quando o arquiteto saiu para tomar o barco para a cidade, Jeremiah recostou-se na cadeira, 
com um largo sorriso nos lbios. Estava desejoso de que Camille visse a casa. Imaginava-a j a passear pelos jardins elegantes, ou a vaguear pela esplndida sute 
que acabava de discutir com o arquiteto, composta por um amplo quarto de dormir, um toucador, um quarto de vestir e uma sala de estar para ela, e um estdio com 
paredes apaineladas para Jeremiah. No mesmo piso, haveria um quarto para as crianas, alm de outra sala de estar e um quarto para a ama. No piso superior, seis 
amplos e arejados quartos para os filhos. Quem  que sabia quantos filhos  que iriam ter? O salo do rs-do-cho era o maior que o arquiteto alguma vez desenhara, 
e haveria outro mais pequeno, alm de uma enorme biblioteca apainelada, uma sala de jantar e um salo de baile. As cozinhas seriam as mais modernas alguma vez construdas 
em So Francisco, os alojamentos da criadagem destacar-se-iam pela sua comodidade, e os estbulos deixariam Hubert rodo de inveja. A casa teria absolutamente tudo 
quanto se poderia desejar, e ostentaria salas apaineladas e belos candelabros, escadarias amplas e magnficos tapetes. O arquiteto assegurara a Jeremiah que o seu 
pessoal comearia de imediato a procurar todos aqueles tesouros e que os marceneiros e os carpinteiros poriam mos  obra imediatamente para terem tudo terminado 
ainda antes de a casa estar totalmente construda. E, a partir daquele momento, Jeremiah iria  cidade uma vez por semana a fim de vigiar pessoalmente o andamento 
da obra. Era um projeto gigantesco para todos os que tomavam parte na sua realizao, e Jeremiah perguntava-se constantemente se a obra estaria pronta a tempo, enquanto 
choviam as cartas de Camille a falar-lhe dos preparativos para o casamento. O tecido para o vestido de noiva, feito em Paris, fora comprado em Nova Orlees. No 
lhe queria dar mais pormenores sobre o vestido, mas mal via a hora de o vestir. Andava to excitada com o enxoval como ele com a casa, sobre a qual ele pouco lhe 
contava. S lhe dissera que teriam uma casa em So Francisco, no lhe queria dizer que estava a construir a maior e mais bonita casa que alguma vez se vira na cidade, 
e que todos os dias se formavam multides de estupefatos mirones diante da obra, enquanto enormes equipes de homens trabalhavam sem descanso para acabar a obra dentro 
do prazo estabelecido. Enviara, inclusive, alguns mineiros para os ajudar, e aos fins-de-semana oferecia esplndidas gratificaes aos que estavam dispostos a no 
interromper as suas tarefas.
       Ao mesmo tempo, Jeremiah fazia os possveis para restaurar a casa de Santa Helena. Nunca se dera conta do desleixo em que ela cara ao longo de dezenove anos; 
de repente, apercebeu-se de como estava vazia. Fez, ento, compras colossais, tanto em Napa como em So Francisco, e pediu a Hannah que lhe fizesse cortinas para 
todas as salas. Se ia levar Camille para Napa, tudo tinha de estar bonito. Era uma jovem e precisava de um ambiente alegre e agradvel  sua volta. Mandou plantar 
novos jardins em torno da casa, ao mesmo tempo que alguns dos seus homens pintavam as paredes. No final de Outubro, a casa parecia quase nova, e ele prprio ficou 
surpreendido com a sua beleza. S Hannah parecia aborrecida com aquelas mudanas e no desperdiava nenhuma ocasio para lhe mostrar o seu descontentamento, mas 
acabou por cair num silncio absoluto. Finalmente, j no conseguindo suportar a situao, Jeremiah obrigou-a a sentar-se, serviu duas xcaras de caf e acendeu 
um charuto, apesar dos inevitveis protestos.
       - Muito bem, velhota, vamos l falar. Sei que no gostas das alteraes que fiz, e h dois meses que ando a pr todo o pessoal num virote, mas agora est 
tudo com um aspecto estupendo, e estou certo de que Camille achar o mesmo. Vais ador-la,  uma rapariga encantadora. - Sorriu ao pensar na carta que recebera dela 
nessa manh. - Alm disso, h no sei quanto tempo que me andas a chatear por no me casar. Pois bem, fiz-te a vontade. Ento, por que razo  que ests zangada 
comigo? - Hannah negara-se vrias vezes a ir  cidade ver o incio da obra. - No podes ter cimes de uma rapariga de dezessete anos. H espao para ambas na minha 
vida. Eu j lhe falei em ti e est ansiosa por te conhecer. - Sentia-se preocupado, a velhota fizera-o passar um mau bocado, sobretudo nas ltimas semanas. - Que 
se passa contigo? No andas bem, ou s ests zangada comigo por construir uma casa fora de Napa?
       A velhota sorriu, havia alguma verdade nas palavras dele.
       - Disse-te que no precisavas de outra casa. Vais estragar essa rapariga com mimos antes de vir para c.
       - Tens razo. Vai ser a menina mimada de um velho.
       -  uma rapariga cheia de sorte.
       Eram as primeiras palavras amveis que Hannah lhe dirigia no decurso de um ms, e Jeremiah escutou-as com alvio. Estivera muito preocupado com ela, e tambm 
com a possibilidade de ela ser to desagradvel com Camille como estava a ser com ele, coisa que teria desconcertado a sua pequena e frgil esposa, recm-chegada 
do Sul, que merecia tudo menos uma recepo fria.
       - Eu  que sou um homem cheio de sorte, Hannah. - O olhar cruzou-se com o da velhota, que pde verificar a felicidade que os seus olhos irradiavam. Era incrvel 
a mudana que a sua vida levara nos ltimos anos... incrvel... mas havia algo mais. Aquela expresso de felicidade pareceu obscurecer o semblante de Hannah. - Que 
se passa?
       A velhota no teve outro remdio que confessar-lhe a verdade, apesar do que prometera. De repente, os olhos ficaram marejados de lgrimas.
       - No sei como dizer-te, Jeremiah.
       - Que se passa? - Um calafrio percorreu-lhe todo o corpo ao recordar o terror que sentira quando lhe haviam comunicado que Jennie estava a morrer por causa 
da gripe. Agora, sob o olhar de Hannah, teve a mesma sensao de desfalecimento.
       - Trata-se da Mary Ellen.
       Jeremiah sentiu o corao parar, como que pressentindo algo de funesto.
       - Est doente?
       Hannah abanou lentamente a cabea.
       - Ela vai ter um filho... um filho teu...
       Jeremiah sentiu-se como se lhe tivessem dado um soco e o tivessem deixado sem flego.
       - Oh, no... mas ela no podia... no estava...
       - Eu prpria lhe disse que estava louca quando a vi em Calistoga. Os nascimentos dos dois ltimos filhos quase lhe custaram a vida, e agora j no  uma rapariguinha 
nova. Fez-me jurar que no te diria.
       Jeremiah assentiu com a cabea, com ar pesaroso, tentando recordar... Devia ter sido em abril, talvez no ltimo dia em que se encontraram. E teve a estranha 
sensao de que ela quisera que isso acontecesse. Nessa ocasio, Mary Ellen dissera-lhe que, se ele queria ter um filho, ela lho daria. Estava louca. Anos antes, 
o mdico informara-a de que morreria se voltasse a ter outro filho. Por que razo  que fazia isto agora?... Precisamente agora! Sem dizer mais nada, deu um murro 
no tampo da mesa, enquanto Hannah o fitava. Depois, levantou-se e dirigiu-se a passos largos para a porta. 
       - Que vais fazer?
       - Vou falar com ela, j que no posso fazer mais nada.  uma tola, e tu, uma ainda maior, se achaste que eu ia ficar de braos cruzados.
       Jeremiah estava farto da teimosia e do orgulho estpido daquela mulher. Fora sua amante durante sete anos e o mnimo que podia fazer agora era ajud-la. Mas 
nada mais. O fato de estar grvida no podia influir nos seus planos de casamento. No queria alter-los de modo nenhum.
       Saiu, selou Big Joe e partiu para Calistoga impelido pela fora da sua alma enfurecida. Deteve o cavalo diante da casa, no meio de uma nuvem de p que surpreendeu 
os filhos de Mary Ellen, que ficaram de olhos esbugalhados a v-lo entrar de rompante em casa. O mais velho ainda lhe gritou. - A mam no est.
       Com ar carrancudo, Jeremiah assomou novamente  porta da casa que to bem conhecia. Verificara que no havia ningum em casa.
       - Onde  que ela est?
       - A trabalhar na estncia termal. No vir para casa to cedo.
       Teria esperado, mas no estava com disposio para isso. Subiu novamente para cima de Big Joe e dirigiu-se para a rua principal, onde se encontrava a estncia 
termal. Maldita mulher! Provavelmente, toda a cidade sabia que ia ter um filho. Repreendia-se a si mesmo, a cada passo do caminho, por ter ido para a cama com Mary 
Ellen naquela noite. No era esse o seu propsito, mas ela estava de corao de tal modo destroado que no conseguira resistir-lhe. Mas fora uma estupidez... e 
que estupidez!... E no parava de perguntar-se se Camille chegaria a descobrir algum dia que ele tinha aquele filho ilegtimo. Era isso que o apoquentava quando 
prendeu o cavalo em frente da estncia termal, mas, na realidade, a sua principal preocupao naquele momento era Mary Ellen.
       Encontrou-a na parte de dentro de um balco, a fazer marcaes, o corpo escondido atrs de uma secretria. Pelo menos, no era um trabalho pesado para uma 
mulher que esperava um beb. Ela sobressaltou-se ao v-lo, e deu a impresso de se ir afastar, mas Jeremiah agarrou-a pelo brao a tempo.
       - Quero que saias daqui comigo agora mesmo. - Os olhos de Jeremiah flamejavam de preocupao e raiva, e irritava-o a satisfao que sentia ao v-la de novo. 
Estava mais bonita que nunca, talvez devido ao fato de estar um pouco assustada.
       - Jeremiah... pra... eu... por favor... - Temia fazer uma cena e no queria que ele visse a sua figura. No podia imaginar que Hannah j lhe contara tudo. 
Estava com um ar to aflito que um dos empregados se aproximou, pronto para a defender.
       - Precisas de ajuda, Mary Ellen? - O homem preparava os punhos, mas ela declinou a oferta e implorou com os olhos a Jeremiah para sair.
       - Por favor...  melhor para ti... no quero...
       - No me interessa aquilo que queres. Se for necessrio, levo-te de rastos daqui para fora. Levanta-te e sai para a rua comigo, se no queres que seja eu 
a faz-lo.
       Mary Ellen corou e olhou, desesperada,  sua volta; pegou no xale que estava nas costas da cadeira, envolveu-se nele e seguiu Jeremiah para o exterior. O 
homem que se oferecera para a defender prometeu substitu-la durante a sua ausncia, e ela prometeu-lhe que no se demoraria.
       - Jeremiah... por favor...
       Thurston puxou-a pelo brao at ao outro lado da rua, onde havia um banco debaixo de umas rvores.
       - No quero...
       Sentou-a quase  fora no banco e voltou-se para ela.
       - No me interessa o que queres. Por que razo no me disseste?
       - Dizer-te o qu? - Mary Ellen empalideceu. - No sei ao que te referes. - Mas a sua palidez e a expresso de terror revelavam que mentia.
       - Sabes muito bem ao que me refiro. - Os olhos de Jeremiah fixaram-se no ventre da mulher e tirou-lhe delicadamente o xale. O que viu era irrefutvel. Estava 
grvida de seis meses. - Por que raio no me disseste?
       Mary Ellen comeou a choramingar e passou pelos olhos um leno de renda que ele lhe oferecera h muito tempo, o que deixou Jeremiah ainda pior.
       - A Hannah disse-te... Prometeu-me que no... - Comeou a soluar, e ele envolveu-a nos seus braos,  vista de toda a gente. Nunca sentira vergonha de Mary 
Ellen. Simplesmente, no a quisera como esposa, e no mudara de opinio a esse respeito, embora tivesse de reconhecer que as coisas se haviam complicado com aquela 
gravidez.
       - Mary Ellen, que fizeste, tonta?
       - J que no pude ter-te, quis ter um filho teu... quis...
       Os soluos impediram-na de continuar.
       -  to perigoso para ti. E tu sabias. - Perguntou a si prprio se Mary Ellen imaginaria que ele se casaria com ela quando descobrisse o seu estado. Mas ela, 
como que adivinhando o seu pensamento, apressou-se a neg-lo. Explicou que s queria ter um filho seu e que no queria mais nada dele. Mas aquilo tambm o ps em 
ebulio. - Nunca mais quero ouvir esse disparate, Mary Ellen. J ouvi muitas tolices tuas durante anos, e no o deveria ter feito. Vais deixar de trabalhar agora 
mesmo. O orgulho que v para o inferno! Cuidarei economicamente de ti e da criana, j que no posso faz-lo de outra maneira.  o mnimo que posso fazer por ti. 
Se no gostas, azar!  algo que quero fazer pelo meu filho. Percebido?
       Mary Ellen quase tremeu perante a ferocidade daquelas palavras.
       - Tenho outros trs filhos para sustentar, Jeremiah - disse ela com uma ponta de orgulho. - E nunca lhes faltei com nada.
       - No quero ouvir nem mais uma palavra a esse respeito. - Olhou-a com uma expresso pensativa. Era um problema que no podia resolver-se s com um pouco de 
dinheiro. - J foste ao mdico?
       Mary Ellen fez um gesto afirmativo com a cabea, ao mesmo tempo que os seus olhos procuravam os dele. Era bvio que ainda o amava, mas ele fingiu no perceber. 
Agora tinha de pensar em Camille. Da a dois meses, estariam casados... antes de Mary Ellen dar  luz. A vida, por vezes, era injusta. As coisas poderiam ter sido 
diferentes se Mary Ellen tivesse concebido o seu filho h mais tempo.
       - E que te disse ele?
       - Que tudo ir correr bem. - A voz era meiga, e Jeremiah sentiu uma dor forte no peito, tantos eram os remorsos.
       - Oxal seja como dizes.
       -  verdade. Sobrevivi aos outros trs, no sobrevivi?
       - Sim, mas eras mais nova. Isto foi uma loucura.
       - No foi nada. - Havia um ligeiro ar de desafio no rosto de Mary Ellen. Era bvio que no lamentava nada, o que deixou Jeremiah ainda mais irritado.
       - Que diabo te deu para fazeres isto. - Era algo que ele nunca entenderia. Era uma loucura, por mil razes distintas.
       -  a nica coisa tua que me resta, Jeremiah... - Aquelas palavras, ditas com uma suavidade e uma tristeza infinitas, deixaram Jeremiah com o corao completamente 
destroado. - Deixaste-me e nunca mais voltars para mim, tenho conscincia disso. Vais casar-te com essa rapariga, no vais?
       Jeremiah assentiu com a cabea e franziu o sobrolho, o que pareceu aumentar a determinao dela
       - Como vs, tive razo em faz-lo.
       - Puseste a tua vida em perigo.
       - Posso fazer o que bem me apetecer com a minha vida. - Levantou-se.
       Jeremiah achou-a mais bonita que nunca. Era orgulhosa e corajosa, e fizera apenas aquilo que queria... Camille teria feito a mesma coisa... mas esta tinha 
mais sangue na guelra e estilo do que Mary Ellen. Agora, depois de ter visto de novo Mary Ellen, no lamentava a escolha que fizera, mas a deciso que ela tomara. 
Iria dificultar a vida para os dois, inclusive para a criana. Mais cedo ou mais tarde, Camille descobriria e tambm os seus filhos legtimos acabariam por saber. 
Napa era um condado demasiado pequeno que no permitia tais imprudncias sem o risco de se ser descoberto. Alm disso, no queria magoar a esposa. Que aconteceria 
se, um ms depois do casamento, ela soubesse do nascimento de um filho bastardo dele? Sentiu-se desconsolado s de pensar na dor que isso causaria  rapariga.
       - Quem me dera que no tivesses feito nada disto, Mary Ellen.
       - Lamento que te sintas assim, Jeremiah. - Levantou os olhos para ele, e Jeremiah teve vontade de a beijar. - Sempre pensei que quisesses ter um filho.
       - Sim, mas no assim. H melhores maneiras de o conseguir.
       - Para mim, no, Jeremiah. J no. Que sejas muito feliz com a tua esposa. - Mas ele sabia que aqueles desejos no eram sinceros. Mary Ellen tivera conhecimento 
de que ele estava a restaurar a casa de Napa e que comeara a construir um verdadeiro palcio na cidade. Toda a gente num raio de cento e sessenta quilmetros sabia 
da casa que ele estava a construir para Camille.
       - Que vais fazer agora? - Nesse momento, Jeremiah no pensava em Camille nem na casa que estava a construir para ela.
       - A mesma coisa que tenho feito at agora. Tenho o emprego na estncia termal,  uma ocupao decente. No me canso muito e, quando o beb nascer, as raparigas 
podero cuidar dele quando eu for trabalhar.
       - Devias ficar em casa com os teus filhos - disse Jeremiah, num tom de desaprovao, o que no era normal nele. Nunca lhe dissera nada parecido, mas agora 
um dos filhos seria seu, o que alterava as circunstncias. - Farei o que for preciso, Mary Ellen. - No dia seguinte, iria ao seu banco em Napa e daria as instrues 
necessrias. Haveria forma de resolver a situao. Deveria ter feito algo por ela anos antes, mas ainda no era tarde para o fazer.
       - No quero que faas nada por mim, Jeremiah.
       - No estou a pedir-te a opinio, tal como tambm no me pediste a opinio para engravidar. Agora sou eu que tomo as decises.
       No seu ntimo, Mary Ellen estava decepcionada com o fato de ele no se mostrar emocionado com a perspectiva do nascimento do filho, mas o esprito de Jeremiah 
estava cheio de outras coisas... e de outros bebs que no o dela, e ela tinha conscincia disso. De certo modo, cometera um erro, que tambm no ignorava, mas negava-se 
obstinadamente a lament-lo, como confessara a Hannah uma srie de vezes. Era aquilo que ela desejara.
       - Quero que deixes de trabalhar na estncia termal. Jeremiah fitou-a com um ar quase paternal.
       - No posso.
       - Ou dizes-lhes tu, ou digo-lhes eu. A tua vida vai mudar a partir deste momento. Entendido? Vais ficar em casa com os teus filhos e o meu, a poupar o que 
te resta de sade e lucidez. Se morreres ao dar  luz, que vai ser das outras crianas? J pensaste nisso? - Os olhos de Mary Ellen alagaram-se de lgrimas, e Jeremiah 
lamentou a veemncia com que falara. - Desculpa... eu no...  uma situao difcil para os dois. Tornemos as coisas mais fceis, tanto para mim, como para ti. De 
acordo?
       Mary Ellen olhou-o fixamente e fez um lento gesto de concordncia com a cabea. Tinha vontade de lhe dizer que ainda o amava, mas a ocasio no era propcia 
e, alm disso, tinha de voltar para o trabalho dentro de alguns minutos e estava a ficar mal disposta. Possivelmente devido ao fato de trazer o espartilho extremamente 
apertado para dissimular o seu estado. Se deixasse de trabalhar, no teria de andar com o corpo apertado daquela maneira...
       - Talvez durante algum tempo. - De repente, sentiu-se muito cansada. - S at ter o beb.
       - No. - Jeremiah deu-lhe uma palmadinha no brao. - Deixa-me fazer as coisas  minha maneira. - Mandaria o seu banqueiro falar-lhe. Ela opor-se-ia, mas convenc-la-ia, 
e assim Mary Ellen receberia todos os meses uma soma de dinheiro suficiente para atender  manuteno dela e dos quatro filhos durante o tempo necessrio. Era o 
mnimo que podia fazer por ela. No ia casar com ela, e ambos tinham conscincia disso. Era um sonho impossvel. Em vez disso, ia construir um palcio para a rapariga 
de Atlanta.
       Jeremiah levantou-se e acompanhou-a at ao lugar onde se encontrava o seu jovem companheiro de trabalho. Por instantes, perguntou-se se no haveria algo mais 
no seu protecionismo do que podia pensar-se  primeira vista. Mas fosse ou no fosse esse o caso, Jeremiah no queria saber. No tinha a mnima dvida de que a criana 
era sua, confiava em Mary Ellen e sabia que ela no tivera outro homem. Se havia algum agora, ela tinha todo o direito a certas comodidades. No fim de contas, ele 
j tinha Camille.
       - Deixas de trabalhar?
       Mary Ellen assentiu com a cabea e os seus olhos buscaram os dele.
       - Virs ver-me alguma vez?
       Aquelas palavras deixaram Jeremiah de corao destroado, mas havia algo no seu ntimo que lhe dizia para no o fazer.
       - No sei. No acho que deva, para nosso bem.
       - Nem para veres o beb?
       Os olhos de Mary Ellen ficaram de novo alagados de lgrimas, e Jeremiah sentiu-se o maior patife ao cimo da Terra.
       - Sim, virei ver-te nessa altura. Entretanto, se precisares de alguma coisa, quero que me mandes dizer. - No tinha medo que Mary Ellen se aproveitasse dele. 
Nunca o fizera; inclusive agora, sabendo que ele em breve estaria nos braos de outra mulher, comportava-se de forma bastante nobre. - Parto... - Hesitou, subitamente 
embaraado. - Parto... depois do dia um de dezembro.
       O casamento iria ter lugar em Atlanta, no dia 24 de dezembro, mas, antes disso, haveria duas semanas de festas, e Jeremiah prometera a Camille que estaria 
l nessa altura. E agora aquela mulher de Calistoga ia ter um filho. Como era estranha a vida! Enquanto voltava para casa no dorso do cavalo, no conseguiu deixar 
de pensar nisso e nas voltas que a sua vida dera nos ltimos seis meses E, mais estranho ainda, era possvel que, no ano seguinte, tivesse dois filhos. Um sorriso 
assomou-lhe aos lbios ao pensar nisso, enquanto prendia Big Joe no estbulo. Dois filhos, um de Mary Ellen e um de Camille e tambm lhe pareceu estranho,  luz 
do que estava a acontecer, o fato de haver uma carta de Amlia Goodheart  sua espera em cima da mesa da cozinha. Era a primeira vez que tinha notcias dela desde 
o dia em que a deixara no comboio para que continuasse a sua viagem para Savannah. Escrevia-lhe para lhe dizer que recebera a sua carta e que ficava contente com 
aquilo que ele lhe contara da rapariga de Atlanta. Reconhecia, seguramente com um sorriso nos lbios, que estava um pouco ciumenta, mas acrescentava que era a coisa 
mais acertada que Jeremiah podia fazer, e que esperava conhec-la se algum dia fossem a Nova Iorque. Tambm lhe comunicava que a sua filha de So Francisco esperava 
outro beb, e que iria v-la no ano seguinte. Aquela carta reconfortou Jeremiah, que, enquanto Hannah lhe aquecia o jantar que guardara para ele, deu consigo a pensar 
nas trs mulheres e nas diferenas que havia entre elas. O certo era que, por mais estranha que a vida parecesse, e apesar das mulheres grvidas e das aventuras 
em comboios transcontinentais, ele, dentro de nove semanas, estaria casado com a delicada rapariguinha de pele cremosa, cabelos negros, lbios sensuais e olhar travesso. 
Sentado na silenciosa cozinha, estremeceu s de pensar na rapariga com quem ia casar em Atlanta
       
      12
       
       Quando, a 2 de Dezembro, Jeremiah partiu para Atlanta, a construo da casa de Nob Hill estava to adiantada que nem ele prprio acreditava. Voltaria a So 
Francisco por volta do dia 15 de Janeiro, e no tinha a menor dvida de que a casa estaria terminada nessa altura. Na parede exterior da casa, j haviam posto uma 
pequena placa de metal na qual, em letras cuidadosamente gravadas, se lia: MANSO THURSTON. E Camille no sabia praticamente nada dela. Jeremiah mantivera todas 
as suas caractersticas em segredo, mas estava certo de que ela gostaria. Os torrees j se erguiam no seu lugar. As rvores e os jardins encontravam-se plantados. 
Os painis de madeira e os candelabros estavam j prontos. O cho seria de mrmore do Colorado. Haveria instalaes e comodidades modernas pouco correntes, e tanto 
as madeiras como os cristais e os tecidos eram da melhor qualidade que se podia encontrar. A casa parecia quase um museu. Jeremiah sorriu de satisfao quando lhe 
deu uma ltima olhadela antes de apanhar o comboio para Atlanta. Seriam precisos muitos filhos para a encher.
       Desta vez, a viagem para Atlanta parecia interminvel. Estava ansioso por chegar. Levava consigo o mais bonito colar de prolas da Tiffany's, de Nova Iorque, 
alm de uns brincos de prolas e diamantes a condizer, e uma bela pulseira. Haviam-lhe enviado os desenhos das peas, as quais chegaram mesmo a tempo de as levar 
para Atlanta. No se esquecera de comprar um bonito broche com um rubi para Mrs. Beauchamp e um espetacular anel com uma safira para oferecer a Camille quando chegassem 
a Nova Iorque para a lua-de-mel. Tambm escrevera a Amlia, expressando-lhe o desejo de poder v-la e de a apresentar a Camille quando se encontrassem naquela cidade. 
Amlia comeara, finalmente, a escrever-lhe e Jeremiah achava a correspondncia com ela quase to agradvel como a viagem que haviam partilhado no comboio. No fim 
de contas, seguira o conselho de Amlia, e estava to orgulhoso da sua futura esposa que mal conseguia esperar o momento de a apresentar a toda a gente que conhecia.
       Continuou a pensar em Amlia e na viagem que haviam feito juntos para o Este. H quase um ano que no a via, mas ainda se recordava da sua assombrosa e elegante 
beleza. Parecia-se vagamente com Camille, mas a sua prometida era a que ocupava o primeiro lugar no seu esprito: os graciosos braos, o rosto encantador, os dedos 
compridos, os delicados tornozelos, os cabelos sedosos; no via a hora de a abraar de novo, de lhe beijar os lbios e de a ouvir rir.
       Desta vez, Camille estava  sua espera na estao de Atlanta, queixando-se das quatro horas que o comboio trazia de atraso; mas a espera no lhe arrefeceu 
o nimo e lanou-se nos braos de Jeremiah com um grito de alegria, beijou-o e desatou a rir. Envergava uma capa de veludo verde-escuro forrada em pele de arminho 
com um capuz e um regalo a condizer. Por baixo, trazia um vestido de tafet verde, que fazia parte do enxoval, mas no conseguira resistir  tentao de o pr para 
o ir esperar  estao. Na carruagem, a caminho da casa dos Beauchamp, Jeremiah teve de se esforar por no esmagar Camille entre os seus braos. Ao chegar, cumprimentou 
toda a famlia e, depois de beber uma taa de champanhe, foi instalar-se no hotel, onde residiria durante as duas semanas que faltavam para o casamento.
       As duas semanas seguintes seriam uma incessante srie de festas, bailes, jantares, almoos... No dia anterior ao casamento, os Beauchamp ofereceriam um jantar 
especial para as amigas mais ntimas de Camille, uma espcie de despedida antes da sua partida de Atlanta. Houve chorosas felicitaes e emocionadas despedidas. 
Jeremiah achava que nunca vira tantas mulheres bonitas numa s sala, mas a mais bonita era, de longe, a sua futura esposa. Nesses dias, Camille evoluiu pelos sales 
de baile at de madrugada, sem nunca dar ares de cansao, sempre animada e disposta a recomear tudo na manh seguinte.
       Um dia, Jeremiah disse, a rir, ao futuro sogro:
       - Comeo a preocupar-me com a eventualidade de no conseguir acompanhar o mesmo ritmo de vida da Camille. J me esquecera do que significa ser jovem.
       - Esse ritmo rejuvenesc-lo-, Thurston.
       - Assim espero.
       No entanto, Jeremiah no estava preocupado. Nunca fora to feliz como agora, e s esperava ansiosamente o momento de partir com Camille para Nova Iorque e 
depois regressar a So Francisco, onde lhe mostraria a manso que construra para ela. Tinha de acreditar que tudo correra bem durante a sua ausncia. Ainda que 
houvesse algum retoque final por terminar, o aspecto geral da manso seria espetacular. Ao chegar, falara dela a Orville, e este mostrara-se encantado com o que 
Jeremiah fizera por Camille. Era um verdadeiro tributo  sua filha, que estava deleitada com as valiosas prendas do seu prometido, tal como Mrs. Beauchamp... " 
um autntico cavalheiro... de extrema amabilidade..." Ela dava cada vez mais a impresso de ser uma relquia do velho Sul, ao contrrio da filha, que proclamava 
sem a menor discrio o quanto gostava das fabulosas prendas que Jeremiah lhe oferecera, exibindo-as para todas as suas amigas, sem se esquecer de repetir vezes 
sem conta que " de doze quilates". Tambm no se cansava de mostrar a toda a gente o colar oriental, uma extraordinria pea de joalharia, com prolas que iam at 
vinte e oito milmetros de dimetro.
       - Deve ter-lhe custado uma fortuna - acrescentou, a determinada altura, o que lhe valeu a imediata repreenso da me, perante o olhar divertido do pai e o 
mutismo de Jeremiah. Este estava a comear a acostumar-se  maneira de ser dos Beauchamp, e sabia que Camille, no fundo, era diferente do pai.
       O casamento teve lugar na vspera de Natal, s seis da tarde, na Catedral de So Lucas, situada na esquina da North Pryor Street e a Houston Street. A cerimnia 
foi presidida pelo Reverendo Charles Beckwith, primo do bispo, na presena de vrias centenas de amigos que tambm assistiriam  recepo que se realizaria no hotel 
onde Jeremiah estava hospedado. No foi difcil ao casal escolher o momento oportuno para fugir para a sute onde a bagagem de Camille j se encontrava. Passariam 
a noite a e, no dia seguinte, almoariam com os pais dela antes de apanharem o comboio que os levaria at Nova Iorque, ao fim da tarde Quando Camille e Jeremiah 
chegaram ao quarto, estavam mais mortos que vivos. Fora um dia esgotante, como o haviam sido as duas semanas anteriores, cheias de animao e festas, e ainda tinham 
um almoo de Natal pela frente. Jeremiah teve a sensao de que nunca fora a tantas festas em toda a vida E agora, ao contemplar a sua encantadora esposa, que se 
deixara cair no sof de veludo cor-de-rosa, o magnfico vestido de noiva de renda cor de marfim espalhado  sua volta como uma tenda cada, reconheceu, uma vez mais, 
o muito que Camille significava para si. Levara mais de meia vida a encontr-la, e no se arrependia de nada. Valera a pena a espera, os desgostos por que passara, 
os desapontamentos, os anos de solido inclusive a dor que causara a Mary Ellen. Por nada deste mundo teria deixado de casar com Camille. Adorava-a em todos os aspectos, 
e sabia que seria a esposa perfeita para si, graas  sua inteligncia,  sua paixo, ao seu temperamento provocador Mas, naquele momento, esparramada em cima do 
sof, no se mostrava particularmente apaixonada, os olhos subitamente vtreos do cansao. Haviam sido duas semanas de constantes celebraes, e Jeremiah temera, 
mais de uma vez, que as festas fossem excessivas e acabassem por deixar Camille adoentada. Todavia, agora no parecia estar doente, s estava com um ar extremamente 
cansado
       - Ests bem, meu amor? - Jeremiah ajoelhou-se ao lado dela, tomou-lhe a mo e beijou-lhe a palma, enquanto ela lhe sorria.
       - Acho que nem consigo mexer-me. Estou exausta
       - No me surpreende. Queres que chame a criada. - Os olhares cruzaram-se e Jeremiah gostou do que viu
       Ultimamente, s parecera interessada em falar no carssimo vestido de noiva que o pai lhe oferecera, ou no enorme diamante com que Jeremiah a obsequiara. 
Mas o que refletiam neste instante os olhos dela tocou-lhe fundo no corao. Viu neles amor, alegria e confiana. S o fato de ter sido criada sob a influncia do 
pai  que fizera dela uma pessoa que dava tanta importncia ao dinheiro que as pessoas gastavam. Mas ele sabia que, ao fim de um ou dois meses no vale de Napa, o 
esprito de Camille estaria preenchido com prazeres mais simples: as uvas dos seus vinhedos, as flores plantadas por Hannah, os filhos que teriam... e embora a manso 
na cidade fosse um verdadeiro palcio, o que havia de mais valioso nela fora o carinho com que havia sido construda. Era um monumento ao seu mtuo amor, e era precisamente 
isso o que Jeremiah ia dizer a Camille quando lhe mostrasse a casa. Pela primeira vez na vida, sentia-se completamente satisfeito, e agora, ao olhar para a delicada 
esposa, tranquilamente deitada, envolta no vestido de noiva, sentiu que o corao lhe ia rebentar de felicidade.
       - Bem, Mistress Thurston... que tal te soa o novo apelido?
       Jeremiah beijou-a no pulso, e algo se agitou no ntimo de Camille, a julgar pelo voluptuoso olhar que dirigiu ao marido. Estava demasiado cansada para se 
mexer, mas no para o ter perto de si. Nunca se cansava de o ter junto a si, e s de v-lo ficava a arder de desejo. Nunca sentira isso por nenhum outro homem, sobretudo 
por nenhum da idade de Jeremiah Thurston. Sempre tivera o pressentimento de que se casaria com um jovem deslumbrante, talvez um francs de Nova Orlees, ou um dos 
condes franceses de que o pai falava... ou um banqueiro rico de Nova Iorque, de olhar ambicioso... Jeremiah, porm, era mais elegante do que qualquer das imagens 
que conjecturara. Alm disso, havia nele um certo ar msculo que lhe agradara e que agora a assustava um pouco. Achava-o extremamente atraente e, apesar do que lhe 
dissera a prima, no acreditava que aquilo que ele lhe ia fazer fosse desagradvel. Nos olhos de Jeremiah vislumbrava-se agora a mesma expresso de desejo com que 
a fitara desde o primeiro momento, mas Camille gostava de o provocar e de lhe fazer perder a cabea, e foi o que voltou a fazer, beijando-lhe o pescoo, depois uma 
orelha e, finalmente, os lbios, momento em que sentiu toda a tenso que o invadia.
       Depois, sem dizer palavra, Jeremiah comeou a desapertar-lhe os pequeninos botes das mangas, ao mesmo tempo que beijava a fina pele cremosa que ia pondo 
a descoberto. Ento, depois de tirar o pesado colar de prolas que lhe oferecera, comeou a desapertar a infinidade de pequeninos botes forrados de cetim que fechavam 
o vestido  frente, pondo  vista umas bragas, tambm em cetim, cingidas ao corpo, que esculpiam perfeitamente as suas formas. Finalmente, desapertou-lhe o espartilho. 
Jeremiah parecia ser um autntico perito naquela matria, pelo que demorou muito pouco tempo a libertar aquele corpo jovem e arrebatador das roupas que o envolviam. 
E Camille ficou diante dele sem temores, sem adornos, sem outro esplendor que o do seu corpo desnudado. S lhe restavam as meias de seda, que Jeremiah tirou uma 
aps outra. Ento, despiu-se com incrvel rapidez, e ficou maravilhado com o -vontade, a candura, a coragem de Camille... e cobriu-a de beijos, de carcias, dando-lhe 
mais prazer do que aquele que ela alguma vez se atrevera a imaginar... A prima estava equivocada... muito equivocada... s pensara nela por breves instantes enquanto 
gemia... Era precisamente como sonhara... e mesmo quando ele a depositou ternamente em cima da cama e lhe abriu as pernas, penetrando-a primeiro com a lngua, depois 
com os dedos, para mergulhar, finalmente, dentro dela e libertando todo o desejo acumulado desde h muito... Camille gemeu de prazer... Jeremiah levou-a a uma espcie 
de agonia que ela nunca sonhara; e ela conduziu-o ao cume do prazer de uma maneira to pura e encantadora que quando, finalmente, descansou a cabea sobre o peito 
de Camille, exausto, quase chorou entre os seus braos.
       Jeremiah olhou-a com ar sonolento, e ficou feliz por v-la ronronante de prazer ao seu lado. A temida dor fora breve, e ele fora to hbil que ela praticamente 
no se dera conta de nada.
       - Agora j s minha - sussurrou-lhe ao ouvido.
       Camille sorriu-lhe, parecendo mais mulher do que uma hora antes, e foi ela que, desta vez, estendeu os braos para ele. Quando Jeremiah a possuiu de novo, 
ela voltou a gemer de prazer. Finalmente, exausta, adormeceu profundamente entre os braos dele. Poucas horas depois, quando acordou, estava desejosa por fazer amor 
de novo... e desta vez foi Jeremiah que gemeu,  sua merc, totalmente vergado ao seu encanto. Havia nela uma espcie de magia que ele nunca imaginara. Nessa manh, 
depois de fazerem amor, teve a noo da escolha acertada que fizera e da grande sorte que tivera. Quase teve de a tirar de rastos da cama para chegarem a horas ao 
almoo oferecido pelos pais de Camille. Esta no parou de o provocar com as suas picardias, tentando seduzi-lo a fazer amor de novo, ato a que se entregaram com 
arrebatado fervor mal entraram no comboio. Praticamente no saram para tomar ar durante toda a viagem at Nova Iorque. Ao chegarem  Grand Central Station, Jeremiah 
ainda no estava em si, mas, quando entraram na carruagem que os havia de levar ao Hotel Cambridge, onde costumava ficar hospedado, parecia o homem mais feliz do 
mundo. Havia momentos em que tinha a sensao de morrer de prazer nos braos da sua amada, o que pouco lhe teria importado. Que melhor maneira de deixar este mundo 
que a fazer apaixonadamente amor com a sua doce Camille. Era, indubitavelmente, a mulher dos seus sonhos. Jeremiah alcanara, finalmente, a plenitude de vida que 
h muito ansiava.
       
      13
       
       Jeremiah e Camille chegaram a Nova Iorque no dia a seguir ao Natal. Um manto de neve cobria a cidade. Camille saltou do comboio, a bater palmas, deliciada 
com aquilo que via. Os olhos brilhavam no meio do ar frio, assomando por entre as peles de zibelina que Jeremiah lhe oferecera no Natal e que condiziam com o regalo. 
Ao descer do comboio, com a pequenina mo enluvada metida na de Jeremiah e sob o olhar deleitado deste, parecia uma princesa russa. Adorava todas as prendas bonitas 
que ele lhe oferecera e no deixava de pensar na sorte que tivera ao poder deixar Atlanta. Aos seus olhos, Jeremiah valia quase tanto como um dos duques ou prncipes 
que o pai lhe prometera durante tanto tempo. Naquele momento, estava ansiosa por ver a casa do vale de Napa, que, segundo supunha, ainda era maior do que uma plantao.
       Dirigiram-se para o Hotel Cambridge, na Rua 33. No vestbulo, Walmsby, o recepcionista, apressou-se a afastar a imprensa. Jeremiah gostava do cmodo isolamento 
que sempre encontrara ali, das deslumbrantes sutes, e Walmsby tinha sempre uma histria divertida para lhe contar. Camille entrou na sute como se h anos j se 
hospedasse em hotis com ele, o que fez com que Jeremiah se risse. Pegou-lhe ao colo e atirou-a para cima da cama com todas as suas jias e peles de zibelina.
       - s uma descaradona, Camille Thurston.
       Camille, ainda surpreendida de ouvir-se chamar com aquele apelido, no negou a acusao do marido, que no se atrevera a repreend-la pela frieza com que 
tratara o seu velho amigo recepcionista. O pobre Walmsby ficou aturdido quando lhe estendeu a mo e ela a ignorou.
       - Que falta de tato - disse Camille, alto e bom som, ao passar por ele. - Quem julga ele que .
       -  meu amigo - sussurrou-lhe Jeremiah
       Todavia, quando se viu a ss com ele na sute, Camille beijou-o com tanta avidez que ele esqueceu tudo o que se passara com Walmsby. Enquanto se estavam a 
vestir para o jantar, Jeremiah sorriu ao pensar, uma vez mais, na casa que construra para ela em So Francisco. Mal via a hora de lha mostrar. Praticamente nunca 
mais lhe falara dela desde que chegara a Atlanta, e sempre que ela fazia perguntas sobre o seu novo lar, ele evitava o assunto dizendo-lhe que era uma casa aceitvel, 
mas que talvez ela quisesse fazer algumas alteraes depois.
       De momento, porm, Camille estava muito mais interessada por aquilo que ambos iam fazer em Nova Iorque. Foram ao teatro vrias vezes, uma  pera, jantaram 
no Delmomco's na primeira noite e no Brunswick na segunda, onde Jeremiah pediu uma deliciosa refeio dedicada  caa. Era um lugar muito freqentado pela alta sociedade 
da capital e muitos dos seus clientes eram britnicos. Na terceira noite, Jeremiah aceitou um convite de Amlia. Estava ansioso por apresentar-lhe Camille e, ao 
mesmo tempo, encantava-o a perspectiva de voltar a ver Amlia. A correspondncia que haviam mantido servira para converter a paixo em amizade. O convite de Amlia 
fora to sincero e afetuoso que Jeremiah o aceitara com muito gosto, mas, quando se encontrava a caminho da casa dela na companhia da esposa, comeou a duvidar da 
oportunidade daquele encontro. Camille estava a comportar-se como uma menina mimada e displicente, e mostrara-se arrogante para com a criada do hotel enquanto se 
vestia, o que estava a comear a irritar Jeremiah
       Para a visita a casa de Amlia, na Quinta Avenida, Camille levava uma capa de veludo negro e uma profuso de peles de zibelina. O enorme diamante do anel 
cintilava na sua mo esquerda, e a safira que acabava de lhe dar, na direita. E, por baixo da capa de veludo de Paris, levava um vestido de veludo branco com pequenos 
enfeites de arminho nos ombros e no debrum. Era uma soberba criao que custara a seu pai, pelo que dissera a Jeremiah, mais do que o resgate de um rei
       - Pareces uma rainha - dissera-lhe ele, antes de sair do hotel, tomando-lhe a pequenina mo enluvada e dispondo-se a descrever-lhe Amlia. -  uma mulher 
muito especial, inteligente. digna... bonita... - Pensou no inofensivo namorico no comboio para Atlanta e sentiu-se invadir por um intenso calor. Era uma mulher 
encantadora, e estava convencido de que gostaria de Camille quando a conhecesse.
       No entanto, Camille mostrou-se arisca desde o instante em que entrou em casa de Amlia. Parecia ofendida pela boa educao, o bom gosto, a elegncia e os 
modos requintados daquela mulher. E o pior que havia em Camille veio  tona, para grande embarao de Jeremiah.
       Amlia tinha uma graciosidade to invulgar e um encanto to sedutor que todos os que a viam sentiam vontade de a abraar. Jeremiah esquecera-se, entretanto, 
de como era bela, com o seu brilho translcido e refulgente de diamante, os olhos cintilantes, as feies delicadas, o modo de andar, a discreta elegncia das finas 
jias, os encantadores vestidos feitos em Paris. Nunca a vira no seu mximo esplendor, a vaguear pelos sales da esplndida casa que lhe deixara Bernard Goodheart, 
a no ser no comboio para Atlanta, no entanto, essa amizade nascera a, uma amizade que nunca morreria. Havia criados de libr por toda a parte, e a luz das velas 
cintilava nos mais belos candelabros que Jeremiah alguma vez vira, sobre o cho de mrmore com desenhos de flores que se estendiam de um extremo ao outro do vestbulo. 
A decorao de todas as salas era indiscutivelmente francesa,  exceo da sala de jantar e da biblioteca, que eram de impecvel estilo ingls. Toda a casa tinha 
a beleza de um museu, e nela cintilava aquela prola de mulher. Camille sentia-se visivelmente devorada pelo cime perante a graciosidade da dona da casa. Dava a 
sensao de no conseguir suportar nada do que Amlia fazia. Era como se todas as palavras, sorrisos ou movimentos daquela mulher a ofendessem.
       - Camille, porta-te bem! - sussurrou-lhe Jeremiah, quando Amlia, depois de jantar, saiu da sala para escolher outra garrafa de champanhe. - O que se passa 
contigo esta noite, Camille. No te sentes bem.
       - Ela  uma pega! - ripostou Camille com expresso teatral. - Est a tentar seduzir-te por todos os meios! Ests cego se no vs isso.
       O sotaque sulista de Camille parecia mais acentuado que nunca, o que, juntamente com o ataque de possessiva devoo para com ele, teria enternecido Jeremiah 
se ela no tivesse sido to rude com a sua amiga.  medida que a noite avanava, Camille ia ficando cada vez mais insuportvel, no parando de fazer observaes 
mordazes em resposta a quase tudo quanto Amlia dizia. Ainda assim, Amlia tratou-a com a decidida calma de uma me extremamente hbil, de uma mulher acostumada 
a lidar com crianas difceis Mas Camille j no era uma criana, e Jeremiah no conseguiu conter a sua fria na viagem de regresso ao Cambridge.
       - Como pudeste comportar-te daquela maneira. Foi uma vergonha E uma mortificao para mim.
       Jeremiah repreendeu-a como a uma criana que se portara mal, e sentiu vontade de lhe dar uns aoites ao v-la saltar da carruagem de forma intempestiva e 
fechar, pouco depois, a porta da sute com um estrondo capaz de acordar todos os hspedes.
       - Que se passa, Camille.
       Nessa noite, comportara-se como uma louca, e h alguns dias que era irascvel para vrias pessoas. Jeremiah nunca a vira agir daquela maneira, mas tambm 
era certo que conhecia muito pouco dela. Perguntou-se se aquilo seria algum aspecto do modo de ser dela que lhe passara por alto, mas, fosse como fosse, estava decidido 
a corrigi-lo.
       - Comporto-me da forma que me der na real gana, Jeremiah! - gritou-lhe Camille, o que o deixou chocado.
       - No comportas, no! E vais enviar as tuas desculpas  minha amiga Mistress Goodheart. Vais escrever-lhe uma carta hoje mesmo e farei com que lha entreguem 
de manh.
       - Deves estar louco, Jeremiah Thurston. Nunca farei tal coisa!
       Jeremiah agarrou-a por um brao e, com um gesto brusco, obrigou-a a sentar-se numa cadeira.
       - Acho que no entendeste bem o que eu disse, Camille Espero que escrevas uma carta de desculpa a Amlia.
       - Por qu?  tua amante?
       - O qu? - Olhou-a como se ela tivesse endoidecido. Amlia era demasiado respeitvel para ser a amante de quem quer que fosse. E ele estivera prestes a pedi-la 
em casamento. No entanto, para no piorar a situao, no focou esse fato a Camille. - Foste grosseira, e agora s minha esposa. J no s a menina mimada que fazia 
tudo o que lhe apetecia. Percebido?
       Camille empertigou-se e, de olhos fixos no marido, ripostou:
       - Sou Mistress Thurston, de So Francisco, e o meu marido  um dos homens mais ricos do estado da Califrnia... do pas... - Olhou para Jeremiah com uma expresso 
que o horrorizou. - E posso fazer tudo o que me apetecer. Percebido?
       Jeremiah estava determinado a deter a transformao que se operava diante dos seus olhos.
       - Esse comportamento, Camille, s atrair sobre ti o desprezo e o dio onde quer que vs. E aconselho-te a ficares mais humilde antes de chegares  Califrnia. 
Vivo numa casa simples no vale de Napa, cuido dos meus vinhedos e sou mineiro. Isso  tudo o que sou. E tu s a minha esposa. E se achas que isso te d o direito 
de ser rude com os nossos amigos, os nossos vizinhos, ou com as pessoas que trabalham para ns, ests completamente enganada.
       De repente, Camille riu-se e agarrou numa mancheia de peles de zibelina. Agora tinha o que queria. Amava o marido, mas tambm o que ele tinha e o que ele 
representava. E que ela agora tambm representava. J ningum olharia para ela por aquilo que o pai era. J que a sua aristocrtica me no conseguira apagar totalmente 
o passado humilde do pai, ela lograra isso amplamente. Libertara-se daqueles laos sociais casando-se com o homem mais rico do estado da Califrnia. E ningum voltaria 
a olh-la com desprezo. Agora tinha a posio que a riqueza lhe conferia, e uma opulncia de que nunca desfrutara e que nunca sonhara em Atlanta. Onde quer que fosse, 
ouvia as pessoas a cochichar, e sabia o que elas diziam. O pai j lho havia dito. Jeremiah era um dos homens mais poderosos e importantes do pas.
       - No me digas que no passas de um simples mineiro, Jeremiah Thurston. O trabalho nas minas  uma imundcie... e ambos o sabemos muito bem. Tu s algo mais 
do que isso, e eu tambm. - Custava a crer que s tivesse dezoito anos. Parecia muito mais velha.
       - E que aconteceria se o trabalho nas minas acabasse, se perdssemos tudo quanto temos? Que sucederia ento? Quem serias tu se condicionas a tua importncia 
a tudo isso? Ningum.
       - Mas tu no vais perder nada.
       - Camille, quando eu, em criana, vivia com os meus pais em Nova Iorque, s tnhamos o suficiente para comer, mas a sorte quis que o meu pai encontrasse ouro 
na Califrnia. Era o sonho de toda a gente nessa altura, e julgo que ainda continua a ser. Tambm tive sorte, mas nada mais do que isso. Sorte. Boa fortuna. Trabalho 
rduo. Mas tudo isso pode ir-se com a mesma facilidade com que veio. Casei-me com uma encantadora menina de Atlanta, e amo-a muito... Agora no te convertas numa 
pessoa diferente pelo simples fato de te teres casado comigo. No seria justo. Nem para mim, e muito menos para ti. No tens nenhuma necessidade de adotar essa atitude.
       - Por que no?  a atitude que as pessoas sempre tiveram comigo, inclusive a minha me. - Os olhos inundaram-se de lgrimas ao fazer aquela confisso; havia 
um certo ar de criana rebelde nas suas palavras. - Sempre me tratou como se eu fosse um ser inferior, porque eu tambm era um pedao do meu pai... como se ele fosse 
ral... bem, mas casou-se com ele, e embora ele fosse ral, prosperou, o suficiente para, depois do suicdio do pai, lhe permitir ter um nvel de riqueza de acordo 
com a sua linhagem. Mas as pessoas sempre olharam para mim e para o Hubert com desprezo. O Hubert est-se borrifando para isso, mas eu no, no estou disposta a 
que continuem a rebaixar-me, Jeremiah. E a Amlia, com a sua aristocracia, a sua opulncia, faz parte dessa corja. Conheo-os muito bem. Vi esse tipo de pessoas 
por todo o Sul, so encantadoras, mas, quando menos esperamos, passam-nos a perna.
       Jeremiah ficou perplexo. Que ataque imerecido a Amlia! Contudo, compreendia algum do ressentimento de Camille. Nunca se apercebera daquele aspecto da sua 
vida e, ao conhec-lo, sentiu compaixo, imaginando as muitas humilhaes que a rapariga teria sofrido ao longo da vida. Agora compreendia o que Orville lhe dera 
a entender quando lhe dissera que queria tirar a filha do Sul. Tinha muita importncia para ela, e no menos para Orville.
       - Mas a Amlia no te disse nada de ofensivo, querida.
       - Vontade no lhe teria faltado.
       Havia lgrimas a correr pelas faces de Camille, e Jeremiah estreitou-a entre os braos
       - Nunca permitirei que faam tal coisa contigo, meu amor. Ningum voltar a humilhar-te. E ficou contente por lhe ter construdo a manso em So Francisco. 
Talvez lhe desse a autoconfiana que lhe parecia faltar. - Prometo, ningum te tratar mal na Califrnia. E tambm sei que a Amlia nunca o teria feito. Devias ter-lhe 
dado uma oportunidade.  Apertou-a contra o peito como se faz a uma criana assustada. - Talvez da prxima vez.
       Depois, conduziu-a para a cama e fez o possvel por consol-la. Quando a manh chegou, ela no escreveu a carta, mas ele no quis transtorn-la com nova insistncia. 
Em vez disso, enviou a Amlia um enorme ramo de biases brancos, flor quase inexistente no inverno. Sabia que ela gostaria, e que compreenderia.
       Jeremiah e Camille passaram o resto da sua estada na cidade a comprar valiosas bagatelas pinturas para a nova casa, um colar de prolas negras e outro de 
diamantes e esmeraldas do qual ela nunca se separava, e bas e bas de tecidos, penas e rendas para o caso de no encontrar aquilo de que gosto na Califrnia justificou-se 
ela.
       - Por amor de Deus, no estamos em frica, estamos na Califrnia.
       Contudo, Jeremiah mostrava-se divertido a v-la comprar tudo e mais alguma coisa, sem fazer qualquer reparo aos seus caprichos. Quando entraram na carruagem 
privada que os levaria  Califrnia, estava meio cheia com os bas e caixas que continham todos os tesouros de Camille.
       - No achas que j compramos o suficiente, meu amor? - perguntou Jeremiah, divertido, enquanto acendia um charuto e o comboio saa da Grand Central Station. 
Antes de deixar Nova Iorque, conseguiu falar mais uma vez com Amlia e insistiu para que ela no ficasse ofendida com o comportamento de Camille.
       -  muito jovem, Jeremiah, d-lhe a oportunidade de se acostumar a ser tua esposa.
       Era precisamente o que ele tencionava fazer. Durante a viagem para a Califrnia, passaram a maior parte do tempo a fazer amor. Ela entregava-se com maravilhosa 
desenvoltura, coisa que dificilmente se poderia esperar de uma rapariga oriunda da educao puritana do Sul. Nunca fora to feliz na sua vida, tanto mais que ela 
estava a adaptar-se rapidamente aos hbitos amorosos de que Jeremiah mais gostava. Era uma amante extraordinariamente extica.
       Finalmente, quando chegaram, Jeremiah mal conseguia conter o seu entusiasmo. Estava mortinho por lhe mostrar a manso... a manso deles... a Manso Thurston... 
em todo o seu esplendor. Porm, continuava a esconder-lhe a verdade para que a sua surpresa fosse maior.
       - No  muito grande, mas d para ns os dois e para o primeiro beb. - Para os primeiros dez bebs, pensou para si prprio, e riu-se. - J vers quando ta 
mostrar!
       Jeremiah ajudou-a a descer do comboio em que haviam viajado durante sete dias, e conduziu-a para a carruagem que os fora buscar. Era novinha em folha, castanha, 
com adornos negros, e puxada por quatro cavalos tambm negros. Comprara-a especialmente para Camille pouco antes de partir para Atlanta.
       - Que bonita carruagem! - exclamou, visivelmente impressionada e a bater as palmas, enquanto ele a ajudava a subir para o veculo. Havia uma segunda carruagem 
para a bagagem; em ambas brilhavam uns arabescos com as suas iniciais: J.A.T., Jeremiah Arbuckle Thurston.
       - A casa  muito longe daqui? - Camille olhou  sua volta, ansiosa, e Jeremiah riu-se.
       - Bastante, pequena. Estavas receosa de que eu tivesse construdo a casa aqui? - perguntou Jeremiah, sentando-se de um salto ao seu lado para se dirigirem 
para o Norte de So Francisco.
       Pelo caminho, foi-lhe indicando os pontos mais importantes da cidade: o Hotel Palace, onde tantas vezes ficara alojado antes de construir a manso, a Igreja 
de S. Patrcio e a da Paternidade, Union Square, a Casa da Moeda e, ao longe, Twin Peaks. Quando, finalmente, comearam a subir Nob Hill, mostrou-lhe a casa dos 
Mark Hopkins, a residncia dos Tobin e as manses dos Crocker e dos Huntington Colton. Camille ficou particularmente impressionada com as casas dos Crocker e dos 
Flood. Eram inclusive mais bonitas do que qualquer uma das que vira em Atlanta e Savannah.
       - Isto  mais bonito do que Nova Iorque! - exclamou Camille, batendo as palmas. So Francisco no era uma cidade assim to m. Nunca imaginara que gostasse 
tanto, e a ansiedade de ver a casa era cada vez maior. Mas Jeremiah alertara-a para o fato de a casa no ser muito grande. Naquele instante, entravam num pequeno 
parque, depois de ultrapassarem dois enormes portes. Os cavalos aceleraram o trote ao percorrer um verdadeiro labirinto por entre rvores e sebes. - A casa  aqui 
dentro? - perguntou, confusa. De momento, s via rvores e mais rvores. Talvez Jeremiah tivesse querido dar um passeio antes de a levar at  casa. Ento, de sbito, 
surgiu diante dela a maior casa do que vira at a. Era um espetacular edifcio com quatro torrees e uma espcie de cpula no cimo. - De quem  esta casa? - perguntou, 
fascinada. Nunca vira uma casa to grande como aquela. - Parece um hotel, ou um museu.
       - Nem uma coisa nem outra - respondeu Jeremiah com ar srio, enquanto a carruagem parava. Camille no conhecia Jeremiah suficientemente bem para perceber 
a malcia que os seus olhos refletiam. - Provavelmente, a maior casa da cidade. Queria que a visses antes de irmos para a nossa.
       - De quem , Jeremiah? - perguntou Camille quase a medo. A casa era maior do que algumas das igrejas que acabava de ver na cidade. - Deve pertencer a gente 
muito rica - acrescentou, e ele riu-se.
       - Gostavas de a ver por dentro?
       - Achas que podemos? - Sentia curiosidade, mas estava hesitante. - No estou devidamente vestida para fazer uma visita. - Trazia um vestido de tweed, uma 
capa de pele e um dos bonitos chapus que Jeremiah lhe comprara em Nova Iorque.
       - Eu acho que ests apresentvel. Afinal de contas, estamos em So Francisco, no em Nova Iorque. Alis, ests elegantssima.
       E antes que ela pudesse acrescentar o que quer que fosse, Jeremiah conduziu-a at  porta principal e fez soar a enorme aldraba de bronze da porta. Quase 
de imediato, um criado de libr abriu a porta e ficou de olhos fixos em Jeremiah. Todos haviam sido prevenidos da sua chegada, e avisados para no fazerem caso do 
comportamento do patro, por mais estranho que lhes pudesse parecer. Jeremiah entrou sem dizer palavra e puxou Camille para junto de si. Detiveram-se debaixo da 
enorme cpula de vitrais, o que deixou Camille quase sem alento. Era a coisa mais bonita que vira em toda a sua vida. Fascinada, no conseguia desviar a vista daquele 
jogo de cores e formas que se projetavam sobre o cho de mrmore.
       - Oh, Jeremiah...  lindo... - Camille no conseguia desviar os seus enormes olhos daquela maravilha.
       Jeremiah baixou o olhar para ela com um sorriso de felicidade estampado no rosto. O seu desejo concretizara-se
       - Queres ver o resto?
       - No seria melhor mandarmos avisar os donos da nossa presena? - Camille parecia preocupada. No era possvel que as pessoas de So Francisco fossem to 
informais. Em todo o caso, aquilo era muito diferente do Sul. Apesar de no viverem num palcio como aquele, os seus pais teriam ficado horrorizados se encontrassem 
algum a passear-se pela casa, ainda que se tratasse de pessoas amigas. No conhecia ningum que o tivesse feito. Pensou, com ntima satisfao, que a casa de Amlia, 
em Nova Iorque, no era to grande. Fossem quem fossem os proprietrios daquela manso, tinham-na superado, e em muito. - Jeremiah...
       Perante a indiferena dos criados, Jeremiah e Camille subiram lentamente a imponente escadaria.
       - Tens de ver o piso de cima, Camille.  a sute mais bonita que alguma vez viste.
       - Mas... Jeremiah... por favor...
       Era uma situao horrvel. Que diriam os donos da casa quando os vissem? Mas, antes que ela pudesse continuar a Protestar, Jeremiah puxou-a para dentro do 
que parecia ser o quarto de dormir principal, todo ele estofado com seda cor-de-rosa. Nunca vira nada parecido. Havia duas pinturas francesas de cada lado da cama, 
e outra sobre a consola da lareira, em frente. Dali, Jeremiah conduziu-a a um pequeno toucador francs, com as paredes cobertas de papel pintado  mo procedente 
de Paris, a um quarto de vestir cheio de espelhos,  maior casa de banho de mrmore rosa que alguma vez vira, e, mais  frente, outra de mrmore verde-escuro, presumivelmente 
para o dono da casa. Passaram por um gabinete com paredes de painis de madeira e foram dar de novo ao quarto de dormir. Por mais inconveniente que fosse aquela 
intromisso numa casa alheia, Camille estava to fascinada perante tanta beleza que quase no lhe importava a indiscrio que estavam a cometer. Era como pr-se 
a comer bombons de chocolate e s conseguir parar depois de ter devorado a caixa inteira, e isso, antes que o dono voltasse a entrar em casa. Era como estar a ter 
um sonho e um pesadelo ao mesmo tempo. Extasiada, olhou de novo para Jeremiah e perguntou.
       - Quem vive aqui? - O nome daquelas pessoas, provavelmente, no lhe diria nada, mas estava certa de que nunca mais iria esquecer Tal como no iria esquecer-se 
daquela casa, das salas imponentes, dos tecidos carssimos, dos tesouros espalhados por todo o lado. - Quem so? Como  que enriqueceram? - Fez a ltima pergunta 
numa voz to baixa que Jeremiah mal conseguiu ouvir.
       - Com as minas - sussurrou ele.
       - Deve haver boas minas por aqui - murmurou Camille, e Jeremiah sorriu.
       - Algumas.
       - Como se chamam?
       - Thurston - sussurrou-lhe ao ouvido.
       Camille fez um ligeiro movimento de incredulidade com a cabea e olhou de novo para ele.
       - Thurston. So teus parentes.
       - Mais ou menos. - Continuavam a falar em voz baixa. -  a casa da minha esposa.
       - Da tua qu? - Camille ficou horrorizada. Que brincadeira era aquela. Teria desatado a chorar se no fosse o medo que sentia. Ele tinha outra esposa. Teria 
sido objeto de um jogo cruel.
       Jeremiah, entendendo tudo o que estava a passar pela mente de Camille, segurou-a pelos ombros e f-la dar uma lenta meia volta de modo a ficar virada para 
um dos enormes espelhos. E apontou para a sua imagem refletida, com um sorriso nos lbios.
       - Aquela esposa, minha tonta. No a conheces? - Ento, com uma expresso de espanto total, Camille voltou-se para ele.
       - Que queres dizer?  esta a tua casa?
       - A nossa casa, querida. - Puxou-a para si e abraou-a, sentindo todo o prazer que o invadia. - Constru-a para ti.  possvel que ainda haja algumas arestas 
por limar, mas disso trataremos ns.
       Camille no tardou a libertar-se dos braos do marido, soltou um grito de espanto e desatou s gargalhadas.
       - Enrolaste-me! Levaste-me  certa, Jeremiah Thurston! Ao ver a tranqilidade com que te passeavas por uma casa alheia, pensei que tinhas enlouquecido de 
vez!
       - Mas tambm estavas mortinha por faz-lo! - retorquiu ele em tom de provocao.
       -  a casa mais bonita do mundo, e no quero deix-la sem acabar de ver... 
       - Ento mostro-te o resto, mas nunca ters de deix-la, querida!  tua, toda tua!
       Ento, os criados atreveram-se a sorrir e um verdadeiro exrcito apareceu para conhecer a nova patroa. Jeremiah contratara toda aquela criadagem pouco antes 
de partir para Atlanta. Agora praticamente no se lembrava de ningum. Era tudo novo para os dois. Jeremiah mostrou-lhe as cozinhas e as despensas, o quarto de brinquedos 
e os quartos das crianas no piso de cima, a vista de quase todas as janelas e a discreta placa no porto principal onde se podia ler MANSO THURSTON. Mostrou-lhe 
tudo o que havia para ver e, no final da visita, Camille deixou-se cair sobre a enorme cama de dossel, com um franco sorriso nos lbios e os olhos fixos nele. Nunca 
vi uma casa assim to bonita. Em lado nenhum.
       - E  toda tua, minha querida, goza-a!
       - Oh,  o que estou j a fazer! - J se imaginava a dar festas deslumbrantes, e no via a hora de ver o salo de baile cheio de convidados. - Vers quando 
escrever ao pap!
       Era o melhor elogio que Jeremiah podia receber. Aos olhos de Camille, o pai era como um Deus, mas Jeremiah estava a adquirir rapidamente a mesma importncia. 
Desta vez, conseguira impression-la. Nem sequer o enorme diamante que lhe oferecera a impressionara tanto. Depois, sorrindo para o marido, exclamou: Deve ter-te 
custado uma fortuna! Deves ser mais rico do que aquilo que o pap pensava! Perspectiva que no pareceu deprimi-la.
       Jeremiah ficou emocionado perante o entusiasmo de Camille pela casa, foi vago a responder s suas perguntas sobre o custo das coisas e ficou decepcionado 
com a reao dela ao lev-la para Napa. Depois da elegncia e das modernas maravilhas da casa de Nob Hill, ela s mostrou indiferena pela casa que ele restaurara 
em Santa Helena. Desgostava-lhe a distncia a que estavam da cidade mais prxima, se  que se lhe podia chamar cidade, e lamentava o muito tempo que era necessrio 
para chegar a So Francisco. A viagem, de carruagem e de barco a vapor, durou um dia inteiro e, ao chegar a Napa, achou a casa deprimente. Ouvira dizer que ele a 
construra para um amor que morrera, o que,tambm a aborreceu. Queria voltar para a grandiosidade da Manso Thurston e exibir as roupas novas. J! E o fato de Jeremiah 
ter ali vivido durante os ltimos vinte anos no a interessava minimamente; no encontrava no vale a magia de que ele lhe falara; s parecia interessada nas minas 
e no dinheiro que ele conseguia tirar delas. Todos os dias, Camille fazia-lhe um milhar de perguntas, mas eram to interesseiras e indiscretas que Jeremiah se limitava 
a dar-lhe respostas vagas. Embaraava-o falar de dinheiro e, alm disso, depois da sua longa ausncia das minas, havia tanto trabalho que mal tinha tempo para a 
esposa. Jeremiah teve que ficar um ms em Napa para pr as coisas em ordem; Camille detestou cada segundo que a passou.
       Jeremiah pensou num elaborado sistema que lhe permitiria viver a maior parte do tempo em So Francisco, como prometera ao sogro, mas as comunicaes entre 
a Manso Thurston e as minas teriam de ser perfeitas. J prometera a Camille que, nesse ano, viveriam em So Francisco desde janeiro at junho, e que, depois, mudar-se-iam 
para Napa para passarem a o vero. Era um compromisso que queria cumprir, mas havia outros problemas que tambm requeriam soluo.
       Para comear, Hannah e Camille no estavam a dar-se nada bem e, ao regressar a casa,  noite, ao fim do segundo dia nas minas, Jeremiah perguntou-se qual 
das duas mulheres iria encontrar  sua espera. Era praticamente impossvel que ambas conseguissem sobreviver ao confronto.
       Camille achava que Hannah, alm de ser desmazelada e atrevida, mostrava demasiada familiaridade, e atrevera-se at a trat-la por "menina" em vez de "Mistress 
Thurston". E, pior ainda, chegara a chamar-lhe fedelha e menina mimada, e Hannah queixara-se a Jeremiah, completamente descontrolada, que a pequena megera lhe atirara 
algo  cabea. E susteve na mo o corpo de delito como prova. Ao que parecia, o projtil fora uma pequena caixa de chapus e, por sorte, a velha governanta conseguira 
esquivar-se.
       - Ela j tem uma certa idade, no acho que seja justo despedi-la. - Camille exigira-lhe que a despedisse na manh seguinte. - No posso faz-lo. - Jeremiah 
no conseguia pensar em nada pior.
       - Ento, despeo-a eu.
       Nunca parecera to decidida nem to sulista. De repente, Jeremiah deu-se conta de que tinha de tomar uma deciso antes que perdesse o controlo da situao.
       - No, no vais fazer nada disso. A Hannah fica. Tens de te habituar a ela, Camille. J faz parte do meu estilo de vida em Napa.
       - Isso era antes de teres casado comigo.
       - Pois era. E no posso mudar tudo da noite para o dia. Restaurei esta casa s para ti. Antes, estava um chiqueiro. Contrato mais criados se precisares, mas 
a Hannah fica.
       - E se me for embora para So Francisco? - Camille olhou-o com ar arrogante, e Jeremiah f-la sentar ao seu colo, sem mais cerimnias.
       - Volto a trazer-te para aqui e dou-te uma sova. - Camille sorriu e Jeremiah beijou-a. - Assim est melhor, essa  a mulher que amo, sorridente e doce, e 
no a lanadora de caixas de chapus a velhotas.
       - Chamou-me megera! - Camille ficou novamente irada, mas no perdeu o seu encanto, e Jeremiah sentiu um forte desejo de possu-la.
       - Se lhe atiraste a caixa, no admira que te tenha chamado megera. Deves portar-te como deve ser, Camille. Por aqui, s h pessoas boas. So simples, e sei 
que te aborrecem, mas, se fores boa com elas, guardar-te-o fidelidade toda a vida. - Naquele instante, lembrou-se de Mary Ellen e dos muitos anos de lealdade para 
com ele, e perguntou-se se j teria tido o beb
       Camille retomou o seu ar petulante, levantou-se e ps-se a andar pelo quarto.
       - Prefiro ir para a cidade. Quero dar um grande baile. - Parecia uma criana birrenta, que queria que o dia de aniversrio fosse naquele mesmo instante, desse 
por onde desse.
       - Tudo a seu tempo, pequena. Tem um pouco de pacincia. Antes disso, tenho de terminar o trabalho que ainda me falta fazer. Suponho que no gostarias de viver 
na cidade sem mim, pois no?
       Camille abanou a cabea sem demasiada convico, e Jeremiah beijou-a de novo, fazendo esquecer qualquer outra coisa que no fossem os seus lbios, e, pouco 
depois, tinha-a a seu lado na cama, e no voltaram a lembrar-se de Hannah At  manh seguinte, altura em que Camille tentou ressuscitar o problema, mas Jeremiah 
no permitiu. Disse-lhe para ir dar um longo passeio higinico, que ele regressaria a casa por volta da hora do almoo. Aquela perspectiva no a acalmou muito, mas 
no tinha alternativa. Jeremiah deixou-a sozinha com Hannah, que lhe dirigiu apenas duas palavras durante toda a manh. Quando ele voltou, encontrou-a incrivelmente 
conversadora, fez-lhe muitas perguntas sobre a mina e o trabalho, e ele contou-lhe as bisbilhotices que corriam pela cidade sobre pessoas que Camille no conhecia 
Mas, ao fim de pouco tempo, as palavras do esposo comearam a aborrec-la. Na realidade, todo o vale de Napa a aborrecia. O que ela queria era voltar para So Francisco, 
e tornou a dizer-lhe isso mesmo depois do almoo, quando Jeremiah se preparava para selar Big Joe a fim de voltar para a mina. Desta vez, ele abanou a cabea e falou-lhe 
com toda a franqueza
       - Ficaremos aqui at ao fim do ms. Vai-te acostumando  idia, Camille. Este  o outro lado da nossa vida. As coisas no se podem resumir  Manso Thurston. 
Tambm temos de fazer vida aqui. Sou mineiro. J te tinha dito.
       - No s nada mineiro. s o homem mais rico da Califrnia. Vamos voltar para So Francisco e viver de acordo com a nossa posio.
       Aquelas palavras preocuparam Jeremiah, que tentou repetidas vezes traz-la  razo, mas sem qualquer xito.
       - Sempre esperei que gostasses do vale de Napa, Camille. Isto  muito importante para mim.
       -Pois eu acho-o feio, aborrecido e estpido. E detesto essa maldita velha, tal como ela a mim.
       - Ento, l um livro. No sbado, levo-te  biblioteca de Napa. - Isso significava perder o trabalho matinal dos sbados com Danny, mas naquele momento Camille 
era mais importante. Jeremiah queria que ela se adaptasse  forma de vida rural de Napa. No podia viver sempre em So Francisco, e era lgico que a quisesse ter 
sempre ao seu lado.
       No entanto, o imprevisto aconteceu, e Jeremiah no passou a manh de sbado nem com Camille nem com Danny. Na sexta-feira  tarde, houve uma inundao numa 
das minas, coisa que acontecia todos os Invernos e, apesar da luta encarniada para salvar as vidas em perigo, perderam-se catorze homens e resgataram-se outros 
trinta. Jeremiah no abandonou nem por instantes as equipes de salvamento, que, no fundo da mina, trabalharam sem descanso para retirar os homens enclausurados nas 
galerias inundadas, os quais, agarrados s paredes como morcegos e j mal conseguindo respirar, aguardavam o momento do resgate. Foram horas terrveis de constante 
tenso, como Hannah contou a Camille quando soube da notcia e do motivo de Jeremiah no ter voltado para casa. Ela sabia que ele no regressaria at que se encontrasse 
o ultimo dos homens, vivo ou morto, e at ter ido ver as vivas. S ento voltaria para junto da esposa. Camille ficou abatida quando ouviu a notcia, e quando Jeremiah, 
montado no dorso de Big Joe, ao meio-dia do dia seguinte, regressou a casa, em passo lento, ela compreendeu, pelo seu semblante carregado, o drama que acabara de 
viver.
       - Perdemos catorze homens - foram as primeiras palavras que dirigiu  esposa, e Camille, ao imaginar a dor das vivas, sentiu os olhos alagarem-se de lgrimas.
       - Sinto muito. - Os olhos estavam marejados de lgrimas, tanto por ele como pelas mulheres que haviam ficado vivas.
       Entre as vtimas, contava-se o pai de Danny, perda que Jeremiah lamentou de modo especial. Dissera isso mesmo ao rapaz, por entre soluos, enquanto o abraava. 
E seria um dos que ajudaria a transportar o caixo no funeral, na segunda-feira seguinte. Era difcil explicar essas coisas a Camille. Embora fossem realidades da 
vida do marido, a sua juventude e a sua inexperincia no lhe permitiam compreend-las cabalmente. Para ela, a nica realidade era a beleza da manso que ele lhe 
construra. Mas havia muitssimas outras coisas no mundo. E tinha de comear a conhec-las.
       Hannah correu a preparar um banho quente para Jeremiah, e Camille apressou-se a ir buscar uma tigela de caldo que Hannah fizera, no mostrando ter jeito para 
nenhuma das coisas, nem se sentindo inclinada a aprender a faz-las. Enquanto Camille enchia uma tigela de caldo, Hannah encontrava-se com ele na casa de banho, 
no primeiro piso. Olhou-o fixamente durante um longo instante e depois abanou a cabea.
       - Sei que no  o momento mais oportuno para te dizer... - Vacilou durante uma frao de segundo. - A Mary Ellen est em trabalho de parto h dois dias. Soube 
ontem de manh, mas no tive ocasio de falar contigo. E esta manh, pelo que disseram no mercado, continua em trabalho de parto. - Ambos sabiam o que aquilo significava. 
Mary Ellen podia morrer. Um sem-nmero de mulheres havia morrido durante o trabalho de parto. - No sei se ests disposto a fazer alguma coisa por ela. - No havia 
qualquer tom de reprovao na voz. Era uma simples constatao dos fatos. - Mas achei que devia dizer-te.
       - Obrigado, Hannah. - Jeremiah baixou a voz ao ver entrar a esposa com a tigela de caldo, e olharam um para o outro.
       Camille sentiu imediatamente que Hannah estivera a contar um segredo a Jeremiah, algo sobre ela, suposio que era infundada.
       - Que estava ela a contar-te? - perguntou Camille, logo que a velhota saiu.
       - Bisbilhotices. Um dos meus homens precisa de ajuda. Vou v-lo depois de tomar banho.
       - Mas precisas de descansar. - Camille pareceu desconcertada. Jeremiah estava to cansado que sentia os msculos dormentes. Trabalhara toda a noite, meio 
submerso em lama gelada, e podia dar os esforos por bem empregues, pois contribura para o salvamento de trinta homens.
       - Descansarei mais tarde, Camille. Podes trazer-me um pouco mais de caldo? E uma xcara de caf?
       Ela foi buscar o que Jeremiah lhe pedira e, ao voltar, encontrou-o sentado na banheira. Esvaziou os dois recipientes e levantou-se. Conservava ainda o corpo 
vigoroso e macio da juventude. Os anos de trabalho nas minas desde muito jovem haviam-no mantido em perfeitas condies fsicas. Camille contemplou com admirao 
um corpo que, apesar dos seus quarenta e quatro anos, conservava toda a sua beleza.
       - s belo, Jeremiah. - Este sorriu.
       - Tambm tu, pequena. - Mas o pensamento de Jeremiah estava noutro stio. Vestiu-se rapidamente e preparou-se para sair. Camille dirigiu-lhe um olhar de inquietude.
       - Porque vais precisamente agora?
       -  necessrio. No me demorarei.
       - Aonde vais? - Era a primeira vez que ela o interrogava daquela maneira, e perguntou-se por que razo ela o faria.
       - A Calistoga. - Jeremiah olhou para Camille sem vacilar, mas interiormente estremeceu. Ia assistir ao nascimento do filho, ou  morte de Mary Ellen, se  
que isso no tinha j acontecido.
       - Posso ir contigo?
       - No. Desta vez, no, Camille.
       - Mas quero ir - insistiu, de novo com o seu ar petulante; Jeremiah afastou-a delicadamente para o lado.
       - No posso perder mais tempo. Falaremos disso quando voltar.
       E antes que Camille pudesse acrescentar uma palavra sequer, Jeremiah j galopava, a considervel velocidade, no dorso de Big Joe, atravs das colinas, ansioso 
por saber o que iria encontrar no final do caminho.
       
      14
       
       O grande cavalo branco, esporeado por Jeremiah, avanava pesadamente pelo vale acima. Thurston s conseguia pensar nos homens que perdera na noite anterior, 
e uma ou duas vezes ainda cabeceou com sono, mas Big Joe parecia saber para onde iam. A casinha branca estava silenciosa quando Jeremiah prendeu o cavalo a uma rvore 
e contornou a casa at  porta principal, bateu e entrou. No ouviu nada, o que o fez pensar que talvez Mary Ellen tivesse ido dar  luz a casa da me. Mas no tardou 
a ouvir um terrvel gemido procedente do piso de cima. Parou, perguntando-se se ela estaria sozinha, depois subiu as escadas com suaves passadas, sem saber o que 
devia fazer, ou por que razo viera. S sabia que devia estar ali. Tratava-se do nascimento do seu filho e, qui, da morte de Mary Ellen.
       Deteve-se  porta do quarto durante um longo instante at que os gemidos deixaram de se ouvir. Ento, escutou um dbil soluo e um homem a falar baixinho. 
Era uma situao to embaraosa que Jeremiah sentiu um cansao imenso por todo o corpo. Achava que a sua presena ali era uma insensatez, mas, mesmo assim, bateu. 
Caso necessrio, poderia alegar que s ia  procura do mdico. Foi o prprio mdico que lhe abriu a porta, de mangas arregaadas, os olhos sonolentos, e a camisa 
cheia de manchas de sangue, o que no parecia importar-lhe.
       Desculpe... queria saber se... - A sua torpeza era evidente. Sentia remorsos por ter deixado que aquela mulher tivesse o seu filho quase sem a ajuda de ningum. 
Olhou para o mdico e perguntou-lhe sem prembulos. - Como  que ela est? No se apresentou, mas no era necessrio faz-lo.
       O mdico sabia quem ele era. No condado, todos conheciam Jeremiah Thurston. O homem fechou a porta suavemente e saiu para o corredor para falar com Jeremiah.
       - No est muito bem. Encontra-se em trabalho de parto desde quarta-feira  noite, e no h maneira de fazer sair a criana. Ela tem feito um esforo incrvel, 
mas receio que esteja a chegar ao fim das suas foras.
       Jeremiah moveu a cabea com ar preocupado, sem se atrever a perguntar se Mary Ellen podia morrer. J sabia a resposta.
       - Quer entrar? - No olhar do mdico no se vislumbrava qualquer tipo de crtica implcita. Talvez aquela visita pudesse ser importante para a mulher. A presena 
daquele homem no lhe faria qualquer mal. Alm disso, estava a sofrer h tanto tempo que certamente pouco lhe importava quem pudesse vir v-la. E o filho era dele.
       Jeremiah hesitou. Nunca se imaginara a assistir a um parto, mas o mdico mostrou-se compreensivo.
       - Acha que ela se importa?
       O mdico olhou para Jeremiah.
       -  provvel que nem sequer se d conta de quem voc . Tem pouca conscincia de tudo o que a rodeia. - Fez uma ligeira pausa e fitou Jeremiah. - Acha que 
consegue?  a primeira vez que assiste a um parto?
       Jeremiah abanou a cabea.
       - S gado.
       O ancio fez um ligeiro movimento de anuncia com a cabea. Sem acrescentar palavra, abriu a porta e entrou no quarto seguido de Jeremiah. L dentro, respirava-se 
um ar pesado e doce, uma mescla de cheiro a suor, a gua de rosas e a lenis midos, e no havia qualquer janela aberta. Mary Ellen jazia na cama, coberta com dois 
cobertores e, da cintura para baixo, rodeada de lenis manchados de sangue. Dava a impresso de que algum a assassinara no leito. Naquele instante, o seu enorme 
ventre fazia uma ligeira pausa depois de trs dias de denodados esforos. As pernas estavam suspensas como as de uma boneca de trapos e todo o corpo tremia. Ento, 
enquanto Jeremiah a fitava, angustiado e consumido pelo sentimento de culpa, Mary Ellen viu-se abalada por aquilo que parecia uma convulso. Seguiu-se um grito agudo 
que, a pouco e pouco, se converteu num grito horrendo, ao mesmo tempo que se contorcia na cama, revirava os olhos e esbracejava freneticamente. Mary Ellen deixou 
escapar umas palavras incoerentes, e o mdico acercou-se rapidamente dela. Era fcil de ver que estava quase inconsciente. Outro grito tremendo foi o preldio de 
um intenso fluxo de sangue entre as pernas. O mdico enfiou as mos no tero, mas retirou-as com ar de frustrao e secou-as numa toalha que estava empapada de sangue 
Profundamente comovido, Jeremiah acercou-se da cama e olhou para o torturado rosto de Mary Ellen. Se no soubesse quem era, no a teria reconhecido.
       O mdico falou-lhe em voz baixa, sabendo que Mary Ellen no podia ouvi-lo. Naquele instante, parecia dormitar entre duas contraes.
       - Perdeu muito sangue. Houve algo que se desprendeu. V-se pela hemorragia que acaba de ter, mas no consigo det-la, e a criana deu mal a volta. Tem o ombro 
na posio de sada. Desse modo, por maior que seja a presso, no conseguiremos nada. - Havia alguma mgoa nas palavras do mdico ao responder  muda pergunta de 
Jeremiah. - Podemos perder os dois. - Olhou para a mulher prostrada em cima da cama. - Ela, de certeza, se no conseguirmos tirar o beb o mais depressa possvel. 
J poucas foras lhe restam.
       - E o beb? - Afinal de contas, tratava-se do seu filho, mas, ainda assim, s Mary Ellen o preocupava. Era como se nunca a tivesse deixado, como se Camille 
nunca tivesse existido.
       - Se conseguisse que o beb desse a volta, talvez fosse capaz de tir-lo, mas no posso fazer isso sozinho. - Fitou Jeremiah. -  capaz de segur-la?
       Jeremiah assentiu com a cabea, receoso de lhe provocar mais dor. Mary Ellen voltara a acordar e comeava a gemer de novo com o incio de outra contrao. 
Ao levantar os olhos, teve a impresso de ver Jeremiah, mas era bvio que pensava que estava a sonhar.
       - Vai tudo correr bem - disse-lhe ele, sorrindo e fazendo-lhe uma festa no rosto, enquanto se ajoelhava no cho, ao lado dela. - Estou aqui. No vai haver 
problema. - Mas nem por um instante acreditou naquilo que estava a dizer, e j vira muitas mortes nas ltimas vinte e quatro horas. No queria assistir a outra morte, 
mas receava que era isso mesmo que iria acontecer ao v-la contorcer-se com dores, ao mesmo tempo que saa mais sangue de dentro dela.
       - No agento... no agento mais...
       Mary Ellen arquejava. Instintivamente, Jeremiah tomou-a pelos ombros, abraou-a e, de repente, sentiu todo o peso da sua cabea sobre o brao. Desmaiara. 
Estava extremamente plida. O mdico tomou-lhe o pulso e olhou para Jeremiah.
       - Vou tentar dar a volta ao beb e tir-lo logo que possvel. Segure-a. No a deixe mexer-se.
       Jeremiah seguiu as instrues e no parou de lhe falar baixinho, mas os gritos de Mary Ellen eram to agudos que ela no conseguia ouvi-lo. Acabou por desmaiar 
de novo, antes que o mdico conseguisse aquilo que queria. Com a fronte banhada em suor, Jeremiah olhou para o relgio e ficou espantado ao verificar que j estava 
ali h quatro horas.
       - Ela no agentar muito mais, doutor.
       - Eu sei. - O mdico fez um ligeiro gesto afirmativo com a cabea e preparou um aparelho de aspecto sinistro que iria utilizar para tirar o beb logo que 
ele desse a volta.
       Ento, de repente, Mary Ellen teve nova contrao e acordou, desta vez de olhos esbugalhados, enquanto Jeremiah a mantinha imvel contra a cama e o mdico 
enfiava os braos o mais fundo que podia no interior da mulher tentando agarrar o beb. Jeremiah sabia que nunca esqueceria os gritos que estava a ouvir. Foram necessrias 
quatro tentativas com as mos para que o beb ficasse numa posio satisfatria, e cinco com o estranho aparelho enfiado entre as pernas de Mary Ellen, que no parava 
de gritar entre os braos de Jeremiah. Eram gritos lancinantes que no tinham nada de humano. O mdico deixou escapar um furioso grunhido, e Jeremiah, com a fronte 
ainda ensopada em suor, notou uma mudana no corpo de Mary Ellen. A mulher, extremamente plida, afundou-se entre os seus braos. A respirao era to dbil e irregular 
que Jeremiah temeu que ela no estivesse a respirar. Mas, ao voltar-se para o mdico, viu o que acontecera. O beb sara finalmente e jazia morto entre as pernas 
de Mary Ellen que continuava a esvair-se em sangue. A cena no podia ser mais dolorosa. O mdico cortou o cordo umbilical, envolveu a criana num lenol e tentou 
estancar o sangue que continuava a sair abundantemente das entranhas de Mary Ellen. Jeremiah experimentou um doloroso sentimento de derrota ao verificar que o seu 
primeiro filho nascera morto, mas, naquele instante, s podia pensar na me, cuja vida vacilava perante a impotncia dos dois homens que a assistiam. O mdico fez 
vrias tentativas desesperadas, depois cobriu Mary Ellen e, acercando-se da cabeceira da cama, deu uma palmadinha no ombro de Jeremiah.
       -Lamento o que aconteceu ao beb.
       - Tambm eu. - Jeremiah sentiu a voz embargada. Eram demasiadas desgraas que presenciara naquelas duas ltimas noites, e continuava a temer pela vida de 
Mary Ellen. - Acha que ela se salvar? - Olhou para o mdico com um ar suplicante. Este no podia assegurar-lhe nada.
       - No posso fazer nada mais por ela. Ficarei aqui, mas no posso prometer-lhe nada.
       Jeremiah no se afastou nem por um instante da cabeceira da cama. J a noite ia adiantada quando Mary Ellen voltou a agitar-se na cama, gemendo suavemente 
e abanando a cabea de um lado para o outro; no entanto, s abriu os olhos de manh.
       - Mary Ellen... - murmurou Jeremiah. O mdico dormia a um canto. - Mary Ellen...
       Ela voltou-se para ele, confusa.
       - s mesmo tu? Pensei que fosse um sonho... - Ento, olhou para ele e fez-lhe a pergunta que ele mais temia.
       - Jeremiah... o beb?... - Mas apercebeu-se instintivamente do que acontecera, e voltou a cara para o outro lado com os olhos inundados de lgrimas. Jeremiah 
pegou-lhe na mo e acariciou-lhe o cabelo.
       - Salvamos-te, Mary Ellen...
       Havia lgrimas nos olhos de Jeremiah. Temera tanto que ela morresse. Teve vontade de lhe dizer o quanto lamentava o que acontecera ao beb, mas tinha um n 
na garganta do tamanho de um punho que no o deixava dizer o que quer que fosse.
       - O que era? - Mary Ellen olhou para ele de novo e reparou que ele ainda chorava.
       - Um rapaz.
       Mary Ellen abanou ligeiramente a cabea, fechou os olhos e, quando voltou a acordar, o mdico expressou a sua satisfao pelas melhoras observadas na paciente 
e acrescentou que ir-se-ia embora, mas que voltaria da parte da tarde para ver como estava a evoluir o seu estado. J no corredor, disse a Jeremiah que, se Mary 
Ellen no perdesse mais sangue, conseguiria salvar-se, e que ele, pessoalmente, acreditava na sua sobrevivncia.
       -  uma mulher de armas. Mas j lhe havia dito h anos atrs que no voltasse a pensar em ter filhos. Foi uma insensatez... - Encolheu os ombros, - ... ou, 
talvez, um acidente. - Ento, olhou para Jeremiah. - Se tiver de ir j para casa, a minha mulher ficar com ela. - No queria meter-se em assuntos alheios, mas j 
lhe chegara aos ouvidos que Jeremiah tinha uma esposa jovem em Santa Helena.
       - Agradecia-lhe imenso. No me deitei esta noite por causa das inundaes nas minhas minas.
       O mdico fez um gesto de compreenso com a cabea; tinha respeito por aquele homem. Ele fora de uma grande ajuda durante aquela longa noite com Mary Ellen. 
E, estendendo a mo para Jeremiah, declarou:
       - Sinto muito o que aconteceu ao beb.
       - Graas a Deus, conseguiu salv-la.
       O mdico sorriu, sensibilizado com aquelas palavras. Aquele homem no era o nico homem do vale que tinha esposa e amante, e filhos de ambas. E, apesar de 
tudo, parecia ser um homem honesto
       - A minha mulher estar aqui dentro em pouco. - E, quando o mdico saiu, Jeremiah despediu-se de Mary Ellen.
       - Voltarei amanh. Descansa e faz o que o mdico te disser. - Ento, teve outra idia. - Vou pedir  Hannah que venha para c quanto antes. Pode ficar contigo 
o tempo que for necessrio.
       Mary Ellen esboou um tnue sorriso e segurou por instantes a mo quente de Jeremiah.
       - Obrigada por teres vindo, Jeremiah... Sem ti, teria morrido. - Ela estivera s portas da morte, mas ele no lhe disse.
       - Agora, s uma menina bonita!
       Mary Ellen fechou os olhos e adormeceu de novo ainda antes de ele sair do quarto. A caminho de Santa Helena, montado no Big Joe, Jeremiah sentiu um tremendo 
esgotamento em todas as fibras do seu corpo. Quando desmontou em frente da casa, Hannah veio ao seu encontro. A mulher, com olhar expectante, queria falar com ele 
antes que Camille sasse tambm, e Jeremiah, pela mesma razo, apressou-se a dizer em voz baixa
       - A Mary Ellen est bem, mas o beb nasceu morto - E, soltando um profundo suspiro, acrescentou - Estivemos quase a perd-la. Disse-lhe que irias hoje mesmo 
v-la e que ficarias a cuidar dela o tempo que for necessrio. - Por instantes, pensou que talvez tivesse tomado demasiada liberdade ao oferecer os prstimos de 
Hannah, mas a velhota fez um resoluto gesto de concordncia com a cabea.
       - Fizeste bem. Vou j buscar as minhas coisas. - Ento, com um olhar perscrutador, perguntou: - Como  que ela est?
       Jeremiah abanou a cabea, deixando que o seu rosto refletisse toda a angstia passada naquelas ltimas horas.
       - Foi horrvel, Hannah, a pior coisa que presenciei. No sei por que razo  que as mulheres querem ter filhos. - Encontrava-se profundamente impressionado 
por tudo aquilo que vira, e no sabia se conseguiria tirar todas aquelas imagens da cabea to cedo.
       - Algumas no querem. - Olhou propositadamente por cima do ombro. Depois, para anim-lo, acrescentou. - Mas nem sempre  assim, filho. A Mary Ellen sabia 
que ia passar um mau bocado. O ltimo parto foi quase igual a este. O mdico j a avisara. - Havia um ligeiro tom de reprovao na sua voz. - Estiveste todo esse 
tempo com ela?
       Jeremiah fez um gesto afirmativo com a cabea
       - s um bom homem, Jeremiah Thurston - afirmou ela, olhando-o com renovado respeito.
       Naquele instante, Camille apareceu no alpendre com um ar exasperado.
       Onde estiveste toda a noite, Jeremiah? - perguntou, sem se importar que Hannah pudesse ouvi-la.
       - Com um dos meus homens que ficou ferido na mina. - Com aquelas palavras estavam explicadas as manchas de sangue que havia numa das mangas e a barba por 
fazer. Passara duas noites inteiras sem dormir, e naquele instante encontrava-se completamente esgotado. - Desculpa no ter vindo para casa, meu amor.
       Camille fitou-o com ar severo e, perante a surpresa de Hannah, deu meia volta e entrou novamente em casa, fechando a porta com estrondo.
       - No h nada como uma esposa compreensiva - observou a velhota num tom mordaz. Deu umas palmadinhas no brao de Jeremiah e subiu a escada para ir buscar 
as suas coisas. - Vou j, Jeremiah. No te preocupes com nada. E descansa. Deixei um pouco de sopa e guisado no fogo para ti.
       - Obrigado, Hannah.
       Jeremiah dirigiu-se lentamente at  cozinha e encheu uma tigela de sopa antes de subir em busca da esposa, que se encontrava no quarto.
       - Onde  que estiveste? - insistiu Camille ao v-lo. 
       - J te disse onde estive. - Jeremiah no tinha vontade de falar. Nessa noite, vira morrer o seu primeiro filho, e a vida da sua amante de sete anos estivera 
por um triz.
       - No acredito em ti, Jeremiah.
       Camille estava bela e imaculada no seu vestido vaporoso cor-de-rosa; Jeremiah, pelo contrrio, sentia-se exausto e imundo.
       - No tens muito por onde escolher, Camille. J te disse que estive com um dos meus homens.
       - Por qu?
       - Porque esteve s portas da morte, foi essa a nica razo - respondeu Jeremiah com certa brusquido, enquanto se sentava com a tigela de sopa junto da lareira. 
Mas Camille, que andava nervosamente de um lado para o outro do quarto, no se deu por vencida.
       - Podias ter-me avisado que no vinhas para casa.
       - Desculpa. - Jeremiah olhou-a diretamente nos olhos. - No podia mandar ningum.
       A resposta pareceu satisfaz-la, mas Jeremiah ficou intrigado com o fato de ela suspeitar que ele mentia. Era extremamente perspicaz, mas no lhe podia contar 
o que se passara. Sem dizer mais nada, Jeremiah continuou a comer a sopa, sentindo um novo respeito pela astcia e a intuio da sua esposa.
       - Suponho que agora vais para a cama. - Camille pareceu menos irritada, enquanto se sentava perto dele, numa cadeira de balano.
       - Gostaria de ir  igreja depois de tomar banho.
       -  igreja? - A pergunta saiu-lhe quase num grito. Detestava igrejas, nunca gostara. A me apreciava aquelas coisas, mas ela era diferente. - Nunca vais!
       - Vou de vez em quando. - Se no estivesse to esgotado, teria achado graa  reao de Camille. - E acabamos de perder catorze homens nas minas. - Alm do 
seu nico filho. - No s obrigada a ir se no quiseres, mas ficar-te-ia bem se fosses.
       Camille fitou-o com ar aborrecido.
       - Quando  que voltamos para a cidade?
       - Logo que possamos. - Levantou-se e dirigiu-se para ela. - Farei o que puder para voltarmos para So Francisco o mais breve possvel. Prometo, pequena!
       Aquelas palavras pareceram apazigu-la, o suficiente para mudar de vestido e o acompanhar  igreja uma hora depois. Quando regressaram, Jeremiah deitou-se 
e dormiu o sono dos justos at  hora do jantar, altura em que se levantou para comer outra tigela de sopa e voltou a cair no sono at  manh seguinte, quando teve 
de se levantar para assistir ao funeral dos homens que haviam morrido na mina, na sexta-feira Mas, desta vez, Camille no o acompanhou. Ficou em casa e, quando ele 
regressou, fez ouvir as suas queixas pela ausncia de Hannah. Jeremiah explicou-lhe que ela fora cuidar de uma amiga que estava enferma.
       - Por que razo  que ela no me disse? - perguntou Camille, furiosa. - Sou a dona desta casa. Agora trabalha para mim.
       Jeremiah no gostou daquela maneira de falar, mas no quis aumentar a sua irritao.
       - S me disse domingo de manh, quando cheguei a casa
       - E deixaste-a ir? - Camille estava lvida.
       - Deixei. Tinha a certeza de que compreenderias a situao. - Tentou pr um ponto final no assunto quanto antes. - Voltar dentro de dias.
       No entanto, Hannah s voltou quase uma semana depois, e informou Jeremiah que Mary Ellen ainda se encontrava muito debilitada, mas que j conseguia pr-se 
de p, fato que o encheu de satisfao. Dias antes, enviara-lhe um bilhete em que lhe asseverava que a morte do seu filho no mudara nada. No lhe tiraria a penso 
que ela recebia desde h vrios meses. Dera j informaes ao banco para que fosse vitalcia. Alm disso, esperava que ela no voltasse a trabalhar. Podia ficar 
em casa a tomar conta dos filhos e a recompor-se. Mary Ellen ainda pensou em enviar-lhe um bilhete a agradecer, mas no se atreveu a faz-lo, com medo de que casse 
nas mos de Camille. Foi, pois, Hannah que o fez em seu nome.
       - Tens a certeza de que est fora de perigo, Hannah?
       - Ainda se encontra muito debilitada, mas j vai tendo mais foras.
       - Provavelmente graas aos teus petiscos. - Jeremiah esboou um sorriso de agradecimento e preveniu-a de que Camille ficara aborrecida com a sua ausncia.
       - Ela cozinhou alguma coisa para ti?
       - C nos arranjamos. De qualquer modo, dentro de dias voltaremos para So Francisco. - Perspectiva que no agradou a Hannah.
       - Isto ser uma solido, Jeremiah.
       - Eu sei. Mas, de vez em quando, virei dar uma vista de olhos s minas.
       - Vai ser duro para ti.
       Aquela situao, porm, no era justa para a esposa. No lhe construra um palcio na cidade para a condenar  vida no campo, que ela detestava.
       - Vai tudo correr bem. Viremos passar aqui os meses de vero, provavelmente desde Junho at setembro ou outubro. - Embora ele preferisse de maro at novembro. 
- Se, entretanto, precisares de alguma coisa, manda-me dizer logo.
       - Est bem, Jeremiah.
       - Como? - Uma vozinha abespinhada atrs deles apanhou-os de surpresa, e Jeremiah interrogou-se sobre o que Camille teria ouvido da conversa deles antes de 
darem pela sua presena. - Ouvi-te dizer "Jeremiah", Hannah? - Ficaram ambos perplexos.
       - Sim, foi isso que eu disse - respondeu Hannah, como se no tivesse percebido onde  que Camille queria chegar
       - Agradeo que quando te dirigires ao meu marido o trates por Mister Thurston. De agora em diante, j no ser o teu "rapaz" ou o teu "amigo".  meu marido 
e tu, a sua criada. E o nome dele, recordo-te mais uma vez,  Mister Thurston.
       Nunca se mostrara to sulista nem to impertinente. Jeremiah ficou furioso. No lhe disse nada diante de Hannah, mas seguiu a esposa pelas escadas acima e 
fechou a porta do quarto com estrondo.
       - O que se passa, Camille? Como pudeste ser to grosseira com uma velhota que sempre se distinguiu pela sua fidelidade? - A mesma velhota que ajudara a sua 
amante a recompor-se do frustrado nascimento do seu filho, mas Camille no sabia nada disso, apesar de estar preparada para qualquer surpresa. Raramente o vira irritado. 
- No tolerarei. Quero que tenhas isso bem presente.
       - No tolerars o qu? Eu s quero que os nossos criados nos respeitem, e essa velha comporta-se como se fosse tua me. Mas o que  fato  que no . No 
passa de uma velha horrenda, descarada e linguareira, e juro-te que a aoito se volto a apanh-la a chamar-te Jeremiah.
       Este s teve vontade de a tomar pelos ombros e dar-lhe um abano. Em vez disso, agarrou-a pelo brao e disse-lhe.
       -Aoit-la? No estamos no Sul, Camille, e os tempos da escravido j passaram. Se ousares pr-lhe a mo em cima, ou voltares a ser grosseira com ela, serei 
eu que te dou uns aoites. Fixa bem o que te estou a dizer. Agora vais descer e pedir-lhe desculpa.
       - Como? - gritou Camille como se no pudesse crer no que acabava de ouvir.
       - A Hannah trabalha para mim h mais de vinte anos,  honesta e fiel, e no vou permitir que uma menina mimada de Atlanta a maltrate. Acho melhor que vs 
pedir-lhe desculpa imediatamente! Caso contrrio, levas uns valentes aoites. - Jeremiah falava a srio, mas estava j mais calmo, ao contrrio da esposa, cujos 
olhos ardiam de fria.
       - Como te atreves, Jeremiah Thurston? Como podes atrever-te? Jamais pedirei desculpa a essa ordinria...
       Jeremiah no conseguiu agentar mais. Levantou a mo e deu-lhe uma bofetada. Camille ficou sem respirao e foi a cambalear at  lareira, a cuja consola 
se apoiou para no perder o equilbrio.
       - Se o meu pai estivesse aqui, aoitar-te-ia at te arrancar a pele toda. - Falava em voz baixa e num tom rancoroso, e Jeremiah sentiu que as coisas tinham 
ido longe de mais.
       - Chega, Camille! Foste grosseira com uma fiel servidora, e no tolerarei que continues a faz-lo. Basta de ameaas e de falar de aoites! Comporta-te como 
deve ser daqui para a frente, e isto no volta a acontecer.
       - Comportar-me como deve ser? Agora no me comporto bem! Maldito sejas, Jeremiah Thurston! Maldito, maldito, maldito!
       Camille saiu intempestivamente do quarto e fechou a porta com violncia. S voltou a dirigir-lhe a palavra quando regressaram a So Francisco. Durante a viagem, 
manteve um distanciamento e uma amabilidade glacial; porm, ao transpor de novo a porta da imponente manso de Nob Hill, recuperou o entusiasmo e, esquecendo tudo 
num instante, ps os braos  volta do pescoo do marido. Sentia-se to feliz por ter regressado que j se esquecera da zanga que haviam tido. Jeremiah riu-se, pegou-lhe 
ao colo, levou-a para o quarto e fizeram amor.
       - Bem, sobreviveste ao ms em Napa, meu amor. - Jeremiah sentia-se ainda decepcionado com o desprezo que ela votava ao vale que ele tanto amava. - Agora s 
nos falta ter o nosso primeiro filho.
       A dor da perda do filho de Mary Ellen ainda no o abandonara, o que o fazia desejar outro, desta vez de Camille. Dava graas a Deus pela juventude e a sade 
que ela exibia, e albergava a esperana de que nunca teria de passar por uma prova to terrvel como a de Mary Ellen. H quase dois meses que estavam casados e ansiava 
v-la grvida.
       - A minha me diz que, s vezes, requer certo tempo, Jeremiah. No penses tanto no assunto.
       Todavia, ele mostrava-se cada vez mais impaciente E falar no tema deixava-a pouco  vontade. Camille ainda no queria ter filhos. Tinha dezoito anos, e possuam 
uma magnfica manso onde desejava dar muitas festas. Causava-lhe verdadeiro horror a perspectiva de engordar, sentir-se mal e ficar em casa para acabar por morrer 
ao dar  luz.
       E durante os meses de primavera, enquanto Camille fazia a sua entrada na alta sociedade de So Francisco, Jeremiah no conseguiu o seu desejo. Mas ela sentia-se 
mais feliz do que nunca. Conseguira o status que tanto almejara e no paravam de dar festas, bailes e jantares, e de ir  pera e a concertos. Em maio, ofereceu 
um maravilhoso piquenique nos vastos jardins, e no tardou em ser conhecida como a mais deslumbrante anfitri da cidade. Os bailes que dava no salo rivalizavam 
com os de Versalhes. Camille vivia num constante xtase. Jeremiah, nem por isso. Ia vezes sem conta a Napa e, amide, chegava completamente esgotado. Ela censurava-o 
quando adormecia num dos seus suntuosos jantares, e insistia para que sassem todas as noites quando Jeremiah se encontrava na cidade. Caso o marido no a acompanhasse, 
saa sem ele. Aqueles meses foram um verdadeiro torvelinho social. No foi, pois, de estranhar que Camille se pusesse quase de luto quando ele lhe recordou que iriam 
mudar-se para Napa no dia um de Junho.
       - Mas eu queria dar um baile de vero, Jeremiah contraps, num tom lastimoso. Porque no vamos em julho.
       - No podemos. Tenho de passar algum tempo nas minas, Camille Caso contrrio, em breve no teremos com que pagar todas as tuas festas.
       Naturalmente, Jeremiah no falava a srio. Ainda era o homem mais rico da Califrnia e podiam viver sem a menor preocupao econmica. Todavia, desejava passar 
mais tempo nas minas e, no Vero, gostava de estar junto dos seus vinhedos. Alm disso, j vivera tempo suficiente na cidade. J l se encontrava desde fevereiro. 
Jeremiah estava disposto a mudar-se de novo para o seu vale quanto antes. Fora o que dissera a Hannah, na semana anterior, quando passara a noite em Napa.
       - J h beb a caminho, Jeremiah? - perguntara-lhe Hannah. Acedera a chamar-lhe Mister Thurston ao p de Camille, mas, quando estivessem a ss, continuaria 
a chamar-lhe Jeremiah e nunca abdicaria disso.
       - Ainda no. Tambm ele se sentia desiludido a esse respeito e esperava que, quando conseguisse tirar Camille da cidade e das suas festas constantes, ela 
engravidasse. Devia voltar a provar a vida do campo, disse para si mesmo, mas Hannah franziu os lbios em gesto de desaprovao.
       - Bem, pelo menos sabemos que no  por tua culpa. - Ento, franziu o sobrolho. - Talvez ela no possa ter filhos.
       - Duvido. S se passaram cinco meses e meio, Hannah. D-lhe tempo. - Jeremiah esboou um largo sorriso.  - Quando voltar a respirar os bons ares de Santa 
Helena, engravidar num ms. - Ao lembrar-se de Mary Ellen, ficou de semblante carregado. - Como  que ela est? - No voltara a v-la desde a noite em que o beb 
morrera. De qualquer forma, no desejava faz-lo. No era muito conveniente tendo em conta a intuio de Camille.
       - Est bem. Levou um tempinho a recompor-se, mas creio que j se pode dizer que est tima de sade. - Hannah resolveu contar-lhe tambm o resto. Ao fim e 
ao cabo, ele tinha o direito de saber tendo em conta a forma honesta como se comportara com ela. Ningum o podia acusar do contrrio. No banco, Jacob Stone falara 
a toda a gente da generosidade de Jeremiah. - Ela anda com um homem que trabalha na estncia termal. Tem bom aspecto e  trabalhador. - Hannah encolheu os ombros. 
- Bem, no me parece que esteja louca por ele.
       - Espero que seja bom homem disse Jeremiah, calmamente. - e mudou de assunto. No tardariam a transferir-se para Napa, e Hannah iria ter muito que fazer em 
casa at essa altura.
       No entanto, quando Camille chegou a Santa Helena, com a sua volumosa bagagem, s encontrou defeitos naquilo que Hannah fizera. E assim continuou, at que, 
um dia, a velhota, frustrada perante o constante desapreo da jovem esposa de Jeremiah, virou-se para ela e deu-lhe a entender que, em vez de casar com ela, Jeremiah 
deveria ter casado com a mulher com quem costumava encontrar-se em Calistoga antes de a conhecer, o que enfureceu ainda mais Camille. A partir da, tentou por todos 
os meios descobrir quem era essa mulher, mas nem Jeremiah nem Hannah que, cheia de remorsos por causa da sua indiscrio, no voltara a soltar a lngua lhe diriam 
o que quer que fosse a esse respeito e to-pouco lhe confirmariam se o que Hannah lhe dissera era verdade E quanto mais rebuscava, menos era o que descobria. At 
que um dia, por brincadeira, foi at  estncia termal de Calistoga ver umas amigas que a se encontravam a fazer banhos de lama. Haviam combinado encontrar-se no 
hotel e, enquanto as esperava, reparou num homem com o uniforme branco da estncia que passeava com uma atraente ruiva vestida de verde. Havia algo nela que reteve 
a ateno de Camille. Segurava uma sombrinha indolentemente apoiada sobre o ombro. Conversava, com ar divertido, com o seu companheiro. De repente, algo ao longe 
pareceu chamar-lhe a ateno e, instintivamente, o olhar deteve-se em Camille, que a observava com especial interesse. Os olhos das duas mulheres encontraram-se, 
e Mary Ellen pressentiu de imediato quem era aquela jovem forasteira. Era tal e qual como lha tinham descrito Hannah e outros amigos que a haviam visto. Camille 
teve o mesmo pressentimento, como se lhe tivessem segredado a identidade da mulher ou tivessem posto um letreiro na cabea de Mary Ellen. Fez meno de se levantar 
mas voltou a sentar-se, as faces rubras e a respirao suspensa, enquanto Mary Ellen, de brao dado com o amigo, acelerou o passo e desapareceu Durante o resto do 
dia, foi uma verdadeira obsesso para Camille. Era a mulher mais bonita que vira no vale de Napa, e s podia ser o seu instinto dizia-lhe a pessoa a quem Hannah 
se referira inadvertidamente E com aquelas viagens de Jeremiah, de um lado para o outro, durante o Inverno e a primavera, quem poderia assegurar-lhe de que as suas 
relaes no tinham continuado? No pensou noutra coisa durante a viagem de regresso a casa E nessa noite, quando Jeremiah voltou do escritrio da mina, atirou-se 
a ele com uma fria que o surpreendeu e alarmou.
       - No me enganaste nem por um minuto, Jeremiah Thurston! - Aquelas palavras apanharam-no de surpresa e, ao princpio, ainda pensou que ela estivesse na brincadeira, 
mas viu logo que no. - Todas aquelas viagens que fizeste para aqui durante o inverno sei muito bem ao que vinhas. s tal e qual o meu pai com a amante de Nova Orlees. 
- Jeremiah ficou quase sem alento. No olhara para outra mulher desde que se casara com Camille, e foi isso mesmo que tentou explicar-lhe. - No acredito em ti, 
Jeremiah. E a ruiva de Calistoga? - Oh, meu Deus, Mary Ellen Jeremiah ficou lvido. Quem lhe teria contado? Teriam tambm falado do beb? Ao ver a expresso de pavor 
estampada no rosto do marido, Camille sentou-se e olhou-o com um ar de glida satisfao. - Vejo, pela tua cara, que sabes a quem me refiro.
       - Camille por favor, no houve mais nenhuma mulher desde que nos casamos, meu amor. Absolutamente ningum. Nunca te faria tal coisa. Tenho demasiado respeito 
por ti e pelo nosso casamento
       - Quem  ela.
       Jeremiah poderia ter negado a verdade, mas no se atreveu a faz-lo. Camille nunca mais teria acreditado nele.
       - Uma conhecida minha. - O rosto refletia a franqueza com que falava.
       - Ainda a vs.
       A pergunta enfureceu-o, o que o seu semblante tambm deixou transparecer. No estava habituado a ser interrogado por uma rapariga de dezoito anos.
       - No, no a vejo, e considero muito impertinente a tua pergunta. Falar desses assuntos  imprprio de uma dama, Camille. - Resolveu rematar o assunto com 
um golpe de mestre. - O teu pai no aprovaria a tua conduta.
       Camille corou ao pensar na expresso de horror que o pai faria quando tivesse conhecimento de que ela sabia que o marido tinha uma amante e, pior ainda, fizera 
perguntas sobre ela.
       - Tenho o direito de saber. - O rosto de Camille ruborescera por completo. Fora demasiado longe, e tinha conscincia disso.
       - Nem todos os homens estariam de acordo contigo a esse respeito, mas eu, por acaso, at estou. E permite-me que te assegure, antes de acabar com este assunto 
desagradvel, de que nada tens a temer de mim, Camille Sou-te completamente fiel. Tenho sido desde o dia em que casamos, e quero assim continuar at ao dia da minha 
morte. - Estas palavras bastam-te para dissipar as tuas preocupaes, Camille.
       Jeremiah falou-lhe como um pai austero e desgostoso, e Camille ficou embaraada. S voltou a tocar no assunto  noite, quando j estavam deitados
       -  muito bonita, Jeremiah
       - Quem? - Jeremiah estava j meio adormecido.
       - Essa mulher a ruiva de Calistoga
       Jeremiah sentou-se bruscamente na cama e olhou-a com indignao.
       - No quero tornar a falar no assunto
       - Desculpa
       A voz de Camille voltou a tomar um tom suave. Jeremiah deitou-se de novo e fechou os olhos, enquanto ela lhe punha uma das suas mozinhas no ombro, gesto 
que atiou o desejo que o invadia. Para ele, as horas que passara na cama com Camille durante os seis meses que levavam de matrimnio haviam sido um contnuo xtase, 
e sabia que ela tambm se sentia feliz nesse aspecto. A nica coisa que o decepcionava era o fato de Camille continuar sem engravidar Mas, certo dia de finais de 
agosto, Hannah lanou nova luz sobre o problema, ao pequeno-almoo, antes de Jeremiah sair para as minas e enquanto Camille dormia no piso de cima.
       - Tenho de falar contigo, Jeremiah disse a velhota com voz de me-galinha irritada. - Ele levantou os olhos do prato de ovos com salsichas e olhou-a com ar 
surpreendido.
       - Passa-se alguma coisa.
       Depende da forma como encares as coisas. - Hannah olhou de relance para o piso de cima. - J se levantou.
       - No. - Jeremiah abanou a cabea e franziu o sobrolho. Teria havido outra discusso entre as duas mulheres. No morriam de amores uma pela outra e ele no 
iria promover qualquer reconciliao entre elas. Seria uma empresa condenada ao fracasso. - O que se passa, Hannah?
       A velhota trancou a porta da cozinha por dentro algo que nunca fizera, aproximou-se de Jeremiah, meteu a mo no bolso do avental e tirou uma argola de ouro 
parecida s usadas para suster as cortinas nos vares, mas mais polida e excepcionalmente bem feita.
       - Encontrei isto, Jeremiah.
       - O que  isso? - O mistrio no pareceu despertar-lhe qualquer interesse, e no estava para brincadeiras quela hora da manh.
       - No sabes o que  isto? - Parecia surpreendida. Nunca vira um ornato igual quele, mas j vira verses mais simples. Mas Jeremiah abanou a cabea, algo 
desconcertado e aborrecido, e ela sentou-se diante dele. -  um anel.
       - Estou a ver.
       - Sim... um anel... - De repente, ficou sem saber como explicar-lhe, mas sabia que devia faz-lo. - As mulheres usam estes artefatos para... para... - Hannah 
corou, mas prosseguiu, para bem dele: - ...para no terem filhos, Jeremiah...
       Jeremiah tardou alguns instantes a assimilar o sentido daquela revelao, e o seu impacto fez-lhe crer que toda a casa desabara sobre o seu peito.
       A voz tremia-lhe quando pegou no maldito objeto. Talvez a velhota tivesse inventado tudo para prejudicar Camille. Era imprprio dela, mas tudo era possvel 
entre duas mulheres que se detestavam, e Camille j a quisera pr na rua mais de uma vez.
       - Onde  que o arranjaste? - Jeremiah levantou-se, como se o nervosismo no lhe permitisse continuar sentado por mais tempo.
       - Encontrei-o na casa de banho dela.
       - E como  que sabes que  aquilo que dizes?
       - J te disse... no  a primeira vez que os vejo... - E, corando de novo, acrescentou: - Dizem que so extremamente eficazes, Jeremiah. Desde que sejam aplicados 
com cuidado. O anel estava embrulhado num leno; apanhei-o para o lavar, e... caiu ao cho... - De repente, receou que ele estivesse furioso, mas conhecia-o bem 
e sabia que isso no aconteceria. - Desculpa, mas achei que tinhas o direito de saber.
       Jeremiah fitou-a, incapaz at de a tranqilizar, tal era a fria que o assaltava contra Camille, para alm da dor e da decepo que sentia.
       - No quero que fales em nada disto a Camille. Certo? - A voz ainda era spera, e Hannah fez um gesto afirmativo com a cabea.
       Ento, Jeremiah avanou em grandes passadas at  porta, abriu-a e foi selar Big Joe. Pouco depois, encontrava-se a caminho das minas, a galope, com o maldito 
objeto no bolso.
       
      15
       
       A revelao que Hannah lhe fizera naquela manh deixou Jeremiah transtornado durante todo o dia, e nem por um instante conseguiu concentrar-se no trabalho. 
Finalmente, a meio da tarde, a mgoa era tanta que resolveu procurar o mdico de Calistoga que assistira Mary Ellen no parto. Mostrou-lhe o anel e pediu que lhe 
explicasse para que servia. Quando o velhote o fez, Jeremiah quase estremeceu.
       - Eu prprio lhe dei um. Ela no lhe disse? - O mdico pareceu surpreendido, e Jeremiah, desconcertado.
       -  minha esposa?
       Agora foi a vez de o mdico ficar com um ar desconcertado. No acreditava que Jeremiah e Mary Ellen estivessem casados, mas quem podia adivinhar os segredos 
de um homem rico como ele? A gente da sua classe no tinha de prestar contas a ningum.
       - No sabia que se casara com ela... - disse o mdico com voz arrastada.
       Jeremiah percebeu ento o mal-entendido.
       - No... Encontrei-o na casa de banho da minha esposa.
       - Est grvida?
       - No.
       A pouco e pouco, o velho mdico rural foi percebendo o que se passava.
       - Compreendo... e o senhor tem estado  espera que ela engravide.
       Jeremiah fez um gesto afirmativo com a cabea.
       - Bem,  pouco provvel que consiga enquanto usar isto. Estes dispositivos so quase infalveis. - Encolheu os ombros e prosseguiu: - Nalguns casos, o seu 
uso est plenamente justificado, como no de Mary Ellen. No tinha outro remdio. Era prefervel dar um tiro na cabea que tentar ter outro filho, disse-lhe eu tantas 
vezes.
       Jeremiah ficou pensativo. Aquele problema j no era seu, mas no disse ao velhote. S estava interessado em Camille. 
       - A sua esposa no lhe disse que andava a usar isto? - Perguntou o mdico, intrigado.
       Instalou-se um longo silncio enquanto o mdico ordenava as idias e Jeremiah peneirava os pensamentos.
       - No foi uma atitude muito bonita da parte dela - acrescentou o mdico.
       Jeremiah abanou a cabea e levantou-se.
       - Pois no.
       Jeremiah deu um aperto de mos ao velhote e partiu para Santa Helena. Quando chegou, encontrou Camille sentada no quarto, de camisa de noite e a abanicar-se. 
E, sem qualquer rodeio, Jeremiah atirou-lhe o anel para o colo. Camille olhou para ele, sem saber muito bem o que era, e na esperana de se tratar de uma nova jia. 
Mas quando fixou a sua ateno, encolheu-se como se estivesse com medo de uma serpente. Estava lvida. H dias que o procurava e receava t-lo perdido. Era um dos 
anis que trouxera de Atlanta. Fora o mdico da prima que lho arranjara.
       - Onde  que o encontraste?
       Jeremiah olhou para Camille e, pela primeira vez, no se vislumbrou qualquer ternura no seu olhar.
       - Vamos l pr tudo em pratos limpos. Onde  que o arranjaste, Camille? E por que razo  que eu no sabia nada dele?
       Era bvio que Jeremiah sabia o que era e que lhe pertencia. De nada lhe serviria neg-lo, e ela bem o sabia.
       - Desculpa... eu... - Com os olhos marejados de lgrimas, Camille desviou a cara para o lado.
       Jeremiah quis manter o ar severo, mas no conseguiu. Ajoelhou-se ao lado dela e obrigou-a a olhar para ele.
       - Por que razo fizeste uma coisa destas? Cheguei a pensar que havia algum impedimento fsico... que no nos permitia...
       Camille abanou a cabea, os olhos inundados de lgrimas, e escondeu a cara entre as mos.
       - ... Ainda no quero ter filhos... No quero ficar gorda e... e a Lucy Anne diz que di muito... - O que aconteceu com Mary Ellen veio de repente  memria 
de Jeremiah, mas tentou afastar esse pensamento da cabea. - No posso. No posso...
       Jeremiah sentia que se encontrava perante uma menina que tambm era mulher e sua esposa. E estava a envelhecer. No podia esperar cinco ou dez anos, e foi 
isso mesmo que lhe disse numa voz terna. Mas tambm a repreendeu por ter-se protegido dele em segredo.
       - No pude evitar, Jeremiah... estava assustada... e sabia que ficarias furioso...
       - E fiquei. Mas tambm fiquei magoado. Quero que sejas sempre franca comigo.
       - Tentarei. - Mas no lhe disse rotundamente que seria.
       - Bem, tens mais algum destes dispositivos?
       Camille comeou por abanar a cabea, mas, quase de imediato, com ar envergonhado, assentiu com a cabea.
       - Onde?
       Camille conduziu Jeremiah at  casa de banho, e a mostrou-lhe uma caixa cuidadosamente escondida, donde ele tirou os dois anis que l se encontravam.
       - Que vais fazer com eles, Jeremiah? - Camille estava em pnico, mas ele mostrou-se inflexvel. Apertou os trs anis nas suas mos enormes at inutiliz-los 
e, depois, antes de os atirar para o cesto dos papis, partiu-os em pedaos, enquanto Camille irrompia em soluos. - No podes fazer isso!... No podes!... No podes! 
- E comeou a bater-lhe no peito com os punhos.
       Jeremiah estreitou-a entre os seus braos; depois, como se de um beb se tratasse, levou-a para a cama, deitou-a e foi dar um passeio pelo jardim, deixando-a 
entregue aos seus prprios pensamentos. Ainda se sentia atraioado por aquilo que ela lhe fizera. Nessa noite, deitaram-se sem trocar qualquer palavra. Jeremiah 
ainda estava magoado com a descoberta do prfido anel, e Camille, depois de apagar a luz, manteve-se do seu lado da cama. Era algo inslito, pois era ela que quase 
sempre se aproximava dele. At ento, o anel dera-lhe plena liberdade para se entregar a Jeremiah na cama, mas, naquele momento, extraordinariamente assustada, s 
pensava em mant-lo  distncia. Porm, naquela noite, foi Jeremiah quem tomou a iniciativa estendendo os braos para a esposa, enquanto ela, a tremer, tentava recha-lo. 
       - No... no... Jeremiah... no...
       No entanto, dessa vez, ele mostrou-se implacvel, em parte enfurecido por aquilo que ela lhe fizera, e em parte pelo direito que tinha sobre ela. Abriu-lhe 
as pernas  fora e possuiu-a. Nessa noite, Camille no gemeu de prazer. S chorou. Quando parou de chorar, Jeremiah possuiu-a de novo E voltou a possu-la na manh 
seguinte.
       
      16
       
       Em setembro, Camille e Jeremiah voltaram para a cidade, tal como ele prometera, e ela comeou a sua habitual ronda de festas. Mas, uma manh, na segunda semana 
do mesmo ms, Jeremiah encontrou-a sentada no toucador. Tinha a escova de cabelo na mo e exibia um ar de profundo desalento.
       - Passa-se alguma coisa?
       - No...
       O seu desnimo, porm, era evidente. Ao fim de uma ou duas semanas, Jeremiah comeou a suspeitar do motivo do seu descorooamento. E ficou mais do que eufrico 
quando Camille, finalmente, lhe disse que achava que estava grvida. Desejara tanto ouvir aquelas palavras dos lbios da esposa! Nessa tarde, quando chegou  Manso 
Thurston, Jeremiah trazia um bonito estojo de couro com uma jia dentro. Mas mesmo isso no conseguiu despertar o mnimo interesse nos olhos de Camille. Sentia-se 
extremamente deprimida. E, durante os dois meses seguintes, foi a pouqussimas festas e no deu nenhuma. No fora assim que planejara passar a temporada em So Francisco.
       Em outubro, quando Amlia chegou  cidade para visitar a filha, Jeremiah apressou-se a comunicar-lhe a notcia. Ela ficou encantada e disse que a filha esperava 
o terceiro filho para a primavera seguinte, coisa que Camille, segundo disse a Jeremiah mais tarde, achava repugnante. A rapariga teria trs filhos em trs anos, 
algo que estava muito longe dos clculos de Camille. Chorava os sagrados anis que ele destrura. Se a bruxa velha no tivesse dado com a lngua nos dentes, no 
estaria no estado em que se encontrava, disse a Jeremiah certa vez.
       -  assim que vs as coisas?
       Jeremiah sentia-se muito feliz perante a perspectiva de ter um filho, mas entristecia-o ver que Camille no comungava da mesma felicidade. Esperava que quando 
ela visse o beb encarasse as coisas de outra forma. Era fcil compreender que, no seu estado, as idias no pudessem ser demasiado otimistas.
       Era inegvel que Camille no estava a ter uma gravidez descansada. Passava a vida a vomitar e com enjos e, inclusive, desmaiara em vrias ocasies em que 
sara com o marido. Perante tais circunstncias, Jeremiah no quis voltar a lev-la  pera, apesar dos seus protestos. Alm disso, nenhum dos vestidos lhe servia, 
e detestava fazer os ajustamentos necessrios. Invejava as mulheres que diziam que a barriga s se notava ao stimo ou oitavo ms de gravidez. Camille, devido  
sua baixa estatura, no tinha tal sorte. Quando, por alturas do Natal, Jeremiah a obsequiou com uma pequena festa de aniversrio era j evidente que estava grvida. 
Ofereceu-lhe uma capa de peles de zibelina para esconder a barriga e um bonito relgio com diamantes em toda a volta. 
       - E quando tudo isto passar, minha querida, vamos a Nova Iorque e compramos montes de roupas bonitas. Depois, fazemos uma visita a Atlanta. 
       Camille no via a hora de essa altura chegar. O estado de gravidez era ainda pior do que aquilo que imaginara. No suportava a gordura, os enjos eram um 
verdadeiro martrio, e odiava Jeremiah por ter sido ele que a pusera naquela situao. Em fevereiro, quando ele lhe anunciou que a levaria para Napa a fim de passar 
a o resto da gravidez, ficou ainda mais furiosa. 
       - Mas o parto est previsto s para maio! - protestou com os olhos inundados de lgrimas. - E quero ter o beb em So Francisco. 
       Jeremiah abanou ligeiramente a cabea. No era isso que planejara para ela. Queria que a esposa levasse uma vida tranqila no campo, que se esquecesse, durante 
algum tempo, dos almoos, dos chs e dos bailes, que no se cansasse e que deixasse de se queixar do seu mal-estar e de desmaiar em pblico. Certamente que os pais 
de Camille concordariam. Chegara um momento da vida dela em que o importante era descansar, respirar ar puro e preocupar-se o menos possvel. Mas Camille achava 
que Jeremiah fizera aqueles planos s para a atormentar. 
       - Odeio-te! - gritou-lhe ela, e bateu com a porta da sala de estar com toda a fora. 
       Camille mostrou-se irritadia e rebelde desde o prprio dia em que engravidara, o que fez com que Jeremiah se tivesse interrogado se as coisas teriam sido 
diferentes entre eles se ele lhe houvesse permitido continuar a usar os anis. Mas ele queria ter filhos, e no era assim to jovem que se permitisse esperar mais 
tempo. Estava certo de que fizera o que devia, mas no podia dizer que gozava da simpatia da sua mulher quando a levou para Santa Helena, a meio do perodo de chuvas 
invernais. As colinas j estavam a ficar verdejantes, mas era deprimente para Camille ter de permanecer fechada em casa durante as tardes chuvosas, sem poder falar 
com mais ningum a no ser Hannah, que continuava a odiar.
       Num esforo para a distrair o mais que podia, Jeremiah vinha mais cedo das minas, contava-lhe coisas do seu trabalho e dos seus homens, e comprava-lhe bugigangas 
para a alegrar um pouco. Mas Camille sentia-se desanimada, triste e aborrecida, e de pouco lhe servia o consolo do mdico de Napa que a achava bem de sade. Jeremiah 
escolhera-o para assistir ao parto porque lhe fora muito recomendado, mas Camille dizia que o achava pouco simptico e cheirava a lcool. Por volta do oitavo ms 
de gravidez, Camille quase no parava de chorar e de insistir para que Jeremiah a levasse para Atlanta.
       - Logo que nasa o beb, meu amor. Prometo! Ficas a descansar aqui durante o vero, e em setembro iremos para Nova Iorque e Atlanta.
       - Setembro! - exclamou Camille, furibunda. - Nunca me disseste que teria de ficar aqui todo o vero. - Por entre soluos, olhou-o como se o quisesse matar.
       - Mas j o ano passado o passamos aqui, Camille. O vero em So Francisco  horrvel, e precisars de descanso depois de o beb nascer.
       - No ficarei aqui. J c passei o inverno. Detesto isto tudo. - Atirou um vaso ao cho, que se partiu em cacos, e saiu. - Hannah apareceu de imediato para 
o ajudar a apanhar os cacos.
       - Acho que isso de ter um filho no  muito do seu agrado - observou secamente a velhota
       Camille mostrara-se insuportvel desde o dia em que chegaram, e em abril j quase tinha dado com Jeremiah e Hannah em doidos. O tempo melhorara e estava uma 
primavera maravilhosa, mas Camille no parecia dar-se conta de nada. No fazia mais do que vaguear intempestivamente pela casa a maldizer o seu estado. Nem sequer 
quando viu o quarto do beb pronto pareceu mostrar o menor prazer. Bordou umas quantas camisinhas e comprou o tecido para as cortinas, mas Hannah fez o resto, tricotando 
e cosendo sem descanso, e, inclusive, preparando um bonito bero para o beb. Todas as noites, Jeremiah sentia um prazer especial em entrar no encantador quarto 
e tocar nas botinhas e nas camisinhas, comprovando, maravilhado, que no faltava nada. Mas,  medida que se aproximava o dia previsto para o nascimento, pensava 
cada vez mais no que acontecera a Mary Ellen. Causava-lhe um terror imenso a possibilidade de este filho tambm nascer morto, e Camille, por sua vez, torturava-o 
fazendo tudo o que ele lhe pedia para no fazer, como caminhar sozinha pelo riacho ou andar num velho balano que estava preso a um ramo de uma rvore, atrs da 
casa. Trs semanas antes de acabar o tempo, Camille deixou Hannah horrorizada ao selar uma mula que Jeremiah retirara tempos atrs das minas e percorrer os vinhedos 
circundantes montada nela, porque estava aborrecida e cansada de andar a p. Hannah ficou to transtornada que contou a Jeremiah mal este voltou para casa. Ele lanou-se 
pela escada acima para repreender Camille, mas concluiu de imediato que no valia a pena. Jazia em cima da cama com uma estranha palidez no rosto. Jeremiah aproximou-se 
e inclinou-se para a beijar, mas ela encolheu-se e cerrou os dentes.
       - Ests bem, meu amor? - Jeremiah ficou, subitamente, preocupado. Camille estava com mau aspecto e a testa encontrava-se coberta por uma fina pelcula de 
suor.
       - Estou tima. - Mas no parecia.
       Camille insistiu em jantar  mesa, mas, sob os olhares de Hannah e de Jeremiah, mal comeu. Jeremiah aconselhou-a a subir para descansar. Desta vez no se 
ops aos desejos do esposo, parecendo agradar-lhe a idia. Mas, de repente, quando se encontrava a meio das escadas, parou e deixou-se cair sobre os joelhos, ao 
mesmo tempo que soltava um leve gemido. Num pice, Jeremiah ps-se de joelhos ao lado dela e tomou-a delicadamente nos braos. Hannah correu atrs dele.
       - Ela est em trabalho de parto, Jeremiah. Apercebi-me esta tarde. Mas, quando lhe perguntei se sentia dores, disse-me que no. Foi de andar naquela mula 
velha.
       - Oh, cala-te... - disse Camille bruscamente para Hannah, mas no com o seu habitual estado de esprito, e Jeremiah suspeitou que Hannah tivesse razo. Deitou 
Camille em cima da cama e ficou a observ-la. Estava com ar cadavrico e apertava as mos uma na outra. Tinha uma expresso estranha, nunca vista antes, como se 
tivesse dores e no quisesse admitir. Ento, como que querendo provar aos dois que no fingia, tentou descer da cama, mas logo que os ps tocaram o solo, os joelhos 
dobraram-se e soltou um grito de dor, ao mesmo tempo que estendia desesperadamente os braos tentando agarrar-se a Jeremiah, que lhe pegou ao colo e a deitou novamente 
na cama. Ato contnuo, voltou-se para Hannah.
       - Vai chamar o Danny. Ele disse-me que iria buscar o mdico a Napa.
       Jeremiah deu-se conta de que escolhera um mdico que vivia demasiado longe. Por mais competente que fosse, de pouco lhe serviria se no chegasse a tempo. 
De qualquer forma, nunca lhe passara pela cabea que precisaria dele com tanta urgncia. Hannah saiu apressadamente, e voltou ao cabo de meia hora com a notcia 
de que Danny j sara para Napa. Aquilo significava que o mdico demoraria cinco a seis horas a chegar. Entretanto, a velhota foi at  cozinha arranjar panos limpos, 
pr gua a ferver e fazer caf para si e Jeremiah. No sentia qualquer pena de Camille; era jovem e, por mais doloroso que fosse o seu estado, sobreviveria. Havia 
um clima de excitao no ar. O filho por que ele ansiava h tanto tempo estava prestes a nascer. Jeremiah olhou para Camille com um sorriso terno nos lbios, e ela 
agarrou-se-lhe ao brao.
       - No me deixes, Jeremiah... - Arquejava, e o rosto franzia-se ao ritmo das contraes. - No me deixes com a Hannah... Ela odeia-me... - E desatou a chorar. 
Era evidente que tinha medo. A cena era diferente da de Mary Ellen no seu leito de dor. Ela passara trs vezes por aquela prova e, alm disso, era bastante mais 
velha do que a sua jovem esposa. Naquele instante, enquanto se contorcia com dores a cada contrao, Camille parecia mais menina que nunca. - Oh, Pra-me as dores!... 
Jeremiah!... No consigo!...
       Ele sentia muita pena dela, mas no podia fazer nada. Ps-lhe panos molhados na cabea, mas Camille atirou com eles e agarrou-se ao brao dele. H quatro 
horas que Danny partira para Napa, e Jeremiah rogava a Deus que o mdico chegasse depressa. Recordou ento com horror que o parto de Mary Ellen durara trs dias. 
Mas aquilo no podia acontecer a Camille. Ele no o permitiria. No parava de olhar para o relgio. Camille continuava com uma mo agarrada ao seu brao, enquanto 
mantinha a outra aferrada  cabeceira da cama. Gritava de cada vez que as dores voltavam. Finalmente, Hannah apareceu com mais caf para ele, mas Camille nem pareceu 
dar pela sua presena. 
       - Queres que fique com ela? - sussurrou a velhota. - No devias estar aqui. - Lanou um olhar reprovador a Jeremiah, mas ele prometera  esposa que no sairia 
do seu lado at chegar o mdico. Alm disso, desejava permanecer ali. Era um alvio saber o que se estava a passar. Daria em maluco se tivesse que ficar  espera 
 porta do quarto. Todavia, quando Danny voltou, trs horas depois, Jeremiah estava tenso e exausto. 
       - O mdico est em So Francisco. - O rapaz mostrava um ar desgostoso. Entretanto, Camille, agarrada s mos de Hannah, gritava que no podia suportar mais 
as dores. - A esposa do doutor disse que o beb ainda no completou o tempo. 
       - Eu sei - replicou Jeremiah. - E que diabo est ele a fazer em So Francisco? 
       O rapaz encolheu os ombros. 
       - A minha me mandou-me  procura do mdico de Santa Helena, mas encontra-se em Napa a assistir a um parto.
       - Por amor de Deus! No h ningum que possa vir? - Lembrou-se ento do mdico de Calistoga e mandou Danny busc-lo, o que significava outra hora de espera. 
De repente, ao ouvir os gritos de Camille, precipitou-se pelas escadas acima. Era um horrendo som gutural de dor, como o lamento de um animal ferido. Abriu a porta 
de rompante e olhou para Hannah com olhos angustiados. 
       - O mdico? - sussurrou a velhota com olhar preocupado. 
       - No vem. Mandei o mido procurar o de Calistoga. Deus queira que esteja em casa.
       Hannah assentiu com a cabea, enquanto Camille comeava a gritar de novo, rasgando a camisa de noite e revolvendo-se sobre a cama, no ar quente do quarto. 
Debaixo daquela tenso, estavam os trs banhados em suor.
       - Jeremiah, acho que h qualquer coisa que no est a correr bem. Com as dores que est a sentir, o beb j devia estar a sair. J espreitei, mas no vi nada.
       Jeremiah franziu os lbios e olhou para a esposa, que se contorcia em cima da cama. Ningum podia ajud-la, pelo menos, de momento. No lhe restava, pois, 
outro remdio seno agir por sua conta e risco. Entre as contraes seguintes, tentou abrir-lhe as pernas, mas Camille rechaou-o com todas as suas foras. Todavia, 
ela esqueceu-se da presena de Jeremiah logo que comeou a contrao seguinte, o que permitiu a este dar uma boa olhadela, na esperana de vislumbrar a cabea do 
beb. Mas o que viu deixou-o sem alento: onde deveria estar a cabea a pressionar, encontrava-se uma mozinha. O beb estava mal colocado, como o de Mary Ellen, 
e poderia j estar morto, ou pouco faltaria para isso, se Jeremiah no fizesse algo. Lembrou-se do que vira fazer ao mdico de Calistoga, e pediu a Hannah que seguisse 
as suas instrues  risca. A velhota susteve firmemente Camille contra a cama enquanto a rapariga gritava como se estivesse a morrer. Jeremiah sabia que ia pr 
em perigo a vida da esposa, mas via-se obrigado a tentar salvar o seu filho. Lentamente, enquanto empurrava o beb para o interior e procurava a cabea, ps o corpinho 
na posio correta. Finalmente, sentiu a cabea avanar para si. A cama estava banhada de sangue e Camille quase no tinha foras para gritar. Mas f-lo, e o beb 
saiu lentamente de entre as suas pernas para as mos do pai, desatando imediatamente a chorar. Vinha com o cordo umbilical enrolado, o que no permitiu que Jeremiah 
visse de imediato se tinha um filho ou uma filha, mas no tardou a ver com clareza, por entre as lgrimas que lhe inundavam os olhos, o sexo do beb.
       -  uma rapariga! - gritou para Camille, ao mesmo tempo que ela levantava debilmente a cabea e rompia a chorar, mais por causa do horror do que acabara de 
passar do que por ternura pela filha. No parou de gemer enquanto Hannah a tentava limpar, e recusou-se a pegar no beb. E quando, pouco depois, chegou o mdico, 
este disse a Jeremiah que fizera um excelente trabalho e deu a Camille umas gotas que a puseram a dormir. Entretanto, Hannah comeara a cantarolar uma cano de 
embalar para a criana.
       - Suponho que j se desfez dos anis disse o mdico a Jeremiah - com um sorriso irnico. O orgulhoso pai desatou a rir enquanto agradecia ao mdico e lhe 
punha uma moeda de ouro na mo. Pensara d-la ao mdico de Napa, mas, ao pensar no parto de Mary Ellen e naquele, optou por d-la quele mdico. Fora graas  experincia 
adquirida quando do parto de Mary Ellen que Jeremiah conseguira pr o beb na posio correta. O mdico referiu que Jeremiah salvara a vida da filha, embora o tivesse 
feito  custa do sofrimento da me. Porm, no podia ter feito outra coisa atendendo s circunstncias. Foi isso mesmo que tentou explicar  esposa, enquanto a tranqilizava, 
quando ela acordou. Ainda estava meio histrica por causa do que se passara, e continuava a no querer pegar na criana. Jeremiah enfiou-lhe um anel com uma enorme 
esmeralda no dedo, anel que guardara para aquela ocasio. E mostrou-lhe o colar, os brincos e o broche que condiziam com o anel, mas ela no deu a menor importncia 
s jias. A nica coisa que desejava era que Jeremiah lhe prometesse que nunca mais teria de voltar a passar por aquele sofrimento. A soluar, disse-lhe que tivera 
a pior experincia da sua vida, e que s passara por ela porque ele a violara. Jeremiah ficou triste perante aquela reao da parte dela, mas tambm sabia que dentro 
de dias o estado de esprito da esposa seria melhor. Hannah no estava to segura disso, era a primeira vez que via uma me recusar-se a pegar na filha. Esta tinha 
j quatro dias quando Camille, finalmente, lhe pegou. Jeremiah viu-se obrigado a ir  cidade  procura de uma ama-de-leite, porque Camille se recusava a amament-la.
       - Que nome  que lhe vamos dar, meu amor?
       - No sei. - Camille proferiu as palavras num tom de indiferena. Nada do que ele dizia parecia anim-la. Negou-se a participar na escolha do nome e no quis 
voltar a pegar na criana ao colo. Sentindo pena da pequenina, Jeremiah andava quase constantemente com ela nos braos. No se importava minimamente com o fato de 
no ser um rapaz, era sua filha, carne da sua carne, o filho por que tanto ansiara. Deu-se ento conta do verdadeiro significado das palavras de Amlia quando lhe 
dissera que precisava de casar-se e ter filhos. No parava de olhar com adorao para aquele pequenino ser, de mozinhas delicadas e finos traos, pensando que era 
a experincia mais importante da sua vida. No conseguia dizer com qual dos dois  que a filha tinha mais parecenas. Antes de ela fazer uma semana, Jeremiah pensou 
em chamar-lhe Sabrina, nome a que Camille no pareceu opor-se. Batizaram-na em Santa Helena com o nome de Sabrina Lydia Thurston. Era a primeira sada de Camille. 
Ps o anel com a esmeralda e um vestido verde de vero. Ainda se sentia muito debilitada, e estava furiosa por a maioria dos vestidos no lhe servir. Hannah, para 
consol-la, disse-lhe que era muito cedo para recuperar a antiga silhueta, mas Camille ordenou-lhe que sasse do quarto e que levasse a beb consigo.
       Durante a maior parte daquele vero, a tenso que se vivia em casa era de cortar  faca. Na casa de Santa Helena, Camille parecia uma leoa enjaulada, e as 
vises que Jeremiah tivera da esposa a cantarolar canes de embalar  filha ficavam muito longe da realidade. Nervosa e inquieta, Camille limitava-se a contar as 
semanas que faltavam para voltar para a vida da cidade. Jeremiah prometera-lhe uma viagem a Nova Iorque e a Atlanta, mas quando, em Julho, a me de Camille adoeceu, 
o pai escreveu a dizer que era melhor esperarem at ao Natal e, como era agora habitual nela, Camille teve um acesso de fria, atirando com um candeeiro ao cho, 
antes de sair da sala e bater com a porta. Odiava tudo e todos: a casa, o campo, as pessoas, Hannah, a filha, e at Jeremiah no escapava aos seus acessos de mau 
humor. Foi um alvio para toda a gente quando fizeram as malas em setembro e Camille partiu, finalmente, para a cidade, de que tinha tantas saudades. Sentia-se como 
se a tivessem libertado de um crcere.
       - Sete meses! - disse ela, exalando um profundo suspiro, quando se encontrou no vestbulo da casa de So Francisco. - Sete meses!
       - Tivemos imensas saudades tuas! - disseram-lhe as amigas.
       - Foram os piores momentos da minha vida! - asseverou-lhes. - Um pesadelo!
       E, sem que Jeremiah soubesse, foi a um mdico arranjar mais anis, umas lavagens especiais e uma boa quantidade de casca de olmo, que tambm era um contraceptivo 
eficaz. Estava firmemente resolvida a no deixar de tomar aquelas precaues, dissesse Jeremiah aquilo que dissesse. De qualquer modo, desde o nascimento de Sabrina 
que no voltara a ter relaes sexuais com Jeremiah, e no tinha qualquer vontade de as voltar a ter. No queria correr o menor risco. A menina tinha agora quatro 
meses. Era uma criana encantadora, de suaves caracis e enormes olhos azuis como os de Camille e de Jeremiah, e umas rechonchudas mozinhas a querer agarrar tudo. 
Mas Camille raras vezes ia v-la. Alm disso, resolvera no usar o bonito quarto que fora preparado para a filha no mesmo andar que os aposentos dela, e mandara 
instalar a beb no terceiro piso.
       - Faz demasiado barulho - explicara a Jeremiah, que ficou decepcionado por no poder ter a menina perto dos aposentos deles. Mas no se acanhava em ir v-la. 
Adorava a filha e no fazia segredo disso. A nica pessoa que parecia no gostar dela era Camille. Escusava-se a falar do assunto quando Jeremiah lhe dizia alguma 
coisa. Porm, quando Sabrina fez seis meses, Jeremiah comeou a ficar seriamente preocupado. Camille nunca tivera um gesto de ternura para com a menina; quando esta 
fosse mais velha, aperceber-se-ia. No era natural que uma me mostrasse to pouco, ou nenhum, carinho por uma filha. As nicas coisas que atraam o interesse de 
Camille era a companhia das suas amizades, as festas que davam ou as pequenas reunies que organizava na Manso Thurston quando Jeremiah ia a Napa. Ele dissera-lhe 
que no gostava das amigas dela, por isso Camille s se encontrava com elas quando ele estava ausente. Desde que ficara grvida de Sabrina que os seus sentimentos 
para com o marido haviam esfriado. s vezes, Jeremiah perguntava-se se Camille lhe perdoaria algum dia, mas duvidava.
       - D tempo ao tempo - disse-lhe Amlia quando ele lhe confessou a sua preocupao durante a visita que ela lhes fez. A mulher pegou em Sabrina ao colo e brincou 
e riu com ela, perante o espanto de Jeremiah, que no podia acreditar que houvesse tanta diferena entre aquelas duas mulheres. - Talvez no goste de bebs de poucos 
meses. - Amlia vislumbrou um brilhozinho no olhar de Jeremiah. - Eu j vou em trs netos.
       O terceiro, finalmente um rapaz, acabava de nascer, enchendo de alegria a casa da filha de So Francisco, mas Amlia ainda arranjou tempo para visitar Jeremiah 
e Camille, embora esta no se encontrasse em casa desta vez, como em muitssimas outras. Parecia no dispor de tempo para passar junto do marido e da filha. S podia 
dizer-se que se encontrava realmente em casa quando dava uma festa ou um baile, e Jeremiah comeava a estar farto daquela situao. Ela adorava o protagonismo que 
adquirira como Mrs. Thurston, assim como as comodidades e o brilho prprios de semelhante condio, mas detestava os deveres privados inerentes a ela. E Jeremiah 
comeava a cansar-se de no dormir com a esposa. Desde que voltara de Napa, ela dormia sozinha no quarto de vestir, sob o pretexto de que ainda no se encontrava 
completamente recuperada. Mas nunca estava doente quando se tratava de ir a festas. Jeremiah no se atreveu a contar tudo isto a Amlia, mas ela percebeu o que se 
passava atravs das meias palavras do amigo, e sentiu pena dele quando lhe deu o beijo de despedida. Aquele homem merecia algo melhor... Ela teria sido feliz se 
se tivesse entregue nos braos dele, se as coisas tivessem seguido outro rumo. Mas ela achara-se demasiado velha para Jeremiah, e sentia-se feliz por ele ter Sabrina. 
Em novembro, Jeremiah decidiu pr fim  situao. Camille disse-lhe que, por alturas do Natal, queria dar uma grandiosa festa para seiscentas ou setecentas pessoas.
       - Ser o maior baile que alguma vez se deu em So Francisco acrescentou alegremente. 
       Jeremiah abanou a cabea. - No.
       - Porque no? - O olhar foi tomando um ar cada vez mais furioso. Era Mrs. Thurston, e queria fazer tudo o que estivesse  altura da sua posio social.
       - Vamos passar o Natal em Napa.
       A me de Camille ainda no melhorara e o pai achava que no precisavam de ir para Atlanta. Camille no parecia preocupada com a me. A averso que sentia 
por ela no era nenhum segredo. Mas teria gostado de ir at Atlanta para se exibir como grande dama e inferioriz-los com a sua opulncia.
       - Em Napa? - gritou. - Passar o Natal em Napa? S por cima do meu cadver.
       Algumas pessoas teriam achado graa  tirada de Camille, mas Jeremiah no se encontrava entre essas pessoas.
       - Tenho de estar perto das minas. Voltaram a inundar-se...
       Recentemente, John Harte perdera vinte e dois dos cento e seis homens que trabalhavam para ele, e Jeremiah fora ajud-lo. Harte, que estava, por fim, a ficar 
mais afvel, mostrara-se imensamente agradecido.
       Camille interrompeu-o.
       - Se queres ir para Napa, vai sozinho. Eu fico c.
       - No Natal? - Jeremiah ficou escandalizado. - Quero os trs juntos nessa quadra.
       - Quem? Tu, eu e a Hannah? No contes comigo, Jeremiah.
       - Eu referia-me  nossa filha. - Frustrado, agarrou Camille pelo brao com um furioso gesto pouco habitual nele. - Ou, por acaso, esqueceste que temos uma?
       -  uma observao estpida. Vejo-a todos os dias.
       - Quando? Ao cruzares-te casualmente com ela quando a ama a traz do jardim?
       - No sou ama-de-leite, Jeremiah - respondeu ela com um olhar arrogante. Foi a gota de gua que fez transbordar o copo.
       - Nem me. Nem esposa. O que s tu exatamente? - Camille respondeu-lhe dando-lhe uma bofetada. Jeremiah ficou de olhos fixos nela. Nenhum dos dois se moveu. 
Era o princpio do fim do casamento, e ambos o sabiam. 
       Camille foi a primeira a falar, mas no para pedir desculpa ao marido. Nunca lhe perdoaria t-la obrigado a conceber Sabrina, mas havia algo mais. Ao princpio, 
Camille partilhara o entusiasmo de Jeremiah pela sua vida de negcios, mas no tardou a descobrir que nas minas de Napa no havia lugar para ela. Era um mundo exclusivamente 
masculino de que Jeremiah nem sequer lhe falava. Por outro lado, Camille desejava a presena do esposo no seu constante torvelinho de festas, prazer que ele no 
pudera dar-lhe durante muito tempo, dado a vida social no o atrair e estar j farto daquela v exibio ao lado dela. Na realidade, Camille no tinha nada do que 
queria,  exceo da grandiosidade da Manso Thurston e de tudo o que ela significava para si.
       - No vou para Napa, Jeremiah. Se quiseres passar o Natal l, vais pass-lo sozinho. - Fartara-se daquele lugar para toda a vida e, alm disso, lembrava-lhe 
os piores momentos da sua existncia.
       - No, no irei sozinho. - Esboou um sorriso triste. - Irei com a minha filha.
       E assim fez. No dia 18 de dezembro, partiu para Napa na companhia de Sabrina e da ama. As boas-vindas que Hannah lhes deu em Santa Helena no podiam ter sido 
mais calorosas. A velhota s comentou a ausncia de Camille dois dias depois, e, quando o fez, Jeremiah deixou bem claro que no queria falar mais do assunto. Estava 
magoado com o comportamento da esposa, mas maior teria sido o seu sofrimento se tivesse sabido o resto. Ela atrevera-se a pr em prtica os seus planos e a dar o 
baile que ameaara dar. Enviara os convites sem o conhecimento do marido, que soube da festa pelo jornal, dois dias depois da sua realizao. Jeremiah sups, e no 
se enganou, que Camille lhe deitara as culpas de tudo para cima das costas E em vez de passar o Natal com o marido e a filha, preferira faz-lo rodeada de amigos, 
da elite da sociedade, dos novos-ricos e dos pretensiosos. Jeremiah no se teria sentido bem no meio daquela gente, mas Camille estava extasiada a fazer o papel 
da grande dama da Manso Thurston com a idade de vinte anos, tentando esquecer que em Atlanta ningum a tomara por aristocrata, ou que fora obrigada a ter uma criana 
que no queria, ou que vivera no vale de Napa, que ela tanto detestava. Sabia que, se alguma vez Jeremiah a obrigasse a ter outro filho, se mataria antes de o ter. 
Segundo ela, Jeremiah merecia todo o seu desprezo por ter maltratado o seu corpo com uma gravidez forada. No seu esprito, a gravidez era o pior pesadelo que se 
podia ter, e o parto, uma indescritvel tortura. Cada vez que via o marido, recordava os dolorosos momentos porque passara. Sabrina, por seu turno, era um monumento 
vivo a nove meses de inferno. Chegou  concluso de que o mais fcil para ela era evitar Jeremiah. E assim fez, fechando o corao a tudo o que sentira por ele e 
a tudo o que pudesse vir a sentir pela filha.
       
      17
       
       Jeremiah no voltou de Napa logo aps o Natal, como Camille supusera. Num bilhete que lhe enviou, informou-a de que s regressaria em meados do ms seguinte, 
mas acrescentava que adoraria v-la em Napa. A simples leitura daquelas palavras provocou a indignao de Camille. No tinha a menor inteno de ir at Napa e perder 
todos os bailes e festas da cidade. Era com grande -vontade que explicava a ausncia do marido aos amigos, continuando a assistir a todas as festas na cidade, inclusive 
uma dada por um casal de que Jeremiah no gostava. Tratava-se de um casal de novos-ricos que chegara do Este no ano anterior, e era conhecido pela falta de decoro 
que reinava nas suas festas. Com Jeremiah na cidade, ela nunca tivera autorizao para ir, por isso aproveitou a oportunidade para assistir ao baile que deram na 
vspera de Ano Novo, e ficou agradavelmente surpreendida com as pessoas que conheceu. Havia um grupo muito divertido, muito mais alegre do que a gente com quem ela 
e Jeremiah geralmente se davam, em especial, um homem que acabava de chegar a So Francisco um conde francs chamado Thibaut du Pr, que parecia a encarnao de 
tudo o que havia de decadente, europeu e aristocrtico. Era exatamente o que Camille imaginara encontrar em Paris se o seu pai a tivesse levado at l. Era alto, 
elegante, louro, tinha olhos verdes e pele clara, ombros largos e ancas estreitas. Possua um sotaque delicioso e um notvel dom da palavra. Passou quase toda a 
noite da passagem de ano a beijar o pescoo de Camille, o que no surpreendeu nenhum dos presentes. Falava o ingls to bem como o francs. Segundo ele, tinha um 
palcio no Norte de Frana e outro em Veneza, mas era extremamente vago nos pormenores que dava sobre os mesmos. Dirigiu-se para Camille quando a festa comeou e 
no saiu de ao p dela durante quase toda a noite. Referiu que ouvira dizer que ela tinha uma casa magnfica e expressou o seu desejo de v-la, s para a comparar 
com a sua, naturalmente. Os Norte-Americanos tinham idias muito diferentes das dos Europeus no que concerne  arquitetura Thibaut, no parava de insistir no seu 
interesse em visitar a Manso Thurston, enquanto rodopiavam pelo salo, o brao  volta da cintura de Camille e os olhos cravados nos dela .Era um homem bem-parecido 
e com muito charme, de maneiras francas e despreocupadas. Camille no viu nada de mal em mostrar-lhe a casa no dia seguinte at ao momento em que ele a puxou para 
si e a beijou no toucador enquanto ela lhe mostrava o papel de parede francs do aposento.
       Porm, quando Thibaut a acariciou e o corpo dela comeou a arder sob os dedos do francs, Camille deu-se conta do muito tempo que transcorrera desde a ltima 
vez que sentira a carcia de um homem E, de repente, experimentou um arrebate de paixo pelo conde francs, que tocava o seu corpo como uma harpa, e que a conduziu 
a um estado de delrio tal que esteve quase a pedir-lhe que a possusse Mas, recuperando a razo, rogou-lhe que parasse, ao que ele respondeu afogando as suas palavras 
em beijos, convencido de que Camille compreendera as suas intenes quando ele lhe pedira para ver a casa Thibaut apercebera-se, na noite anterior, de que o marido 
da jovem se encontrava fora e de que era costume isso acontecer. Mas ela libertou-se dele com um repelo e quase lhe ordenou que descesse. Thibaut estava encantado 
com os olhos ardentes, os lbios apetecveis e os cabelos negros de Camille. Durante as semanas seguintes, inundou-a de presentes, bugigangas, ramos de flores, convidou-a 
vrias vezes para almoar, levou-a a passear de carruagem. Entretanto, Jeremiah continuava em Napa. Camille no parava de dizer que o comportamento de Thibaut era 
uma afronta, mas dizia-o com um delicioso sotaque sulista, e ele respondia-lhe em francs. Em poucos dias, Thibaut proporcionara-lhe mais momentos divertidos do 
que aqueles que tivera nos ltimos meses. Jeremiah era demasiado circunspecto, e ela estava farta de ouvi-lo falar das inundaes nas minas. Era esse o motivo por 
que ainda no regressara de Napa. Dessa vez, haviam morrido mais quatro homens. Thibaut no lhe falava de coisas to prosaicas. Dizia-lhe que ela era a mulher mais 
bonita que alguma vez conhecera e expressava-lhe a sua admirao por ter tido a coragem de pr uma filha no mundo E Camille confessava-lhe o horror que sentira durante 
toda a gravidez, at que o fervor das palavras do francs acabaram por conquistar-lhe o corao.
       - Acho uma crueldade pedir a uma mulher para ter filhos. Uma barbaridade! - exclamou Thibaut, com aparente indignao. - Nunca pediria tal coisa  minha amada. 
- Olhou-a com ar srio e ela corou.
       - No voltarei a faz-lo - confessou ela. - Preferiria morrer
       Ento, ele regalou-lhe os ouvidos afirmando que nunca gostara de crianas.
       - Que seres mais horrveis! E que mal cheiram. - Camille riu-se, e Thibaut voltou a cobrir os lbios da jovem com os seus. E, sem saber como, Camille deu 
consigo a fazer amor com ele no div do quarto de vestir. E voltaram a faz-lo depois de terem partilhado quase uma garrafa de champanhe das adegas de Jeremiah. 
Camille deu graas a Deus por trazer um daqueles anis. Colocara-o depois da noite de Ano Novo, s para ver se se ajustava e no o tirara, para o caso de Jeremiah 
regressar. Mas aquilo no tivera nada a ver com Jeremiah. Agora tinha s a ver com Thibaut du Pr.
       Antes de Jeremiah voltar, desfrutaram de seis semanas de relaes clandestinas. Du Pr ia  Manso Thurston, e ela, ao hotel dele, o que Camille sabia muito 
bem ser imprprio da sua condio, mas era menos perigoso do que deix-lo entrar em casa a altas horas da noite. Por entre risadinhas, costumavam subir as escadas 
em bicos dos ps para se esconderem nos aposentos de Camille, beber champanhe e fazer amor at de madrugada. Com ele, Camille voltou a sentir a paixo que conhecera 
antes do nascimento de Sabrina, mas achava-o mais arrebatado do que o marido. Era alto, magro e extico, falava-lhe em francs, era perverso e ertico, e s tinha 
trinta e dois anos, contudo, a maior parte das vezes, parecia ser mais jovem do que ela com os seus vinte anos. Thibaut queria folguedo a toda a hora e fazer amor 
de manh  noite, e no desejava que ela tivesse filhos. Camille estava encantada com o seu anel, e Thibaut falou-lhe de mtodos mais exticos que tinham em Frana. 
E comeou a propor-lhe que fosse com ele para a Europa
       - Podias vir comigo para o Sul de Frana... e podamos visitar os meus amigos... festas que duram a noite inteira... - E quase lhe chamuscou os ouvidos ao 
contar-lhe as coisas que eles gostavam de fazer.
       E, melhor ainda, ensinou-a a faz-las;  medida que os dias iam passando, Camille tinha a sensao de ter descoberto uma nova droga, e j no conseguia viver 
sem ele. Era como se estivesse viciada nele; noite e dia, ansiava pelas suas carcias, o contato do seu corpo, precisava que ele lhe preenchesse a alma. Ao deixar 
a cama em que haviam dormido juntos, Camille despegava quase dolorosamente a sua carne da de Thibaut. Precisava do corpo do amante sobre o seu, das suas mos, dos 
seus lbios, da sua lngua... Havia um embriagante perfume em tudo quanto Thibaut fazia. Ela nunca se sentia saciada. Comeou a ficar desesperada com a perspectiva 
do regresso de Jeremiah.
       Quando o marido chegou, quase apanhou Thibaut a sair. Camille s teve tempo de esconder uma garrafa de champanhe vazia que ficara debaixo da cama no toucador, 
quando Jeremiah foi ver Sabrina. Camille tinha os cabelos em desalinho e sentia-se leviana, manchada e confusa. Ao deparar-se-lhe Jeremiah, comeou a chorar, e ele 
interpretou essa reao como de alegria por o ver. Mas ela chorava porque estava desesperadamente confusa. E, por instantes, Camille, ao pegar na filha ao colo coisa 
que no fazia h seis meses, teve um vislumbre do que a vida poderia ter sido para eles os dois e Sabrina. De repente, lamentou no ter ido para Napa com Jeremiah. 
A, ter-se-ia sentido segura, no teria corrido o perigo de andar  deriva. Entrara no Jardim do den e j no se recordava do caminho de regresso a casa, se  que 
queria encontr-lo. Nessa noite, deitou-se ao lado de Jeremiah, completamente imvel, torturada pelos seus pensamentos. Quando, finalmente, ele lhe ps uma mo na 
anca, sentiu-se estremecer. O mais terrvel da situao era que j no desejava Jeremiah. S ansiava pelo momento de voltar para o lado de Thibaut, na manh seguinte. 
Encontraram-se, em segredo, no quarto do hotel onde ele estava hospedado. Nessa tarde, ao voltar para casa, Camille teve a sensao de que Thibaut se apoderara da 
sua mente e da sua alma, de uma maneira quase demonaca. No conseguia imaginar o que seu pai teria dito se tivesse tido conhecimento daquela relao e, pela primeira 
vez na vida, sentiu-se irremediavelmente desinteressada da opinio do pai, de Jeremiah, ou de quem quer que fosse.
       Jeremiah planeava passar alguns meses em So Francisco, e Camille sabia que, no final desse perodo, estaria meio louca com toda a confuso que ia na sua 
cabea. J no sabia que dizer a Jeremiah  noite, e resolvera mudar-se para o quarto de vestir. Agora, nunca tinha tempo para ir ver Sabrina e, quando saa com 
Jeremiah, no parava de olhar ao seu redor em busca do conde, que a devorava, ao longe, com o olhar. Uma vez, atreveu-se a acariciar-lhe o peito quando Camille se 
roou por ele ao entrar num restaurante, contato que a fez estremecer de desejo. Jeremiah achava que ela se tornara frgida e, por instantes, Camille sentiu-se invadida 
por um intenso sentimento de culpa.
       Thibaut continuava a insistir para que ela fosse para Frana com ele.
       - No posso! No entendes? - Os olhos selvagens e a lngua serpenteante do francs punham-na louca. - Estou casada! Tenho uma filha! - E havia outras objees: 
o seu estilo de vida, a sua segurana, a Manso Thurston. Ali, era algum importante. No podia abandonar tudo de um momento para o outro.
       - Tens um marido que te aborrece de uma maneira atroz, e ests-te nas tintas para a tua filha. O que te detm ento, meu amor? No queres ser minha condessa 
no meu palcio em Frana?
       - Quero... quero... - respondeu ela entre soluos. Thibaut estava a lev-la  loucura.
       Camille sentia uma grande confuso na cabea. No sabia o que havia de fazer. Ao fim de um ou dois meses, Jeremiah dera-se conta da sua crescente palidez, 
mas estava convencido de que isso se devia ao fato de ainda no ter recuperado totalmente do nascimento de Sabrina. E continuava a evit-lo todos os dias. Tinha 
outras coisas para fazer. Tinha de encontrar-se com Thibaut no quarto do hotel... onde ele lhe falava dos seus palcios... do pai... dos amigos... todos marqueses, 
condes, prncipes e duques. As descries que Thibaut lhe fazia dos bailes que os seus amigos davam nos palcios de toda a Frana deixavam-na fascinada. Parecia 
o sonho que o pai lhe prometera antes de Jeremiah aparecer. Agora, poderia ser condessa, se quisesse. A nica coisa que teria que fazer era cortar os laos que a 
uniam  sua vida atual. Thibaut no parava de lhe sussurrar isso entre as coxas, e Camille sentia-se enlouquecer.
       - No agento mais! - exclamou Camille um dia. - Estou demasiado confusa.
       Thibaut, porm, no deu importncia s suas palavras. Tal como ela, estava viciado na carne da sua amante, e queria cada vez mais dela, desejava-a s para 
si, e no afrouxaria o seu empenho at ela ceder. Queria lev-la consigo para Frana, juntamente com uma boa parte da fortuna que ela demonstrava possuir.
       Cada dia que passava, Jeremiah via-a afastar-se dele gradualmente, sem se aperceber do rumo que ela estava a imprimir  sua vida. Um dia, em abril, um amigo 
contou-lhe o que vira Camille a sair do Hotel Palace na companhia de um homem alto e louro, beijando-se antes de ele chamar uma carruagem para ela. Ao ouvir as palavras 
do amigo, Jeremiah ficou de corao destroado; alimentou ainda a esperana de que ele estivesse enganado, mas, com o passar dos dias, comeou a admitir a veracidade 
daquelas palavras. Cada vez que falava com ela, notava algo distante nos seus olhos. Alm disso, insistia para sarem todas as noites. Parecia aliviada quando Jeremiah 
ia visitar as minas. E nunca mais voltara a dormir com ele.
       Jeremiah ia ficando cada vez mais deprimido  medida que a primavera se aproximava do fim. Temia o que iria acontecer quando, em junho, a tentasse levar de 
novo para Napa. No queria confront-la com a situao com medo de piorar o estado das coisas, mas o destino encarregou-se de desencadear todo o processo. Um dia, 
 tarde, saa Jeremiah do clube do seu banqueiro, depois de ter falado com ele de vrios assuntos, quando uma carruagem passou lentamente diante dele e, no seu interior, 
vislumbrou Camille abraada a um homem louro. Teve a sensao de que o mundo desabara  sua volta. E confrontou-a com a situao, nessa noite, calmamente, no quarto 
de vestir.
       - No sei como  que tudo isto comeou, Camille. - Conseguiu conter as lgrimas. - Nem quero saber. H algum tempo, viram-te com esse homem. Quis crer que 
no era verdade, mas agora tenho a certeza. - Era a custo que continha as lgrimas. Amava-a tanto... e perguntou-se se a perderia para o homem que a estava a beijar 
na carruagem. No lhe importava o que fizera desde que no reincidisse. Ainda podiam salvar o que lhes restava, se Camille estivesse disposta a isso. Dependia mais 
dela do que dele. Jeremiah queria esquecer tudo e continuar ao lado daquela que era sua esposa. Mas no se dava conta do estado de confuso em que se encontrava 
o esprito de Camille.
       - E como sabes que era eu? - Olhou-o, compungida, sem o habitual ar agressivo. Ambos sabiam, sem sombra de dvida, que fora ela.
       - De nada adiantar falar sobre o assunto. S quero que pares com tudo. - A voz de Jeremiah era to suave como o amor que sentia por ela. - E j, Camille! 
Gostava que fssemos para Napa na prxima semana, com a Sabrina. E talvez consigamos recompor as nossas vidas. - Os olhos transbordavam de lgrimas.
       Camille cerrou os olhos. Se ele se tivesse oferecido para a afogar, ela teria ficado menos alterada do que com aquele convite para ir para Napa na semana 
seguinte. No conseguia suportar o pensamento de tal possibilidade, e no queria abandonar Thibaut. Ainda no era a altura certa. Precisava dele. Jeremiah apenas 
conseguiu articular um sussurro, mas era do fundo do corao:
       - Por favor...
       Camille abriu novamente os olhos.
       - Veremos...
       Aquilo que Jeremiah lhe propunha era como uma mo agarrada  garganta. Nessa mesma noite, escapuliu-se de novo at  rua s para trocar um beijo e algumas 
palavras com o amante. Jeremiah pensava que ela estivesse no rs-do-cho, a falar com a cozinheira, e nunca soube a verdade. Entretanto, Camille encontrava-se para 
l dos jardins, respondendo com sussurros s splicas que Thibaut lhe fazia para ir ter com ele ao hotel. Aquele homem era extremamente decadente, sem a mnima conscincia 
das coisas, e estava disposto a fazer todos os possveis para a levar consigo. Afinal de contas, por que no? Era bonita, sensual, quase to debochada como ele, 
uma perita na arte do amor, embora tivesse apenas vinte anos. Alm disso, toda a gente lhe dissera que era muito rica, e Thibaut precisava disso. S o que Jeremiah 
lhe oferecera, a julgar pelas jias e peles que ostentava, valia uma fortuna. No dia seguinte, Camille foi ter com Thibaut ao quarto do hotel e, entre soluos, disse-lhe 
que a sua aventura chegara ao fim, que pensara maduramente sobre o assunto e que no queria deixar tudo o que tinha por ele.
       - Fiz alguma coisa de mal? - perguntou-lhe Thibaut, surpreendido e sem se preocupar com a imoralidade da situao. As mulheres dos outros homens haviam sido 
sempre algo com que jogara durante muitos anos. Constituam uma boa diverso, e aquela era a melhor que conhecera. E no tinha inteno de deix-la escapar. Aquela 
no. Era demasiado saborosa, demasiado doce. E j era sua. Pressentia-o.
       - Eu  que fiz mal - explicou ela. - No consegui controlar-me, mas agora tenho de parar. O meu marido sabe tudo. - Camille temia que Thibaut se sobressaltasse, 
mas este s se mostrou preocupado.
       - Ele bateu-te, mon amour?
       - No, de modo nenhum. Mas quer que v para Napa com ele na semana que vem... - Era tal a angstia que Camille sentia perante tal perspectiva que quase no 
conseguia articular as palavras. - Ficaremos por l quase uns quatro meses e... - Continuou a falar entre soluos. - Quando voltarmos, j ters partido.
       - Eu no poderia ir tambm para Napa? Ficava num hotel prximo...
       Era uma idia atrevida, mas Camille no fez qualquer comentrio. Desejava aquele homem to desesperadamente...
       - No, l no  possvel.
       Thibaut abanou a cabea, esfregou os olhos e olhou fixamente para Camille.
       - Ento, vens comigo. Tens de optar. Agora. Esta semana. - Exibia um ar decidido. - Iremos para Frana.  hora de partir. Para comear, poderemos passar o 
vero no meu palcio do Sul... - Se o pai permitisse. - Depois, vamos para Veneza, talvez por ocasio dos bailes de vero... - Aquilo j era mais certo. - Finalmente, 
no outono, regressamos a Paris.
       Camille sentia-se muito mais atrada por tudo aquilo do que por Santa Helena, mas sabia que no tinha o direito de desfrut-lo. Era a esposa de Jeremiah e 
tinha a sua vida estabelecida na Califrnia, onde, ao fim e ao cabo, nem tudo eram desvantagens.
       - No posso ir. Teve de fazer um verdadeiro esforo para pronunciar as palavras.
       - Porque no? Serias a minha condessa, ma chrie. Pensa bem nisso!
       Camille assim fez, e sentiu o corao partir-se em dois. O pai sempre lhe prometera um conde ou um duque.
       - E o meu marido? E a minha filha?
       - Pouco te interessam. Sei-o to bem como tu.
       - No  verdade... - Mas era. A vida com que Thibaut lhe acenava era muito mais atraente e estava mais de acordo com o modo de ser de ambos. Camille no queria 
mais filhos, no queria ser uma esposa respeitvel... A nica coisa de que gostava em Jeremiah era a Manso Thurston, e Thibaut oferecia-lhe dois palcios... Ento, 
horrorizada, rebelou-se contra os seus prprios pensamentos. Continuava envolta num mar de dvidas. Sentia-se como se a estivessem a cortar ao meio. - No sei que 
fazer. - Sentou-se a soluar.
       Thibaut ofereceu-lhe uma taa de champanhe.
       - Tens de escolher, meu amor. Mas escolhe bem. Quando estiveres a apodrecer em Napa durante o resto da tua vida, lamentars a oportunidade que perdeste... 
E quando ele te voltar a violar e te engravidar de novo...
       Camille estremeceu s de pensar naquela possibilidade.
       - Pensa bem! Eu nunca te pedirei tal coisa.
       Ela sabia que, mais cedo ou mais tarde, Jeremiah voltaria a tentar. Queria um filho. Mas no era justo deix-lo s por isso... Ao fim e ao cabo, era sua esposa... 
Bebeu o champanhe e comeou a chorar. Thibaut tomou-a nos braos e voltou a fazer amor com ela. Nessa noite, quando chegou a casa, Camille foi ao quarto da filha 
e ficou a v-la brincar. J tinha um ano, dizia umas quantas palavras e comeara a andar, mas Camille no fazia parte da vida da filha. Por opo sua. Agora apetecia-lhe 
tomar a sua carinha entre as mos e chorar. No sabia que fazer. Nessa noite, quando Jeremiah lhe recordou que partiriam dentro de cinco dias, achou que ia enlouquecer. 
No dia seguinte, foi ter novamente com Thibaut ao quarto do hotel. Mas desta vez foi ele quem decidiu por ela. Ps-lhe no peito um enorme broche de diamantes que, 
segundo disse, era uma herana de famlia e, antes de fazer amor meia dzia de vezes, declarou solenemente o compromisso que existia entre os dois. Camille voltou 
para casa derrotada. Sabia que, por mais amvel e carinhoso que Jeremiah se mostrasse, no poderia voltar para Napa com ele, no poderia dar-lhe outro filho e no 
poderia sequer entregar-se  filha que j tinham. No fora feita para aquilo. Thibaut j lho demonstrara, no com o broche de diamantes, mas com as suas palavras. 
Sim, iria para Paris com ele. Agora, seria condessa. Talvez fosse aquele o seu verdadeiro destino.
       Jeremiah escutou-a com perplexa incredulidade e, quando ela acabou o que tinha a dizer, foi ao quarto de Sabrina e, passando em bicos dos ps pela ama, deteve-se 
diante da cama da filha a contempl-la. Era inconcebvel que a me a fosse abandonar, e mais doloroso ainda pensar que ela o ia deixar. A agonia que sentia era difcil 
de expressar por palavras. A dor no era menor do que a que Camille ao dar  luz a filha. Recordou-se de John Harte quando, anos antes, perdera a esposa e os filhos. 
Agora compreendia o que o pobre homem sentira. Tambm se perguntou se seria aquilo o que Mary Ellen sentira quando a deixara. Talvez estivesse a pagar os seus erros 
passados. Chorou com a cabea apoiada nas mos antes de deixar a criana adormecida, para voltar para a solido do quarto.
       Camille levou dois dias a fazer as malas, instalou-se um ambiente fnebre na casa  medida que o rumor se ia espalhando. Jeremiah no dissera nada a ningum. 
Horas antes da partida de Camille, Jeremiah agarrou-a por ambos os braos e puxou-a para si, enquanto as lgrimas lhe corriam pelas faces
       - No podes fazer isto, Camille. Ests louca. Quando acordares, perguntar-te-s como pudeste cometer tal loucura. No penses em mim... pensa na Sabrina... 
No podes abandon-la agora. Arrepender-te-s durante toda a vida. E para qu? Para viveres com um mentecapto num palcio? J tens tudo isto. - Jeremiah apontou 
para a Manso Thurston, mas Camille, tambm a chorar, abanou a cabea.
       - No sou a mulher ideal para estar aqui... nem para ser tua esposa... - Foi interrompida por um soluo. - No sou suficientemente boa para ti. - Era a primeira 
frase amvel que saa da sua boca desde h muitos dias.
       Jeremiah abraou-a com fora.
       -  claro que s.. Amo-te... no vs... Oh, meu Deus, por favor, no vs!...
       Camille abanou a cabea, e desatou a correr pelos jardins com o vaporoso vestido a ondear atrs dela: uma viso de seda branca e azul e de esvoaantes cabelos 
negros. Jeremiah ficou, de olhar atnito, a observ-la. Thibaut esperava-a numa carruagem, diante do porto principal. Nessa mesma noite, um cocheiro veio buscar 
as suas coisas. Jeremiah encontrou um bilhete junto s jias: "Para a Sabrina... um dia..." E outro no quarto de vestir: "Adeus!" Ela no imaginara que Thibaut ficaria 
to furioso ao saber que ela no levara as jias.
       Nessa noite, Jeremiah vagueou por toda a casa como um moribundo. No conseguia acreditar que Camille tivesse partido. Fora uma verdadeira loucura. Ela mudaria 
de idias e voltaria. Provavelmente, mandar-lhe-ia um telegrama de Nova Iorque. Com a esperana de que voltasse, Jeremiah adiou a sua partida para Napa para da 
a trs semanas. Mas ela no regressou nem deu o menor sinal de vida. Nunca mais a viu, s em sonhos. Jeremiah escreveu ao sogro a contar o sucedido. Orville respondeu-lhe, 
dizendo que Camille merecia o maior desprezo, e que para eles estava morta a partir daquele momento, tal como o deveria estar para o marido. No era uma maneira 
muito amvel de pensar nela, mas no havia qualquer alternativa. Nem sequer lhe escreveu uma s vez. Desapareceu na bruma da noite com um estranho que a levou para 
Frana.
       Orville reprovava o comportamento da filha, mas era, em parte, responsvel por aquilo que Camille fizera. Ensinara-a a querer demasiado, a interessar-se s 
pelas coisas materiais. Enchera-lhe a cabea com sonhos de prncipes e duques. Porm, mudara de idias ao ver em Jeremiah um homem bom e um excelente partido para 
a sua filha. Fizera o que devia. Camille fora demasiado longe, e o pai nunca iria perdoar-lhe. Ela escreveu-lhe, mas Orville respondeu-lhe que ela morrera para ele. 
No herdaria nada dele nem da me, que se encontrava demasiado doente para manter qualquer tipo de contato com ela. S restava Hubert. Mas este, alm de ser extremamente 
egosta, nunca sentira grande interesse por Camille.
       Na Califrnia, Jeremiah disse a toda a gente que Camille morrera por causa da epidemia de gripe. Ela fora suficientemente inteligente para no dizer nada 
a ningum quando partiu. Ningum parecia saber que eles haviam partido. Thibaut du Pr deixou uma conta colossal por pagar no Hotel Palace e no confidenciou a ningum 
os seus propsitos para o futuro, nem que levava Camille Thurston consigo. Pura e simplesmente, desapareceram. Durante mais de uma semana, Jeremiah ps a correr 
o boato de que a sua esposa se encontrava extremamente doente. Perante a surpresa da criadagem, mandou pr um fumo negro no batente da porta principal. Depois de 
mandar publicar uma pequena notcia no jornal e de fechar a casa quase hermeticamente, Jeremiah partiu para Napa. Todos acreditaram que a sua esposa morrera por 
causa da gripe. Explicou que o corpo fora enviado para Atlanta a fim de ser enterrado no jazigo da famlia e mandou celebrar um pequeno servio fnebre em Santa 
Helena, ao qual assistiu muito pouca gente. L quase ningum a conhecia, e os que haviam tido algum contato com Camille no morriam de amores por ela. Hannah assistiu 
 cerimnia, vestida de negro e estranhamente hirta, assim como alguns homens que trabalhavam com Jeremiah nas minas, por respeito por ele Jeremiah ficou sensibilizado 
ao ver que John Harte tambm viera. Este nunca esquecera a atitude de Jeremiah quando a esposa e os filhos morreram. No tornara a casar, e ainda o horrorizava ter 
de voltar,  noite, para a casa vazia da colina. No final do servio religioso, apertou a mo de Jeremiah num gesto de sentidas condolncias.
       - D graas a Deus por ter ainda a sua filha
       - E dou. - Os olhos de Jeremiah encontraram os dele.
       John Harte tinha vinte e nove anos, mas o seu aspecto e a sensatez que demonstrava eram prprios de um homem de mais idade. Era muita a responsabilidade com 
que tinha de arcar, mas desembaraava-se bastante bem. Talvez fosse essa uma das causas do afeto que Jeremiah sentia por ele. Depois de se despedir de Harte, visivelmente 
emocionado, com outro aperto de mos, regressou a casa, para junto de Sabrina, que agora no tinha me. Ainda no conseguia compreender o que Camille fizera, nem 
por que. Por que razo fugira com o francs? Uma coisa estava certa no esprito de Jeremiah: no haveria divrcio. No queria que ningum soubesse que Camille no 
morrera. Perpetuaria o mito da sua morte enquanto vivesse, especialmente para a filha. Camille Beauchamp Thurston morrera para toda a gente. S Jeremiah e Hannah 
sabiam a verdade. Todos os criados foram despedidos e a Manso Thurston, encerrada de vez. Talvez Jeremiah a vendesse algum dia, ou, qui, ficasse com ela para 
Sabrina; mas ele nunca mais viveria nela. Ainda havia roupas de Camille nos roupeiros: as que ela no quisera levar. Retirara as roupas caras e os vestidos de noite, 
alm das bonitas peles. Retirou quase tudo, exceto o velho e o usado, que era muito pouco. Enchera os bas quando partira e, se algum dia voltasse, encontrar-se-ia 
ainda casada com ele. Sabrina cresceria convencida de que a me morrera por causa da gripe, tal como muitas outras pessoas naqueles tempos, e no teria ocasio de 
descobrir nada que negasse aquela histria, nenhum rasto que conduzisse  verdade. Nenhuma carta, nenhuma explicao, nenhum divrcio. No haveria tal coisa. Camille 
Beauchamp Thurston morrera para todos Que descanse em paz!
       
       
LIVRO II
       
      SABRINA THURSTON HARTE
       
      18
       
       A carruagem parou diante das minas pouco antes da hora de almoo, e uma esbelta rapariga desceu de um pulo. Os sedosos cabelos negros apanhados por uma fita 
de cetim azul, a saia de linho azul-plido e a blusa  marinheiro davam-lhe um ar ainda mais jovem do que o que correspondia aos seus treze anos. Enquanto atravessava 
a correr o recinto mineiro, acenava com a mo para o homem que naquele momento saa do escritrio. Encadeado pelo sol, Jeremiah deteve-se, por instantes, para distinguir 
melhor a rapariga que corria para ele, e abanou a cabea. Mas f-lo com um sorriso nos lbios. Na semana anterior, dissera-lhe para no vir que nem uma louca em 
nenhum dos melhores cavalos, pelo que, desta vez, trouxera a carruagem, mas com ela s rdeas. Jeremiah no sabia se havia de rir, se havia de zangar-se, mas geralmente 
era uma deciso fcil de tomar. Sabrina no era uma menina como as outras, nunca o fora, e o fato de viver sozinha com ele criara certas peculiaridades nela. Adorava 
o cheiro dos charutos do pai, conhecia todos os seus caprichos e necessidades e procurava satisfaz-los constantemente; alm disso, montava os cavalos to bem como 
ele e conhecia pelo nome os homens das trs minas. Chegara, inclusive, a saber mais sobre vinicultura do que o prprio pai. E nada disso desagradava a Jeremiah. 
Estava orgulhoso da sua nica filha, mais do que ela imaginava, mas Sabrina tinha perfeita conscincia daquilo que o pai sentia por si. Este nunca lhe batera. Ensinara-lhe 
tudo o que sabia e levava-a a todo o lado consigo. Em pequena, sara muito poucas vezes de Santa Helena, mas Jeremiah estava constantemente junto dela, a ler-lhe 
histrias antes de adormecer, a fazer-lhe companhia quando estava doente, a embal-la quando estava triste e, muitas vezes, a cuidar dela pessoalmente em vez de 
pedir a Hannah ou s criadas que tinha ao seu servio.
       - Isso no  natural, Jeremiah! - dissera-lhe Hannah, mais de uma vez, nos primeiros anos. -  uma menina, pouco mais do que um beb. Deixa que eu e as outras 
mulheres cuidemos dela. - Mas ele no conseguia faz-lo, no suportava a idia de estar longe dela durante muito tempo. - J tens bastante trabalho em ir para as 
minas todos os dias.
       Jeremiah no tardou a lev-la consigo para as minas. Pegava nuns quantos brinquedos, numa camisola quente, num cobertor e, s vezes, numa almofada, e punha-a 
a brincar num canto do escritrio, ou deitava-a em cima do cobertor junto da lareira quando ficava com sono  tarde. Algumas pessoas achavam chocante, mas para a 
maioria era algo comovedor. Nem os homens de corao mais empedernido com que lidava conseguiam resistir ao encanto daquela carinha rosada, meio oculta pelo cobertor, 
e daqueles caracis negros espalhados sobre a almofada. Acordava sempre com um sorriso nos lbios e um pequeno bocejo, e a primeira coisa que fazia era ir a correr 
dar um beijo ao pai. Era um amorzinho que surpreendia alguns e fazia inveja a outros. Na realidade, alm de um indubitvel amor filial e paterno, havia uma instintiva 
compreenso das suas mtuas necessidades e maneiras de ser. Durante os treze anos que levava de vida, Sabrina nunca causara o menor desgosto ao pai. De fato, s 
lhe havia dado prazer, felicidade e afeto E, naquele ambiente de transbordante amor, a rapariga no sentia a menor dor pela falta da me. Jeremiah dissera-lhe apenas 
que a me morrera quando ela era ainda beb
       - Era bonita?
       Jeremiah sentiu um aperto no corao.
       - Sim, muito. Como tu - respondeu o pai com um sorriso.
       Na realidade, Sabrina parecia-se mais com ele do que com a me. Tinha as feies de Jeremiah, e tudo indicava que seria to alta como ele. Se herdara algo 
da me, fora o seu gosto por travessuras. De vez em quando, pregava partidas ao pai mas tudo acabava em bem. Sabrina nunca mostrara qualquer sinal do comportamento 
de menina mimada e caprichosa da me. Durante aqueles anos, ningum lhe dera alguma vez a entender que a me no morrera, mas abandonara o esposo e a filha. No 
havia nenhuma razo para lhe dizerem. S a confundiriam e a magoariam, como Jeremiah dissera a Hannah h muito tempo. Durante treze anos, s houvera alegria na vida 
de Sabrina. Levava uma existncia tranqila e feliz, e ia para todo o lado com o pai adorado. Quando atingiu a idade de comear a estudar, Jeremiah arranjou-lhe 
uma tutora. Sabrina prestava s lies uma paciente ateno, mais ou menos fingida, depois saa a correr at  mina, para junto do pai, e passava o resto do dia 
atrs dele. Era ali que aprendia o que queria saber
       - Quero trabalhar para ti um dia, pap
       - No sejas tonta. - Mas, intimamente, era esse o seu desejo. Sabrina era como uma filha e um filho ao mesmo tempo, e tinha queda para os negcios. Mas nunca 
poderia trabalhar nas minas. Ningum compreenderia essa situao.
       - Permitiste que o Dan Richfield trabalhasse para ti quando ainda era rapaz. Foi ele prprio que mo disse. - Mas ele agora tinha vinte e nove anos e era pai 
de cinco filhos. Que distantes estavam aquelas manhs de sbado em que Dan comeara a trabalhar para Jeremiah!
       - Aquilo era diferente, Sabrina. Tratava-se de um rapaz. Tu s uma jovem senhora.
       - No sou, no! - Nalguns raros momentos de petulncia, as reaes de Sabrina faziam lembrar o carter da me. Jeremiah virou a cara para no ver as semelhanas. 
- No me voltes as costas, pap! Sei tanto de minas como qualquer um dos teus homens!
       Jeremiah sentou-se e, com um terno sorriso nos lbios, pegou na mo da rapariga.
       - Isso  verdade, meu amor, mas  preciso algo mais.  necessria a mo de um homem, a fora de um homem, a determinao de um homem. Coisas que tu nunca 
poders ter. - Deu-lhe uma palmadinha na cara. - A ti, s te falta encontrar um marido janota.
       - No preciso de nenhum marido! - J aos dez anos lhe custava admitir a possibilidade de algum dia ter de casar-se e no se podia dizer que aos treze tivesse 
mudado de atitude. - Quero viver sempre contigo!
       De certo modo, Jeremiah gostava de a ouvir falar assim. Contava j cinqenta e oito anos, mas mantinha ainda a vitalidade e o vigor e tinha sempre a mente 
cheia de novas idias sobre o modo de dirigir as minas e os vinhedos. Mas a dor que Camille lhe provocara cobrara o seu tributo. H muitos anos que no se sentia 
um homem jovem. Sentia-se velho e cansado. Havia nele uma parte que nunca voltaria a abrir-se, como nunca voltaria a abrir a manso da cidade. Recebera numerosas 
ofertas de compra ao longo dos anos. Inclusive de um homem que queria transformar a casa num hotel Mas nunca mostrou qualquer vontade de a vender. Nunca voltara 
a pr os ps nela e, provavelmente, nunca mais voltaria. Teria sido demasiado doloroso ver de novo os aposentos que mandara construir, a casa que ele esperara encher 
com meia dzia de filhos. O mais provvel era que a deixasse a Sabrina, se ela se casasse. Em vez de ser para os seus filhos, seria para ela. Parecia ser o destino 
adequado para a casa construda com tanta iluso e carinho
       - Pap! - gritou Sabrina quando, depois de prender o cavalo da carruagem, se dirigiu a correr para o pai. Sabia mais de minas, cavalos e carruagens do que 
a maior parte dos rapazes. Todavia, a sua feminilidade permanecera intacta, como se sculos de distinta tradio sulista se tivessem embrenhado nela. Era feminina 
dos ps  cabea, mas possua uma doura e uma afetuosidade que a me nunca tivera. - Vim o mais depressa que pude. - Correu, sem alento, para ele, enquanto os caracis 
danavam sobre os ombros, ao mesmo tempo que ria e abanava a cabea, num falso desespero
       - Estou a ver, Sabrina. Quando te sugeri que passasses por c esta tarde depois de estudares, no quis dizer que roubasses a minha melhor carruagem para o 
fazeres.
       A rapariga pareceu arrepender-se de imediato e olhou por cima do ombro.
       - Achas mesmo que procedi mal, pap? Conduzi com muito cuidado.
       - Sei que sim. No foi isso que me preocupou.  o espetculo que ds a conduzir uma carruagem destas. A Hannah vai-nos dar uma boa reprimenda. Se fizesses 
isso em So Francisco, expulsar-te-iam da cidade com a acusao de "acelera" e de comportamento imprprio de uma donzela. - O tom de falsa repreenso levou Sabrina 
a encolher os ombros com ar de indiferena.
       - Mas seria uma estupidez. Conduzo melhor do que tu, pap.
       Desta vez, Jeremiah franziu o sobrolho, fingindo-se escandalizado.
       - Talvez tenhas razo, mas sabes que no estou em plena forma.
       - Eu sei, eu sei. - Sabrina corou ligeiramente. - S queria dizer que...
       - Deixa l. Da prxima vez, traz o teu alazo. No chamars tanto a ateno.
       - Mas disseste-me para no me lanar a galope por essas colinas, que viesse de carruagem, como uma dama.
       Jeremiah inclinou-se para ela e sussurrou-lhe ao ouvido:
       - As damas no conduzem carruagens.
       Sabrina riu-se. Dera-lhe um prazer imenso conduzir a carruagem. A verdade era que havia muito pouca coisa com que se divertir em Santa Helena. No conhecia 
crianas da sua idade, no tinha irmos nem primos, e passava a maior parte do tempo com o pai. Por isso, entretinha-se a pregar partidas ou a vaguear pelas minas. 
De vez em quando, Jeremiah levava-a at So Francisco. Hospedavam-se sempre no Hotel Palace, e Sabrina ficava em aposentos contguos aos do pai. Quando era mais 
pequena, levava tambm Hannah, mas agora a pobre mulher, tolhida pela artrite, no fazia nada por ocultar o fato de detestar ir para a cidade. E Sabrina j tinha 
idade suficiente para ir sozinha com o pai.
       Passaram muitas vezes pela Manso Thurston e, uma vez, Jeremiah chegou a abrir o porto e a dar uma volta com a filha pelos jardins, mas nunca a levou dentro 
de casa. Sabrina suspeitava por que. A morte da esposa fora extremamente dolorosa para ele. Todavia, sempre sentira curiosidade por ver o interior da casa. Interrogara 
Hannah acerca da casa, mas ficou decepcionada ao saber que a velhota nunca estivera no interior da manso. Tambm insistira para que Hannah lhe contasse como era 
a me, mas a informao que obteve foi to escassa que deduziu de imediato que as relaes entre as duas mulheres no haviam sido muito cordiais. No sabia por que, 
mas nunca se atreveu a perguntar ao pai. Eram tais a tristeza e a desolao que se vislumbravam nos olhos dele sempre que ouvia o nome de Camille, que preferia no 
amargur-lo mais com a sua curiosidade. Havia, pois, mistrios e vazios na vida de Sabrina: uma casa em cujo interior nunca estivera, uma me que nunca conhecera. 
e um pai que a adorava.
       - J acabaste o trabalho, pap? - perguntou Sabrina, enquanto se dirigiam, de brao dado, para a carruagem. Jeremiah consentira, finalmente, que ela pegasse 
nas rdeas, com o cavalo dele preso atrs da carruagem e encolheu os ombros para aquilo que as pessoas pudessem pensar quando os vissem.
       - Sim, j acabei, minha pequena sirigaita. s uma rapariga surpreendente - disse Jeremiah, enquanto tomava o lugar ao lado da filha. - Se nos virem, pensaro 
que sou louco por te permitir esta insensatez.
       - No te preocupes, pap - replicou ela, dando uma palmadinha maternal no brao do pai. - Sou boa condutora.
       - E muito descarada, pelo que vejo. - Mas era evidente o carinho com que a olhava.
       Pouco depois, Sabrina retomou as perguntas sobre o trabalho do pai. Tinha um motivo para isso, e ele sabia qual era. 
       - Sim, j resolvi todos os assuntos que tinha pendentes. E sei por que razo ests a perguntar-me isso. Sim, amanh iremos para So Francisco. Isso alegra-te?
       - Muito, pap! - Sabrina olhou-o com um sorriso de satisfao, desviando o olhar da estrada, na altura em que entrava numa curva apertada. A carruagem esteve 
quase a virar-se. Jeremiah procurou desesperadamente tirar-lhe as rdeas das mos, mas ela resolveu o problema com incrvel rapidez e destreza. Terminada a hbil 
manobra, voltou a sorrir para o pai, enquanto este desatava a rir.
       - Estou a ver que, de um modo ou de outro, qualquer dia vais ser a causa da minha morte.
       Acabava de mencionar algo de que Sabrina no queria ouvir falar, nem a brincar. Ao ver o semblante carregado da filha, Jeremiah arrependeu-se de ter falado 
daquela maneira.
       - No se brinca com essas coisas, pap. s a nica pessoa que tenho no mundo.
       Sabrina fazia-lhe sentir remorsos sempre que tocava no assunto. Optou, pois, por desanuviar a situao.
       - Ento, tenta no me matar a conduzir dessa maneira.
       - Sabes que raramente cometo um erro com as rdeas na mo. - E, ao dizer isto, fez outra curva, desta vez com preciso cirrgica. - Esta j foi melhor - acrescentou, 
radiante de satisfao.
       - Sabrina Thurston, s um monstro. 
       A rapariga fez-lhe uma vnia.
       - Como o meu pai.
       Sabrina perguntava-se, de vez em quando, se no se pareceria mais com a me... Como  que ela seria?... Com quem se parecia?... Porque morrera to jovem?... 
Tinha um milhar de perguntas sem resposta sobre a me. No havia nem um s retrato dela em toda a casa, nem uma miniatura, nem um esboo, nada. O pai s lhe dissera 
que morrera da gripe quando ela tinha apenas um ano Ponto final. Fim da histria. Dissera-lhe tambm que a amara muito, que se haviam casado na vspera de Natal, 
em Atlanta, na Gergia, no ano de 1886, e que ela, Sabrina, nascera um ano e meio depois, em maio de 1888, um ano antes da morte da me. Explicou-lhe que mandara 
construir a Manso Thurston antes de casar com Camille, e que, naquele momento, uns quinze anos depois, sabia que ainda era a maior casa de So Francisco. Mas era 
uma relquia, um tmulo, um lugar em que ela entraria "um dia", mas no com ele. No era, pois, de estranhar que aquela espcie de mistrio despertasse a curiosidade 
de Sabrina, sobretudo quando passeavam de carruagem por So Francisco. E chegou a sentir-se to intrigada que forjou um plano e resolveu p-lo em prtica da prxima 
vez que fosse  cidade com o pai.
       - Vamos a So Francisco amanh, pap?
       - Sim, minha pequena vil, vamos. Mas vou ter reunies no Nevada Bank durante todo o dia. Por isso ters de arranjar forma de passar o tempo. Disse  Hannah 
que achava que no devias vir comigo desta vez. - Sabrina ia a fazer qualquer objeo antes de o pai acabar a frase, mas ele pediu-lhe silncio com a mo. - J sabia 
qual seria a tua reao, por isso disse-lhe que, para a minha paz e tranqilidade, iramos juntos para a cidade. Na semana que vem, ters de falar com a tua tutora, 
Sabrina. No quero que percas lies por andares comigo por a. - Por instantes, pareceu severo, mas no se sentia muito preocupado. A rapariga era uma excelente 
estudante, e ambos sabiam que aprendia mais ao lado dele. Nesse dia, naturalmente, teria podido lev-la consigo ao banco, mas achou que um dia inteiro de reunies 
teria sido demasiado para ela. - Leva alguns livros. Podes estudar um pouco no hotel, depois iremos dar uma volta quando chegar. Estreou uma nova pea de teatro 
que talvez gostes de ver. Escrevi ao secretrio do presidente do banco a pedir-lhe que nos arranjasse bilhetes.
       Sabrina bateu as palmas e voltou a tomar as rdeas, no preciso momento em que entravam no caminho de acesso  casa, para se deterem, pouco depois, diante 
da porta principal.
       - Acho estupendo, pap. - E ela sabia exatamente o que faria quando ele estivesse nas suas reunies. - E, como vs, no te podes queixar. Trouxe-te para casa 
so e salvo.
       Jeremiah franziu o sobrolho e deu uma puxada no charuto.
       - Sim, mas agradeo-te que da prxima vez que penses usar a minha melhor carruagem tenhas a amabilidade de me pedir.
       Sabrina saltou com ligeireza para o cho, com um sorriso nos lbios, aspirando com agrado o cheiro acre do charuto.
       - Sim, chefe! - Ao dizer isto, pulou para dentro de casa e cumprimentou Hannah com um grito e deu-lhe a notcia de que iriam para a cidade no dia seguinte.
       - J sei, j sei... - disse a velhota, tomando-lhe a cabea entre as mos. - E fala um pouco mais baixo. Meu Deus, ests aos gritos. O teu pai no precisa 
de mandar telegramas aos clientes. Bastaria que te assomasses  janela e lhes gritasses as mensagens para Filadlfia.
       - Obrigada, Hannah. - Sabrina fez uma vnia  velhota, beijou-a na face e correu para o quarto a fim de lavar as mos antes de jantar. - Andava sempre imaculadamente 
limpa e bem vestida, sem que ningum tivesse de lhe dizer nada. Havia algo nela de Camille Beauchamp.
       - Vais ver os pretendentes que ela ter daqui a uns anos - disse Hannah, enquanto a via desaparecer pelas escadas acima.
       Jeremiah sorriu para a velhota e pendurou o casaco.
       - Ela diz que vai viver sempre comigo e trabalhar nas minas para mim.
       - No  uma perspectiva prpria de uma dama.
       - Foi o que eu lhe disse. - Jeremiah soltou um suspiro e seguiu Hannah at  cozinha. Continuava a gostar de conversar com ela. Eram amigos h mais de trinta 
anos e, de certo modo, era a sua melhor amiga, e ele, o melhor amigo dela. Alm disso, a velhota adorava Sabrina. - E a verdade  que se mostra excepcionalmente 
expedita em relao s minas.  pena no ser um rapaz! - No era a primeira vez que dizia tal coisa.
       - Talvez se case com um jovem a quem possas ensinar tudo o que sabes. Ento, poders deixar tudo aos teus netos.
       - Talvez.
       Jeremiah ainda no estava preparado para pensar naquelas coisas. E ainda faltavam muitos anos para Sabrina se casar. Mas, por outro lado, ele j no era jovem, 
e no ano anterior tivera um problema de corao. Nesse dia, Sabrina ficou aterrorizada ao encontr-lo inconsciente no quarto de vestir, mas recuperara bem. Ambos 
tentaram esquecer o sucedido. O mdico, porm, recomendara-lhe que reduzisse o ritmo de trabalho, conselho que Jeremiah recebeu com um sorriso. Para ele poder reduzir 
o ritmo de trabalho, teria de haver algum que o mantivesse.
       - Ests a ficar velho, Jeremiah. Deverias comear a pensar no teu futuro... - Fez um gesto com a cabea na direo das escadas que conduziam ao quarto de 
Sabrina. E riu dela. - Ainda ests apegado quela casa da cidade, no ests?
       Jeremiah esboou um sorriso triste.
       - Estou. E sei que achas que estou louco, como sempre achaste. Mas constru a manso com amor, e com amor a darei a Sabrina. Se quiser, que a venda. No quero 
que ela um dia chegue ao p de mim e me diga: "Porque no a guardaste para mim, pap?"
       - Para que querer ela em So Francisco uma casa maior do que dez estbulos?
       - Nunca se sabe. J sou feliz aqui. Mas talvez ela queira viver na cidade quando for maior. Assim, poder escolher.
       Jeremiah ficou em silncio e ambos pensaram em Camille. Nunca merecera o carinho que ele lhe dispensara, e nunca mais tivera notcias dela, nem uma palavra, 
nem um sinal, nem uma carta. De qualquer modo, continuava legalmente casado com ela. O pai de Camille escrevera algumas vezes a Jeremiah. Ela vivera durante algum 
tempo em Veneza, depois mudara-se para Paris, sempre na companhia do homem com quem fugira, chamando-se condessa a si mesma e fingindo ser sua esposa. No tinham 
dinheiro, e a Frana atravessava um inverno muito frio, o que levou a que Orville Beauchamp quebrasse a deciso de no querer voltar a saber dela e fosse v-la. 
A esposa morrera e Hubert casara-se com uma rapariga do Kentucky. Jeremiah, por seu turno, decidira no deix-lo ver Sabrina. Queria evitar a possibilidade de o 
sogro dar  filha uma verso diferente daquela que ele prprio lhe contara, durante anos. Orville Beauchamp no tinha mais ningum na vida. Encontrava-se completamente 
s. Foi a Paris ver a filha, que vivia em condies precrias numa casa dos subrbios da cidade, onde lhe nascera um filho morto. Mas quando tentou traz-la consigo 
para os Estados Unidos, ela recusou-se a acompanh-lo. O pai descreveu-a como "enlouquecida por uma paixo que no conseguiu compreender. Apegou-se ao desprezvel 
amante e negou-se a abandon-lo". Jeremiah leu tambm nas entrelinhas que Camille comeara a beber, e que, provavelmente, abusava do absinto. Mas, fossem quais fossem 
os problemas dela, ele j no tinha nada a ver com isso. Orville Beauchamp morreu uns anos depois, mas Camille nunca regressou. Desde ento, Jeremiah no voltou 
a saber nada dela, fato que, de certo modo, o deixara mais aliviado. No queria que nenhum contato com Camille manchasse a vida de Sabrina. No queria que ela soubesse 
que a me no morrera de gripe, tal como ele lhe contara. Para Jeremiah e Sabrina, a porta estava fechada, e nunca mais se voltaria a abrir para Camille.
       No voltara a haver ningum como ela na vida de Jeremiah, ningum por quem se tivesse preocupado tanto, ou que tivesse provocado nele uma paixo to forte, 
 exceo, naturalmente, de Sabrina. Ela era agora o amor da sua vida, a sua razo de viver. E quando precisava de satisfazer outras necessidades, sabia onde se 
dirigir. Havia um bordel em So Francisco onde costumava ir, quando Sabrina no se encontrava com ele, e uma professora em Santa Helena com quem jantava de vez em 
quando. Mary Ellen casara-se h muito e mudara-se para Santa Rosa. Quanto a Amlia Goodheart, Jeremiah e Sabrina ficavam encantados de a ver sempre que ia a So 
Francisco visitar a filha. Sabrina adorava-a.
       Embora estivesse j bem entrada nos cinqenta, Amlia ainda era a mulher mais deslumbrante que Sabrina alguma vez vira. Continuava a ir a So Francisco uma 
vez por ano visitar a filha e os netos. Tinha j seis netos, e uma vez levara-os at Santa Helena. Sabrina adorava-a mais do que a qualquer outra mulher que conhecera. 
A simpatia, a ternura, a inteligncia e a elegncia que exibia fascinavam Sabrina. Os vestidos e as jias que costumava trazer deixavam Sabrina sem respirao.
       -  a mulher mais bonita do mundo, no , pap? - perguntou, fascinada, certa vez.
       O pai sorriu. Ele pensava o mesmo, e s vezes lamentava no ter insistido mais em casar-se com ela quando a conhecera no comboio, a caminho de Atlanta. Talvez 
tivesse sido uma loucura, mas, tendo em conta a forma como as coisas se haviam desenrolado depois, no teria sido uma loucura to grande como a de ter casado com 
Camille Beauchamp. De fato, anos depois de a esposa o ter abandonado, Jeremiah, no decurso de uma viagem que fez a Nova Iorque com Sabrina, voltou a pedir a Amlia 
que casasse consigo, mas ela voltou a recusar com toda a amabilidade.
       - Como poderia eu aceitar, Jeremiah? J sou muito velha... - Tinha, ento, cinqenta anos. - J estou acostumada a esta situao, a minha vida est aqui, 
em Nova Iorque... a minha casa...
       Para ela, Jeremiah teria voltado a abrir a Manso Thurston, e foi isso mesmo que ele lhe disse, mas Amlia mostrou-se firme na sua resoluo de no voltar 
a casar, atitude que ele acabou por achar correta. Ambos tinham as suas vidas prprias, os seus filhos, os seus lares. Era demasiado tarde para reunir tudo debaixo 
do mesmo teto e, alm disso, Amlia nunca teria sido feliz a viver fora de Nova Iorque. Era o centro da sua existncia. Mas continuavam a ver-se quando das suas 
vindas anuais a So Francisco, e uma ou duas vezes por ano quando Jeremiah ia a Nova Iorque em negcios. De fato, sem que Sabrina soubesse, a ltima vez que l fora 
ficara em casa dela.
       - Na nossa idade, Jeremiah, que mal h nisso? Quem nos pode criticar? S se podem admirar da paixo que ainda temos um pelo outro - disse ela, rindo como 
uma rapariga, e no podes engravidar-me. - Foram duas semanas maravilhosas em casa de Amlia, as mais felizes de que ele se lembrava e, antes de partir, ofereceu-lhe 
um belo broche de safiras e diamantes com uma inscrio atrs que fez com que Amlia desatasse a rir: "Para Amlia, com amor, J.T.". - Que diro os meus filhos e 
os meus netos quando dividirem as jias?
       - Diro que foste uma mulher apaixonada
       - O que no deixa de ser um elogio.
       Amlia acompanhou-o  estao, e desta vez foi ela quem ficou no cais, a agitar um enorme regalo de pele de zibelina enquanto o comboio se punha em marcha. 
Envergava um magnfico casaco vermelho adornado com peles de zibelina que condizia com o chapu. Jeremiah nunca conhecera uma mulher to bela. Se nesse dia a voltasse 
a encontrar no comboio, ter-se-ia apaixonado por ela como da primeira vez, quando ainda no conhecia Camille.
       - Se ainda tivesse foras... - lamentara-se Jeremiah, pouco antes de partir, mas ambos sabiam que elas ainda no lhe faltavam. Demonstrara-o, noite aps noite, 
durante a sua estada em Nova Iorque, e regressou a So Francisco com ar renovado e com um extraordinrio bom humor.
       - De que ests a sorrir, Jeremiah? - perguntou Hannah, enquanto ele tomava um caf e ela preparava o jantar. - Aposto cinco cntimos em como  essa mulher 
de Nova Iorque.
       - E ganharias - disse ele, sorrindo.
       Pensava muitas vezes em Amlia e, antes das suas visitas, ainda sentia o entusiasmo de um colegial. Mas ela no tinha de voltar a So Francisco nos seis meses 
seguintes, e ele no precisava de ir a Nova Iorque antes de trs ou quatro. Seria, pois, uma longa espera at ele a ver de novo.
       -  uma mulher muito fina e bonita - comentou a velhota.
       Hannah no s a aceitava como tambm tinha um grande carinho por ela. Amlia ganhara o seu corao quando, certa vez, arregaara as mangas e a ajudara a cozinhar 
para Jeremiah, Sabrina e os seis netos. Na realidade, fez a maior parte do jantar, e saiu-se muito melhor do que aquilo que Hannah esperava. Os diamantes a cintilar 
enquanto trabalhava, as mos rpidas e hbeis, com um avental por cima do seu elegante vestido de Nova Iorque.
       - E nem sequer se importou quando salpicou o vestido de molho de carne - acrescentou Hannah. Amlia ganhara a sua admirao para sempre.
       - Ela  mais do que isso, Hannah.  uma mulher muito especial.
       - Devias casar com ela, Jeremiah. - Hannah lanou-lhe um olhar de censura.
       Jeremiah encolheu os ombros
       - Talvez. Mas j  demasiado tarde. Temos as nossas vidas, os nossos filhos. Sentimo-nos bem como estamos.
       Hannah fez um gesto de concordncia com a cabea. Jeremiah tinha razo. O tempo das loucuras j passara. Agora era a vez de Sabrina, e ela s esperava que 
a rapariga soubesse escolher mais acertadamente do que o pai.
       - Sempre vais para a cidade amanh. - Jeremiah assentiu com a cabea.
       - S por dois dias.
       - V l se a Sabrina no faz nenhuma travessura enquanto ests a trabalhar. - Hannah continuava a achar que a rapariga devia ficar em Santa Helena.
       - J lhe disse isso. Mas sabes como  a Sabrina. - No estranharia v-la conduzir uma carruagem pela Market Street abaixo, a brandir o chicote, de sorriso 
de orelha a orelha, e a acenar-lhe. A imagem f-lo rir enquanto ia lavar as mos antes de jantar
       
      19
       
       Jeremiah e Sabrina partiram para a cidade s primeiras horas da manh do dia seguinte. Apanharam o comboio para Napa, como de costume, e embarcaram a no 
habitual barco a vapor que Sabrina tanto gostava. Nesse dia, como noutros dias semelhantes, gracejou, riu e divertiu o pai at chegarem  cidade, o que aconteceu 
ao cair da noite. A viagem era mais rpida do que anos antes, e chegaram a tempo de jantar, ainda que um pouco tarde, no Hotel Palace. Jeremiah observava a filha 
enquanto comia. Quando fosse maior, seria uma rapariga muito bonita. J com os seus treze anos era quase to alta como a maioria das mulheres que havia na sala e, 
inclusive, mais alta do que algumas delas. Todavia, tinha ainda um ar infantil, exceto quando franzia o sobrolho e comeava a falar de negcios com ele. Algum que 
os tivesse ouvido sem ver quem era a companheira de Jeremiah, teria pensado que ele conversava com uma scia. Nesse momento, estava preocupada com o mldio que parecia 
comear a atacar as vides dos vinhedos. Jeremiah achava graa ao ar srio com que ela expunha as suas teorias, mas os vinhedos nunca haviam sido a sua preocupao 
principal. Dedicava mais ateno s minas, e Sabrina repreendeu-o por isso.
       - Os vinhedos so to importantes para ns como as minas, pap. Um dia daro tanto dinheiro como as minas, anota o que te estou a dizer.
       No ms anterior, dissera o mesmo a Dan Richfield, e este rira-se das suas palavras. De fato, havia vinhedos no vale que comeavam a dar bom dinheiro, mas 
no era nada que se comparasse com o lucro que se poderia obter nas minas. Toda a gente sabia disso, e Jeremiah recordou-lho naquele momento, mas ela insistiu. - 
Daqui a alguns anos, talvez isso possa acontecer. Olha para os excelentes vinhos que se produzem em Frana. Todas as nossas vides vm de l.
       - Veja l se no me transforma num bebedolas, minha cara senhora. Esse teu interesse pelos vinhedos traz gua no bico - gracejou Jeremiah, mas ela no achou 
graa e fitou o pai com todo o ar srio dos seus treze anos.
       - Tambm devias importar-te mais com eles.
       - Uma vez que ests to interessada, deixo-os a teu cargo.
       O interesse de Sabrina pelos vinhedos era mais natural nela, pela sua condio de mulher, do que o que as minas lhe teriam podido despertar, embora Jeremiah 
soubesse que a rapariga teria podido opinar com o mesmo acerto sobre elas. Era indubitvel que Sabrina mostrava queda para os negcios
       Jeremiah teve ocasio de recordar isso mesmo, no dia seguinte, enquanto tomavam o pequeno-almoo no quarto, antes de sair para as reunies com o presidente 
do Nevada Bank Sabrina passou todo o tempo a fazer-lhe perguntas sobre o negcio que ele ia fazer. Era bvio que gostaria de acompanhar o pai. Todavia, Jeremiah 
reparou que ela no falava to acaloradamente daquelas coisas como das outras vezes.
       - Que vais fazer hoje, pequena?
       - No sei. - Sabrina olhou para a janela com ar pensativo, de modo a que o pai no pudesse ver-lhe os olhos. Ele conhecia-a demasiado bem para suspeitar que 
estava a magicar qualquer coisa. - Trouxe alguns livros. Acho que vou passar o dia a ler.
       Jeremiah fitou-a por instantes, depois olhou para o relgio.
       - Se tivesse mais tempo para pensar no que me disseste, provavelmente ficaria preocupado, minha menina. Ou no te sentes bem ou ests a mentir-me. Mas tens 
sorte. Estou atrasado e tenho de me ir embora.
       Sabrina esboou um sorriso carinhoso e beijou-o na face
       - At logo, pap!
       - Porta-te bem! - Deu-lhe uma palmadinha no ombro e apertou-o suavemente. - E no te metas em sarilhos, Sabrina Thurston
       - Pap - exclamou ela, surpreendida, enquanto o acompanhava at  porta. - J sabes que eu nunca me meto em problemas!
       - Ah! - respondeu Jeremiah, saindo porta fora. Sabrina deu uma volta completa sobre os calcanhares. Tinha diante de si todo um dia de liberdade, e sabia exatamente 
o que ia fazer. Trouxera uma pequena soma de dinheiro de Napa, o pai dava-lhe sempre dinheiro suficiente para o almoo e para qualquer outra necessidade que tivesse 
durante a sua ausncia. Meteu o porta-moedas no bolso da saia cinzenta, trocou a blusa cor-de-rosa que trazia por uma blusa  marinheiro de algodo e calou um par 
de botas velhas. Meia hora depois, estava comodamente sentada numa carruagem a caminho de Nob Hill. Dera a direo ao cocheiro e, quando chegaram, depois de pagar 
ao homem, desceu de um pulo da carruagem e deteve-se, quase sem alento e o corao palpitante, diante do porto principal. Profundamente emocionada, no conseguia 
acreditar no que estava a ver. Esperara por aquele momento durante meses e meses, j para no dizer anos. Ainda no sabia o que faria depois de saltar o porto. 
Na realidade, no tinha qualquer inteno de entrar na casa. Bastar-lhe-ia dar um passeio pelos jardins. Contudo, sentia-se irresistivelmente atrada pela casa que 
o pai mandara construir para a me
       Rodeada de um parque frondoso, a Manso Thurston encontrava-se mergulhada num profundo silncio. Sabrina contemplou-a durante um longo instante, depois, concentrando 
toda a sua fora nas mos, comeou a subir pelo porto acima, por um stio donde no podia ser vista graas  proteo de uma rvore enorme. Enquanto subia, no 
parava de rezar para que nenhum transeunte ou vizinho a surpreendesse e a denunciasse a um polcia. Mas tinha muita prtica de subir s rvores, de modo que, pouco 
depois, descia pelo porto abaixo, sentindo o corao a bater ainda mais depressa do que antes. Deixou-se cair quando os ps estavam a poucos centmetros do cho 
e permaneceu, por instantes, imvel, satisfeita por ter conseguido o que tanto desejava. Encontrava-se no interior do recinto sagrado da Manso Thurston, e embrenhou-se 
rapidamente nos jardins para no ser vista da rua. As rvores e os arbustos eram to frondosos que teve a sensao de avanar atravs de uma selva e, logo que chegou 
ao caminho de acesso  casa, ficou completamente oculta do exterior E continuou a avanar, como se a casa a atrasse como um m.
       Era impossvel no pensar na me. Como devia am-la o seu pai para lhe construir aquela manso, e que feliz devia ela ter sido ali. Sabrina no conseguiu 
evitar perguntar-se o que sentira a me quando vira a casa pela primeira vez. Sabia que o pai a construra para lhe fazer uma surpresa. No conseguia imaginar algo 
to encantador. Entristecia-a ver os batentes to baos, quase irreconhecveis, as janelas hermeticamente fechadas, e os degraus da entrada com ervas to crescidas 
que lhe chegavam  cintura. A manso, desabitada h doze anos, provocou-lhe uma profunda sensao de tristeza. Todavia, apetecia-lhe encostar o nariz a uma janela 
para espreitar para o interior e ver as salas e os quartos onde o pai e a me haviam vivido juntos, onde tinham danado, por onde haviam deambulado. Encontrar-se 
naquele lugar era como ter ido ver a me. Tinha a sensao de que o simples fato de estar ali lhe permitia captar algo da sua personalidade. O pai fora sempre parco 
em palavras, e Hannah ficava com ar taciturno de todas as vezes que o assunto vinha  baila, e, de repente, Sabrina sentiu um desejo desesperado de absorver todas 
as migalhas de informao, por mais pequenas que fossem, sobre como fora Camille Beauchamp Thurston.
       Lentamente, sem saber por que, Sabrina, de olhos postos nas persianas, deu uma volta completa  roda da casa abrindo caminho por entre as ervas. Ainda eram 
visveis os canteiros. Nos jardins que havia por trs da casa, erguia-se uma bela esttua italiana de uma mulher com um beb ao colo. Perto dela, havia um banco 
de mrmore. Sabrina sentou-se nele, perguntando-se se os seus pais tambm haviam ali estado, de mos dadas, ou se a me se sentara ali, consigo ao colo, nos dias 
soalheiros Naquele local, Sabrina intua melhor a personalidade da me do que em Napa. Em Santa Helena, a casa parecia estar mais de acordo com o modo de ser do 
pai. Sabrina sabia que o pai, antes de se casar com a me, vivera muitos anos nela Mas ali tudo era diferente. Tratava-se de um palcio de amor construdo para a 
sua me, pensou Sabrina, enquanto vagueava em torno da casa Sentia-se algo decepcionada. Sem saber por que, esperara ver ali algo mais significativo. Embora continuasse 
emocionada pelo simples fato de se encontrar dentro da propriedade, estava desapontada por nem sequer dar uma espreitadela por uma janela. Ento, justamente quando 
ia voltar para a esttua da me com o beb ao colo, reparou que uma das persianas estava partida. Tinha uma enorme greta, e uma das lminas de madeira que a formavam 
estava solta. Era exatamente a oportunidade por que ansiava. Abriu caminho at  janela e encostou a cara ao vidro Mas a janela dava para um corredor escuro e no 
conseguiu ver nada. Fez ento um esforo para acabar de arrancar a lmina de madeira. Nem sequer sabia por que razo  que estava a fazer aquilo, mas deu-se conta 
de que conseguia abrir as duas persianas por completo. Ento, instintivamente, fez presso contra a janela e, para seu grande espanto, ela cedeu, abrindo-se com 
um forte rangido. Ficou perplexa. Mas s por instantes. Sem hesitar, subiu para o parapeito e saltou para o interior, fechando a janela atrs de si. O corredor no 
desvendava mais nada que aquilo que vira quando espreitara atravs do vidro. Encontrava-se, finalmente, no interior da casa com que sonhara toda a vida, a casa sobre 
a qual tantas perguntas fizera. A Manso Thurston. Sim, encontrava-se dentro dela.
       No sabia se dirigir-se para a direita ou para a esquerda. Quando os olhos se acostumaram  semi-obscuridade, percebeu que se encontrava numa espcie de despensa. 
Estava tudo limpo e bem cuidado, mas muito escuro com as janelas fechadas. Sabia que ningum entrara na casa nos ltimos doze anos, mas estava to bem fechada que, 
surpreendentemente, via-se muito pouco p nela. Por instantes, Sabrina receara que a casa tivesse o aspecto de uma casa assombrada, mas s parecia vazia e deserta. 
Todavia, fosse como fosse, voltar para trs era uma questo que no se punha. Esperara demasiado tempo por aquele momento.
       Avanou cautelosamente at ao final do corredor, girou a maaneta e abriu a porta. Ficou quase sem respirao. O que viu por cima dela pareciam as portas 
do Cu. Acabava de entrar no grande salo principal, e sobre a sua cabea encontrava-se a espetacular cpula de vitrais que Jeremiah projetara e mandara construir 
para Camille. As suas tonalidades, que eram as do arco-ris, projetavam-se a seus ps como uma mirade de brilhantes manchas de cor, formando caprichosos e artsticos 
desenhos no solo. Depois de contemplar aquela maravilha, subiu a escadaria principal e entrou nos quartos. Encontrou o que fora o seu quarto quando era beb, mas 
completamente vazio. Haviam levado tudo para Napa. No quarto principal, porm, sentou-se numa cadeira e olhou ao seu redor, como se pudesse sentir, com toda a sua 
intensidade, a dor que o pai experimentara doze anos antes. O quarto era como devia ter sido sua me: feminina e encantadora. As sedas cor-de-rosa estavam desbotadas 
ao fim de todos aqueles anos, mas o quarto ainda dava a impresso de ser um interminvel canteiro de flores num dia de primavera. Um peculiar perfume, ainda que 
misturado com um cheiro a bafio, emanava das sedas. Sabrina ficou estupefata quando entrou no quarto de vestir da me e comeou a abrir os armrios. Jeremiah no 
deitara nada fora antes de abandonar a casa. Camille deixara vrios pares de delicados sapatinhos de criana, alm de sapatos de veludo vermelho que calara para 
ir com Jeremiah  pera, uma velha capa de peles e uma infinidade de vestidos. Sabrina tirou alguns deles, passando a mo pelos tecidos caros e cheirando o perfume 
que ela agora reconhecia. Os seus olhos no tardaram a inundar-se de lgrimas. Era como se tivesse ido visitar a me que nunca tivera e descobrir que ela se fora 
para sempre. Nesse instante, rodeada daquelas bonitas sedas cor-de-rosa, teve plena conscincia do motivo que a levara ali: descobrir a mulher que fora sua me, 
alguma pea do puzzle, algum fragmento daquilo que ela fora.  medida que ia crescendo, era maior a ansiedade por encontrar algum vestgio que a levasse a conhecer 
melhor a me. Agora, vagueava, com ar estupefato, pela manso onde os pais tinham vivido, a manso para onde viera com quatro meses de idade e que deixara, para 
nunca mais voltar, quando tinha um ano, depois da morte da me
       Tambm entrou no escritrio do pai. Enquanto se sentava  secretria e dava uma volta na cadeira giratria, perguntou-se como era possvel que ele no sentisse 
falta das coisas que deixara ali. Havia belas gravuras nas paredes e interessantes adornos em cima da secretria; no piso inferior, podia ver-se fila atrs de fila 
de valiosos objetos de cristal, porcelana e Prata. Jeremiah limitara-se a fechar a manso e a partir para Napa, para nunca mais voltar. Ele dissera muitas vezes 
 filha que, um dia, aquela manso seria sua, mas ela sempre a imaginara como uma casa com alguns mveis velhos cobertos de p. Dava a impresso de que os seus ocupantes 
a haviam deixado precipitadamente e que depois nunca mais tinham voltado para buscar as suas coisas. Havia, inclusive, alguns livros em cima da mesinha-de-cabeceira 
da me, e um monto de lenos de renda nas gavetas. Como Sabrina estava a comprovar, o pai no deitara nada fora antes de partir. Sentia uma vontade enorme de abrir 
as janelas para deixar entrar o sol, mas no se atrevia a faz-lo. De certo modo, tinha a impresso de se ter intrometido num mundo privado, na dor ntima de outra 
pessoa, e entendia agora por que razo o pai nunca mais quisera voltar quele lugar. Para ele, teria sido como visitar o tmulo da esposa, e havia j demasiado tempo 
que abandonara tudo aquilo para conseguir voltar agora. Ah, teria sido obrigado a ver de novo os seus vestidos, sentir a sua presena, sentir o seu perfume; teria 
recordado as tristezas e as alegrias partilhadas com ela, assim como a profunda dor que devia ter sentido com a sua morte. Sabrina estava segura disso. Enquanto 
deitava um ltimo olhar aos aposentos do pai, no conseguiu conter as lgrimas. Depois, desceu, com ar solene, a escadaria que dava para o piso inferior. A visita 
 manso permitira-lhe intuir a delicadeza e a beleza da me, mas tambm despertara nela uma maior ternura pelo pai. Como em Napa, no existia ali nenhum retrato 
de Camille, mas havia algo muito mais importante, o cenrio que rodeara a sua vida e a forma como vivera. Quando se deteve no salo principal para voltar a admirar 
a cpula de vitrais, Sabrina sabia que, anos atrs, a me estivera naquele mesmo stio, e talvez at com o mesmo ar fascinado. Tocara nas mesmas maanetas das portas 
em que ela tocara e olhara pelas mesmas janelas porque ela olhara. Era como uma viagem ao passado, em que Sabrina sentia as mos daqueles que ali haviam estado antes 
a tocar nas suas. Eram fantasmas benevolentes, mas no deixavam de fazer sentir a sua forte presena. Sabrina sentiu-se mais aliviada quando abriu de novo a janela, 
saltou para o exterior e fechou as persianas. Viera a um lugar que no lhe pertencia, mas estava feliz por ter vindo.
       Voltou a percorrer o mesmo caminho por entre os jardins frondosos mas descuidados, f-lo com lentido, ainda absorta no que acabara de ver. Virou-se uma ou 
duas vezes para contemplar a manso. Era um edifcio magnfico. Lamentava no a ter podido ver antes, com os jardins bem cuidados e a me a passar de carruagem por 
entre eles. Que emoo pensar que ela tambm estivera ali, que tudo aquilo fizera parte da sua vida! Um dia, a Manso Thurston seria sua, mas nunca voltaria a ser 
como era... a bela rapariga de Atlanta j l no estaria, nem o homem que tanto a amara. Nada seria como antes. Aquele pensamento entristeceu-a, enquanto trepava 
pelo porto acima e se deixava cair do outro lado do mesmo. S ento se deu conta do seu aspecto horroroso. Rasgara a saia, a blusa  marinheiro estava imunda, tinha 
os cabelos desgrenhados e as mos sujas, e o brao exibia um enorme arranho. Todavia, no lamentava nada, e voltou apressadamente para o Hotel Palace. A caminhada 
era curta; precisava de respirar um pouco de ar puro, depois do longo dia passado na casa bafienta. Tinha a sensao de ter descoberto muita coisa, mas, ao mesmo 
tempo, estava feliz por ter visto tudo aquilo. Quando chegou ao hotel, dirigiu-se aos seus aposentos para tomar um banho antes que o pai voltasse das suas reunies.
       Jeremiah levou-a a jantar ao Delmonico's, onde Sabrina, que no almoara, devorou o bife que pedira. Todavia, apesar do seu visvel apetite, mostrou-se estranhamente 
taciturna.
       - Passa-se alguma coisa?
       - No - respondeu Sabrina com um vago sorriso. No ousou olhar diretamente para o pai com receio de desatar a chorar. S pensava na tristeza daquela casa 
vazia e em todas as coisas de sua me que vira e tocara, e que, depois, voltara a colocar cuidadosamente no seu lugar. Que grande amor ele tivera por ela. De repente, 
surgiu-lhe a viso de um homem desesperado que fugia para Napa com o seu rebento, um homem de corao dilacerado, incapaz de suportar a perda da sua jovem esposa.
       - O que te preocupa, Sabrina?
       Jeremiah conhecia-a demasiado bem, mas ela limitou-se a abanar a cabea e a esboar um sorriso forado, tentando afastar da sua mente os melanclicos pensamentos 
que a invadiam. Mas no foi ela mesma durante toda a noite. J no hotel, antes de se deitar, bateu suavemente  porta do quarto do pai e entrou logo que ele lhe 
deu permisso para o fazer.
       - Boa noite, minha querida. - Beijou-a na face, mas depressa viu os olhos agitados. Estes tinham-no preocupado durante toda a noite. Convidou-a a sentar-se, 
coisa que ela fez com prazer. Fora ali fazer uma confisso. Nunca mentira ao pai, e no o iria fazer agora. Resolvera tirar aquele peso da conscincia. - O que se 
passa, Sabrina?
       - Tenho uma coisa para te contar, pap. Nesse momento, ali sentada, de camisa de dormir e robe, com os ps rosados a sobressair por debaixo do debrum de renda, 
no parecia ter mais de cinco anos. - Hoje fiz uma coisa, pap. - No disse "maldade" porque no achava que fosse, mas sabia que era algo que iria aborrec-lo. Provavelmente, 
ele nunca descobriria, mas confiavam um no outro h demasiado tempo para comear a mentir-lhe agora. Nesse aspecto, era muito diferente da me.
       - De que se trata, pequena! A voz era meiga. - Fosse como fosse, tratava-se de algo que a deixara extremamente transtornada. Estava ansioso por saber o que 
era.
       - Fui. - Engoliu em seco, quase arrependida por ter vindo, mas no podia hesitar. - Fui..  Manso Thurston - disse Sabrina num sussurro quase inaudvel.
       Jeremiah imaginou-a, pasmada, a olhar para os imponentes portes. Esboou um sorriso meigo perante a confisso da filha e acariciou-lhe os cabelos sedosos 
apanhados em duas tranas.
       - Isso no  nenhum pecado, pequena. J foi uma bela manso
       - E ainda o .
       Jeremiah esboou um sorriso triste
       - Abandonada ao desleixo. Mas, um dia, antes de a dar a ti e ao teu futuro esposo, farei com que a deixem como nova.
       - No est to mal como isso. - Sabrina parecia estranhamente segura do que estava a dizer.
       Jeremiah fitou-a, intrigado
       - L dentro, deve estar tudo bafiento e desbotado. H doze anos que ningum pe l os ps. Deve estar um palmo de p por todo o lado.
       Sabrina abanou a cabea, os olhos pregados no rosto do pai. Jeremiah ficou com ar estarrecido.
       - Espreitaste l para dentro? - Depois, algo sobressaltado, acrescentou: - Os portes estavam abertos... - Teria de l ir nesse caso. No queria curiosos 
nos jardins, nem, pior ainda, que algum assaltasse a casa. Ainda l tinha muitas coisas de valor. Mandava inspecionar de vez em quando o recinto da manso e, miraculosamente, 
nunca houvera o menor problema. Sabrina soltou um profundo suspiro de alvio.
       - Trepei pelo porto, pap.
       Fora por isso que estivera com um ar to taciturno. Felizmente, confessara a travessura.
       Jeremiah lanou-lhe um olhar severo e disse-lhe.
       - Isso  uma coisa imprpria de uma jovem senhora, Sabrina
       Eu sei, pap. Ento, contou-lhe o resto da aventura. As persianas de uma janela estavam partidas.. Jeremiah empalideceu, e a voz de Sabrina transformou-se 
quase num sussurro. Ento, empurrei a janela... e vi tudo.. Os olhos ficaram transbordantes de lgrimas. Oh... pap., que casa mais bonita!... e como deves ter amado 
a mam para lha ofereceres!.. Ps-se a soluar e escondeu a cara entre as mos.
       Jeremiah abraou-a. Ainda no recuperara da surpresa.
       - Mas... por qu? Por que razo  que l foste, Sabrina? - A voz era suave e emocionada. Que poderia t-la atrado quele lugar? No conseguia compreender. 
Era impossvel que se lembrasse de l viver, por isso, no se tratava de voltar a algo familiar, o seu ato no era mais do que uma simples travessura. Queria que 
ela lho explicasse. - Diz-me... sem nenhum temor, Sabrina. Tiveste a coragem de me dizer que estiveste l, e fico contente por o teres feito. - Deu-lhe um beijo 
na face e pegou-lhe na mo. Jeremiah estava surpreendido por no se ter zangado com a filha, mas ficou desconcertado.
       - No sei, pap. Sempre desejei visit-la, ver onde vocs viveram... saber como era a mam. Pensei que talvez houvesse um retrato de.. - Deteve-se, com receio 
de mago-lo, mas ele compreendeu e terminou a frase por ela.
       - Da tua me. - Entristecia-o que Sabrina se preocupasse tanto com ela. Camille no merecia. Mas nunca lho poderia dizer. - Minha filha... - Enleou-a nos 
seus braos para acalmar os seus soluos. - No devias ter ido.
       - Oh, pap, mas...  to bonita... aquela cpula... - Sabrina olhou-o, extasiada, e sorriu. H muito tempo que Jeremiah no pensava naquela cpula. A filha 
tinha razo. Era extraordinria. De certo modo, estava contente por ela a ter visto.
       - No seu tempo, foi uma bonita manso. - Ento, Sabrina disse algo que o surpreendeu.
       - Quem me dera que ainda vivssemos l.
       - No gostas de Santa Helena, pequena? - Jeremiah baixou os olhos para ela, perguntando-se se, tal como a me, no gostava de Napa, mas Sabrina sempre l 
vivera.
       - Claro que gosto... mas a Manso Thurston ...  to bonita. Deve ser chique viver l. - O modo como articulou as palavras fez rir Jeremiah, e Sabrina sorriu 
por entre as lgrimas.
       - Quando fores mais velha, podes l viver. J uma vez te disse. - Agora era diferente, ela j sabia como era a manso. Mas as palavras de Jeremiah no a alegraram.
       - J sabes que no me quero casar, pap. - Jeremiah teve ento uma idia
       - Talvez tenha que te l levar por qualquer outra razo.
       - Ests a falar a srio, pap? Quando? - Os olhos esbugalharam-se  luz da lareira.
       - Podamos dar um baile quando completares os dezoito anos. Viveste no campo durante toda a vida, e no te far nenhum mal continuares l a viver durante 
mais alguns anos. Talvez isso refreie a tua tendncia para as diabruras, minha menina. Mas quando tiveres dezoito anos, deves conhecer as pessoas adequadas de So 
Francisco.
       - Por qu? - Parecia surpreendida.
       - Porque  muito possvel que um dia queiras alargar um pouco os teus horizontes. - Jeremiah no voltou a falar em casamento. Sabrina ainda era muito jovem 
para se preocupar com isso, mas achava que, da a uns anos, dar um baile na manso de So Francisco seria uma boa idia. Nunca pensara nisso, mas gostava da idia. 
Pensou ento que nessa altura Sabrina teria a mesma idade que Camille quando se conheceram, embora desta vez o papel de pai orgulhoso fosse dele. - Talvez seja uma 
boa idia. Poderamos vir para So Francisco ento e abrir a Manso Thurston para ti. Que te parece? - Sabrina ficou atnita. - Um baile para ela? Abrir a casa que 
vira...
       - Poderamos dar a festa no nosso salo de baile.
       A rapariga vira-o nessa manh, e cerrou os olhos, tentando imaginar os seus pais a danar naquele lugar: o pai, catorze anos mais novo, com a delicada beleza 
sulista nos braos.
       - Como era a mam? - J esquecera o baile e pensava de novo na me.
       Jeremiah baixou os olhos para ela e soltou um suspiro. Na realidade, teria preferido que a filha no tivesse ido  manso naquele dia. E estava curioso por 
saber o que ela descobrira e at que ponto procurara vestgios do passado de Camille, dele e dela prpria.
       - Era muito bonita, Sabrina. - Resolveu contar-lhe uma pequena parte da verdade. - E muito mimada. As raparigas do Sul eram assim. O pai queria que ela tivesse 
tudo.
       - Ele viu a manso? - Jeremiah abanou a cabea.
       - Os pais dela nunca c vieram. A me adoeceu logo a seguir ao nosso casamento e morreu pouco depois da... morte da tua.
       - Mas estou certa de que teriam adorado a manso. - Sabrina olhou para o pai com adorao infantil. - A mam tambm.
       - Suponho que sim. - De repente, lembrou-se da intensa vida social de Camille. Adorava dar festas. Recordou tambm o baile que a proibira de dar, e as festas 
a que devia ter ido com Thibaut du Pr, enquanto ele se encontrava em Napa. - Adorava sair.
       - No  de estranhar. Com os vestidos to bonitos que tinha!
       Jeremiah franziu o sobrolho.
       - Como  que sabes?
       Sabrina pareceu momentaneamente embaraada.
       - Hoje tive ocasio de ver as roupas dela, pap. Estavam todas l. - Naturalmente, no estavam todas l, mas Sabrina no podia saber isso, e ele tambm no 
lhe contaria.
       Jeremiah soltou novo suspiro. - Talvez devesse ter feito algo com tudo aquilo quando... quando ela morreu... - Sabrina reparara que o pai pronunciava sempre 
aquelas palavras com dificuldade, como se lhe trouxessem recordaes terrivelmente dolorosas. Jeremiah olhou para a filha. - No deverias ter l ido
       - Desculpa, pap. S que... andava curiosa h muito tempo
       - Mas por qu? Temos uma boa vida em Santa Helena
       - Eu sei. - Fez um gesto de concordncia com a cabea, mas os pensamentos voltaram para a bonita manso, e quando olhou de novo para o pai f-lo com os olhos 
cheios de esperana. - Vais mesmo dar uma festa em minha honra? Podemos ficar algum tempo na casa?
       - J te disse que  esse o meu desejo. - Jeremiah sorriu e puxou-lhe ternamente uma das tranas. - Se isso te faz feliz, princesa, ento  uma promessa. Quando 
fizeres os dezoito anos.
       - Adorarei. - Os olhos de Sabrina brilharam  tnue luz.
       - Ento,  uma promessa. - Ambos sabiam que ele era homem de palavra.
       No dia seguinte, Jeremiah no voltou a dizer nada  filha sobre as suas deambulaes pela manso, mas falou com o seu amigo do Nevada Bank e deu-lhe instrues 
para que mandasse alguns homens reparar as persianas partidas e, se necessrio, tapar todas as janelas com tbuas. Quando se encontravam j de regresso a Napa, s 
exigiu uma promessa a Sabrina
       - No quero que voltes a l entrar, pequena. Entendido?
       - Sim, pap. - Sabrina estava surpreendida por o pai no ter ficado mais zangado. - No posso ir visitar a casa contigo um dia.
       Jeremiah abanou a cabea.
       - No tenho nenhum motivo para l voltar, Sabrina. - Ento, com um sorriso, acrescentou: - At ao dia do baile dos teus dezoito anos. Fiz uma promessa, e 
sabes que a cumprirei. Ento, iremos l e passaremos algum tempo em So Francisco. Mas, entretanto, evita saltar vedaes e de forar janelas para vasculhar armrios 
velhos e roupas de outras pessoas. 
       Sabrina corou ao ouvir aquelas palavras. Na realidade, aquilo era o que mais preocupara Jeremiah: que Sabrina tivesse desejado ter um vislumbre de Camille, 
ainda que mediante as roupas dos armrios. Perguntou-se se aquela era a nica razo que a levara  casa, pensamento que o deixou profundamente abalado. Tanto que 
a voz soou com aspereza quando acrescentou: Podias ter cado e aleijado, e ningum teria sabido onde te encontrar. Foi uma insensatez. Jeremiah franziu o sobrolho 
e olhou para a janela do comboio. Sabrina s voltou a falar quando o comboio parou na estao de Santa Helena.
       
      20
       
       - Bem, Hannah, toma conta da casa enquanto estamos fora.
       A velhota, a coxear e com cara de poucos amigos, desceu os degraus do alpendre com eles. A carruagem estava carregada com o que se poderia considerar todos 
os pertences de ambos, mas, na realidade, s se tratava dos novos vestidos de Sabrina. Jeremiah sorriu para a velha governanta. Quisera que ela os acompanhasse, 
mas ela insistiu que o seu desejo era ficar Aos oitenta e trs anos de idade, tinha direito a fazer o que lhe desse na real gana. Hannah achava que aquela viagem 
era uma loucura.
       - Afinal de contas, so s dois meses.
       Era uma promessa que fizera a Sabrina anos antes. Nem sequer sabia se Sabrina queria que ele a cumprisse. Mas ficou surpreendido quando, meses antes, puxou 
o assunto e ela ficou encantada. Prometera-lhe abrir a Manso Thurston para ela e dar um baile por motivo dos seus dezoito anos. "Talvez haja nela algo da me", 
dissera-lhe Amlia em tom de brincadeira, a ltima vez que viera  cidade. Mas Amlia tambm achou que era uma excelente idia, e s lamentava no se encontrar em 
So Francisco por altura da festa. Nesse ano, estivera j duas vezes na cidade; uma, para assistir ao casamento da sua neta mais velha com um dos Floods, a outra, 
para estar ao lado da filha quando o seu genro morreu. Alm disso, por estar ainda oficialmente de luto, a sua presena no baile seria malvista. Todavia, dera a 
Jeremiah todos os conselhos necessrios a respeito da festa.
       Acompanhara-o, inclusive, no dia em que ele abriu a manso. E reparou no calafrio que Jeremiah sentiu ao entrar nela ao fim de tantos anos. Nessa ocasio, 
Amlia virou-se para ele e, num gesto de ternura, fez-lhe uma festa no brao.
       -  melhor no dares a festa aqui. O Fairmount deve estar acabado nessa altura. Podias dar o baile l.
       Amlia interrogara-se muitas vezes sobre a razo por que ele no vendera a casa. Sabia as ms recordaes que tinha para ele, e no compreendia a sua obstinao 
por conserv-la para Sabrina.
       - Quero dar o baile aqui - declarou Jeremiah com uma tenso no maxilar que no passou despercebida a Amlia.
       Depois, percorreram a casa na companhia de uma numerosa equipe de criados. Havia um sem-nmero de coisas para fazer reparar, limpar, polir, pintar. Todavia, 
e surpreendentemente, a manso no estava em muito mau estado. Mas o pior momento para Jeremiah foi ao entrar na sute principal. Amlia sentiu imensa pena dele, 
e viu-o to abatido que o aconselhou a dormir noutro quarto, idia que ele agradeceu. Amlia manteve-se tambm a seu lado quando ele abriu o armrio do quarto de 
vestir de Camille. Ia a sugerir-lhe que deitasse tudo fora, mas ele disse aos criados para porem tudo em caixas na cave.
       - Por que razo  que queres guardar essas coisas. Nem ela as quis levar.
       Enquanto desciam as escadas, Amlia parecia desconcertada. Preparar a manso para o baile ia ser um trabalho titnico, mas ela achava o projeto fascinante
       - A Sabrina pode querer as coisas da me um dia. - Cinco anos antes, quando Sabrina tinha treze anos, contara a Amlia a sua diabrura como saltara o porto 
e como entrara na manso por uma janela das traseiras. - Dei-me conta ento que, para ela, existia um grande vazio no tocante ao conhecimento que tinha da Camille, 
porque nunca a conheceu e eu muito pouca coisa lhe digo acerca dela. Tenho a impresso de que a Sabrina est convencida de que se trata de um tema tabu. Deve pensar 
que ainda estou de luto pela morte da me.
       Jeremiah suspirou e sorriu para Amlia. H vinte anos que se conheciam, mas ficava encantado por a ver como no primeiro dia. Mostrava-se sempre afetuosa, 
vibrante e cheia de vida. Era um verdadeiro prazer estar a seu lado. Aos sessenta, era ainda uma mulher muito bela, o que ele nunca se esqueceria de dizer sempre 
que a via.
       - Que mentiras mais horrveis, Jeremiah! E que prazer tenho em que as digas, - proferiu Amlia a rir, e ele replicou com um beijo.
       Amlia oferecera a Sabrina um bonito colar de prolas e expressara a sua pena por no poder estar presente na festa.
       - Ns tambm sentiremos muito a tua falta, tia Amlia, - Sabrina dera-lhe um beijo de agradecimento e prometera-lhe que usaria o colar de prolas no dia do 
baile. 
       Amlia ajudara-a a escolher um elegante vestido de cetim branco adornado com artsticos bordados de prolas. Era um vestido deslumbrante. Aconselhara-a tambm 
na escolha de outros trs para usar por ocasio de outras festas a que fosse com o pai. Sabrina estava particularmente encantada com um deles. Era o vestido mais 
sofisticado que jamais usara na vida. O seu desenho fora objeto de longas conversas entre ela e Amlia. Era de um fino tecido dourado, e que, fazendo contraste com 
os seus cabelos negros e a sua pele cremosa, lhe assentava maravilhosamente. Escolheram um modelo no excessivamente comprido e, quando o vestido chegou a Santa 
Helena, Sabrina, entusiasmada com ele, resolveu mostr-lo ao pai s quando o estreasse. Pensava us-lo no dia em que fossem  pera. A Metropolitan Opera Company 
de Nova Iorque viria a So Francisco, e Jeremiah lev-la-ia a ver Carmen, interpretada por Fremstadt e Caruso. A rapariga estava to entusiasmada com a perspectiva 
da sua primeira noite de pera como com aquilo que iria usar.
       O vestido encontrava-se num dos bas que a carruagem transportava atravs dos jardins da Manso Thurston. Por instantes, Sabrina recordou o dia em que entrara 
naquele recinto, depois de saltar o porto. Agora, dirigia-se para a manso, em grande estilo, na nova carruagem do pai. Durante a ltima meia hora, haviam estado 
a falar do mldio que atacava as vides h vrios anos, mas, de repente, s conseguiu pensar na maravilhosa manso que tinha diante de si. Parou no salo principal, 
debaixo da magnfica cpula, e recordou de novo a primeira vez que, clandestinamente, se detivera a admir-la Mas, agora, no havia nada de clandestino. A manso 
tinha um aspecto imaculado e havia flores por todo o lado, as peas de prata e bronze brilhavam; e, quando Sabrina se virou para ele, Jeremiah teve a sensao de 
que uma faca lhe trespassava o corao. Ela estava extremamente parecida com a me. Recordou a primeira vez que levara Camille ali, e a alegria que esta tivera ao 
saber que a manso lhes pertencia. Jeremiah dera ordens para que a sute principal ficasse  disposio de Sabrina. No queria voltar a dormir ali e, alm disso, 
as suaves sedas em tom rosa do quarto tornavam-no adequado para a filha. A idade de Sabrina era a mesma que a me tinha quando viera viver para ali, com a nica 
diferena de que a filha no era uma mulher casada, mas uma rapariga solteira, muito diferente de Camille Beauchamp.
       - Est tudo to bonito, pap.
       Sabrina no sabia para onde olhar primeiro. Jeremiah e Amlia haviam feito um trabalho surpreendente ao mandar pr tecidos e cortinados novos E no salo de 
baile, recm-pintado, tudo tinha um novo brilho. Faltavam ainda trs semanas para a festa. Sabrina estava impaciente, mas, entretanto, havia ainda muita coisa para 
fazer Iriam  pera da a dois dias, e estavam convidados para jantar, na semana seguinte, em casa dos Crockers, dos Floods e dos Tobins. Com o fim de poder apresentar 
a filha  alta sociedade de So Francisco, Jeremiah renovara vrias amizades descuradas h anos. Queria dar o mximo brilho aos dois meses que Sabrina passaria na 
cidade, depois iriam passar o vero a Santa Helena. E, em outubro, Jeremiah voltaria a traz-la para a cidade, onde permaneceriam at ao Natal. No seria uma vida 
muito diferente da que comeara a levar com Camille, mas, ao contrrio da me, Sabrina mostrava-se agradecida por cada momento de prazer que a cidade lhe oferecia, 
e no punha o mnimo obstculo a voltar para Santa Helena. Demonstrava um ativo interesse pelas minas e estava desolada com o desastre que se abatera sobre os vinhedos. 
Mostrava-se intrigada com o fato de o mldio ter afetado principalmente as vides de procedncia europia, e tinha uma teoria segundo a qual as cepas norte-americanas 
sobreviveriam e resistiriam  calamidade. O pai, com toda a franqueza, admitia que ela dominava melhor o tema que ele. Durante anos, os vinhedos haviam sido a sua 
paixo, mas tambm estava atenta ao que se passava nas minas. Jeremiah costumava dizer, em tom de brincadeira, que quando morresse, ela conseguiria dar conta do 
recado sozinha.
       - No digas essas coisas horrveis, pap. - Sabrina no gostava de pensar na morte do pai. Aos sessenta e trs anos, Jeremiah gozava ainda de boa sade, embora, 
de vez em quando, o corao desse algumas preocupaes. Mas Sabrina e Hannah cuidavam bem dele e o mdico dizia que viveria, pelo menos, mais vinte anos. - No ters 
outro remdio que viver todo esse tempo se quiseres ver-me casada e com uma dzia de filhos. - Ainda adorava brincar com ele, mas o certo era que sabia muito dos 
negcios do pai. Passara muitas horas ao lado dele, a observar o que ele fazia e a escutar atentamente o que ele lhe explicava e, alm disso, era uma rapariga com 
uma inteligncia fora do comum. No entanto, naquela ocasio Jeremiah no queria que a filha pensasse em nada disso. S desejava que ela se divertisse e que desfrutasse 
ao mximo da sua "primeira temporada". Era um momento importante para ela, e Jeremiah queria que tudo sasse na perfeio.
       Havia enormes jarres cheios de flores no seu quarto, e, no dia seguinte, j se sentia em casa. Ao acordar, pensou que a me dormira ali noutros tempos, olhara 
para o mesmo teto e para as mesmas janelas, e usara a mesma banheira. Isso deu-lhe uma sensao de intimidade com a me que jamais experimentara noutro lugar. Nos 
ltimos meses, estivera na manso vrias vezes, a discutir com o pai as alteraes que iriam ser feitas e o que eles precisavam, em termos de comodidades mais adequadas 
aos novos tempos, para viver ali. Muitas coisas haviam mudado desde que Jeremiah construra a manso, vinte anos atrs, e, embora fosse ainda uma das maiores casas 
da cidade, j no era a mais moderna Mas era, indubitavelmente, confortvel.
       Sabrina preparava-se para se vestir para ir com o pai  pera. O vestido dourado, que condizia com uns sapatos do mesmo tecido metlico confeccionados expressamente 
para ela, esperava-a estendido em cima da cama. Levaria o colar de prolas que Amlia lhe oferecera antes de partir e os brincos de prolas e diamantes que o pai 
lhe oferecera no Natal. Penteou-se cuidadosamente depois do banho, ps um pouco de rouge e p-de-arroz na cara e passou baton nos lbios. Tudo isso fez-lhe realar 
a sua beleza natural. Depois, ps o delicado vestido, com a ajuda de uma das novas criadas. Por instantes, Sabrina teve a sensao de que a me a estava a observar, 
e perguntou-se se ela aprovaria o seu aspecto. Naturalmente, a pergunta ficaria sem resposta, mas foi bvia a opinio de seu pai sobre ela quando desceu lentamente 
a escadaria principal, sob a cpula de vitrais. Jeremiah contemplava-a, mudo de surpresa e com os olhos banhados de lgrimas.
       - Onde  que arranjaste esse vestido, pequena? - Sabrina sorriu ao ouvir as carinhosas palavras do pai, pois no tinha nada de "pequena". Crescera at uma 
altura que, se podia ser algo excessiva para uma mulher, to-pouco era exagerada. Parara de crescer na altura certa. Tinha um gracioso pescoo e uns braos longos 
e delgados, que o seu elegante vestido deixava bem  vista.
       - Meu Deus, pareces uma deusa!
       Ela correspondeu ao galanteio com um sorriso que refletiu todo o carinho, todo o amor que sentia por ele.
       - Ainda bem que gostas. A Amlia ajudou-me a escolher o tecido e o modelo quando c esteve. Mandei-o fazer especialmente para esta noite, pap.
       E quando chegou  pera acompanhada pelo pai, no se arrependeu. Como pde comprovar, os tecidos metlicos e as lantejoulas de mltiplas cores eram o ltimo 
grito da moda. O vestido de Sabrina destacava-se entre os mais bonitos, sobretudo pela sua delicada elegncia. As mulheres de So Francisco haviam posto as suas 
melhores jias, os mais suntuosos vestidos e as mais finas plumas para a ocasio. Na realidade, as representaes de pera tinham comeado no dia anterior, mas o 
grande acontecimento social era essa noite com Carmen, interpretada por Caruso, depois do qual haveria bailes no Palace, no St Francis e no Delmomco's. Os Thurston 
haviam decidido encontrar-se no St Francis com um grupo de amigos, mas, de momento, a Sabrina bastava-lhe o prazer de poder contemplar os luxuosos e sofisticados 
vestidos das outras mulheres. To diferente da vida calma que levavam em Santa Helena. De repente, pressentiu que aqueles dois meses iam ser excepcionais, e bendisse 
o momento em que o pai decidira voltar para So Francisco.
       Quando, horas depois, saram da pera, Sabrina pressionou levemente o brao do pai. Jeremiah baixou os olhos para ela para ver se havia algum problema, mas 
s viu o radioso sorriso da filha que, naquele momento, parecia uma princesa de um conto de fadas.
       - Obrigada, pap
       - Por qu? - perguntou Jeremiah, antes de subir para a carruagem.
       - Por tudo isto. Sei que no querias abrir a manso nem voltar a viver nela. Fizeste-o por mim, e estou a adorar.
       - Fico feliz por saber. 
       E o curioso  que estava feliz de verdade. Era emocionante voltar a encontrar-se num mundo cujos aspectos agradveis quase esquecera. E seria maravilhoso 
apresentar a sua nica filha  sociedade. Era graciosa, inteligente, meiga, equilibrada e encantadora. Jeremiah no encontrava mais palavras para descrever a beleza 
que ela exibia. Enquanto Sabrina olhava, fascinada, pela janela da carruagem que os conduzia ao Hotel St Francis. Jeremiah sentiu-se invadir por uma vaga de felicidade. 
O baile foi esplndido. Toda a nata da sociedade se encontrava l, inclusive o prprio Caruso, em certo momento A multido que ia de um baile para outro e depois 
para festas mais pequenas dava  cidade um ar de festa. A pera fora um grande acontecimento social. Sabrina ficou contente pelo fato de o seu baile se realizar 
s da a trs semanas. Assim, todos teriam tempo para se acalmar e preparar para novas emoes. Teria sido impossvel competir com o brilho da noite de Carmen.
       Eram trs da manh quando chegaram a casa, e Sabrina mal conseguiu dissimular um bocejo quando subia com o pai a imponente escadaria da Manso Thurston.
       - Que noite espetacular, pap! - Jeremiah concordou e Sabrina gracejou. - Se a Hannah nos visse chegar s trs da manh! - E desataram a rir, imaginando o 
sobrolho franzido da velhota e a reprimenda que ela lhes daria. Para ela, teria sido o cmulo da devassido e da indecncia. - E teria dito que sou tal e qual a 
minha me.  o que me diz sempre que fao qualquer coisa de que no gosta. Elas deviam detestar-se. - Sabrina riu entre dentes e Jeremiah sorriu. Agora tinha graa, 
mas no tivera na altura. Quase nada do que Camille fizera tivera graa.
       - Detestavam-se mesmo. A primeira vez que levei a tua me para Napa, envolveram-se em tremendas discusses.
       Ento, pela primeira vez desde a vinte anos, Jeremiah lembrou-se do "anel" que Hannah descobrira. Graas a Deus que o encontrara, caso contrrio, Sabrina 
no teria existido. Mas isso era algo que, como tantas outras coisas, no podia contar  filha, e estava grato por Hannah tambm no o ter feito. Era uma mulher 
fiel e honesta, e uma excelente amiga h muitos, muitos anos.
       Pai e filha deram um beijo de boas-noites  porta da sute principal, ocupada agora por Sabrina. A rapariga, depois de entrar, dirigiu-se para a janela a 
fim de admirar os jardins bem cuidados. Como eram diferentes h cinco anos, quando saltara o porto! Era uma autntica selva, pensou, com um sorriso a bailar-lhe 
nos lbios E imaginou a me, naquele mesmo local. Quantas vezes se teria detido a olhar por aquelas mesmas janelas, a altas horas da noite, ao chegar de um baile 
ou de uma festa. Sentia a casa ganhar vida, a mesma de h quase vinte anos. Considerava acertada a sua presena nela, e o mesmo pensava da deciso do pai de voltar 
a dar vida  manso. Parecera-lhe to triste quando, cinco anos antes, a vira pela primeira vez. Sorriu para a sua imagem refletida no espelho enquanto tirava o 
colar de prolas que Amlia lhe ofereceu e, depois, o vestido dourado que exibira com tanto prazer. Quando desviou o olhar do espelho e o dirigiu para o relgio 
laqueado que havia por cima da mesinha-de-cabeceira deu-se conta de que eram quase quatro da manh. Sentiu um ligeiro tremor ao pensar que nunca estivera levantada 
at to tarde, pelo menos a divertir-se. S se recordava de uma noite em que, por causa de uma inundao na mina, o pai s regressara de manh E esta fora a noite 
mais divertida da sua vida. Nunca mais chegava o dia do baile, pensou, enquanto se deitava e apagava a luz. Esteve a tentar dormir durante quase uma hora, mas no 
conseguiu. Sentia-se demasiado excitada por tudo quanto vira e pelas festas em que estivera. Perguntou-se se o pai tambm estaria acordado. Finalmente levantou-se 
e foi at ao quarto de vestir. Resolvera s voltar para a cama ao nascer do sol. No queria perder nada que se passava  sua volta. Sentia-se rejuvenescida. Entretanto, 
apeteceu-lhe um copo de leite quente. Vestiu o robe de cetim branco, calou os chinelos, saiu do quarto e comeou a descer a escadaria, mas, a meio, teve a estranha 
sensao de estar tudo a abanar, como se se encontrasse num transatlntico sacudido por forte ondulao. Era como se a casa andasse para cima e para baixo. Aquela 
situao manteve-se durante uns interminveis segundos, at que Sabrina percebeu o que estava a acontecer. Era um terremoto. Acabou de descer as escadas com toda 
a rapidez de que foi capaz e correu para a porta principal. Nesse instante, a cpula de vitrais estilhaou-se violentamente e uma chuva de vidrinhos abateu-se sobre 
o salo principal. Sabrina, que se refugiara na ombreira da porta, a tremer, sem saber o que fazer, livrara-se de ter morrido completamente dilacerada. O pai falara-lhe 
muitas vezes dos terremotos de 1865 e 1868, mas s se lembrava que o melhor era refugiar-se na ombreira de uma porta aberta. Permaneceu a durante alguns instantes, 
a tremer, sentindo o ar fresco de abril, enquanto a manso era sacudida por novo abalo, mas desta vez de mais curta durao. No interior da casa, parecia estar tudo 
retorcido. Mesinhas de pernas para o ar, vidros partidos, a prataria espalhada pelo cho. Ao olhar para o entulho que a rodeava, Sabrina reparou que tinha um corte 
num brao, provocado por um pedao de vidro cado da janela que se encontrava ao seu lado. Uma mancha escura de sangue espalhava-se pela manga da camisa de noite. 
Naquele instante, abriu-se uma porta no piso superior e ouviu a voz do pai a cham-la no meio da escurido. J a procurara no quarto e no a encontrara.
       - Sabrina! Sabrina! Ests a?
       Ao v-la na ombreira da porta, Jeremiah correu pelas escadas abaixo e foi at junto dela. Os criados comeavam a sair dos quartos do ltimo piso. Duas das 
mulheres pareciam histricas, as outras choravam, e at os homens estavam assustados. Entretanto, sentiu-se novo abalo e todos se sentiram invadir por uma crescente 
onda de pnico. Comearam a ouvir-se rudos vindos do exterior: pessoas aos gritos e fortes estrpitos, como se partes das casas estivessem a desmoronar-se nas ruas. 
Sabrina verificou mais tarde que muitas das chamins em tijolo se haviam desmoronado. Quando, ao fim de uma hora, se atreveu a sair em companhia do pai, depois de 
ele lhe ter ligado o brao, depararam-se-lhe inmeros cadveres entre os escombros. Era a primeira vez que tomava contato com a morte. Ficou profundamente abalada. 
A rua encontrava-se cheia de gente. O tremor de terra provocara enormes danos nos edifcios e havia pessoas feridas por todo o lado. Mas tornou-se evidente, a meio 
da manh, que o maior problema da cidade era a quantidade de incndios que o terremoto originara, com a agravante de se ter rompido a maioria das condutas de gua, 
de modo que os bombeiros no tinham gua para combater o fogo. Alm disso, os sistemas de alarme haviam deixado de funcionar, e o prprio chefe dos bombeiros morrera 
sob os escombros de um quartel. Havia um ambiente geral de pnico, mas toda a gente alimentava a esperana de que todos os incndios fossem rapidamente circunscritos. 
O pior de todos ardia a sul da Market Street, a seguir ao Hotel Palace. Este tinha uma fonte de gua prpria e podia fazer frente a quaisquer fogos que o ameaassem. 
Mas as colunas de fumo negro que comearam a cobrir a cidade, naquela tarde de quarta-feira, encheram de terror toda a cidade de So Francisco. O governador Schmitz 
pediu ajuda ao general Funston, chefe da guarnio, de modo que, ao anoitecer, o exrcito j estava a fazer tudo quanto podia. Foi estabelecido o recolher obrigatrio 
desde o pr ao nascer do Sol e a proibio de se cozinhar no interior das habitaes.
       Em Nob Hill, Jeremiah e Sabrina haviam aberto os portes de par em par, permitindo que toda a gente se albergasse nos seus jardins e confeccionasse as refeies 
num espao devidamente reservado para esse efeito. Jeremiah fazia parte do Comit dos Cinqenta, que, com sede no antigo Palcio da Justia em Kearny e com a colaborao 
de Washington, se propusera organizar a cidade para fazer frente  calamidade. No dia seguinte, o comit teve de abandonar a sua sede e mudou-se para Portsmouth 
Square, e desta vez Sabrina insistiu em acompanhar o pai.
       - Ficas aqui!
       - No fico, no! - replicou, olhando-o com determinao. - Vou contigo. Quero estar contigo, pap.
       E foi tanta a insistncia que Jeremiah cedeu. Havia outras mulheres no comit e, juntamente com os homens, estavam a fazer tudo o que podiam para ajudar a 
cidade moribunda. Era um dos momentos mais horrveis da histria de So Francisco. Jeremiah mal conseguia acreditar no que via ao seu redor. Nesse mesmo dia, disseram-lhe 
que todas as manses de um lado da Van Ness Street haviam sido dinamitadas com a inteno de salvar a parte oeste da cidade. Nem quis acreditar. E, como se aquilo 
ainda fosse pouco, o Comit dos Cinqenta teve de deixar Portsmouth Square e instalar o seu quartel-general no Hotel Fairmont, que, nessa altura, estava quase terminado. 
Permaneceu a at que o fogo alcanou Nob Hill. Os seus membros saram do edifcio no preciso momento em que as chamas, que avanavam com violncia em direo  
manso dos Flood, os cercava e comeava a devorar as entranhas do edifcio. Ento, Jeremiah albergou o comit na Manso Thurston, onde se reuniu algumas vezes antes 
de ter de abandonar Nob Hill por completo. A prpria colina parecia estar em chamas. O fogo escolhia caprichosamente as suas vtimas, destruindo algumas casas por 
completo e deixando outras intactas. Quando o Comit dos Cinqenta abandonou a casa no final do terceiro dia, a Manso Thurston ainda estava intacta. Os jardins 
encontravam-se carbonizados, e as rvores da parte da frente da propriedade estavam todas tombadas, mas as chamas mal tocaram na fachada. Todos os estragos produzidos 
no interior do edifcio haviam sido provocados exclusivamente pelo terremoto. Quando Sabrina se deteve  porta da manso e olhou para o seu interior, ficou incrdula 
com tanta destruio em apenas trs dias. Era como um pesadelo que se recusava a terminar. Ao olhar para o stio anteriormente ocupado pela cpula, s viu o cu 
negro coberto de fumo. Pareceu surpreendida por verificar que j cara a noite. Nem sequer sabia em que dia  que se encontrava. S sabia que a catstrofe durara 
vrios dias e que as ruas haviam estado cheias de mortos e de gritos de moribundos. Ligara centenas de braos, pernas e cabeas, conduzira uma infinidade de crianas 
perdidas aos seus refgios, ajudara muitas mes a procurar os filhos, e agora, completamente esgotada, deixou-se cair, com um suspiro de alvio, na imponente escadaria 
da Manso Thurston. Os criados haviam abandonado a casa para prestar auxlio a quem dele precisasse ou para ir em busca de familiares ou amigos. Sabia que o pai 
se encontrava no piso superior. Observara um grande cansao nele durante aqueles dias trgicos. Levantou-se para ir ver como  que ele estava. Talvez precisasse 
de um conhaque. Se tivesse fome, iria buscar-lhe algo para comer nas cozinhas coletivas de Russian Hill. J no era um jovem, e fora tremendo o esforo despendido 
nos ltimos dias.
       - Pap! - gritou Sabrina, enquanto subia as escadas. - As pernas mal conseguiam sust-la, tal era o cansao. Ainda se ouviam gritos no exterior, o que indiciava 
que os incndios em Nob Hill ainda no haviam sido extintos. E perguntou-se se alguma vez seriam. - Pap!...
       Sabrina encontrou-o prostrado numa cadeira, na sua sala de estar privada. Encontrava-se de costas para ela, mas conseguiu comprovar que se encontrava to 
cansado como supusera. No o via assim desde a ltima inundao nas minas. Foi at ele em bicos dos ps e inclinou-se para lhe dar um beijo na testa.
       - Ol, pap! - Soltou um profundo suspiro, sentou-se a seus ps e esticou o brao para lhe pegar na mo. Quantas coisas haviam sofrido naquela noite e, de 
certo modo, de quantos perigos haviam escapado. Nenhum dos dois sofrera ferimentos graves e a manso, salvo alguns estragos, mantinha-se de p. Ouvira dizer que 
o candeeiro da pera cara, e nem queria imaginar o que teria acontecido se o terremoto os tivesse apanhado a na noite anterior. - Queres comer alguma coisa, pap? 
- perguntou, de olhos fixos no rosto dele. De repente, ficou paralisada de terror. O pai parecia olh-la, mas no havia vida no seu olhar. Sabrina ps-se instantaneamente 
de joelhos e deu-lhe umas palmadas na cara. - Pap! Pap! Fala comigo! - Mas a Jeremiah j no lhe restava nenhuma palavra por dizer, nem voz, nem vida... Depois 
da reunio do Comit dos Cinqenta no Hotel Fairmont, trouxera os outros membros at  manso e, quando estes se foram embora, subira para os seus aposentos. - Pap! 
- gritou, no meio do silncio da enorme manso vazia. Comeou a aban-lo, mas o corpo de Jeremiah deslizou lentamente para o cho, onde ficou, rgido e imvel. Sabrina 
apertou-o contra si. Os soluos comearam a tomar conta dela, da mesma forma que o fogo tomara conta da cidade. Calmamente, no mais completo silncio, ele entrara 
no quarto, sentara-se... e morrera, aos sessenta e trs anos, deixando rf Sabrina, totalmente entregue a si prpria, duas semanas e meia antes de ela fazer dezoito 
anos.
       A rapariga ficou at altas horas da noite sentada no cho, junto a ele, paralisada pelo terror. Os incndios continuavam a avanar furiosamente por Nob Hill, 
destruindo tudo ao redor da manso, poupando-a miraculosamente. Mas Sabrina no pensava abandonar o pai. Manteve-se sentada no cho, a chorar, sem soltar a mo dele, 
mesmo quando as chamas se aproximaram perigosamente da porta principal. Por sorte, mudaram repentinamente de direo, e a aurora encontrou-a ainda ali, agarrada 
 mo do homem que fora seu pai. Quase todos os incndios da cidade haviam sido dominados, e o terremoto terminara. Mas, para Sabrina, a vida, sem ele, no voltaria 
a ser como antes.
       
      21
       
       Sabrina levou o corpo do pai no barco a vapor at Napa, donde seguiu em cortejo fnebre at Santa Helena. A carruagem das minas aguardava-os no porto, juntamente 
com um grupo de mineiros de semblante carregado, vestidos com os seus fatos domingueiros. S quando a carruagem se encontrava perto da manso de Jeremiah  que Sabrina 
viu os restantes mineiros quinhentos no total alinhados, de ambos os lados do caminho, em profundo silncio,  espera do homem que tanto admiravam e para quem to 
duramente haviam trabalhado. Durante anos, lutara por eles, desenterrara-os da lama quando das inundaes, arriscara a vida para roub-los s chamas nos piores incndios, 
chorara quando morriam... e agora eram esses homens que choravam por ele. Muitos no conseguiam conter o choro no momento em que tiravam os chapus e a carruagem 
passava vagarosamente diante deles. Hannah aguardava-o no alpendre da casa com o rosto banhado em lgrimas e os olhos cegos pela mgoa. Oito homens transportaram, 
ento, o caixo at ao quarto onde Jeremiah dormira durante os dezoito anos anteriores ao casamento.
       Sabrina aproximou-se de Hannah, sem dizer palavra, e estreitou-a nos braos, enquanto a velhota soluava no seu ombro. Depois, saiu por instantes para apertar 
a mo a alguns dos homens e agradecer-lhes a sua presena. Eles pouco tinham para dizer, no encontravam palavras para exprimir aquilo que sentiam. Permaneceram 
ainda alguns instantes no mesmo lugar e acabaram por se ir embora em grandes e silenciosos grupos. Os seus coraes seriam enterrados juntamente com o homem que 
merecera o seu respeito e a sua estima. Para eles, jamais haveria outro patro como aquele.
       Sabrina entrou novamente em casa, e sentiu um n na garganta ao deparar-se-lhe o caixo de mogno que haviam depositado no antigo quarto de Jeremiah. Nesse 
instante, puseram, cuidadosamente, sobre o fretro uma coroa de flores silvestres que Hannah fizera com as suas prprias mos. No conseguindo suportar por mais 
tempo a mgoa que lhe ia na alma, Sabrina virou-se e mergulhou a cabea entre as mos Com grande surpresa, sentiu ento dois braos fortes que a abraavam. Levantou 
a cabea e viu Dan Richfield. Era o encarregado-geral das minas h j alguns anos e fora um homem de valor incalculvel para Jeremiah.
       - Estamos profundamente consternados, Sabrina. E queremos que saibas que estamos dispostos a fazer o que quer que seja por ti.
       Via-se nos olhos do homem que estivera a chorar, mas nem sequer tentava dissimular esse fato. Voltou a abra-la, e assim ficaram, mas, pouco depois, Sabrina 
libertou-se dos braos dele e aproximou-se da janela, onde se deteve a olhar para o vale que Jeremiah tanto amara. Dava a impresso de que falava sozinha. Por instantes, 
s o suave odor das flores silvestres depositadas sobre o caixo e os soluos de Hannah oriundos da cozinha dominavam o ambiente.
       - Nunca deveramos ter ido para So Francisco, Dan. - Dan olhou para a bela silhueta de Sabrina, de costas para ele.
       - No te tortures, Sabrina. Ele queria levar-te para a cidade.
       - Eu no deveria ter deixado - disse ela, virando-se para o homem que fora quase um filho para o seu pai.
       Dan tinha ento trinta e quatro anos e trabalhava para as minas dos Thurston h vinte e trs. Devia tudo o que era e que tinha a Jeremiah. Sem ele, Dan no 
teria feito outro trabalho na vida que o de p e picareta. Mas, graas a Jeremiah, dirigia as maiores minas do estado e era responsvel por quinhentos homens, desempenhando 
bem o seu cargo, como Jeremiah confidenciara muitas vezes  filha.
       - O lugar dele era aqui, tal como o meu - disse Sabrina, consumida pelo remorso. - No deveria t-lo deixado levar-me para a cidade. Se no o tivesse feito, 
ainda estaria vivo. - Os soluos impediram-na de prosseguir. Dan apressou-se a consol-la, apertando-a contra si, mas Sabrina teve a sensao de que lhe faltava 
o ar. Sabia que Dan no tinha ms intenes, mas apertava-a com demasiada fora. Talvez esse afogo se devesse simplesmente  dor que a oprimia. - Oh, meu Deus! Que 
vou fazer sem ele?
       - Tens tempo de pensar nisso. Porque no vais descansar um pouco? - H dois dias que Sabrina no dormia. O seu rosto mostrava os efeitos do desgosto que sentia, 
e os seus olhos pareciam dois insondveis poos de dor. - Devias ir deitar-te. Pede  Hannah que te leve alguma coisa para comer.
       Sabrina abanou a cabea e limpou as lgrimas com a mo.
       -  ela quem deve receber esses cuidados de mim. Sou muito mais nova do que ela e no estou to abatida.
       - Tens de cuidar de ti. - Fez uma pausa e fitou-a demoradamente. Queria perguntar vrias coisas a Sabrina, mas tinha de esperar. Era muito cedo. O cadver 
do pai ainda se encontrava ali. - Queres que eu te acompanhe? - A voz era meiga, mas Sabrina abanou a cabea com um sorriso amargurado. Mal conseguia falar. A angstia 
era muita. No conseguia imaginar a vida sem o pai.
       - Estou bem, Dan. Porque no vais para casa?
       Dan tinha uma esposa e filhos em que pensar, e era muito pouco o que podia fazer ali. J estava tudo tratado para o funeral de Jeremiah no dia seguinte. Sabrina 
queria uma cerimnia breve. Ele prprio quereria uma cerimnia simples, sem a menor ostentao. Jeremiah ter-se-ia emocionado se tivesse podido ver os homens que 
se haviam alinhado de ambos os lados do caminho  sua espera, e que, nessa noite, desfilaram, um a um, diante do pesado caixo de mogno, de cabea baixa e os olhos 
banhados de lgrimas. Sabrina desceu uma infinidade de vezes para lhes apertar a mo e expressar-lhes o seu agradecimento. Entretanto, Hannah preparara uma enorme 
cafeteira de caf e tabuleiros de sanduches para os obsequiar. Sabia que viriam todos, e ficou feliz por ver que nenhum faltara. Nunca haviam conhecido um homem 
to bom como Jeremiah Thurston, e deviam-lhe a homenagem que estavam a render-lhe.
       Nessa mesma noite, pouco depois das nove, um homem, de fato escuro e gravata, subiu as escadas da entrada principal. Tinha os cabelos grisalhos, os olhos 
negros e um rosto de traos bem marcados. Pareceu hesitar antes de entrar. Hannah reconheceu-o pelo seu ar enrgico, e foi imediatamente avisar Sabrina.
       - O John Harte est c.
       Embora sendo o eterno rival de Jeremiah, nunca houvera inimizade entre eles. John Harte era extremamente reservado, era o seu modo de ser, e nunca perdera 
de vista o fato de que se encontrava em constante competio com as minas dos Thurston, mas to-pouco esquecera as amabilidades que Jeremiah tivera para com ele. 
Os dois homens haviam-se encontrado raras vezes, mas, quando isso acontecia, olhavam-se com respeito, e sempre que havia um desastre numa das minas, o outro aparecia 
pessoalmente ou mandava os seus homens oferecer ajuda. John Harte nunca mostrara qualquer animosidade para com Jeremiah. Na realidade, admirava-o mais do que aquilo 
que se pensava E sentia sinceramente a sua morte. Poucas vezes vira Sabrina ao longo dos anos, mas ela sabia quem era e avanou para ele ao v-lo Com o vestido negro, 
dava a impresso de ser mais alta e magra, e, sobretudo, ter mais de dezoito anos. Trazia os cabelos apanhados atrs num carrapito, os olhos pareciam enormes na 
sua cara plida, e, quando estendeu a mo ao recm-chegado, parecia mais uma mulher adulta do que uma rapariga.
       - Vim apresentar-lhe os meus sinceros psames, Miss Thurston. - A voz era profunda e suave, e os olhos fitaram-na durante um longo instante. A filha se no 
tivesse morrido, seria pouco mais velha do que Sabrina. Tinha trs anos quando morrera, e nascera dois anos antes de Sabrina. Harte no voltara a casar, mas toda 
a gente sabia que tinha uma amante h dez anos. Vivia com ele na mina, e era uma ndia da tribo dos Mayakmas, uma mulher de aspecto extico. Uma vez, algum chamara 
a ateno de Sabrina para ela. Tinha uns vinte e seis anos e dois filhos, mas nenhum de Harte. Este no fazia tenes de ter mais filhos nem de casar. Pusera um 
ponto final definitivo naquela parte da sua vida. Ao olhar para ele, Sabrina vislumbrou nos seus olhos indcios daquela antiga dor. Harte tinha a impresso de ter 
a filha diante de si. Falou em sussurro, de olhos postos no caixo onde Jeremiah jazia. Essa contemplao s lhe trouxe dolorosas recordaes do passado, e ao voltar 
a falar f-lo com um n na garganta. Jeremiah estava comigo quando o meu filho morreu. Olhou para Sabrina, perguntando-se se o pai lhe falara disso alguma vez. 
       - Eu sei... ele contou-me... - Ficou muito impressionado. Naquele momento, a voz de Sabrina era suave como a brisa. John Harte fixou os seus olhos nos dela 
e gostou do que viu. Era uma rapariga forte, inteligente e sem pretenses, com uns olhos que pareciam devorar tudo o que viam. Estava curioso por saber a idade dela, 
mas sabia que no podia ter mais de dezoito anos. Jeremiah no estava casado quando Mathilda e os filhos tinham morrido, e isso acontecera h vinte anos, na primavera.
       - Nunca esqueci o seu gesto naquela ocasio, quando me prestou o seu apoio e a sua companhia - murmurou. Nunca chegamos a conhecer-nos muito bem, mas eu admirava-o. 
E os seus homens adoravam-no. As pessoas deste vale s tm coisas boas a dizer do Jeremiah Thurston.
       Aquelas palavras deixaram Sabrina de corao destroado, e os olhos encheram-se de lgrimas. Virou-se e limpou-as com os dedos delgados.
       - Desculpe... No devia...
       - No tem de desculpar-se... - Sabrina sorriu e soltou um suspiro. Era inacreditvel que o pai estivesse morto. Como  que podia estar? Adorava-o tanto... 
Teve de reprimir um soluo ao lembrar-se de que no estava sozinha. Levantou os olhos para John Harte. Era quase to alto como o pai, e os cabelos to escuros como 
os que o seu progenitor chegara a ter, embora a cabeleira grisalha tambm lhe ficasse bem. Apesar dos seus quarenta e seis anos, era um homem bem-parecido, tal como 
Jeremiah fora at ao fim... fim... fim... no conseguia suportar aquelas palavras. - Quer tomar caf, Mister Harte? A Hannah tem-no na cozinha - disse, apontando 
para a porta.
       - No, devo deix-la descansar. Sei que chegou hoje mesmo de So Francisco. Foi to terrvel como dizem?
       - Pior ainda. H destroos por todo o lado, edifcios destrudos pelo fogo... - Por instantes, a voz embargou-se. - Foi horrvel. E o meu pai... - Fez um 
esforo para prosseguir, sob o olhar consternado de John Harte - ...fazia parte do Comit dos Cinqenta, para salvar a cidade... Foi demasiado para ele... o corao, 
sabe como ... - Sabrina no sabia por que razo  que lhe estava a contar tudo aquilo. 
       Embora mal conhecesse o homem, tinha de desabafar com algum. 
       - Desculpe...
       Harte segurou-a pelos ombros com as suas fortes mos de mineiro.
       - Tem de descansar. Conheo a dor por que est a passar. Eu tambm vivi horas semelhantes. Andei de um lado para o outro, a dizer disparates, sem descansar, 
at dar quase em maluco. Descanse, Miss Thurston. Continuar mais tempo sem descansar s pode piorar mais as coisas. Poupe as foras para amanh. Vai precisar.
       Sabrina fez um gesto afirmativo com a cabea, as lgrimas a correrem descontroladas pelas faces. J no conseguia estancar aquela torrente. Ele tinha razo. 
Estava esgotada e meio histrica de dor. No conseguia acreditar que o pai morrera, mas, os olhos de John Harte, viu neles algo de tranqilizador. Era um homem muito 
afetuoso, apesar do que se dizia da sua altivez e orgulho, e do seu lado um pouco libertino, vivendo com a amante ndia. Talvez por isso o seu pai no tivera muitos 
contatos com ele. Sabrina supunha, com razo, que aquela relao no era do agrado de seu pai.
       - Lamento, Mister Harte, mas acho que tem razo. - Foram uns dias terrveis. E iria precisar de foras para o funeral, no dia seguinte.
       - H alguma coisa que eu possa fazer por si amanh?
       - No, obrigada. O nosso encarregado leva-me na carruagem.
       -  um bom homem. Conheo bem o Dan Richfield.
       - O meu pai dizia que no teria sido ningum sem ele. O Dan trabalha para ele desde os onze anos.
       John Harte esboou um sorriso triste. Muita coisa iria mudar na vida de Sabrina a partir daquele momento, e queria falar-lhe disso, mas no era oportuno faz-lo 
agora. J trocara impresses com Dan a esse respeito, e haviam acordado que ele esperaria uma ou duas semanas. Sabrina encontrava-se ainda demasiado abalada para 
pensar nas minas, e Richfield podia dirigi-las entretanto.
       - Se houver alguma coisa que possa fazer por si, Miss Thurston, j sabe...
       - Obrigada, Mister Harte.
       Ele deu-lhe novo aperto de mos e partiu no seu cavalo negro para a mina, para junto da sua extica amante ndia.
       Depois de Harte partir, Sabrina deu consigo a interrogar-se sobre ele e a sua amante. S se recordava de a ter visto, por acaso, uma vez. Era uma rapariga 
de cabelos muito negros e de delicada cara morena. Nesse dia de inverno, levava um casaco de peles brancas. Sabrina ficara intrigada ao ver que o pai aumentara a 
velocidade da carruagem em que seguiam e cumprimentara John Harte com um gesto muito sutil, ignorando completamente a ndia. Sabrina ainda se lembrava das perguntas 
que fizera ao pai...
       - Quem  ela, pap?
       - Ningum.. uma ndia qualquer..
       - Mas  bonita... -Sabrina ficara fascinada com ela, como se soubesse que aquela aliana era clandestina e censurvel, o que, na realidade, era. S que John 
Harte no fizera qualquer segredo dela h mais de nove anos. No devia explicaes a ningum e tinha o direito de fazer o que muito bem lhe apetecesse. Fora o que 
ele sempre fizera. No era homem de meias palavras, nem de esconder uma ndia das vistas alheias. Ela era sua mulher, e ele, um homem livre. Que se danassem os intrometidos! 
- Era to bonita, pap..
       - No reparei.
       - No  verdade Vi-te olhar para ela
       - Sabrina! - Jeremiah fingiu ter-se irritado, mas Sabrina conhecia-o demasiado bem.
       - Ai, olhaste, olhaste. Vi claramente.  uma rapariga muito bonita. Que h de mal nisso.
       - Duas coisas, minha filha, para te pr perante os fatos sem rodeios: no esto casados e ela no  branca. Por isso, devemos fingir que ela no existe ou 
que, se o admitirmos, consideramo-la como algo indigno de ser olhado. Mas a verdade  que ela  uma rapariga muito bonita, e o Harte est encantado com ela. Como 
tal, melhor para ele. No tenho nada a ver com quem  que ele dorme.
       - Convid-los-ias c para casa? - Sabrina estava intrigada. Ele nunca os convidara. Mas John Harte e o pai nunca haviam sido amigos ntimos.
       - No, no convidaria. - Jeremiah no parecia irritado, mas o tom de voz era firme.
       - Por que no? - Sabrina no compreendia.
       - Por ti, pequena. No seria correto. Se eu vivesse sozinho, talvez os convidasse, porque sempre tive grande estima por ele.  um bom homem e tem uma boa 
mina, no to boa como a nossa, claro - disse Jeremiah, com um largo sorriso nos lbios, - mas  boa.
       - Achas que ela  inteligente? - Sabrina continuava fascinada pela rapariga ndia.
       - No fao a menor idia. - Riu-se da inocncia da filha, deu-lhe uma palmadinha na bochecha e esboou um sorriso terno. - No creio que ele a ame por causa 
disso, Sabrina. Nem todas as mulheres so inteligentes. Nem todas so obrigadas a s-lo.
       - Mas, pelo menos, deviam tentar s-lo, no achas? - A seriedade com que Sabrina encarava as questes deixava Jeremiah profundamente enternecido.
       - Sim, acho que deviam tentar.
       Ao fim e ao cabo, havia algo de Camille nela. Esta fora to inteligente e mostrara-se sempre to interessada pelas coisas dos homens, sobretudo pelos negcios. 
Teria gostado de saber mais sobre a mina, se Jeremiah lho tivesse permitido Mas este nunca achara correto que a esposa se imiscusse nos seus negcios. Por outro 
lado, com Sabrina, era diferente. Ensinara-lhe tudo e mostrara-lhe tudo o que fazia, quase como se de um filho se tratasse, e estava orgulhoso do que ela sabia sobre 
os vinhedos, as minas e os negcios que ele fazia com o Este. Parecia perceber tudo, e no passava um dia sem que partilhasse algo novo com ela. Sem Camille, se 
no fosse Sabrina, ter-se-ia sentido muito s. Sabrina fora sua companheira durante dezoito anos, e agora... era ela quem estava s... recordando o passado... ouvindo 
a voz do pai nos seus ouvidos. Nessa noite, deitada sobre a cama, Sabrina ainda no acreditava que ele tivesse morrido. Como podia ter acontecido uma coisa daquelas? 
Mas acontecera.
       E teve ocasio de confirmar isso mesmo, no dia seguinte, quando o fretro foi transportado at  sepultura e a depositado, quando cada um dos quinhentos 
e seis mineiros e dos cento e trs amigos deitou um pouco de terra por sobre o caixo. At Mary Ellen se encontrava ali, atrs da multido, a chorar baixinho. Finalmente, 
depois de olhar demoradamente para o caixo, Sabrina cerrou por instantes os olhos alagados em lgrimas e, enquanto apertava a mo de Dan Richfield, atirou um punhado 
de terra sobre a urna. Depois, abandonou o lugar, por entre os olhares respeitosos dos presentes. Enquanto subia lentamente as escadas da entrada da casa, teve a 
sensao de que o mundo chegara ao fim. Sentia o corpo todo dormente. Dan Richfield no tirava os olhos dela. A esposa no assistira ao funeral, encontrava-se novamente 
grvida. Sabrina raramente a via. Era uma mulher plida e pouco atraente cuja nica misso no mundo era a de dar ao marido um filho todos os anos. Sabrina nunca 
tivera a impresso de que aquela mulher gostasse de Dan. Vivia com ela e no paravam de aumentar a descendncia, mas no se podia dizer que houvesse entre eles algo 
que se pudesse chamar carinho. Sabrina olhou para ele quando chegaram a casa.
       - Ainda no acredito que ele tenha morrido, Dan. Parece que, de um momento para o outro, ouvirei os seus passos no alpendre e pelas escadas acima... Continuo 
a pensar que ouvirei o cavalo dele... - Olhou para Dan com os olhos j secos, mas vazios de expresso. - Custa-me habituar-me  idia de que nunca mais voltarei 
a v-lo.
       - Continuars a v-lo. Com os olhos da mente. Era uma parte to importante de ns que nunca estar morto.
       Foram palavras muito bonitas, e o primeiro reflexo de Sabrina foi estender o brao e tocar-lhe na mo, ao mesmo tempo que esboava um sorriso triste.
       - Obrigada, Dan. Por tudo.
       - No fiz nada de especial. Um destes dias, teremos de falar. Agora, no  o momento adequado para o fazer. - Era ainda muito cedo, e ela tinha conscincia 
disso. As palavras de Dan surpreenderam-na.
       - Aconteceu alguma coisa na mina? Quero dizer, passou-se algo de especial durante esta semana? S pensei em mim desde... - No conseguiu terminar a frase, 
mas Dan percebeu o que ela queria dizer.
       - No, claro que no. No aconteceu nada de mal, s que ters de fazer algumas alteraes, e ters de me dizer o que pretendes.
       Dan supusera que a direo das minas ficaria nas suas mos, a no ser que Sabrina as vendesse, e precavera-se falando com John Harte acerca dessa eventualidade. 
Sucedesse o que sucedesse, continuaria  frente das Minas Thurston, quer John Harte as comprasse ou no. Se Sabrina resolvesse no as vender, manteria a sua posio, 
mas, pessoalmente, achava que ela as devia vender. Seria melhor para si. Jeremiah fizera sempre sentir a sua forte presena na mina, no era uma mera figura ornamental. 
Dirigira o seu imprio sozinho, e Dan trabalhara sempre muito perto dele. E estava preparado para dirigi-las por Sabrina. Tinha a experincia necessria e aprendera 
com o melhor, tal como ela. Dan reparou que Sabrina o olhava fixamente.
       - A que alteraes te referes, Dan? - perguntou ela com voz suave e certa dureza no olhar. Dan observara aquela combinao no pai da rapariga, e no conseguiu 
evitar um sorriso.
       - Quando pes essa cara, pareces o teu pai. - Sabrina esboou um sorriso, mas os olhos no o acompanharam, s os lbios. - S queria dizer que, mais cedo 
ou mais tarde, teremos de falar do que tencionas fazer, se as vais manter ou vender.
       Sabrina pareceu surpreendida. E, endireitando-se na cadeira, ripostou.
       - Que diabo  que te fez acreditar que penso vender as minas? Claro que fico com elas.
       - Tudo bem, tudo bem. - Enquanto tentava acalm-la, viu algo que no gostou nos olhos da rapariga. - Compreendo muito bem como te sentes, mas  muito cedo 
para se tomarem decises.
       Sabrina no gostou do que, indubitavelmente, escondiam aquelas palavras e, de repente, franziu o sobrolho e fitou-o, olhos nos olhos.
       - O que  que tinhas exatamente em mente, Dan? Que eu venderia as minas?... A ti, por exemplo?
       Dan apressou-se a menear negativamente a cabea.
       - Nem pensar! Nunca me permitiria tal coisa. Sabes bem.
       - Fizeste alguma combinao com algum? - O olhar de Sabrina era implacvel e penetrante. Dan voltou a abanar a cabea.
       - No, de maneira nenhuma. Por amor de Deus, o teu pai acaba de nos deixar h apenas dois dias! Como poderia...?
       - Isso no tem nada a ver com o fulcro da questo. Os abutres movem-se s vezes muito rapidamente. S quero ter a certeza de que no s um deles. - Parecia 
estranhamente decidida ao disparar-lhe aquelas palavras e, quando se levantou e comeou a andar pelo quarto, ningum diria que s tinha dezoito anos. - Quero que 
fiques ciente de uma coisa: no vou vender as minas do meu pai. Nunca! Percebido? E eu prpria as dirigirei, tal como ele fez. - Dan olhava-a, pasmado, como se fosse 
desfalecer a qualquer instante, mas o semblante de Sabrina no se alterou. - Comearei na segunda-feira e farei um exame geral da situao, mas a verdade  que j 
estou preparada para isto h alguns anos. Era como se soubesse que eu as iria dirigir um dia. - E ficou em silncio, no meio do quarto, com as mos nas ancas. Dan 
olhou-a como se estivesse diante de uma demente.
       - Ests no teu perfeito juzo? Acabaste de fazer dezoito anos, ainda s uma criana... na realidade, uma menina... e vais dirigir as Minas Thurston? So as 
minas mais importantes deste estado, e o teu pai sempre desejou que continuassem a s-lo. Sers o alvo de risota de todos os clientes e, em menos de um ano, ters 
destrudo tudo o que ele construiu. No ests boa da cabea, Sabrina! Vende-as, por amor de Deus! Troca-as por bom dinheiro, pe-o no banco, arranja um marido e 
dedica-te a ter filhos. Mas, por amor de Deus, no te enganes a ti mesma acreditando que consegues dirigir as minas do teu pai, porque no conseguirs. Levei vinte 
e trs anos a aprender aquilo que sei. Pelo menos, permite-me que as dirija por ti.
       Sabrina sabia que aquele era o propsito de Dan desde o princpio. Embora precisasse da sua ajuda, no cederia s suas pretenses.
       - No posso vend-las, Dan. Preciso da tua ajuda. Mas tenho de as dirigir pessoalmente. Foi para isso que nasci. - Dan olhou-a com uma expresso que Sabrina 
nunca vira no rosto do homem, uma expresso de ira nascida do cime e do despeito perante um plano frustrado. Perdida a compostura, levantou-se e, meneando o punho 
junto ao rosto de Sabrina, ripostou:
       - Tu s nasceste para abrir as pernas ao homem com quem te casares, e nada mais! Percebeste?
       Os olhos de Sabrina semicerraram-se de indignao. Pareciam duas balas prestes a fulmin-lo.
       - Nunca mais voltes a falar-me desta maneira! Agora, sai da minha casa, e esquecerei o que acabas de dizer. Encontramo-nos no escritrio, na segunda-feira. 
- E ficou a olh-lo fixamente, enquanto um tremor de clera lhe percorria o corpo. No ignorava que ele se encontrava ressentido, mas tivera de o pr no seu lugar. 
No podia permitir que ningum a tentasse dominar. E, sem hesitaes, disparou. - E se voltas a faltar-me ao respeito, ters de procurar trabalho noutra mina, Dan.
       Dan lanou-lhe um olhar furibundo e dirigiu-se em passada larga para a entrada principal.
       - Talvez seja o melhor para mim. E para ti tambm. - E fechou a porta com estrondo.
       Pela primeira vez na vida, Sabrina resolveu beber algo que no gua. Serviu um conhaque e bebeu-o de um trago. No sabia qual seria o resultado, mas sentiu-se 
muito melhor. Subiu ento at ao quarto e sentou-se. Agora j sabia o que teria de enfrentar... "Tu s nasceste para abrir as pernas ao homem com quem te casares".. 
Seria isso que todos pensavam? Que imaginaria toda aquela gente? Dan... John Harte... os homens que agora trabalhavam para ela... Comeava a fazer uma idia do difcil 
que iria ser a sua tarefa.
       s seis da manh, montou no seu cavalo e foi at  mina. Queria dispor de algum tempo antes de falar com os homens. Leu tudo o que se encontrava em cima da 
secretria do pai, mas estava to ao corrente de tudo que quase no descobriu nada que j no soubesse. A nica surpresa foi uma carta por abrir escrita por uma 
rapariga de "uma casa" do Bairro Chins de So Francisco. Agradecia a Jeremiah o generoso presente que ele lhe oferecera na ltima vez que l estivera, mas Sabrina 
no ficou chocada. O pai tinha o direito de fazer tudo aquilo que lhe apetecesse. E deixara-lhe tudo em ordem nas minas. No dia anterior, o seu advogado lera-lhe 
o testamento. Era um documento muito simples. Jeremiah deixava todos os seus bens  sua nica filha, Sabrina Lydia Thurston: os investimentos, os bens imobilirios, 
as casas, as terras e as minas. Referia especificamente que nenhuma outra pessoa podia herdar as suas propriedades ou fortuna. Deixava tudo a ela, e a veemncia 
com que o pai expressara a sua ltima vontade deixou Sabrina algo perplexa. Quem mais poderia querer herdar algo dele? Ela era tudo o que ele tinha. Deixara igualmente 
duas boas somas em dinheiro a Hannah e a Dan, o que lhes proporcionou grande satisfao. Sabrina esperava que Dan estivesse mais calmo, de forma a comportar-se corretamente 
com ela. Precisava da sua ajuda. Imaginava a surpresa com que os mineiros receberiam a notcia de que desejava ocupar o lugar do pai. Sabrina sabia que tinha capacidade 
para isso. O muito que o pai lhe ensinara em dezoito anos dava-lhe plena confiana no xito do seu propsito. Mas, agora, tinha de convencer toda a gente disso. 
Sabia que, para os homens, trabalhar para uma mulher podia parecer-lhes estranho, sobretudo tratando-se de uma mulher to jovem como ela.
       No ignorava as contrariedades com que teria de se defrontar. Mas a reao por parte dos mineiros no podia ser pior. Fez soar a sirena da mina para cham-los 
para o seu escritrio. Trs toques teriam significado que surgira uma emergncia na mina. Quatro, um incndio. Cinco, uma inundao. Seis, uma morte. Mas s deu 
um, e esperou tranquilamente a chegada dos homens no alpendre do escritrio. Esperou um bom bocado e repetiu o toque. Finalmente, comearam a chegar em grupos, a 
cavaquear entre eles, com as picaretas e demais ferramentas. quela hora da manh, estavam j sujos da cabea aos ps, com aspecto daquilo que realmente eram: mineiros, 
com uma profisso extremamente rdua. Eram mais de quinhentos os homens que se concentraram diante do escritrio para escutar Sabrina. Aquela gente, que agora trabalhava 
para ela, no oferecia um aspecto muito tranqilizador, teve de reconhecer, ao mesmo tempo que sentia um calafrio percorrer-lhe a espinha. Nesse instante, o imprio 
era seu... as Minas Thurston...
       - Bom dia a todos. - Estavam agora s suas ordens.
       Trabalhavam para si, e ela estaria ao seu lado em tudo o que fosse necessrio. Pareceu-lhe sentir uma onda de calor procedente daquela multido. Faria tudo 
o que pudesse por aquela gente. Nunca os abandonaria. Era isso que ela queria dizer-lhes naquele momento. - Tenho algumas coisas para vos dizer. - Usava o mesmo 
megafone que o seu pai costumava usar em ocasies semelhantes. Os homens apinharam-se  sua volta para a ouvir melhor. Dan Richfield observava-a do seu lugar. Sabia 
como eles reagiriam. No engoliriam aquilo que Sabrina pensava dizer-lhes, pelo menos, assim esperava. Contava com eles para a realizao dos seus planos. Primeiramente, 
quero agradecer a todos a presena, na semana passada, quando da minha chegada com o meu falecido pai. Teria significado muitssimo para ele. - Fez uma pausa, tentando 
conter as lgrimas. - Vocs eram tudo para ele. E ele faria tudo por vs. - Os homens concordaram com a cabea.  - Agora vou dizer-vos uma coisa que talvez vos surpreenda. 
- Reparou que havia uma expresso de angstia nos rostos daqueles que se encontravam mais perto e, instantaneamente, adivinhou o que estavam a pensar.
       - Vai vender as minas, no ? - Sabrina abanou a cabea.
       - No, no vou vend-las. - Estas palavras pareceram tranquiliz-los. Gostavam do seu trabalho e eram felizes nas Minas Thurston. Iria tudo correr bem. Richfield 
manteria a sua posio. A maioria deles assim esperava. Nos ltimos dias, no se falara noutra coisa nos bares. Houve, inclusive, algumas apostas. E agora todos 
ansiavam ouvir o que Sabrina tinha para lhes dizer. - As minas vo continuar exatamente como esto, cavalheiros. Nada ir mudar. Cuidarei para que assim seja. Prometo. 
- As suas palavras foram acolhidas com vivas, aplausos e olhares de adorao. Sabrina levantou uma mo e sorriu. As coisas estavam a correr melhor do que imaginara. 
- Vou dirigir as minas pessoalmente, da mesma forma que o meu pai o fez. Com a ajuda do Dan Richfield, que tambm ajudou o meu pai a dirigi-las. Manterei a mesma 
poltica que ele...
       J no a escutavam. Comearam a gritar e a mofar dela.
       - A menina a dirigir as minas? Pessoalmente? Est a tomar-nos por idiotas?
       - Trabalhar s ordens de uma mulher?... Deve estar chalada!... Ela no passa de uma mida!...
       A gritaria transformou-se numa barafunda que afogou a confiana que algum pudesse ter ainda nas palavras de Sabrina, que fazia todos os esforos para evitar 
um tumulto.
       - Escutem-me, por favor!... O meu pai ensinou-me tudo aquilo que sabia... - Riram-se a bandeiras despregadas. S alguns continuavam a escutar em silncio, 
mais por incredulidade do que por respeito. - Prometo-vos...
       Sabrina fez soar a sirena para impor o silncio, mas o pandemnio era total, ao qual se juntara Dan Richfield. Desesperada, observou-os em silncio durante 
alguns instantes e, depois de quinze minutos e tentativas frustradas para fazer ouvir-se, desistiu e retirou-se para o escritrio. Sentou-se  secretria do pai, 
com os olhos inundados de lgrimas. "No cederei! Jamais me darei por vencida!... Malditos sejam!...", sussurrou para si mesma. Estava resolvida a no se deixar 
derrotar por eles, nem que fossem todos trabalhar para outro lado.
       Foi exatamente o que a maior parte deles fez no dia seguinte. Atiraram as picaretas e as ferramentas para dentro do escritrio atravs das janelas. Sabrina 
encontrou um monte de escombros  volta da secretria, juntamente com uma folha de papel com os nomes dos desertores e que comeava com as seguintes palavras: "Despedimo-nos. 
No estamos para trabalhar para uma rapariga." Desertaram trezentos e vinte e dois, ficando cento e oitenta e quatro para o trabalho em trs minas, o que afetava 
gravemente a produo. S restava o pessoal necessrio para o funcionamento adequado de uma mina. As outras duas teriam de ser fechadas temporariamente. Se no houvesse 
outro remdio, era o que faria. No se deixaria vencer. Havia outros mineiros que precisavam de trabalho e, com o tempo, acabariam por ver que ela sabia dirigir 
uma mina. Eles voltariam, mas, se no o fizessem, outros tomariam os seus lugares. De qualquer modo, era uma situao terrvel. Pediu a cinco homens que se ocupassem 
da confuso que reinava no escritrio, e teve de passar o resto do dia a atender uma fila interminvel de mineiros que queriam receber antes de se irem embora. Era 
uma maneira horrvel de comear, mas nunca se daria por vencida. No era desse gnero, era filha de Jeremiah Thurston. Este, nas mesmas circunstncias, tambm no 
teria abandonado o barco, e ficaria espantadssimo se visse a filha a faz-lo. Dan tambm sabia isso. s seis da tarde, entrou no escritrio de Sabrina e, cruzando 
os braos com expresso de descontentamento, afirmou:
       -  uma sorte o teu pai no estar vivo para ver o que fizeste.
       - Se ele estivesse vivo, estaria orgulhoso de mim. - Pelo menos, assim esperava. Era uma questo discutvel. Se ele ainda fosse vivo, aquilo no estaria a 
acontecer. - Estou a fazer o melhor que posso, Dan.
       - E no te saste muito mal. Sempre pensei que demorasses mais tempo a rebentar com isto tudo. S levaste dois dias. E que vais fazer agora com cento e oitenta 
e quatro homens?
       - De momento, fechar duas das minas. Em breve, outros homens faro fila a fora a pedir-nos trabalho - declarou, num tom algo nervoso, mas decidido. Era uma 
rapariga corajosa e, alm disso, tinha toda a razo. O pai ter-se-ia orgulhado dela.
       - Parabns, mida. Conseguiste transformar a maior mina do Oeste num circo. E fazes idia de quem ficou a trabalhar para ti? Alguns velhos que o teu pai mantinha 
por mera caridade, mas ele podia dar-se a esse luxo, tinha centenas de outros que trabalhavam a dobrar; alguns midos que sabem tanto disto como tu, e uns quantos 
covardes que no podem permitir-se arriscar e meter-se  aventura porque tm demasiados filhos para alimentar...
       Sabrina lanou-lhe um olhar fulminante.
       - E tu ests includo entre os ltimos, no , Dan? - Tocara-lhe no ponto fraco. - Por que razo ficaste? Talvez seja a altura de esclarecermos isso.
       Dan corou e olhou-a com ar furioso.
       - Estou em dvida para com o teu pai.
       - Bem, julgo que podes consider-la paga. Trabalhaste vinte e trs anos para ele.  mais do que suficiente para pagar uma dvida. Concedo-te a liberdade, 
como Lincoln fez com os escravos. Queres ir? Podes sair agora mesmo por essa porta para nunca mais voltares. - Fez uma pausa, e o escritrio ficou mergulhado no 
mais profundo silncio. - Mas, se ficares, espero que permaneas do meu lado, que me ajudes a levar por diante tudo isto e a reabrir as outras duas minas. No gostaria 
de ter de lutar tambm contigo.
       Dan percebeu imediatamente o que Sabrina queria. No havia nenhuma razo para contemporizar com ela. A rapariga nunca o deixaria dirigir as minas. Isso era 
claro. Era estpida, e to teimosa e vida de poder como o pai. Pelo menos, era assim que ele agora a via. O sucedido durante aqueles dois ltimos dias abrira-lhe 
os olhos. H mais de vinte anos que se mantinha ali para um dia poder ficar  frente daquelas minas e, em dois dias, ela destrura os seus planos por completo. Sabrina 
tinha de as vender. John Harte deix-lo-ia dirigi-las. Foi o que lhe prometera, com a condio de o ajudar a fechar negcio com ela. Chegara, pois, o momento de 
tentar isso mesmo.
       - Vende as minas ao John Harte, Sabrina. Eles nunca te permitiro que as dirijas pessoalmente. Perders tudo quanto tens.
       - No, nem as venderei, nem perderei nada. O meu pai ensinou-me mais do que aquilo que pensas. E lamento que as coisas tenham tomado este rumo. Pensei que 
tu e eu pudssemos trabalhar juntos, tal como trabalhaste para o meu pai.
       - E porque achas que o fiz, minha tonta? Por amor a ele? Com os diabos, sempre pensei que um dia ficaria  frente de tudo isto, e no tu. - No ia estar com 
papas na lngua. No tolerava a obstinao da rapariga. Se se tratasse de um filho de Thurston, o caso mudaria de figura. Mas aquela mida...? E, ao fim e ao cabo, 
quem era ela? A filha de uma pega que abandonara Jeremiah, h dezessete anos. Diziam que ela morrera, mas ele nunca acreditara nisso. Ouvira rumores acerca de um 
amante que ela tinha na cidade; nessa altura, porm, Dan era criana e no se interessava por mexericos desse gnero. Lanou um olhar irado a Sabrina, os olhos transbordantes 
de dio.
       - Lamento que penses dessa maneira, Dan
       - s louca. Vende as minas ao John Harte.
       - J me disseste isso, e sabes que no as vou vender a ningum. Dirigi-las-ei pessoalmente, nem que tenha de ir para as galerias. Trabalharei at cair para 
o lado, mas vou ficar com aquilo que o meu pai criou. Serei to justa e boa como ele, e as Minas Thurston continuaro a laborar dentro de cem anos, se ainda houver 
mercrio. No vou permitir agora que algum como tu me assuste, nem vou vender nada ao John Harte, nem vou deixar-me abater porque um bando de idiotas me abandonou. 
Faz o que muito bem te apetecer, mas eu fico aqui.
       Era exatamente como o pai, e Dan sentiu o desejo sbito de a esbofetear. Propusera-se trat-la com calma, convenc-la delicadamente a vender as minas, mas 
ela tirara-lhe o tapete debaixo dos ps. Tomara as rdeas de tudo, cortara-lhe os tomates em pblico, mostrara a toda a gente que Dan Richfield no passava de um 
simples empregado a soldo. Todavia, ele no se resignaria to facilmente  sua sorte. De sbito, cedendo a um irreprimvel impulso, estendeu o brao e agarrou Sabrina 
pelos cabelos. Completamente descontrolado, sacudiu-a at ouvir-lhe os dentes a ranger, mas Sabrina no soltou qualquer grito. Ento, enrolando os cabelos da rapariga 
na sua mo forte, obrigou-a a ajoelhar-se a seus ps.
       - Sua putfia. Sua rameira! Nunca mandars aqui! - Com isto, agarrou-a pela garganta e, de repente, teve a percepo do que desejava fazer. Puxou de um golpe 
a blusa pelo colarinho e rasgou-a, ficando o corpo de Sabrina apenas coberto pelo espartilho, a saia, as meias, as bragas e as botas. Sabrina nunca desviou os olhos 
de cima dele. Dan olhava-a com ar malicioso, acariciando-lhe os seios com uma mo, enquanto a mantinha imobilizada com a outra, que ainda agarrava os longos cabelos 
escuros.
       - Solta-me, Dan! - conseguiu dizer finalmente a rapariga, com uma voz muito mais calma do que aquilo que realmente sentia. Estava horrorizada com os propsitos 
que adivinhava naquele homem. E no havia ali ningum que a pudesse ajudar. Eram as nicas pessoas que se encontravam na mina. J no havia nenhum mineiro ali, e 
o vigilante noturno estaria demasiado longe para ouvir os seus gritos, alm disso, no queria que ningum a visse naqueles propsitos. Ela tinha de conquistar a 
confiana dos mineiros, mas, se eles a vissem a ser violada por Dan, estaria tudo acabado para ela.
       - Se continuares a abusar de mim, vais passar o resto da vida na cadeia. E se me matares, enforcam-te.
       - Vais contar a toda a gente que abusei de ti, querida Sabrina? - Dan olhava-a com ar alucinado. E j adivinhara os pensamentos de Sabrina. Se ele a violasse, 
como  que ela poderia denunci-lo? Todos lhe perderiam o respeito, a culpa seria dela... e s Deus sabia quem  que voltaria a tentar... O que era uma perspectiva 
aterradora para a rapariga. De repente, fazendo apelo a todas as suas foras, conseguiu soltar-se de Dan, correu na direo da secretria e abriu uma gaveta. Sabia 
o que o pai guardava ali, e Dan tambm. Lutaram ambos pela posse da pequena pistola, que acabou por cair ao cho. Ento, ficaram ambos paralisados, como se tivessem 
dado conta do que acontecera. Dan olhou-a com sbito horror, e ela levantou os olhos para ele, envergonhada e repugnada. Dan estivera prestes a viol-la, precisamente 
o homem que ainda uma semana antes era amigo dela e do pai.
       - Quero que te vs agora mesmo daqui e nunca mais voltes. Ests despedido.
       Por instantes, Dan pareceu aturdido, como se at ento no tivesse tido plena conscincia daquilo que fizera. Sem dizer palavra, dirigiu-se para a porta. 
Ainda teve vontade de a ajudar a vestir a camisa, mas no se atreveu a faz-lo. Aquela rapariga acabava de destruir o sonho que alimentara durante duas dcadas. 
Porm, isso no era desculpa. Dan no compreendia o que fizera, nem por que.
       - Desculpa, Sabrina Estou... - Olhou-a com ar desesperado, envergonhado com o seu ato. Todavia, a pretenso de Sabrina de dirigir as minas pessoalmente era 
uma barbaridade. Nisso, ele tinha razo. Tens de as vender. Isto voltar a acontecer. Se no comigo, com outro qualquer. E  possvel que esse outro no se detenha 
a tempo como eu.
       Sabrina virou-se para Dan, indiferente ao aspecto que apresentava: os cabelos desgrenhados, os ombros nus. 
       - Nunca venderei as minas, Dan. Nunca E podes dizer isso ao teu amigo John Harte.
       - Diz-lhe tu. Estou certo de que no te faltaro ocasies.
       - No tenho que dar satisfaes a ningum. E vou contratar os homens que puder.
       Sabrina desconfiava que Dan iria trabalhar para John Harte. Mas pouco lhe importava. Nunca mais queria voltar a ver Dan Richfield. Era um homem mau. O seu 
pai t-lo-ia morto por aquilo que ele estivera prestes a fazer. Graas a Deus, detivera-se a tempo. Dan olhou-a uma ltima vez. Estava incrivelmente bonita com os 
sedosos cabelos cados sobre o rosto e os enormes olhos, cheios de tristeza. Que difcil fora a sua entrada na idade adulta!
       Depois de Dan ter partido, Sabrina vestiu a blusa rasgada, voltou a depositar a pistola na gaveta da secretria, deu uma pequena arrumao na sala, apagou 
as luzes e abandonou a mina. Sentir no rosto o ar frio da noite foi um verdadeiro alvio para ela, embora no pudesse evitar que um calafrio lhe percorresse todo 
o corpo. Quase fora violada por um homem que conhecera durante toda a vida. Nem sequer tinha foras para andar at ao stio onde deixara o cavalo; como tal, teve 
de se sentar quase meia hora no alpendre. Quando, finalmente, subiu a custo para a sela e partiu rumo a casa, com o vento a bater-lhe nos cabelos, deixou escapar 
um soluo. Pela primeira vez, estava zangada com o pai. Como  que ele podia deix-la s no mundo? Queria sair dali o mais rapidamente possvel e ir para muito longe, 
mas a sua fiel montada levou-a para casa. Sabrina conduziu ento o cavalo para o estbulo, onde desmontou e se deteve por instantes com o rosto apoiado no dorso 
do cavalo, perguntando-se como era possvel que o pai a tivesse abandonado precisamente quando ela mais precisava.
       - O Dan Richfield tem razo. - Sabrina deu um pulo ao ouvir a voz familiar. Hannah vira-a entrar no estbulo e viera ter com ela. Ests louca varrida.
       - Obrigada. - Sabrina virou a cara para que Hannah no visse as lgrimas. - J tivera a sua dose para um dia.
       - O teu pai nunca mostrou intenes de seres tu a dirigir as minas.
       - Ento, deveria ter deixado outra opo. Uma vez que no deixou, eu sou tudo o que tenho.
       Hannah olhou-a fixamente. No estava para ouvir mais disparates.
       - Tens o Dan.
       - J no.
       - Foi-se embora? - Hannah pareceu surpreendida.
       - Despedi-o. - Sabrina no contou que estivera prestes a ser violada. O casaco que envergava tapava a blusa rasgada.
       - Ento ainda ests mais louca do que aquilo que eu pensava.
       - Toma ateno ao que te vou dizer, Hannah. - Sabrina depositou a sela no stio do costume, e virou-se para a mulher que tratava dela desde que nascera. - 
Tu cuidas da casa, eu cuido das minas. As coisas no pareciam ir mal quando tu e o pap repartiam o trabalho dessa maneira. Porque no tentamos fazer o mesmo?
       - Porque ele no era uma rapariga de dezoito anos. Meu Deus, que pensaro as pessoas quando te virem tentar dirigir as minas pessoalmente?
       - Nem sei, nem me importa. E podes ter a certeza de que no lhes perguntarei. - Com estas palavras, apagou a luz do estbulo e dirigiu-se para casa em passo 
decidido.
       No dia seguinte, quando Sabrina voltou ao escritrio, havia um estranho rudo nas minas. A perda de trezentos e vinte e dois homens estava a fazer-se sentir. 
A meio da manh, fez soar a sirena e anunciou que as duas minas mais pequenas iriam fechar. Redistribuiu os homens na rede de galerias mais importante da mina maior 
e disse-lhes exatamente o que esperava deles. Havia na sua voz uma energia que ningum notara antes e que agora no passou despercebida aos mineiros. Um deles referiu 
isso ao regressarem ao trabalho, mas os outros encolheram os ombros. Tal como os homens que ainda tratavam dos vinhedos do pai, no se sentiam minimamente interessados 
pelo que ia na cabea de Sabrina, desde que ela continuasse a pagar-lhes os salrios a tempo e horas. Tinham ficado por essa razo. No o haviam feito por amor a 
ela nem por devoo para com o velho. Consideravam que no deviam nada  nova patroa, precisavam do trabalho e eram bem pagos. A maioria no sentia a menor preocupao 
pela mudana de direo, embora, ao saberem que Dan Richfield tambm se fora embora, comeassem a ficar preocupados
       - Achas que ela sabe o que est a fazer.
       - Saber assinar um cheque?
       - Suponho que sim. - Os homens sorriram entre dentes
       - Ento, fico. Paga melhor do que o John Harte, pelo menos, o pai pagava.
       Na realidade, no houvera qualquer referncia a nenhuma reduo dos salrios. Muito pelo contrrio, Sabrina pensava aument-los na semana seguinte. O pai 
planejara o aumento para a primavera, mas, com menos dois teros do pessoal, tinha possibilidades de o fazer j. Agora, devia concentrar esforos na contratao 
de mais homens. Nessa tarde, encontrava-se a fazer alguns clculos com esse fim, quando a porta do escritrio se abriu. Levantou a cabea e viu entrar John Harte 
em passada larga. Quando se deteve diante da secretria, Sabrina olhou-o fixamente. No se moveu nem esboou o menor sorriso.
       
      22
       
       - A no ser que deseje comprar mercrio, Mister Harte, est a perder o seu tempo e a fazer-me perder o meu.
       - Essa  uma das coisas que gosto em si - afirmou ele, sem se amedrontar. - Tem uma maneira afetuosa de receber as pessoas. Reparei nisso a primeira vez que 
nos encontramos.
       Sabrina sorriu e, recostando-se na cadeira, fez-lhe sinal para se sentar.
       - Desculpe. Tm sido uns dias muito complicados. Sente-se, por favor.
       - Obrigado. - Ao faz-lo, puxou um charuto do bolso da jaqueta. De repente, Sabrina lembrou-se da rapariga ndia. Perguntou-se se ainda viveria com Harte, 
embora isso pouco lhe importasse. A jovem e bela ndia no lhe saa da cabea. Havia nela algo de to delicado e sensual, que era estranho relacion-la com aquele 
homem rude e cheio de rugas. - Ouvi dizer que teve uma semana muito interessante. Importa-se que fume? - No lhe ocorrera perguntar logo. Era-lhe difcil encar-la 
como uma mulher. A rapariga vivia num mundo de homens e Harte esperava que ela se comportasse como um deles, apesar de ser uma rapariga muito bonita. Fosse como 
fosse, Sabrina metera-se numa tremenda embrulhada, e ele queria ajud-la a sair dela.
       -  vontade. Sim, tm sido dias muito interessantes.
       - Disseram-me que saram dois teros dos seus homens. - Ele no ia estar com rodeios com ela. Sabrina esboou um sorriso cansado.
       - Parece que sim. Imagino que boa parte deles esteja a trabalhar para o senhor. - Embora ele tivesse uma mina muito mais pequena.
       - Alguns. No precisava deles todos. Fiquei com os necessrios. So boa gente.
       - Do meu ponto de vista, no. - Sabrina dirigiu a Harte um olhar de desafio, e ele admirou a sua ousadia.
       - Escolheu um cavalo muito difcil de domar, Miss Thurston.
       - Sei disso. Mas pertencia a meu pai e agora  meu. E asseguro-lhe de que o dominarei antes que ele me mate primeiro, Mister Harte.
       - Acha que vale a pena. - O olhar do homem era amvel, mas agora no queria amabilidades de ningum. Prosseguiria com a sua luta sem nenhum Dan Richfield, 
sem nenhum John Harte, sem ningum. Estava completamente s. E lograria atingir os seus propsitos, por pouco ortodoxa que parecesse a sua postura.
       - Para mim, sim, Mister Harte. No vou render-me por nada deste mundo.
       - Ento, julgo que tem razo - sussurrou ele, com um sorriso malicioso.
       - Sobre qu.
       - Sobre o fato de eu estar a perder o meu tempo. - Harte pousou o charuto e inclinou-se para ela. Queria fazer-lhe ver as coisas do seu ponto de vista. No 
queria roubar-lhe nada, mas sim faz-la entrar na razo. O que ela estava a fazer era um erro. O prprio pai no teria aprovado, e ele estava preparado para lhe 
dizer isso mesmo. - Miss Thurston,  uma rapariga inteligente, honesta e encantadora, e julgo no me enganar se disser que era a menina dos olhos do seu pai
       Sabrina franziu o sobrolho
       - Est a perder o seu tempo
       - Escute-me! - Desta vez as palavras foram duras. - Sabe muito bem o que quero. Quero comprar as minas. As trs E pagarei uma bonita soma por elas. Se recusar, 
sobreviverei na mesma. O que tenho chega-me, e estou a fazer uma fortuna fabulosa. Por isso, estou-me nas tintas. S no gosto de ver esbanjar recursos. Pouco lucro 
tirar da mina que manteve aberta, j fechou as outras duas, mas, mais importante do que isso, est a desgastar-se a si prpria. Ainda  muito jovem. Olhou  sua 
volta, para a lgubre sala. Que raio est a fazer aqui dentro?  isto que quer fazer na vida? Voc no  um homem,  uma rapariga. Que quer provar? - Harte recostou-se 
na cadeira e abanou a cabea. - No tive a sorte de conhecer muito bem o seu pai, mas, pelo pouco que sei dele, posso dizer-lhe que isto no  nada do que ele queria 
para si. Ningum no seu juzo perfeito o quereria.  uma vida solitria, desagradvel, suja, cansativa, a partir pedra, a desenterrar as vtimas de aluimentos, a 
lutar contra fogos e inundaes, a manter os bbedos na linha. Como raio  que pensa dar conta do recado, se nem sequer j tem o Dan Richfield consigo? - Harte parecia 
sinceramente preocupado com Sabrina, mas esta estava desconfiada. Desconfiava de toda a gente.
       - Como  que sabe? - Dan s fora despedido na noite anterior.
       Harte preferiu ser franco com ela.
       - Contratei-o hoje.  um bom homem. - Sabrina esboou um sorriso de troa.
       - Pelo menos, no tentar pr a mo no senhor. - Instantaneamente, instalou-se um silncio entre eles, e o olhar de Harte incendiou-se.
       - Ousou fazer isso?
       Depois de alguma hesitao, Sabrina fez um gesto afirmativo com a cabea. J no havia qualquer razo para o proteger, e sabia que John Harte no tentaria 
fazer a mesma coisa. No era esse gnero de homem e, alm disso, tinha a rapariga ndia. John Harte abanou a cabea e passou a mo pelo rosto antes de olhar de novo 
para ela.
       - Se voc fosse minha filha, matava-o.
       Sabrina esboou um sorriso de agradecimento, mas depois lembrou-se de quem tinha diante de si.
       - Mas no sou, e o meu pai morreu. E parece que o senhor tem um novo encarregado-geral, Mister Harte. - Sabrina sabia falar com dureza quando era necessrio. 
Ps-se de p e levantou a mo. J ouvira o suficiente. - Obrigada pelo voto de confiana e pelo interesse que demonstra pelas minhas minas. Esteja descansado que 
eu aviso-o se resolver vend-las.
       - No siga sozinha nesta empresa. - Harte fixou-a, olhos nos olhos. Estava a ser sincero. - Destroar-lhe- o corao e devorar toda a sua vida.
       Sabrina perguntou-se se no seria isso que estava a acontecer com ele. Harte falava com alguma tristeza na voz. Mas esse problema no era seu e j tinha problemas 
que lhe chegassem.
       - Aconselho-o a no voltar a procurar-me, Mister Harte. No temos qualquer negcio a tratar. - No queria ser grosseira com ele, mas no queria voltar a v-lo 
de novo nas suas minas. Ainda se recordava da visita de apresentao de psames a semana anterior... S passara uma semana? Nem queria acreditar. - As minhas minas 
no esto  venda, e no estaro por muitos e longos anos.
       - Assim est a renunciar por completo ao matrimnio e a uma famlia. - Harte voltara  ofensiva, e Sabrina estava desejosa de o ver dali para fora.
       - Esse problema no  seu - replicou Sabrina com olhar severo.
       - No conseguir conciliar ambas as coisas.
       - Farei o que me der na real gana! - ripostou Sabrina, ao mesmo tempo que contornava a secretria. E agora, saia-me daqui para fora, Harte!
       - Muito bem, minha jovem senhora. - Fez-lhe uma reverncia com o chapu e encaminhou-se, em passo lento, para a porta.
       John Harte no podia deixar de reconhecer a coragem de Sabrina, mas continuava a achar que ela estava a cometer um erro tremendo. Lamentava o fato de ela 
no querer vender-lhe as minas. Teria gostado de incorporar as Minas Thurston nas suas. Mas o que mais o preocupava era o que a rapariga dissera de Dan... "Pelo 
menos, no tentar pr a mo no senhor"... Tentara viol-la? Estupor... Teria de prevenir Lua da Primavera. No queria v-lo em nenhum momento perto dela. A atitude 
de Dan... "pr a mo" em Sabrina Thurston... deixara-o profundamente enojado. Por mais insensata e teimosa que a rapariga fosse ao pretender dirigir pessoalmente 
as minas do pai, fora uma canalhice ter querido aproveitar-se dela. Nessa tarde, quando voltou ao escritrio, Harte mostrou-se inesperadamente brusco com o novo 
empregado, para surpresa deste, que no sabia o que podia ter feito para provocar a clera do novo patro. Dan sentia-se injustiado, e enfureceu-se s de pensar 
em Sabrina. Se no fosse ela, estaria  frente das Minas Thurston
       John Harte teve vontade de lhe dizer para nunca mais se aproximar de Sabrina, mas no o fez porque no queria dizer-lhe que sabia tudo o que sucedera. Assim, 
s preveniu Lua da Primavera, que desatou a rir.
       - No tenho medo dele, John Harte. - Tratava-o sempre dessa maneira, o que o fazia sorrir, mas no desta vez
       - Toma ateno ao que te vou dizer. A mulher  feia e tem um ar anmico, e tem um monto de filhos...  muito possvel que procure um pedacinho mais tenro, 
como tu, por exemplo. No sei nada desse homem. A nica coisa que sei  que trabalhou duramente nas Minas Thurston nos ltimos vinte e trs anos. Mas, seja como 
for, no quero que ele te faa mal. Percebido. Afasta-te dele, Lua da Primavera
       - No tenho o menor medo. - Sorriu e, com um simples gesto, deixou cair da manga um afiado punhal e voltou a escond-lo com tanta rapidez que John Harte mal 
conseguiu ver o brilho da lmina.
       - s vezes, esqueo-me da tua astcia, minha querida. - Beijou-a no pescoo e voltou para o trabalho. A sua mente foi ento invadida pela recordao daquela 
rapariga que, sendo praticamente uma criana, se empenhara em dirigir pessoalmente as minas do pai, com um grupo de homens que no passava de uma sombra daquilo 
que fora. Lamentava no poder ajud-la. Mas o seu plano no era esse. J falara desse assunto com Dan mais de uma vez. Esperaria o tempo necessrio, at que Sabrina 
fracassasse, e ento comprar-lhe-ia as minas. Tanto ele como Dan sabiam que esse momento no demoraria muito, por mais que a rapariga achasse que sabia dirigir as 
minas do pai. No passava de uma criana.
       Duas semanas depois, Sabrina completou os dezoito anos. Dera j aos seus trabalhadores o aumento prometido, mas estes raramente lhe dirigiam a palavra. As 
duas minas mais pequenas estavam fechadas, como tal, tentava tirar o mximo proveito da principal. Alm disso, promovera um dos novos homens a encarregado-geral, 
em substituio de Dan. Ele no lhe mostrava mais afeto do que os outros, mas estava satisfeito com o salrio, e a Sabrina bastava-lhe isso. To-pouco lhe desagradava 
a promessa de novos aumentos que Sabrina lhe fizera se conseguisse recrutar os mineiros necessrios para a reabertura da mina nmero dois. Conseguiu isso em novembro 
desse mesmo ano, mas a reabertura coincidiu com uma inundao e a morte de cinco dos novos mineiros. Sabrina no se afastou nem por um segundo do lugar do sinistro. 
Suportou a p firme a persistente chuva e ajudou a resgat-los de dentro das galerias inundadas. Foi ela que se ajoelhou ao lado das vtimas para lhes fechar os 
olhos, foi ela que, no dorso do seu cavalo, encharcada at aos ossos e completamente esgotada, levou a triste notcia s esposas, foi ela que os ajudou a enterrar, 
tal como o pai fizera tantas vezes, e foi ela que abriu a terceira mina na primavera. Levara um ano a recompor-se do golpe de perder mais trezentos homens, mas, 
agora, as trs minas funcionavam sem problemas de pessoal e com uma excelente produo. Dan Richfield ficava furioso cada vez que pensava nisso.
       - Tens de dar a mo  palmatria, Dan.  to dura como o pai, e duas vezes mais esperta. - John Harte nem queria acreditar no que Sabrina conseguira.
       - Essa puta de merda - limitou-se a dizer Dan, enquanto saa do escritrio, batendo violentamente com a porta, perante o olhar atnito de Harte. No se podia 
negar que aquele homem aprendera muito durante os vinte e trs anos de trabalho nas Minas Thurston, mas no havia nele nada que fosse decente nem agradvel. Harte 
no compreendia como  que Thurston o tivera tanto tempo ao seu servio. Talvez nessa altura no fosse to desagradvel e malcriado. Vivera obstinado por um objetivo, 
que agora estava fora de questo. Aqueles pensamentos estimularam em John Harte o desejo de fazer uma segunda visita a Sabrina.
       Um dia, entrou novamente no escritrio de Sabrina, para surpresa desta. Durante o ltimo ano, nem sequer voltara a pensar em Harte. Estava orgulhosa em relao 
ao trabalho por si desenvolvido nas minas do pai. Sabia que os homens no morriam de amores por ela, e provavelmente isso nunca iria acontecer, mas trabalhavam com 
afinco, merecendo inteiramente aquilo que ganhavam.
       - Veio cumprimentar-me ou pedir-me trabalho, Mister Harte. - perguntou Sabrina, com os olhos a sorrir
       - Nenhuma das duas coisas. Eu sou ainda mais atrevido. Ao contrrio de si. - Ele admirava-a mais do que Sabrina imaginava, e reparou que a rapariga estava 
satisfeita consigo mesma. Tinha o direito de estar. A guerra ainda no acabara para Sabrina, mas ganhara a primeira batalha. Era certo que as minas voltavam a trabalhar 
a todo o vapor, mas a possibilidade de conseguir mant-las ao mesmo ritmo durante muito tempo era outra questo. Harte duvidava disso, tal como Dan. Talvez fosse 
um erro ir visit-la de novo to cedo. Poderia ter esperado at que as coisas comeassem a dar para o torto, mas preferira assim. Tinha previsto para aquele ano 
um plano de expanso que no lhe permitia esperar mais tempo. O projeto compreendia a compra de uma das minas de Sabrina, talvez duas. - Vamos diretos ao que interessa. 
Venda-me a mais pequena das suas minas.
       Sabrina mirou-o como uma serpente pronta a morder a presa.
       - No. Nem uma nem nenhuma. - Por outro lado esboou um sorriso cauteloso, ficaria encantada se me vendesse as suas, Mister Harte. - Acabava de fazer dezenove 
anos e parecia mais mulher. Fora um ano de longa e rdua luta, uma luta que tinha de prosseguir, e ningum lhe iria dar trguas. - Gostaria de comprar as suas, Mister 
Harte. J considerou essa hiptese?
       Harte sorriu perante tamanho desplante.
       - Receio que no.
       Ento estamos empatados.
       -  uma menina muito teimosa. Era assim quando o seu pai era vivo?
       - Suponho que sim. - Sabrina sorriu, pensando na situao em que se encontrava um ano antes, parecendo-lhe que transcorrera toda uma vida. Talvez no tivesse 
muitas razes para ser. Lutara durante aquele tempo pela sua sobrevivncia, sem o apoio de ningum. E, como se fosse pouco, todas as noites, ao voltar para casa, 
tinha de escutar as repreenses de Hannah. Quase temia regressar a casa ao fim do dia, mas no tinha corao para, ao fim de todos aqueles anos, despedi-la. Por 
isso, ficava at altas horas da noite na mina, situao que a levara a perder muito peso. At John Harte reparara, embora, naturalmente, nada lhe dissesse a esse 
respeito. S sentia pena dela. Sabrina seria muito mais sensata se lhe vendesse as minas.
       - Lamento que no reconsidere este ano.
       - J lhe disse. Nunca. As Minas Thurston s estaro  venda depois de eu morrer, no antes, Mister Harte. Sei que, para muitos, essa seria a melhor soluo.
       Sabrina expressara-se talvez com excessiva dureza, mas no falava por falar. No tinha nenhum amigo ali. Alguns haviam comeado a respeit-la, mas ainda eram 
muito poucos. Voltava a ter mais de quinhentos homens s suas ordens, mas s um punhado deles se preocupava com a sua vida ou a sua morte. Eram os que haviam trabalhado 
ao lado dela quando da inundao ou os que a tinham visto interessar-se pessoalmente, no fundo das minas, por todos os aspectos do seu trabalho Mas no sentiam verdadeiro 
afeto por Sabrina, como o que haviam tido por Jeremiah s um ou dois anos antes. Olhava para John Harte com poucas iluses. Crescera. E pagara um elevado preo por 
isso. Harte continuava a ter pena da situao de Sabrina. Estendeu a mo  rapariga e esta apertou-a, mas no olhar de Sabrina no se vislumbrava qualquer indcio 
de afeto por ele. Eram demasiados os que a haviam ofendido no ano anterior, demasiados os que haviam tentado fazer-lhe mal, a comear por Dan. Tambm Harte no estava 
muito satisfeito com o comportamento do seu encarregado. A esposa de Dan morrera ao dar  luz no ano anterior e, desde ento, ele ia para a pndega todas as noites, 
deixando os filhos com fome, sujos e mal vestidos. John Harte prevenira, mais uma vez, Lua da Primavera para ter cuidado com ele, mas ela respondera-lhe com um sorriso 
de confiana e fazendo reluzir o punhal.
       - Lamento que pense dessa maneira - disse Harte, e hesitou antes de sair. - No posso deixar de pensar que voc viveria muito melhor sem esta carga. - Mas, 
para Sabrina, a frase pareceu outra suave tentativa de a convencer a desfazer-se das minas. Harte captou o olhar impaciente que Sabrina dirigiu para a porta e rematou. 
- Compreendo
       Sabrina perguntou-se se ele realmente compreendera, mas desconfiava que no. Ele nunca conseguiria imaginar como ela lutara desesperadamente para chegar  
satisfatria situao atual. Nunca abandonaria as minas. Nunca.
       Os vinhedos prosperavam do mesmo modo. No ano anterior, juntara-se  cooperativa de vinicultores, e estava determinada a ajud-los a melhorar a qualidade 
dos seus vinhos, apesar de, tambm ali, ser apenas tolerada. Mas j se habituara a isso. Habituara-se a ser mal acolhida em todo o lado, a que lhe dirigissem a palavra 
o menos possvel, a que a evitassem, a ser a primeira a receber a fria dos demais proprietrios. Mas tambm sabia responder-lhes quando era necessrio. O seu temperamento 
fortalecera-se bastante durante aquele ltimo ano em que andara em constante stress, e John Harte acabava de observ-lo no seu rosto, verificando que ainda estava 
mais bonita do que no ano anterior. Havia algo nela que o fazia desejar estreit-la entre os seus braos. Mas teria sido um ato carente de sentido. Era uma mulher 
que no queria ajuda de ningum. Propusera-se escalar sozinha a montanha do xito e, qualquer dia, ficaria sentada a meio da encosta, sem foras para prosseguir. 
Harte no podia alegrar-se com a situao de Sabrina, talvez porque, de certo modo, escolhera o mesmo caminho que ele prprio e que o pai. Nem ele nem Jeremiah tinham 
voltado a casar. Haviam decidido viver s para as suas minas. Harte, com Lua da primavera a seu lado, Jeremiah, com a filha, mas esta no contava com ningum. Aquele 
pensamento consternou Harte, enquanto cavalgava em direo  mina. Sabrina no voltou a pensar nele, tinha muito que fazer. Raramente deixava vaguear a mente. A 
vida era uma luta constante de sobrevivncia, e no fora por acidente que reabrira as duas minas inativas. Conseguira-o trabalhando duramente sem parar, durante 
meses e meses de suor.
       E agora continuava a trabalhar quase com a mesma intensidade para fazer prosperar o negcio. Acabava de acordar a venda de setecentos frascos de mercrio 
para uma firma do Este, e prometera uma gratificao extra aos homens quando fizesse o despacho da encomenda. Sabia como o pai dirigira as minas, a sua forma de 
lidar com o pessoal no tinha segredos para ela, de modo que, de acordo com a filosofia que ele sempre seguira, repartia os lucros com os seus homens quando tinha 
de lhes exigir um esforo suplementar E se, por acaso, no gostavam dela, consideravam-na, pelo menos, uma mulher justa. No esperavam nada mais de Sabrina, nem 
esta esperava receber mais do que dava, ainda que nem sempre as coisas se passassem assim. Era agora muito mais exigente. Se algum homem lhe faltava ao respeito, 
em menos de uma hora estava na rua. Agora, podia permitir-se ser mais dura com eles, o que aumentava o respeito que tinham por ela.
       - Continua a mesma putfia e ranhosa de sempre - vociferou Dan Richfield, certa noite, num bar, perante alguns mineiros de Sabrina, precisamente no momento 
em que entrava John Harte, o qual se postou ao fundo do bar. - Ela pensa que l por andar de calas j tem uma pica entre as pernas.
       Os homens riram-se, mas as suas gargalhadas foram interrompidas pela voz serena de John Harte
       - Era disso que andavas  procura quando tentaste viol-la o ano passado?
       Instalou-se um sbito silncio e Dan empalideceu, surpreendido por ver o patro e, sobretudo, por descobrir que Harte sabia o que ele estivera prestes a fazer.
       - Que quer dizer com isso?
       - No acho bem que fales nesses termos da Sabrina Thurston. Trabalha to duramente como todos ns. E esses homens ainda esto ao seu servio, se no me engano.
       Um ou dois deles pareceram envergonhados. John Harte no era amigo de Sabrina, mas tinha toda a razo. Trabalhava que se fartava, isso ningum podia negar. 
Pouco a pouco, os mineiros foram saindo, mas Dan Richfield ficou, os olhos a chispar, os punhos cerrados prontos a bater, mas no se atreveu a tanto. Em vez disso, 
bebeu o usque, ao mesmo tempo que lanava um olhar fulminante a John. Mas era em Sabrina que ele queria pr as mos. Ela destrura-lhe todos os seus sonhos. Alm 
disso, agora que era vivo, uma rapariga como ela vinha mesmo a calhar. Durante vrios dias, esses pensamentos no lhe saram da cabea. Estava curioso por saber 
o que ela contara a John. Finalmente, na segunda-feira seguinte,  noite, depois de ter bebido no mesmo bar, resolveu aproximar-se das Minas Thurston. Ao passar 
diante do escritrio, viu no exterior o cavalo de Sabrina. Eram nove da noite, e deduziu que a rapariga se encontrava no escritrio. Deteve-se ento, prendeu o cavalo, 
subiu as escadas do alpendre e ficou surpreendido por v-la ali. Observou-a atravs da janela. Estava sentada  secretria, com a cabea inclinada sobre o tampo 
e os cabelos negros puxados para trs. Escrevia com uma velocidade incrvel. Costumava ficar ali at perto da meia-noite, pelo que ainda era cedo para ela. Dan sorriu 
entre dentes. No tinha plena conscincia, mas parecia estar disposto a terminar o que deixara por fazer no ano anterior, quando ela o despedira. Quando se dispunha 
a entrar, uma tbua do alpendre rangeu. Ento, Sabrina, sem levantar a cabea, abriu a gaveta da secretria e empunhou a pequena pistola antes de Dan chegar  porta. 
O primeiro disparo atravessou o vidro da janela e roou o brao do surpreendido intruso, que ficou como que paralisado de olhos fixos em Sabrina.
       - Se passas dessa porta, s um homem morto! - gritou a rapariga.
       Dan compreendeu que ela no estava a brincar. Sabrina no parecia surpreendida nem assustada. Estava preparada para tudo, e no tinha medo dele. Levantou-se 
e manteve a pistola apontada  cabea de Dan, que, sem dizer palavra, deu meia volta e se foi embora. Depois, Sabrina saiu para o alpendre e fez soar a campainha 
para chamar os vigilantes. S tinham a misso de vigiar as minas. No precisava deles onde trabalhava. Mas mandou-os fazer uma batida nas imediaes para se assegurar 
de que Dan j no se encontrava por ali.
       No dia seguinte, enviou uma nota de advertncia a Harte, sugerindo-lhe que procurasse controlar melhor os seus homens. Dizia-lhe igualmente que, se voltasse 
a encontrar algum deles no recinto das minas, consideraria que ele o enviara para a assustar e a obrigar a vender, e mat-lo-ia de imediato. Informava tambm Harte 
de que, daquela vez, permitira que Dan se fosse embora, so e salvo, mas que no tornaria a faz-lo. Harte no gostou de saber que Dan voltara a tentar molest-la. 
Nesse mesmo dia, repreendeu Richfield, que escutou a advertncia do patro com os dentes cerrados e sem dizer uma s palavra. Quando ficou sozinho, Harte no conseguiu 
evitar um sorriso. Sabrina no era muito diferente de Lua da Primavera, sempre to segura de si mesma e to confiante na eficcia do punhal. Pelos vistos, Sabrina 
tambm confiava plenamente na pistola, e sabia como manej-la. Harte s lamentava que tivesse sido obrigada a utiliz-la, mas ela vivia num mundo de homens. Nesse 
ano, John Harte no voltou a fazer-lhe nova oferta de compra das minas.
       
      23
       
       - Bem, rapariga, j tens vinte e um anos. Que pensas fazer agora? - Hannah olhou para Sabrina por cima do bolo de aniversrio que ela prpria fizera e teve 
vontade de chorar quando viu o rosto da rapariga. Sabrina era j uma mulher feita, muito bonita, mas dura que nem uma rocha. Dirigia pessoalmente um complexo mineiro 
em que trabalhavam quase seiscentos homens, seguindo as pisadas do pai, mas para qu? J era bastante rica, mas agora levava uma vida solitria. Trabalhava sempre 
at  meia-noite, no parava de dar ordens aos seus homens e despedia de imediato aqueles que no as cumpriam. Mas estava a perder a sua amabilidade inata e Hannah 
suspeitava de que aquele tipo de vida comeava a destru-la. Amlia dissera-lhe o mesmo quando a viera visitar o ano anterior, mas ao ver que os seus conselhos no 
a fariam mudar de idias, pediu a Hannah que no insistisse nas suas advertncias e lhe desse tempo. "Acabar por se cansar e talvez ento se apaixone por algum", 
dissera Amlia a Hannah. Mas apaixonar-se por quem? Pelo cavalo? Na realidade, estava apaixonada, mas pelo trabalho. Quando no se encontrava nas minas a matar-se 
a trabalhar, enfrentava outras batalhas com os homens da cooperativa de vinicultores.
       - No consigo compreender como pudeste chegar a isto. - Hannah olhou-a com ar desesperado. - Nem mesmo o teu pai gostava tanto das minas como tu. Mostrava-se 
mais interessado em ti.
       - Por isso estou em dvida para com ele. - Era a mesma resposta de sempre. Hannah abanou a cabea e serviu-lhe uma fatia de bolo de chocolate. H vinte e 
um anos que lhe fazia aquele bolo por ocasio do seu aniversrio. Sabrina sorriu para a sua velha amiga. - Tu s muito boa para mim, Hannah.
       - E tu deverias s-lo contigo mesma. O teu pai nunca trabalhou to duramente como tu. Pelo menos, sabia que ao chegar a casa te encontraria. Por que razo 
 que no vendes as malditas minas e te casas?
       Sabrina desatou a rir. Com quem poderia casar-se? Com um dos mineiros? Com o novo encarregado-geral? Com o banqueiro da cidade? Nenhum deles lhe interessava, 
e tinha demasiadas coisas para fazer.
       - Talvez me parea mais com o pap do que aquilo que julgas. - Sorriu. Dissera a mesma coisa a Amlia. Afinal de contas, s se casou aos quarenta e quatro 
anos.
       - No podes esperar tanto tempo - resmungou a velhota.
       - Porque no?
       - No queres ter filhos?
       Sabrina encolheu os ombros... Filhos... que idia esquisita... Naquele momento, s pensava nos setecentos frascos de mercrio que tinha de enviar para o Este 
dentro de duas semanas... e nos duzentos e cinqenta frascos para o Sul.. na papelada com que tinha de se ocupar... nos homens que tinha de despedir e pr na ordem... 
nas inundaes que podiam surgir a qualquer momento... ou nos incndios que era preciso prevenir... Bebs? Como  que eles podiam ter lugar naquele esquema de vida? 
No, no podiam, e provavelmente nunca teriam. No conseguia imaginar-se com um filho. Nunca. Tinha muitas outras coisas em mente. Logo que acabou de comer o bolo, 
subiu para o quarto a fim de fazer a mala. J dissera a Hannah que ia passar uns dias a So Francisco.
       - Sozinha? - Era sempre a mesma pergunta.
       - Quem  que achas que deveria acompanhar-me? - perguntou Sabrina, com um sorriso nos lbios. - Meia dzia de mineiros a servirem de damas de companhia?
       - s uma descarada.
       - J sei. - Ouvira aquele comentrio muitas vezes. Levo-te comigo.
       - Sabes bem que costumo enjoar nesse maldito barco.
       - Ento, terei de ir sozinha. - Fato que em nada a incomodava. As viagens at So Francisco proporcionavam-lhe sempre tempo para pensar, e era uma rara oportunidade 
de visitar a Manso Thurston. Ainda lhe causava angstia entrar no quarto onde o pai falecera, mas a casa era muito bonita e lamentava que no estivesse habitada. 
A no teria qualquer criado. Como noutras ocasies, abriria ela prpria a casa e atenderia as suas prprias necessidades durante os poucos dias que a ocuparia. 
- Agora, Hannah, todos me tm por um bicho do mato. Mas, dentro de alguns anos, todos me aceitaro. Serei aquela velha que dirige pessoalmente as suas minas h vrios 
anos. E ningum estranhar que viaje sozinha, que apanhe um barco ou que v  cidade sem uma criada. Poderei fazer aquilo que me der na real gana. - Riu-se e, por 
instantes, sentiu-se uma rapariguinha como qualquer outra. - No vejo a hora de isso acontecer.
       - No faltar muito. - Hannah olhou para Sabrina com ar pesaroso. No era aquilo que queria para a menina que criara. No tarda que sejas velha, e ters desperdiado 
os melhores anos da tua vida.
       No entanto, para Sabrina, no eram anos desperdiados. Sentia-se satisfeita com aquilo que fizera at ento. S dos outros  que raramente recebia o aplauso 
ou a reprovao. Achavam-na autoritria, independente e caprichosa, mas tambm j se acostumara a isso. Andava com a cabea mais erguida do que nunca, e a lngua 
mais afiada do que em qualquer outro momento da vida. Era to rpida a replicar como a sacar da pistola de prata da gaveta da secretria. No fundo, sabia que trabalhara 
bem, e sentia-se satisfeita com aquilo que fizera. E, no seu ntimo, achava que o pai teria pensado o mesmo. Talvez no fosse aquilo que ele desejara para ela, mas 
teria olhado com respeito para tudo quanto a filha conseguira naqueles trs longos anos. A prpria Sabrina estava surpreendida com tudo o que alcanara, mas trabalhara 
muito para que tal acontecesse. Era nisso que pensava enquanto descia as escadas com uma maleta numa mo e a capa sobre o brao.
       - Regressarei dentro de trs dias. - Beijou Hannah na face e voltou a agradecer-lhe o bolo de aniversrio. Hannah olhou para Sabrina com os olhos marejados 
de lgrimas, enquanto a rapariga punha o carro a trabalhar. Sabrina nunca saberia o que estava a perder. Por maiores que fossem a sua energia e a sua independncia, 
havia um vazio na sua vida do tamanho dos estbulos. E Hannah lamentava que as coisas se desenrolassem assim. Aquela no era vida para ela, nem o fora durante os 
trs ltimos anos.
       Sabrina conduziu o automvel at Napa e deixou-o nos estbulos prximos do cais, como geralmente fazia. Fora uma das primeiras pessoas de Napa a ter carro, 
o que, como tudo o que fazia, foi objeto de comentrios durante vrios meses Mas ela no se importava, aquele meio de transporte proporcionava-lhe grande comodidade. 
Quase todos os dias ia ainda no seu velho cavalo at s minas, mas adorava usar o carro quando se dirigia a stios mais afastados, sobretudo, quando ia a Napa apanhar 
o barco a vapor para a cidade. Poupava-lhe muito tempo. Dessa vez, depois de embarcar, passou quatro horas no camarote a ler os papis que levara consigo. Queria 
falar com o seu banco sobre algumas terras que tencionava comprar, e sabia que antes de conseguir o seu propsito teria de escutar o habitual conselho de que seria 
melhor que vendesse os vinhedos e as minas ou que colocasse um homem experiente  frente de ambos os negcios. Esses que assim a aconselhavam nunca tinham entendido 
que havia muito poucos homens que conseguissem fazer aquilo que ela fazia. Mas j estava habituada a esse conselho. Sabrina limitava-se a sorrir e mudava de imediato 
o rumo da conversa para o negcio que tinha em vista. Eles ficavam sempre surpreendidos com a solidez das suas idias. "Quem  que a aconselhou", perguntavam-lhe 
quase sempre. "Foi idia do seu encarregado-geral?" Era intil explicar-lhes que se tratava de uma idia prpria, o que estava para alm da compreenso deles E sabia 
que no dia seguinte sucederia o mesmo de sempre. Mas passaria por cima de tudo isso e conseguiria aquilo que queria. Tinham aprendido a confiar nela ao longo de 
trs anos, tal como os seus homens, embora raramente percebessem o que ela fazia e por que E aprendera tudo com Jeremiah
       Fechou a maleta ao sentir o barco a atracar contra o cais. Desta vez, no sara do camarote durante toda a viagem. Depois do fausto almoo de aniversrio 
que Hannah lhe oferecera, no sentira necessidade de comer nada e tivera demasiado trabalho em que se embrenhar. Agora estava ansiosa por tomar um banho quente relaxante 
na Manso Thurston. A gua do depsito levaria algum tempo a aquecer, mas isso dar-lhe-ia tempo para se certificar de que, na casa, estava tudo em ordem. H vrios 
meses que no ia  cidade, e era sempre a nica pessoa que entrava na casa, embora o banco estivesse autorizado a passar uma vistoria de vez em quando, tendo para 
esse efeito um jogo de chaves que ela lhes dera.
       Depois de saltar da carruagem, Sabrina meteu a chave na fechadura. Primeiro, teve de abrir o enorme porto, depois a carruagem conduziu-a at  porta da manso. 
Estava tudo s escuras. Ao entrar andou s apalpadelas at acender a luz. Quando o fez, levou a maleta para dentro e fechou a porta. Sentia-se cansada. Deteve-se 
por instantes a olhar  sua volta. De repente, sentiu os olhos ficarem inundados de lgrimas, algo que no acontecia h muito tempo. Tinha vinte e um anos e no 
partilhava a vida com ningum, e aquela era a casa em que o pai morrera... Sentia-se mais triste do que das outras vezes, e mais s, e cada vez com mais saudades 
do pai. Quase lamentava ter vindo. Mais tarde, sentada na banheira da sute, rememorou os trs ltimos anos, pensou nos momentos difceis, nas pessoas que tinham 
sido injustas para com ela, que lhe haviam desejado mal e magoado; at Hannah fora muitas vezes grosseira e rezingona com ela. Ningum compreendia o sentido do dever 
ou o af que a impelia a continuar a dirigir as minas pessoalmente. Em vez disso, todos queriam v-la fracassar ou tirar-lhe o fruto do seu trabalho. Pelo menos, 
John Harte nunca mais tentara comprar-lhe as minas, o que no deixava de ser um alvio. Perguntou-se se Dan Richfield ainda trabalharia para ele. Imaginava que sim, 
mas nunca mais fora importun-la s minas, apesar de j ter decorrido muito tempo desde a noite em que Sabrina se vira obrigada a disparar contra ele. Aquele pensamento 
f-la olhar para a sanita de mrmore cor-de-rosa onde pousara a pistola de prata. Nunca a tinha muito longe dela e deixava-a sempre em cima da mesinha-de-cabeceira 
enquanto dormia. Podia escond-la debaixo da almofada, mas o gatilho era demasiado rpido, como Dan Richfield tivera ocasio de comprovar. Na realidade, levava uma 
vida de constante tenso, mas j estava habituada. Por outro lado, se bem que no totalmente, sempre que ia a So Francisco esquecia todas as precaues. So Francisco 
era to cosmopolita, to urbana... Ali, quase ningum sabia quem ela era. No havia coscuvilhices e ningum parava, de dedo apontado para ela, como faziam em Napa, 
em Calistoga e em Santa Helena. "Olha,  a mulher que est  frente das minas!...  a filha do Thurston... Est tolinha de todo..  teimosa que nem um burro..." 
Para aquela gente, havia mil maneiras distintas de a descrever, e Sabrina ouvira-as todas. Mas ali, em So Francisco, ningum se preocupava com ningum. Podia, inclusive, 
ter a iluso de ser outra pessoa, passeando pela Market Street ou pela Union Square, ou comprando uma rosa para pr na lapela ou um ramalhete de violetas brancas 
para adornar o cabelo. Ali, no tinha de temer o que os seus homens diriam se a vissem assim nas minas. Podia, inclusive, fingir que era uma rapariga como outra 
qualquer. E foi o que fez ao voltar do banco. Veio em passo de passeio, comprou um ramo de fragrantes flores para pr num vaso no seu quarto e, com um gesto instintivo, 
enquanto caminhava para casa, tirou os ganchos do cabelo e deixou que a longa cabeleira negra flutuasse ao sabor da brisa estival. Um sorriso iluminava-lhe o rosto. 
Viver ali era muito mais fcil, pensou com os seus botes, e ainda adorava a Manso Thurston, apesar da tragdia que a tivera lugar. Enquanto subia Nob Hill, mais 
feliz do que nunca, um automvel parou subitamente  sua frente. O condutor ficou a olhar para ela, perplexo, depois, desatou a rir.
       - Meu Deus, Miss Thurston. Nunca a teria reconhecido.  mesmo voc? - Era John Harte que se encontrava ao volante da viatura. Tambm parecia estar a gozar 
alguns momentos de descontrao
       - Sim, sou eu. Roubou esse carro, Mister Harte?
       - -Roubei. Quer uma boleia?
       Encontravam-se ambos em terreno neutro. Sabrina olhou-o com um sorriso de felicidade estampado no rosto e resolveu aceitar a boleia. Se Harte voltasse a insistir 
em comprar-lhe as minas, tinha sempre a hiptese de sair do carro e continuar o percurso a p. Ao fim e ao cabo, ele no ia rapt-la. Alm disso, quem  que depois 
pagaria o resgate?
       - Claro. - Estava divertida a olhar para o automvel que John Harte comprara. Era o mesmo modelo T que ela tinha h dois anos, com a nica diferena de que 
aquele era mais recente e melhor nalguns aspectos. Os construtores acrescentavam-lhe uma srie de novos acessrios todos os anos. - Gosta do seu carro novo?
       - Acho que estou apaixonado por ele. - Harte olhou para o pra-brisas antes de fixar a rapariga. -  bonito, no ?
       Sabrina riu-se, incapaz de resistir  tentao de acabar com toda aquela bazfia.
       -  quase to bonito como o meu. - Sabrina sorriu ao ver a cara de surpresa de Harte, que acabou por soltar uma gargalhada.
       - Tem um igual a este? - Sabrina riu-se.
       - Sim. Quase nunca o utilizo em Santa Helena. O meu velho ruo  mais adequado. - Finalmente, vendera o cavalo preferido do pai. Nunca o montava e ele envelhecera. 
- Mas vou de carro quando tenho de me deslocar a um stio mais afastado.
       Harte olhava-a como se acabasse de v-la pela primeira vez.
       - Voc  realmente uma rapariga muito peculiar.  pena que, de certo modo, sejamos inimigos. Caso contrrio, seramos bons amigos.
       - Se perdesse a mania de querer comprar as minas sempre que nos encontramos, talvez pudssemos s-lo. - Perguntou-se ento se a amante de Harte poria alguma 
objeo, mas no podia dizer-lhe uma coisa daquelas.
       -Continua ento empenhada em no vender nada, no ? - Harte sorriu. J no parecia to preocupado com aquela questo.
       Sabrina abanou a cabea.
       - J lhe disse. As Minas Thurston s sero postas  venda depois da minha morte.
       - E que me diz dos vinhedos? - Harte falava mais por curiosidade do que por outra coisa. Estava encantado com o brilho que havia no olhar de Sabrina e com 
os cabelos soltos. De repente, sentiu o odor das flores que ornamentavam os cabelos da rapariga. Era muito bonita, e ele nunca se dera conta disso. Mas tambm era 
um osso duro de roer para qualquer homem. Harte tivera ocasio de comprovar isso mesmo. Seria um srio inconveniente para ela durante muitos anos. Imaginou o que 
poderia fazer aquela rapariga quando no estava a trabalhar nas minas. Observou-a com interesse enquanto ela lhe respondia.
       - Os vinhedos tambm iro para a sepultura comigo.
       - Ao que parece, no a preocupa no ter herdeiros a quem os deixar.
       Sabrina encolheu os ombros e olhou para ele.
       - No se pode ter tudo na vida. Eu tenho as minas, as uvas, a terra. O meu pai adorava tudo isso. Sentir-me-ia indigna dele se me visse livre de alguma dessas 
coisas. Era o que ele mais adorava neste mundo. Vender qualquer uma dessas coisas seria como vender parte dele.
       Era, pois, aquela a razo das suas muitas negativas. Se tivesse sabido disso antes, no teria perdido tanto tempo com as suas propostas de compra.
       - Voc devia ter uma grande devoo pelo seu pai. - Sabrina sorriu para Harte enquanto chegavam a Nob Hill
       - Sim, sempre a tive E ele sempre foi muito bom comigo , pois, justo que eu d seguimento quilo que ele comeou.
       Os olhos de Harte estavam fixos nos de Sabrina
       Mas que penosa carga deve ter sido para si algumas vezes.
       Sabrina fez um gesto de concordncia com a cabea, sentindo uma sbita necessidade de ser sincera com ele. Tinha que o dizer a algum.
       - Sim, s vezes . - Soltou um suspiro e olhou para o amplo espao que a rodeava. - Mas tambm h a compensao do sentimento de vitria que se experimenta 
ao sobreviver a tantas dificuldades e ao ver que se realizou um bom trabalho. Para dizer a verdade, aquele primeiro ano foi terrvel. - A voz ficou algo embargada 
ao recordar-se disso. - Quando todos aqueles homens se foram embora e tive de despedir o Dan Richfield. - Encolheu os ombros e olhou para Harte. - Mas isso aconteceu 
h j trs anos, e agora est tudo a correr bem. - Esboou novo sorriso. - Por isso, no se iluda com a possibilidade de comprar-me o que quer que seja.
       - Talvez volte a tentar um dia, Miss Thurston.  a natureza da besta.
       Riram-se, e ela indicou-lhe o caminho da Manso Thurston.
       - Se quiser ouvir um novo no da minha boca. J estou a habituar-me.
       - timo.  ali.
       Sabrina apontou para o porto que ela tinha sempre fechado  chave, saiu do carro e foi abri-lo. Era esquisito encontr-lo daquela maneira. Ali, o ambiente 
era menos tenso. Naquele momento, no eram rivais. Eram apenas dois seres normais que no tinham razo para se odiar. Ela trazia flores no cabelo e ele estava deleitado 
com o carro novo. No eram as pessoas que costumavam ser. Sabrina olhava-o com ar despreocupado.
       - Porque no me deixa lev-la at  porta de casa, Miss Thurston? - Harte estava a dar mostras de uma grande cortesia, elemento que nunca fizera parte das 
suas relaes. Durante os ltimos trs anos, haviam sido arquiadversrios, e agora o acaso reunira-os num stio pouco adequado para se zangarem ou para pensarem 
nas minas. Napa encontrava-se muito longe dali, e Sabrina, com os seus vinte e um anos, sentia uma renovada alegria de viver.
       - Muito bem. J que insiste, Mister Harte. - Sabrina permitiu que ele a deixasse diante da porta principal. Ento, voltou-se para ele com um sorriso e disse-lhe: 
- Se prometer no falar nas minhas minas nem fazer-me qualquer tipo de oferta, terei muito gosto em convid-lo para uma xcara de ch ou um porto. Mas primeiro tem 
de prometer o que lhe pedi! - disse Sabrina, provocando-o.
       Harte fez a promessa com toda a solenidade, o que provocou o riso de ambos. Sabrina entrou, seguida de Harte, que no estava preparado para ver o que surgiu 
diante dos seus olhos. Era a manso mais esplndida que vira em toda a sua vida, e nos seus quarenta e nove anos de vida j vira umas quantas; todavia, a Manso 
Thurston era espetacular. Como todos os que a viam pela primeira vez, ficou extasiado debaixo da cpula. H trs anos, Sabrina mandara recolocar os vitrais e reparar 
todos os estragos provocados pelo terremoto. Mudara, inclusive, a porta da entrada principal, que fora chamuscada pelo fogo antes de o vento, miraculosamente, ter 
mudado de direo.
       - Deus meu, como consegue viver to longe disto? - Sabrina sorriu. Haviam acordado no falar das minas, e no queria ser ela a quebrar esse pacto.
       - Tenho outro peixe para fritar. - Harte riu-se da resposta.
       - L isso  verdade. Mas se eu fosse dono desta casa, abandonaria tudo s para viver aqui.
       Sabrina olhou-o com falsa consternao. Estava com um bom humor pouco comum nela.
       - Est a tentar quebrar a promessa e fazer-me uma oferta, Mister Harte?
       - No. Mas nunca vi nada to maravilhoso como esta casa. Quando  que foi construda?
       Harte recordava-se vagamente de ter ouvido falar dela, mas nunca a vira, pelo que Sabrina lhe contou a sua histria em traos gerais.
       - O meu pai mandou-a construir em mil oitocentos e oitenta e seis, dois anos antes de eu nascer. - De repente, John Harte olhou-a com uma expresso de surpresa. 
- Disse alguma coisa de mal?
       Ele abanou a cabea.
       - No... s fiquei surpreendido de a ouvir dizer isso... Sabe o que  para um homem da minha idade dar-se conta de que a sua arqui-rival no tem mais de vinte 
e um anos? Tem vinte e um, no tem?
       Sabrina sorriu.
       - Desde ontem.
       - Feliz aniversrio, ento - desejou Harte, com voz to suave que parecia pressagiar o fim das hostilidades entre os dois.
       - Obrigada.
       Sabrina conduziu-o  sala de estar, onde se sentaram para tomar um xerez. A rapariga no tinha nada mais forte para lhe oferecer, mas Harte pareceu satisfeito 
com a bebida. Na realidade, estava radiante. Como h muitos anos no estava, tal como ela.
       - Como  que celebrou o seu aniversrio? - Harte olhou-a com crescente interesse. Aquela rapariga possua tanta energia, tantas qualidades latentes, e uma 
profundidade interior que ele nunca divisara, mas que via agora com enorme clareza.
       - De forma muito simples. Vim para a cidade. - Encolheu os ombros. - No estava  espera que os mineiros me fizessem um bolo de aniversrio, pois no? - Sabrina 
riu-se, mas Harte sentiu pena dela. De fato, aquela rapariga no tinha ningum, exceto os homens que trabalhavam s suas ordens, e ele sabia o ressentimento que 
ainda lhe guardavam, e que sempre guardariam. Teria de morrer heroicamente num incndio na mina para que eles a vissem com outros olhos. Menos que isso no seria 
suficiente.
       John Harte observava-a em silncio.
       -  muito nova para carregar todo este peso s costas, Miss Thurston. No sente s vezes vontade de abandonar tudo e fugir?
       Sabrina olhou-o com ar srio.
       - Sim. Isso sucede quando venho at aqui. Imagino que o mesmo acontea consigo s vezes.
       Harte fez um gesto afirmativo com a cabea e sorriu. A sua vida fora muito mais longa e preenchida que a dela. Era injusto que Sabrina estivesse to apegada 
s minas, atendendo  ingratido dos seus homens. Harte continuava a saber tudo pelos comentrios dos seus prprios mineiros e dos que ela despedia ou que se negara 
a admitir. Mas eles iam sempre s Minas Thurston primeiro porque ela pagava melhor. Como eles no gostavam de trabalhar para ela, Sabrina no tinha outro remdio 
seno pagar-lhes bem. No se tratava de nada pessoal, mas sentiam-se feridos na sua dignidade pelo fato de trabalharem para uma mulher, e ainda para mais to jovem. 
Harte voltou a sentir o desejo de a proteger. Ali estava Sabrina, na sua enorme e bela manso. Tinha a casa na cidade, os vinhedos... tinha tudo e, no entanto, no 
tinha nada. A sua pequena ndia, Lua da Primavera, tinha muito mais: paz, respeito, segurana e, quanto mais no fosse, tinha-o a ele.
       - Quem diria agora que somos concorrentes? Sabrina sorriu e encolheu os ombros.
       - Suponho que na vida deve ser tudo assim. Tudo to casual, to inesperado e estranho. Como o nosso encontro de hoje. E esboou novo sorriso.
       - Pois eu,  primeira vista, no a reconheci com os cabelos assim.
       Sabrina riu-se.
       - Tambm posso andar assim nas minas, mas j imaginou o que diriam os mineiros. - Soltou uma sonora gargalhada,  qual se juntou Harte. Havia momentos em 
que Sabrina parecia mais uma menina do que uma mulher. Mostrava-se maravilhosamente despreocupada, despretensiosa e realista, o que deixou Harte surpreendido, sabendo 
ele de quem se tratava. Havia uma srie de facetas diferentes na sua personalidade, como se dentro dela coabitassem doze pessoas diferentes; no entanto, parecia 
ser uma pessoa simples e sincera. Era algo confuso e, ao mesmo tempo, delicioso, e que Harte achava encantador.
       - Sabe uma coisa? Gosto de si assim - declarou Harte, sorrindo. E, instintivamente, estendeu a mo e tocou-lhe nos cabelos. Em Napa, nunca se atreveria a 
uma coisa dessas, mas, ali, Sabrina era uma rapariga diferente. E, alm disso, no havia nenhum mal. Por instantes, esquecera-se por completo de Lua da Primavera
       - Obrigada. - Sabrina corou ao articular a palavra.
       A mo de Harte deslizou ento dos cabelos para a face da rapariga, mas esta afastou, de imediato, a cabea para trs. No estava acostumada a que ningum 
se aproximasse tanto dela, pelo menos, desde que o pai morrera, e aquele gesto perturbara-a. Levantou-se para voltar a encher o copo ao seu convidado, e os olhos 
deste seguiram-na Quando se sentou de novo, Harte disse-lhe numa voz meiga:
       - No queria assust-la.
       - No, no se passa nada.  que eu... bem, no importa.. - Sabrina sentou-se e olhou-o com ar srio. -  difcil ser duas pessoas ao mesmo tempo. Tive de 
me tornar insensvel para poder dirigir adequadamente as minas... Julgo que com isso me esqueci de quem era... que era uma simples criana.
       Naquele momento, de fato, pouco mais era do que uma criana, e Harte notara isso mesmo; mas notara outra coisa o ar demasiado confiante e despreocupado que 
ela exibia. Harte tinha a vaga sensao de que no havia mais ningum na casa. 
       No vislumbrou o menor indcio de criadagem. Por um lado, era to cautelosa, por outro, confiara nele, coisa que no devia ter feito. Harte franziu o sobrolho 
e, com ar paternal, perguntou-lhe:
       - Vai ficar sozinha na casa, Miss Thurston?
       Sabrina sorriu. Sempre ficara, desde que o pai morrera.
       - No tenho medo. Gosto de vir para aqui sozinha. - Era uma rapariga estranha e solitria, mas Harte achava que era demasiada temeridade ficar sozinha na 
casa.
       - Voc no est no campo.  muito perigoso
       - Sei defender-me. - Sabrina sorriu, mas Harte no estava to confiante.
       - Eu no arriscaria tanto. E se no tiver a pistola  mo quando precisar? - Lembrou-se do que ouvira acerca do disparo com que se defendera de Dan.
       - Nunca est muito longe de mim, Mister Harte.
       - Pelo menos, sempre d uma certa tranqilidade. - Harte sorriu e Sabrina soltou uma gargalhada.
       - Desculpe. No queria dizer...
       - Porque no? - perguntou Harte, com ar srio. Nem em mim deveria ter confiado.
       Sabrina olhou-o, imperturbvel.
       - J nos zangamos muitas vezes, mas posso dizer que nunca foi incorreto comigo, Mister Harte. Ainda se lembrava da visita de psames que ele lhe fizera quando 
da morte do pai e da extrema delicadeza que mostrara ento. - Julgo que ainda sei avaliar as pessoas com quem lido.
       - No devia ser to confiante. Por que razo no traz a sua governanta consigo quando vem para So Francisco?
       - Ela enjoa no barco. - Sorriu - o certo  que no temo nada. Se estou segura nas minas a trabalhar todas as noites sozinha at quase  meia-noite, que pode 
acontecer-me aqui.
       Harte pareceu ficar algo preocupado.
       - Os seus homens sabem que fica no escritrio at to tarde?
       Sabrina encolheu os ombros.
       - Alguns. Sempre trabalhei at tarde, como o meu pai. H sempre muito trabalho e no quero que ele se acumule.
       Harte fazia o mesmo, mas para Sabrina era mais perigoso. No era de estranhar que Dan a tivesse ido importunar. Felizmente, no repetira a faanha, pelo menos, 
Harte achava que no, e no queria fazer essa pergunta  rapariga
       - Acho que devia ter mais cuidado. Leve o trabalho para casa.
       Sabrina sorriu, sensibilizada com a preocupao de Harte pela sua segurana. Alm de Hannah, que no parava de lhe dizer o mesmo, ningum se inquietava por 
ela, e foi isso mesmo que lhe disse.
       - Embora me sinta segura, agradeo a sua preocupao por mim.
       - Tudo seria mais fcil para si se um dia acedesse a vender-me as minas. - Uma chispa de clera surgiu no olhar de Sabrina, e Harte levantou a mo. - No 
foi uma oferta. Foi um comentrio. Tudo seria mais fcil, e sabe bem que sim. Mas facilidades no parece ser aquilo que lhe interessa. - Levantou-se e fez uma reverncia, 
tentando acalmar a ira de Sabrina. Dobro-me aos seus desejos.
       Sabrina riu-se e, com alguma malcia, declarou:
       - Lamento que no o tenha feito antes, Mister Harte
       - V l, v l, Miss Thurston. Tive de fazer uma tentativa. Mas agora, desisto. -Mas Sabrina, porm, ainda no sabia se havia de confiar nele. - Talvez assim 
possamos ser amigos.
       - Teria muito gosto
       Sabrina sorriu para Harte, que a fitou com ar srio. Este era, pois, o homem cujo filho morrera nos braos de seu pai, recordou-se a rapariga. No era apenas 
um mineiro ambicioso que tentava comprar-lhe as minas. O seu pai sempre o tivera em boa conta, e era muito possvel que Harte o merecesse. Sabrina no sabia muito 
bem que tipo de sentimentos  que tinha por ele. De momento, s um grande respeito. Era inteligente e conduzia os seus negcios com acerto e honestidade.
       - Gostaria de ser seu amigo, Miss Thurston
       Sabrina fez um gesto afirmativo com a cabea e olhou-o com ar triste. Nunca tivera um amigo, para alm das raparigas com quem fora  escola em Santa Helena. 
Mas j todas estavam casadas e tinham filhos e, alm disso, no ousavam dirigir-lhe a palavra. Estavam escandalizadas pelo fato de ela dirigir as minas do pai. Precisava 
de um amigo, de algum com quem pudesse conversar. Perguntou-se o que pensaria a rapariga ndia se a visse chegar, de vez em quando, s minas de Harte para falar 
com ele. Sabrina ponderava esta situao, enquanto ele a fitava. Ento, olhou-o com ar cauteloso.
       - Eu tambm gostaria, Mister Harte. Mas pergunto-me se ser possvel quando nos encontrarmos de novo nas nossas respectivas minas.
       - Poderamos tentar um dia. Eu irei visit-la. Concorda? - Sabrina no podia pedir opinio a ningum. No tinha me, nem pai, nem tia, nem dama de companhia. 
E Harte estava a perguntar-lhe uma coisa que ela no compreendia. Tambm ele no sabia se compreendia. Mas, ao v-la naquela rua de So Francisco, ficara sem respirao. 
H duas horas que conversavam como duas pessoas que se encontravam pela primeira vez. Harte estava de tal modo impressionado com ela que no a queria perder, fosse 
qual fosse a personalidade que adotasse quando voltasse para as minas. Sabia que a rapariga que tinha diante de si ficaria escondida dentro dela, e ele no queria 
esquecer a viso que, nessa noite, desfrutara dela. Sabrina no dissera nada de especial durante a conversa, mas o seu modo de olhar tocara fundo no corao de Harte. 
Havia nela algo de Matilda, mas esta no era to bonita nem to inteligente como Sabrina. Impressionava-o o fato de aquela rapariga, aos vinte e um anos, dirigir 
uma das maiores minas do pas. A personalidade multifacetada da jovem deixara-o fascinado, mas, com muita pena sua, teve de se ir embora. Depois de fechar a porta, 
Sabrina ouviu arrancar o automvel e sentiu uma agitao na alma que nunca sentira at ento. No outro dia, enquanto descansava no jardim, ainda via o olhar de Harte 
e escutava as suas palavras num estado de verdadeiro xtase. Nessa noite, ia apanhar o barco a vapor para Napa, e achou ridcula aquela fixao em Harte. Vira-o 
dezenas de vezes, inclusive em pequena, durante trs anos detestara-o, e de repente... no conseguia tir-lo da cabea. Havia nele uma sutil energia, uma fora, 
um ardor que lhe infundia segurana. E agora dava-se conta de que no era a primeira vez que experimentava aquela sensao, mas estivera extremamente ocupada e demasiado 
irritada com ele para lhe prestar ateno. No entanto, era ridculo estar sempre a pensar em Harte. Este no lhe saiu da cabea durante toda a tarde, durante a viagem 
de barco para o Norte, enquanto se dirigia para casa no automvel e enquanto conduzia, no dia seguinte, a caminho das minas. Harte tambm no conseguira deixar de 
pensar em Sabrina. Mas, quando chegou  mina, Dan deu-lhe uma desagradvel notcia, a mesma que ela descobriu ao entrar no escritrio e ao olhar para o quadro negro 
que se encontrava por cima da secretria. Houvera uma exploso no fundo da mina. A galeria no sofrera grandes danos, mas haviam perecido mais de trinta homens. 
Trinta e um, mais exatamente, como referiu, com ar pesaroso, a Harte, no dia seguinte, quando este foi visit-la.
       - Pelo menos, podiam ter-me enviado um telegrama. No me disseram absolutamente nada. E, entretanto, l andava eu, feita tonta, com flores no cabelo. - Tinha 
os olhos vermelhos e estava furiosa consigo mesma.
       - Voc tem direito a algo mais do que isto na vida. Eles vo para casa ao fim do dia. Tm mulher e filhos, e embebedam-se quando lhes d na real gana. E que 
diabo faz voc entretanto. - Harte estava revoltado por ela ser to severa com ela prpria.
       - Sou responsvel por todos eles - gritou-lhe Sabrina. Harte agarrou-a pelo brao.
       - Tambm  responsvel por si, Sabrina! - Era a primeira vez que a chamava pelo primeiro nome, e a rapariga no desgostou de ouvir o seu nome nos lbios de 
Harte. Tem de ser mais dona de si mesma do que deste monto de porcaria. Percebe, sua cabea dura.
       Sabrina sorriu. Algo estranho lhes acontecera durante as poucas horas passadas na Manso Thurston. Ao fim de vrios anos, haviam-se tornado amigos.
       Os olhos dela voltaram a entristecer-se.
       - O que percebo  que trinta e um dos meus homens morreram. E eu no estava c.
       - A sua presena teria alterado alguma coisa?
       - Teria podido alterar a atitude dos outros relativamente a mim. - Mas sabia que no era verdade. Nada mudaria a idia que tinham dela, e, em vez de lho dizer, 
Harte limitou-se a abanar a cabea.
       - J lhes deu mais do que aquilo que eles merecem. Deu-lhes trs anos da sua vida, muito mais do que se pode exigir a uma pessoa que est na sua situao. 
Por amor de Deus! Fiz a mesma coisa, mas sei que nunca iro agradecer-me. Quando eu morrer... tanto se lhes d. - Sabrina sabia que no era verdade. No se esquecera 
das filas de homens em posio de respeito quando ela chegara com o corpo do pai.
       A rapariga falou com uma voz triste e suave.
       - Eles lembram-se.
       Os olhos de Harte encontraram os dela e assim se mantiveram durante alguns instantes.
       - Nessa altura,  demasiado tarde. Quem  que se importar com isso? O seu pai estava-se nas tintas para isso. - Recordou. - Isso no significava nada para 
ele. Sabe qual era a coisa com que ele se preocupava mais no mundo? Com voc. Deveria refletir nisso. Voc era tudo para ele. - Harte sentiu um n na garganta. Do 
mesmo modo que os meus filhos significavam tudo para mim.
       Sabrina olhou para ele com ar compadecido.
       - Foi por isso que no voltou a casar-se? Por causa deles?
       Harte no o negou. Queria ser honesto com ela. Gostava demasiado dela para no o ser.
       - Foi. - Sabia que Sabrina devia ter ouvido falar de Lua da Primavera, mas no queria discutir esse assunto com ela. Era uma questo de moral, e ele respeitava-a. 
- Fiz o possvel para no me preocupar muito com a minha viuvez. S procurei ter uma vida descansada. No teria conseguido passar pela tragdia de perder algum 
amado. - Os olhos umedeceram-se ao recordar o triste acontecimento. H vinte e trs anos que Matilda, Jane e Barnaby haviam morrido.
       - Creio que o mesmo aconteceu com o meu pai depois da morte da primeira noiva.  o que a Hannah diz. Esteve dezoito anos para se casar.
       - E eu parece-me que nem sequer chegarei a faz-lo. - Harte olhou-a com ar srio. - Mas, pelo menos, tive o prazer de criar uma famlia. Voc no a tem, nem 
a ter, se continuar aqui fechada.
       Sabrina olhou-o, irritada
       - Est a tentar falar-me das minas outra vez?
       - No, de modo nenhum, bolas! Mas estou a tentar dizer-lhe algo que  muito importante para si, pelo menos, deveria ser. No d a esta gente a nica coisa 
que tem, Sabrina. Nunca lha devolvero. D-a a algum que merea... - Sentiu de novo um n na garganta, sem saber muito bem por que. - D-a a algum que ame... Encontre 
algum que ame. V gozar a sua bela manso de So Francisco, viva a sua vida. No era isto que o seu pai quereria para si. No  justo
       Sabrina sentiu-se sensibilizada, tanto pelo olhar sincero daquele homem como por aquilo que ele lhe acabava de dizer. Fez um ligeiro gesto afirmativo com 
a cabea, depois, foi ver os seus homens com o eco das palavras de Harte a ressoar nos ouvidos.
       
      24
       
       Um dos piores incndios da histria da indstria mineira foi o das Minas Harte, em agosto de 1909. Os danos provocados pelo fogo durante os cinco dias em 
que aquele inferno devorou tudo quanto apanhou pela frente eram indescritveis. Muitos homens foram retirados do sinistro gravemente queimados, e no houve maneira 
de salvar muitos outros. A temperatura no interior das galerias era to elevada que as equipes de salvamento se viam obrigadas a recuar de cada vez que tentavam 
chegar at aos mineiros aprisionados. Durante cinco dias, John Harte fez tudo o que pde para os resgatar. Recebeu graves queimaduras nas mos e nas costas, mas 
conseguiu salvar mais de vinte pessoalmente. Ao fim do segundo dia, Sabrina Thurston apareceu. Trabalhou ao lado dos homens de Harte, juntamente com as equipes de 
salvamento de outras cidades e os mdicos que havia nas redondezas, e de Lua da Primavera, que aplicava ungentos e emplastros nas queimaduras. Foram cinco dias 
interminveis e angustiantes e quando, finalmente, as chamas se extinguiram, estavam todos esgotados devido s longas horas que haviam passado sem dormir. As equipes 
de salvamento comearam ento a preparar-se para abandonar o local. O ltimo dos feridos fora resgatado, e j no havia qualquer morto no interior da mina sinistrada. 
Sabrina sentou-se num tronco meio carbonizado, com a cara toda mascarrada e uma mo com queimaduras de alguma gravidade que fizera ao ajudar a apagar as chamas das 
costas de um mineiro, e olhou com ar exausto para John Harte quando ele se aproximou. Tinha os olhos to vermelhos que mal conseguiu distinguir o sorriso que bailava 
no rosto enegrecido de Harte.
       - Jamais poderei agradecer-lhe o que fez. 
       - Voc faria a mesma coisa por mim, John, no faria? 
       Ele assentiu com a cabea. Ambos sabiam que o teria feito. Sabrina mandara centenas dos seus homens em auxlio. No houvera o menor protesto da parte deles. 
Nos momentos de aflio, estavam sempre dispostos a ajudar os seus irmos, e responderam de imediato ao apelo de Sabrina. Haviam aparecido aos magotes, e agora, 
juntamente com os outros, preparavam-se para partir.
       - Os seus homens foram maravilhosos.
       Lua da Primavera tambm fora maravilhosa. Era uma boa conhecedora da natureza humana. Observara a atitude de Sabrina enquanto ia de um ferido para outro, 
e no escapara  sua argcia que algo estava a nascer entre a jovem e John, algo que nem eles prprios compreendiam ainda. Mas a ndia tivera ocasio de ver, mais 
de uma vez, como eles se olhavam, com uma ternura que Lua da Primavera atribua aos primeiros rebentos do amor, e teve o pressentimento de que no tardariam a crescer. 
E no era em Lua da Primavera que John pensava naquele momento. Virou-se para Sabrina com ar preocupado.
       - V para casa descansar, pequena. Passarei por l mais tarde. Quero ver se essa mo est melhor. - Harte olhou de novo para a mo.
       Sabrina esboou um sorriso cansado. Aquele homem parecia inesgotvel. H cinco dias que no tinha um momento de descanso. Sabrina fora uma vez a casa tomar 
banho e mudar as roupas impregnadas de fuligem, cinza e fumo. Ainda se notava um cheiro a queimado nas roupas, na pele e nos cabelos, pelo que ansiava chegar a casa 
para tomar um banho. A perspectiva de se estender entre os lenis lavados da cama era irresistvel. Mal conseguia manter-se acordada no dorso do cavalo. Todavia, 
no parou de pensar em Harte durante todo o caminho. Era um homem extraordinrio. Tinha quarenta e nove anos, mas era tambm um dos homens mais bem-parecidos que 
ela alguma vez vira. Quando, naquela tarde, se meteu na cama, quase a arrastar-se, sentiu uma inexplicvel inveja de Lua da Primavera. Ainda estava a sonhar com 
ele ao anoitecer, quando Hannah bateu com fora  porta do quarto. Sabrina sentou-se na cama, o rosto quase oculto pelos cabelos desgrenhados, e olhou com os olhos 
semicerrados para a velha governanta.
       - O fogo reacendeu-se? - Estivera a sonhar com o fogo, John Harte, Lua da Primavera e todos os homens feridos, mas Hannah abanou a cabea. Tambm parecia 
cansada. Tivera de cozinhar para os homens durante vrios dias seguidos e praticamente no pregara olho.
       - O John Harte est l em baixo. Disse que veio ver como est a tua mo. Disse-lhe que estavas a dormir, ento, pediu-me que viesse dar uma olhadela. - Observou 
a mo da rapariga e pareceu-lhe que estava com bom aspecto. Achava engraado o fato de aquele homem se preocupar tanto por causa de uma queimadura to pequena. A 
que ela fizera na cozinha era muito mais sria. De repente, comeou a questionar-se das razes da vinda de John Harte. No o tinha em muito boa conta. H anos que 
vivia com a rapariga ndia. E no ia comear agora a arrastar a asa a Sabrina... No, provavelmente era mais outro dos seus truques para a fazer vender-lhe as minas. 
- Queres que lhe diga que ests bem?
       Sabrina abanou a cabea, saltou da cama e, depois de vestir o robe que tinha em cima de uma cadeira, desceu as escadas a correr e dirigiu-se para a sala principal, 
onde Harte se encontrava. Estava com ar esgotado, mas o rosto iluminou-se ao v-la chegar.
       - Sente-se bem, Sabrina?
       - Estou tima. Quer beber alguma coisa?
       Harte comeou por abanar a cabea, mas mudou de idias.
       - Talvez no me fizesse mal um trago de algo forte para me reanimar o espinhao.
       A expresso fez sorrir Sabrina, que encheu um copo de usque e ofereceu-lho.
       - Em vez de andar por a a tentar "reanimar o espinhao", devia ir dormir.
       - Tenho muito que fazer. - Era a cano de sempre, que ambos conheciam muito bem.
       - E quem lhe valer se cair do cavalo num recanto qualquer?
       Harte esboou um largo sorriso.
       - Parece que est a querer-me dar as mesmas lies de moral que lhe dou a si.
       - Ai, pois estou... - Sabrina sorriu. De repente, pensou nos homens que haviam morrido. Era o maior desastre a que ela alguma vez assistira, mas haviam salvo 
um bom nmero de mineiros. - Quem me dera ter salvo muitos mais, John - disse, levantando o olhar para ele, mas Harte abanou a cabea.
       - Foi impossvel, Sabrina. Tentamos, todos... - Mas as condies em que a operao de salvamento decorrera haviam sido insuportveis para qualquer ser humano 
e, alm disso, os gases e o fumo acumulados nas galerias tinha provocado rapidamente vrias mortes. As exploses eram incrveis.
       - Tivemos a sorte de no perdermos mais homens. Dou graas a Deus por isso.
       Sabrina sentia muita pena de Harte. Ento, de repente, teve uma idia divertida e virou-se para ele.
       - John, j teve o seu quinho de problemas. Porque no me vende as minas? - perguntou Sabrina para o provocar. Era exatamente o tipo de coisa que ele lhe 
teria dito um ano antes.
       - Tenho uma idia melhor - respondeu, com um sorriso estranho. - Porque no se casa comigo?
       O corao de Sabrina parou. Ele s podia estar a brincar. Ela sabia disso, mas era uma sensao estranha ouvi-lo articular aquelas palavras... e, antes que 
ela pudesse responder, Harte beijou-a suavemente nos lbios. Era o primeiro beijo que recebia de um homem e, quando ele a estreitou entre os braos, Sabrina sentiu 
todo o corpo a derreter-se. Quando Harte a soltou, teve a sensao de que transcorrera uma eternidade. Olhou para ele, pasmada e, antes que tivesse tempo de reagir, 
Harte voltou a beij-la. Ela empurrou-o ento suavemente e, depois de recuperar o alento, fitou-o durante alguns instantes.
       - O fumo no o ter afetado?
       -  possvel. - Harte riu-se e voltou a beij-la Desta vez, quase a levantou no ar, fazendo com que o robe subisse e pusesse  mostra os bonitos tornozelos 
e os graciosos ps de Sabrina.
       - Que est a fazer, John Harte? - Aquilo teria realmente acontecido? Tinha uma amante ndia com quem vivia, e agora estava a fazer-lhe uma proposta de casamento. 
S podia estar a brincar; mas o olhar que ele exibia dizia que falara a srio. Ento, como de costume, Sabrina foi direta  questo.
       - E Lua da Primavera?
       Harte pareceu vacilar ligeiramente, mas os seus olhos no se apartaram dos de Sabrina. H dias que pensava nisso. Lua da Primavera conhecia muito bem o homem 
com quem vivia.
       -  uma questo sobre a qual teria preferido no ter de falar. Mas tem o direito de saber a verdade. Esta primavera, depois do nosso encontro em So Francisco 
e de eu comear a visit-la, pedi  Lua da Primavera que se mudasse para outro lado. Agora, vive sozinha perto das minas, e voltar para junto do seu povo no Dakota 
do Sul, no final deste ms. Eu estava  espera que ela partisse para lhe fazer este pedido de casamento mas, depois de partilhar consigo estes ltimos cinco dias, 
j no conseguia agentar mais. S desejava tom-la entre os meus braos e afast-la de todos os perigos E esta noite bem, no consigo viver sem voc. - Os olhos 
umedeceram-se, e Sabrina perguntou-se se seria por causa do fumo. - Nunca pensei voltar a fazer uma coisa destas. Nunca quis voltar a abrir o corao depois da morte 
da Matilda. - Olhou-a e, por instantes, interps-se entre eles a lembrana da esposa e dos filhos perdidos, mas continuou a falar com voz suave. - Aquilo aconteceu 
h vinte e trs anos, Sabrina, no posso fechar o corao por causa deles, e a Lua da Primavera foi muito boa para mim ao longo destes ltimos anos, mas a vida no 
se pode resumir a isso. - Exatamente o que Jeremiah descobrira, tambm h vinte e trs anos, quando conhecera Camille e abandonara Mary Ellen Browne. Sabrina ainda 
no respondera a John. Fitava-o, incrdula. - A Lua da Primavera  muito compreensiva.
       Nessa tarde, antes de ir pedir Sabrina em casamento, tivera uma conversa triste e franca com Lua da Primavera. Enalteceu os anos que partilhara com ela e 
quis que fosse a primeira a saber da novidade. Choraram os dois, mas Harte sabia que o que sentia por Sabrina era amor verdadeiro, e Lua da Primavera tinha tambm 
plena conscincia disso. Adorava-o o suficiente para lhe desejar o melhor para ele e para no lutar contra o destino.
       - Por que razo  que quer casar comigo? - Sabrina continuava com um ar de espanto estampado no rosto. De repente, pensou nas minas. Precisamente agora que 
a mina de Harte ficara meio destruda, mas afastou a idia da cabea. - No sei que dizer... Como  possvel que eu... E se...
       Harte imaginou todas as perguntas que fervilhavam naquele momento na cabea da rapariga e, suavemente, puxou-a para si.
       - Eu posso encarregar-me da direo das suas minas, ou, se fosse esse o seu desejo, pode continuar a dirigi-las pessoalmente. No quero interpor-me no seu 
caminho, nem desejo tirar-lhe nada. As Minas Thurston sero suas at  morte, tal como me disse mais de uma vez. Nunca mais voltarei a tentar alterar essa situao. 
O que quero  algo muito mais importante do que as suas minas, Sabrina. - Baixou os olhos para ela e voltou a abra-la. Ainda cheiravam a fumo, mas nenhum dos dois 
se importou com esse pormenor. -  a ti que eu quero, meu amor. S isso, at ao fim da vida. Talvez seja demasiado velho para ti, e sei que mereces algo melhor. 
S posso dizer-te que tudo o que tenho  teu, Sabrina Thurston. As minhas terras, as minhas minas, a minha alma... a minha vida...
       Harte olhou-a fixamente, e os olhos de Sabrina inundaram-se de lgrimas. E ento foi ela quem o beijou. A barba sabia a fumo, mas isso no tinha a menor importncia. 
Desatou a rir e, mal conseguindo articular as palavras, disse:
       - Sempre te tive por meu inimigo... e agora...  o que vs...
       Harte devolveu-lhe o beijo e estreitou-a de novo entre os braos, no preciso momento em que Hannah entrava na sala com uma bandeja com ch e bolachas na mo. 
E lanou um olhar furioso a John Harte e Sabrina.
       - Agradeo que, nesta casa, se comportem como deve ser, Sabrina. - E, de dedo em riste, acrescentou. - No me importo que dirijas uma mina sozinha e que mandes 
em quinhentos homens, mas, nesta casa, ters de te comportar como uma dama, e com um pouco de dignidade.
       - Muito bem, minha senhora. Deverei seguir essas normas mesmo depois de casada? - Sabrina fitou angelicalmente a velha ama, mas Hannah no deu o brao a torcer.
       - Quando estiveres casada, poders fazer o que te d na gana, mas entretanto... - De repente, fez uma pausa e olhou-os com ar surpreendido. - O qu?
       Harte, radiante de felicidade, fez um gesto afirmativo com a cabea, o que levou a velhota a soltar um grito prolongado e estridente, enquanto Sabrina a rodeava 
com os braos e ele as abraava s duas. Ento, de repente, Hannah recuou e fitou Harte.
       E a rapariga ndia? - Harte corou e riu-se
       - Estou encantado com tanta discrio  minha volta.
       - Deixe-se de brincadeiras. Se pensa que a vai manter por perto depois de se ter casado com a minha menina.
       Sabrina, emocionada por Hannah a ter tratado por menina, riu-se e respondeu por John.
       - Parte para o Dakota do Sul a semana que vem.
       - No to depressa como seria desejvel. Para mim, dez anos  muito tempo. - E de novo com as mos nas ancas, sorriu. - Nunca pensei assistir a este dia. 
Perdi a esperana quando comeaste a dirigir aquela maldita mina.
       - Agora, tambm vais dirigir a minha. - Sabrina riu-se, e Hannah soltou novo grito.
       - No far semelhante coisa! Ficar em casa comigo a criar os vossos filhos, John Harte. No quero ouvir falar mais de minas por estes lados!
       - Que dizes a isso? - sussurrou ele  futura esposa. Esta sorriu e respondeu-lhe no mesmo tom:
       - Veremos. Talvez seja melhor que as dirijas tu. - Essas palavras eram uma incrvel mudana de atitude por parte de Sabrina. Nem ela prpria acreditava no 
que acabava de dizer. Disporia de mais tempo para cuidar dos vinhedos. Mas, na realidade, a idia de Hannah era a que mais gostava: ficar em casa a criar os filhos. 
Que idia perturbadora! - John leu no olhar de Sabrina o que ela estava a pensar e inclinou-se para a beijar nos lbios.
       - Tudo a seu tempo, meu amor Tudo a seu tempo.
       
      25
       
       John no tinha ningum a quem pudesse fazer o pedido de casamento. Depois de ele sair, Sabrina e Hannah falaram durante horas, quase como duas irms, e a 
velhota interrompeu vrias vezes a conversa com abraos e soluos. Jeremiah teria adorado v-las assim.
       - Eu j tinha perdido todas as esperanas de que isto pudesse acontecer... Nunca pensei assistir a este dia.
       - Tambm eu no - respondeu Sabrina, com um sorriso de felicidade. Todavia, ainda sentiu um arrepio de medo percorrer-lhe a espinha. Esperava estar a fazer 
aquilo que devia. Estava certa de que sim, mas era um enorme passo, e tinha de resolver tantas coisas relativamente s minas... Havia, naturalmente, a possibilidade 
de fundir as duas companhias, mas Sabrina no queria faz-lo. Queria manter todos os seus negcios separados dos de John Harte. Casaria com ele, mas no misturaria 
os seus bens com os do marido. Por outro lado, se ele dirigisse as minas por ela, como ele dissera que poderia fazer, Sabrina ficaria com muito mais tempo para se 
dedicar aos vinhedos, coisa a que aspirava h muito tempo.
       - No achas que podias ficar em casa a costurar? - gracejou John, um dia, quando se encontravam sentados no alpendre. Estivera  espera que Sabrina chegasse 
no dorso do seu velho cavalo.
       - Onde  que vamos viver? - Sabrina estivera a pensar no assunto. No lhe agradava muito a perspectiva de ter de viver na casa onde haviam morrido a esposa 
e os filhos de John e onde ele vivera durante mais de dez anos com Lua da Primavera. A ndia partiria para o Dakota do Sul da a alguns dias, e Sabrina teve o cuidado 
de no abordar esse assunto. No queria ser indelicada com ele. Todavia, ainda no haviam resolvido onde  que iriam viver, e ela no sabia se John gostaria de viver 
na casa da mulher com quem casava. - E se ficssemos a viver aqui?
       John, depois de refletir durante alguns instantes, enquanto passava a mo pela barba, respondeu:
       - J sou demasiado velho para ir viver na casa de outro homem, Sabrina. A tua casa sempre me pareceria a casa do teu pai. 
       Sabrina concordou com a cabea. Compreendia as suas razes, mas era um assunto de difcil resoluo. John olhou-a, ento, com o sorriso infantil. Apesar de 
ter mais vinte e oito anos que Sabrina, esta achava-o muito mais novo. 
       - E se fssemos viver na Manso Thurston? Seria estupendo, no achas? - Naquele instante, John parecia um mido travesso. Sabrina riu-se. A casa era sua, 
mas ningum vivia nela h muito tempo. Seria como ir viver para um terreno neutro..
       - Seria estupendo. E as minas? - J para no falar dos vinhedos.
       - Acho que poderamos conciliar as coisas. Ao fim e ao cabo, no teramos de viver sempre na cidade. Mas ser uma boa mudana para os dois. - esboou um sorriso 
malicioso, - logo que tenha as tuas minas de novo organizadas. S Deus sabe as asneiras que cometeste.
       Sabrina simulou que lhe ia dar uma bofetada, e ele riu-se. John j vira alguns dos livros de contas da rapariga e ficara surpreendido com a forma impecvel 
como ela dirigia o negcio. Perguntou-se como  que Sabrina conseguira aprender tanta coisa. Havia, inclusive, alguns pormenores que ele podia aprender com ela, 
apesar de depois de vinte e sete anos a dirigir as suas prprias minas o pudesse fazer quase de olhos fechados. Ficara deveras impressionado com ela.
       - Efetivamente, no s uma gestora medocre, pequena. - Inclinou-se para a frente, beijou-a na face, tomou uma mo na sua, e Sabrina encostou-se a ele, ao 
ar da noite. Ela nunca imaginara que pudesse apaixonar-se por aquele homem. De repente, ali estava ele, e ela tinha a sensao de que nascera para ele.
       Mais tarde, depois do jantar, Sabrina trouxe  baila a questo de Dan.
       - J pensei nisso. - John franziu o sobrolho. - No posso negar o fato de que esse homem  bom naquilo que faz. Mas no o quero perto de ti. - Olhou-a com 
ar infeliz.
       -  muito importante para ti, John?
       - Muito menos importante do que tu, meu amor. - Baixou os olhos para ela, maravilhado com a intensidade dos sentimentos que Sabrina despertara nele. Acontecera 
tudo de forma to inesperada, ao fim de tantos anos. E tanta certeza que ele tivera de que nunca mais sentiria o que estava a sentir... - Vou despedi-lo.
       -Tens a certeza de que  isso mesmo que queres fazer?
       - Tenho. - A voz era firme. - No sou obrigado a dar-lhe satisfaes. E tambm no est ao meu servio assim h tanto tempo. - Havia trs anos que abandonara 
as Minas Thurston, e trabalhara afincadamente para John desde ento, mas este no podia mant-lo por mais tempo. - Comunico-lhe a dispensa na semana que vem.
       Sabrina franziu o sobrolho e olhou para John.
       - Vai ser um rude golpe para ele.
       - Deveria ter pensado nisso h muito tempo, quando te fez passar aquele mau bocado.
       Sabrina riu-se.
       - O engraado  que tudo comeou quando o Dan tentou convencer-me a vender-te as minas. E agora, em vez disso, vou casar-me contigo. - O que ambos sabiam 
no era a mesma coisa. - O que o Dan sempre desejou foi ficar  frente das minas, sem o meu pai ou eu por perto.
       - Eu tambm no lhe dei tanta liberdade de ao como ele queria. No sou esse tipo de homem. J estou  frente da mina h muito tempo.
       Sabrina compreendia-o perfeitamente. Pensava o mesmo relativamente s minas apesar de s h trs anos cuidar delas. Gostava de fazer tudo sozinha e  sua 
maneira, e no lhe seria fcil passar as rdeas para as mos de John Mas confiava nele, e sabia que, com o tempo, a sua confiana iria aumentar. J haviam acordado 
que, durante os seis primeiros meses, Sabrina trabalharia em part-time. Mostraria a John os mtodos que utilizava e apresent-lo-ia aos seus homens. No ia abandonar 
tudo de repente. No podia faz-lo. Entretanto, John comearia a alternar o seu trabalho entre as Minas Thurston e as suas. Sabia que o plano daria resultado.
       - E quando as coisas estiverem encaminhadas, queres ficar na Manso Thurston?
       Sabrina no compreendia como  que teriam tempo para deixar Napa, mas John dizia com insistncia que poderiam faz-lo. E quando ele a beijou nessa noite, 
ao despedir-se dela no alpendre, estava segura de que John era capaz de conseguir tudo.
       Os estragos provocados pelo fogo nas Minas Harte levaram vrias semanas a reparar. Todos os homens tiveram de fazer horas suplementares, e at Lua da Primavera 
resolveu ficar mais umas semanas. Durante esse perodo, a ndia comportou-se com a maior discrio, pareceu aceitar o seu destino, convencida de que a sua relao 
com John Harte chegara ao fim. Quando se cruzavam, nunca dizia nada a Sabrina, nem esta dava a menor mostra de hostilidade. Havia uma espcie de fascnio entre elas, 
e ambas faziam o possvel por se ignorar. Mas a questo ficou definitivamente resolvida quando, um dia, John tirou Sabrina do stio onde estava a prestar ajuda. 
Causava-lhe uma extraordinria intranqilidade v-las constantemente perto uma da outra.
       - Quero que te mantenhas longe dela - disse John em tom de repreenso.
       Sabrina, algo tmida, respondeu:
       -  muito bonita. Sempre tive esta opinio. Julgo que o meu pai tambm achava o mesmo.
       John sobressaltou-se ao ouvir aquelas palavras.
       - Disse-te alguma coisa?
       Sabrina deixou-se rir e abanou a cabea.
       - No. Uma vez, tentei perguntar-lhe, mas no quis falar disso. Disse que era um assunto que no iria discutir comigo.
       - Fez o que devia. - John corou at  raiz dos cabelos e olhou para ela. Ento, disse algo que no devia dizer. No queria falar de Lua da Primavera, muito 
menos com Sabrina. - s muito mais bonita do que ela, pequena.
       - Como podes dizer semelhante coisa? Parecia chocada.  a mulher mais bonita que alguma vez vi.
       John abanou a cabea e aproximou-se dela.
       - No, meu amor, tu  que s.
       Sabrina era, inclusive, mais bonita do que a primeira esposa de John. Aqueles cabelos negros e os enormes olhos azuis deixavam John completamente deslumbrado. 
Um ao lado do outro, ele, com os seus ombros largos, os cabelos ainda escuros, os olhos cintilantes e a barba proeminente, ela, com a sua beleza sem artifcios, 
formavam um casal simptico. John mal podia esperar pelo dia do casamento. Haviam comeado a comunicar o compromisso aos amigos, e Hannah espalhara a notcia por 
toda a cidade. Quando, finalmente, o assunto chegou aos ouvidos dos mineiros, aos dele primeiro e aos dela depois, no se falou de outra coisa nas minas, sobretudo 
nas Minas Thurston, onde se interrogavam sobre as conseqncias que teria para eles aquele enlace matrimonial. Mas houve tambm outro homem que se perguntou o mesmo 
quando tomou conhecimento da novidade. E no tardou a saber o que lhe reservava o destino. Teve um verdadeiro ataque de fria quando Harte lhe comunicou que no 
podia continuar ao seu servio. Este no lhe disse por que razo o despedia, mas para Dan Richfield no havia qualquer dvida sobre o motivo do sua demisso. Outra 
jogada de Sabrina. Mas desta vez ela iria ter o que merecia. John Harte concedera-lhe duas semanas para se organizar e fazer as malas, e Dan sabia que teria de deixar 
a cidade, porque, nas redondezas, no havia outras minas a no ser as de Harte e as de Sabrina. H muito tempo que as minas de prata de Napa haviam ficado esgotadas, 
e no havia ali nenhuma mina que no estivesse controlada por Sabrina ou John. Dan no sabia para onde ir. J fizera trinta e sete anos, e nenhum dos filhos tinha 
idade suficiente para se fazer  vida. No queria lev-los consigo, de modo que pensava deix-los em Santa Helena em casa de amigos. Mas no era nos filhos que pensava 
agora, enquanto andava de bar em bar e contava aos outros mineiros o que, segundo ele, se rumorejava:
       - Ela j dormia com ele h algum tempo e no estranharia que formassem um trio com a ndia do Harte. Reparem que ela ainda no se foi embora. - Ao fim de 
uma semana, todas as minas buliam de comentrios sobre as indecncias que Dan espalhara.
       Um dia, ao ver sair Dan da mina, John Harte agarrou-o pelos colarinhos da camisa.
       - Tens andado a falar da minha futura esposa? - Sabrina ainda estava atulhada de trabalho, mais do que de costume, porque ia casar-se dentro de dois meses 
e queria deixar tudo preparado para passar as rdeas a John. Isso contribuiu para que, durante aqueles dias, se vissem muito pouco. Dan Richfield, que tresandava 
a usque, no pareceu assustar-se perante o gesto de Harte, um homem muito mais forte e corpulento que ele.
       - No  nada que no saiba j, Mister Harte. Ela sempre me tratou muito mal.
       - No foi isso que ouvi. 
       - Ou que quis acreditar.
       Dan Richfield estava a ser insolente. Por instantes, John Harte ficou sem saber o que fazer. Ento, com um gesto brusco, mandou-o embora.
       - Desaparece daqui para fora, Dan. Recordo-te que s tens mais dois dias.
       - Vou-me embora nessa altura.
       John ficou satisfeito por t-lo demitido. Nunca se dera conta de que ele bebia demasiado.
       - Para onde  que vais?
       - Para o Texas. Tenho l um amigo que  dono de um rancho e alguns poos de petrleo. Far-me- bem sair destas minas asquerosas. - Olhou por sobre o ombro 
para a mina onde trabalhara durante mais de trs anos.
       - Levas os midos? - Richfield encolheu os ombros, e John olhou-o com ar duro. - Bem, v l se desapareces daqui o mais depressa possvel. - No nutria qualquer 
amizade por aquele homem. Era evidente o dio que Dan tinha por Sabrina, e John queria v-lo bem longe dali. Agora, tinha muito que fazer, pelo que deixou de pensar 
em Dan para ir tratar da papelada que o esperava em cima da secretria e que ainda lhe iria roubar muito tempo.
       E o mesmo fez Sabrina nessa tarde, nas Minas Thurston, at quase s sete da noite. Ento, em pnico, olhou para o relgio. Prometera a John que iria jantar 
com ele. Ainda achava estranho a volta que a sua vida dera. Agora, havia sempre algum  sua espera ao fim do dia, algum a quem confiar os seus problemas, algum 
com quem partilhar os seus xitos; um homem que era meigo com ela quando estava cansada, que lhe acariciava o pescoo, que a beijava, e que lhe contava, por sua 
vez, as incidncias do seu dia. No compreendia por que razo  que resistira durante tanto tempo quela nova forma de vida. Nunca acreditara que chegasse a casar-se 
algum dia, e evitara John porque pensava que ele s andava atrs das suas minas. Mas, agora, j no tinha de temer nada a esse respeito. O plano que ele lhe apresentara 
sobre a maneira de conduzir os negcios de ambos parecia-lhe perfeito. Ele dirigiria as Minas Thurston, mas estas continuariam a pertencer-lhe. John nem sequer lhe 
sugerira a fuso das duas companhias. Conhecia bastante bem o apego que Sabrina tinha pelas minas. Talvez um dia ela mudasse de opinio, mas, entretanto, respeitava 
as suas opinies, fossem elas quais fossem. A ele, apenas Sabrina lhe interessava, e esta sabia-o bem. Ao saltar para a sela, Sabrina s tinha John no pensamento. 
Galopou a toda a velocidade atravs da noite, tomando os atalhos que conhecia. Passou, veloz, diante da sua prpria casa e, em pouco menos que nada, chegou s minas 
do seu amado Mas, precisamente quando acabava de deixar para trs o poo principal, o cavalo perdeu uma ferradura.
       - Bolas. - J ia um pouco atrasada e, agora, para piorar a situao, tinha de desmontar, pois no podia continuar com o cavalo a coxear. Ainda pensou deix-lo 
preso a uma rvore, mas receava que algum pudesse roub-lo, de modo que optou pela soluo de andar com ele o resto do caminho at chegar a casa de John e prend-lo. 
Para regressar, ele poderia lev-la no seu elegante automvel ou emprestar-lhe um cavalo. Adorava andar de carro ao lado dele. Gostava de tudo o que aquela futura 
vida partilhada lhe oferecia.
       - Precisas de carona? - Sabrina estremeceu ao ouvir uma voz procedente de detrs de uma rvore. Pouco depois, apareceu Dan Richfield, ligeiramente bbado 
e o olhar lascivo e trocista. Ou queres que te leve o cavalo s costas.
       Era um comentrio atrevido, mas Sabrina fingiu no perceber. No queria dar-lhe confiana. Sabia que ele se ia embora dentro de um ou dois dias, e at agora 
tinha-o evitado com sucesso. No fazia sentido enfrent-lo naquele momento
       - Ol, Dan
       - No me venhas agora com finuras, sua pega. - Pelo menos, no fingia ter mudado de opinio acerca dela. Sabrina fitou-o e puxou o cavalo, tentando continuar 
o seu caminho, mas ele seguiu-a. Reparou que ele no tinha nem cavalo nem carro. Provavelmente, estivera sentado, atrs de uma rvore, a beber.
       - Porque no segues o teu caminho, Dan? J no temos nada para dizer um ao outro. - Sabrina dificilmente conseguia acreditar que conhecia aquele homem desde 
sempre. Era incrvel que se tivesse tornado to malvado e desleal. Ainda bem que o pai no vivera o suficiente para assistir quilo em que ele se transformara. Queria 
mant-lo  distncia, e procurava no voltar-lhe as costas nem por um instante.
       - Voltei a perder o emprego por tua culpa, sua cabra!
       - No perdeste nada por minha culpa.
       Sabrina j no era a rapariguinha ingnua de outros tempos. A voz era dura, como muitas vezes acontecia quando falava com os mineiros. Aprendera a lio h 
muito tempo, na altura em que grande parte deles a abandonara. Agora, nunca os tratava como amigos. Eram mineiros que trabalhavam para ela, nada mais. Pagava-lhes 
bem e assumia todas as suas responsabilidades para com eles. Era uma forma de atuar que no estava em consonncia com os seus bons sentimentos. Mas s John conhecia 
aquela sua faceta. Dan ignorava-a. S a conhecera enquanto criana. Mas j era uma mulher. Precisamente a mulher que se voltou para ele para lhe dizer sem rodeios:
       - Tu s o nico culpado de tudo aquilo que perdeste. E perders muito mais se no deixares de beber dessa maneira.
       - Deixa-te de tretas! No  por isso que o Harte me vai pr na rua. E tu sabe-lo to bem como eu. - Tropeou, o que assustou Sabrina e o cavalo.
       A rapariga puxou o freio do cavalo para continuar o seu caminho, mas Dan levantou-se e continuou a segui-la com ar obstinado. Sabrina estava a aproximar-se 
da primeira das cabanas, mas ningum pareceu t-los visto, e ainda faltava um bom bocado para chegar a casa de John. Ansiava que este aparecesse de repente e a livrasse 
de Dan, mas nem ele nem ningum o fez, e Dan continuou a persegui-la quase sem alento.
       - O Harte vai pr-me daqui para fora por culpa tua!
       - No tenho nada a ver com isso.
       Sabrina continuou a avanar, mas Dan alcanou-a e agarrou-a pelo brao com tal fora que quase a deitou ao cho.
       - Tens muito que ver. Sei que tens andado enrolada com ele e a puta ndia... No consigo imaginar como  que... Os trs...
       Sabrina ficou horrorizada e boquiaberta ao ouvir aquelas palavras. Intimamente, era ainda muito jovem.
       - Como te atreves a dizer essas coisas? Que nojo! - Mas Dan apenas se riu e prosseguiu:
       - Que vai ele oferecer-te como presente de casamento, sua pega? A Lua da Primavera?
       - Pra de me insultares dessa maneira. - A voz de Sabrina tremeu ao subir de tom. - E no fales dele nesses termos! Tiveste uma sorte danada pelo fato de 
o John Harte te ter aceite depois de eu te ter despedido! - Os olhos da rapariga chispavam. Dan parecia deliciado com a situao. H trs anos que esperava aquela 
oportunidade.
       - Tu no me despediste. Eu  que sa por minha vontade, com mais trezentos homens.
       - Eles talvez tenham sado por sua vontade, mas tu, por aquilo que me lembro, comportaste-te como um miservel. No precisava de lho recordar. - Dan olhava-a 
sem a menor ponta de remorso. - Porque no te vais embora e me deixas em paz? Isto no faz qualquer sentido, Dan. - No queria continuar a discutir com ele. Aquelas 
recordaes estavam a deix-la amargurada; Dan, porm, mostrava-se determinado a no se ir embora.
       - Por qu? Ests com medo. - Parecia divertido com a situao. Avanou para ela e barrou-lhe o caminho. Sabrina quase caiu para o lado ao sentir o bafo a 
usque que ele exalava.
       - No tenho motivo para estar com medo
       Sabrina optara por dar a impresso de manter a calma, coisa pouco fcil, dado que se encontrava numa parte muito escura e solitria do caminho que ia dar 
a casa de John. No se via vivalma e, de repente, comeou a ficar ligeiramente aflita. Era uma das poucas vezes que no trazia a pistola consigo. Sara  pressa 
do escritrio e deixara-a na secretria.
       - Ai, no? Como  possvel que no estejas com medo, sua pega? Ou  isto que queres?
       Dan agarrou no cinturo como se fizesse tenes de o tirar. E, naquele instante, Sabrina ouviu um leve restolhar entre as rvores. Perguntou-se se seria um 
animal. O cavalo tambm se agitou a seu lado. Mas a rapariga continuou sem desviar os olhos dos de Dan.
       - No me impressionas, Dan. E se no sais da minha frente, passo por cima de ti. - E sorriu. Lembrava-se muito bem da noite em que o afugentara com um disparo, 
e estava certa de que ele no se esquecera disso. Desta vez, no trazia a pistola, mas ele no podia saber. - Meteu a mo no bolso da saia como se tivesse a a arma 
e se preparasse para a empunhar. - O olhar de Dan dirigiu-se para a saia.
       - No me assustas. No tens coragem de disparar de to perto, pois no, pequena? Claro que no!
       E, soltando uma gargalhada, agarrou, de sbito, o brao de Sabrina e tirou-lhe a mo do bolso. Ao comprovar que ela no tinha qualquer arma, empurrou-a violentamente 
contra uma rvore. Dan encostou a cara  da rapariga, que, com o constante roagar do corpo dele sobre a sua saia, sentiu, de sbito, nos ouvidos, as palpitaes 
do corao. Tentou dar uma joelhada nas virilhas do homem, mas este, antecipando-se, agarrou-a pela blusa e deitou-a ao cho. De imediato, ps-se em cima dela. Enquanto 
com uma mo lhe rasgava a blusa e lhe apalpava os seios, com a outra tentava levantar-lhe a saia. Sabrina soltou um grito agudo, mas ele pregou-lhe uma bofetada 
com tanta fora que a ps a sangrar do nariz. A rapariga fulminou-o com o olhar ao sentir a mo do homem entre as pernas e tentou libertar-se rodando sobre si mesma. 
Mas ele voltou a imobiliz-la.
       - Eu j devia ter feito isto h muitos anos, minha grande puta. Fodeste-me tudo aquilo que eu podia ter tido, agora vou eu foder-te... Trabalhei anos a fio 
para o cabro do teu pai, desde puto, e que ganhei em troca?... Sua, sua puta, puseste-te a fazer aquilo que eu sempre quis fazer.
       Sabrina voltou a gritar quando Dan lhe rasgou a saia de alto a baixo e deixou  vista as bragas que Hannah lhe fizera. A rapariga continuava a revolver-se 
na terra, sem deixar de gritar, mas ningum a ouvia, e no conseguia sair de debaixo de Dan. Era incrvel que, j perto do complexo mineiro, estivesse prestes a 
ser violada por um louco completamente bbedo sem que ningum a pudesse ajudar.
       Dan rasgara-lhe j por completo a blusa e conseguira tirar-lhe o espartilho. Os seios jovens e firmes de Sabrina, de mamilos rgidos por causa do ar frio 
da noite e do medo, foram novamente apalpados, enquanto ela tentava defender-se s joelhadas Mas, desta vez, ele agarrou-a pelos cabelos e pressionou-lhe violentamente 
o rosto contra o solo. Rasgou-lhe ento as bragas ao meio, deixando uma abertura mais do que suficiente para ele, e comeou a tirar de novo o cinturo. De repente, 
porm, ficou imvel, como se no estivesse certo de ser aquilo o que queria fazer. Olhou fixamente para Sabrina, soltou-lhe os cabelos e tirou a mo do cinturo, 
sempre com os olhos cravados nos da rapariga. Esta observou-o com olhar incrdulo, sem conseguir compreender o que lhe acontecera. Mas, ao v-lo cair lentamente 
de cabea para o cho e ficar com a cara virada para baixo, Sabrina percebeu por que razo  que ele perdera to de repente o interesse nela. Tinha um punhal de 
aspecto assustador, com uma lmina comprida e larga e o punho de marfim delicadamente cinzelado, cravado nas costas. Atrs dele, de p, encontrava-se Lua da Primavera, 
que olhava para Sabrina em silncio
       - Oh!... - exclamou Sabrina, cobrindo os seios com as mos e levantando-se a custo. Dan estava morto. Verificou isso mesmo pelo olhar que ele exibia. Ficou 
imvel diante da ndia, seminua, com as roupas rasgadas, um p descalo, o rosto banhado em lgrimas, as gotas de sangue que lhe saam do nariz a cair sobre o peito 
desnudado. Lua da Primavera fez-lhe sinal para a seguir. No se aproximara demasiado da trmula rapariga, nem lhe tocara. Os soluos no deixavam falar Sabrina, 
mas Lua da Primavera sabia o que devia fazer. Apanhou a saia rasgada do cho e deu-a  rapariga para que se cobrisse com ela, tomou, ento, as rdeas do cavalo e 
fez-lhe novamente o mesmo sinal.
       - Venha. Est muito frio aqui. Eu levo-a a casa do John. - Sabrina seguiu-a aos tropees, perguntando-se o que aconteceria a Dan no stio onde ficara, o 
que poderiam fazer. Comeava a dar-se conta do que estivera prestes a acontecer-lhe, do que Lua da Primavera fizera e da boa estrela que pusera a ndia no seu caminho. 
Sabrina compreendeu, ento, que o rudo que ouvira atrs de uma rvore fora produzido por ela e no por um animal. O nico animal ali fora Dan. Depois de percorrerem 
um bom trecho do caminho, Lua da Primavera parou num lugar escuro e, virando-se para Sabrina, que tremia da cabea aos ps, disse-lhe:
       - No saia daqui. Vou buscar o John Harte. - Mas Sabrina, ainda assustada pelo que acabava de passar, ps-se a tremer com maior intensidade que antes.
       - No me deixe aqui... No posso... No... Por favor... - Os olhos da ndia eram jovens e selvagens. Ento, estendeu a mo para Sabrina.
       - Ele est ali. - A ndia apontou para uma casa a poucos metros de distncia, mas no queria que nenhum dos homens visse a rapariga. Tencionava trazer John 
at ali, at junto de Sabrina, depois desapareceria para sempre. Lua da Primavera possua, entre outras qualidades, a da discrio.
       - Se algum se aproximar de si, grite. Aqui est segura. - O rosto era to doce, e a voz to meiga.
       Sabrina s queria que os braos bronzeados de John a abraassem e a acarinhassem. Ento, de repente, lembrou-se das coisas que Dan Richfield afirmara e perguntou-se 
se mais algum pensaria aquilo. Comeou a chorar de novo. J no era uma mulher. Agora, no passava de uma menina assustada, e no queria que John a visse naquele 
estado. Deixou-se cair de joelhos no cho, envolta na saia e sem deixar de soluar. Lua da Primavera ajoelhou-se a seu lado.
       - Agora, est segura. Com ele, estar sempre. - Eram palavras fortes. Sabrina olhou para a ndia. Sabia que aquilo que ela dizia era verdade. Lembrou-se, 
ento, de tudo aquilo a que Lua da Primavera se dispunha a abdicar. Parecia impossvel que deixasse John de forma to resignada. - Seja sempre boa com ele.
       Sabrina fitou-a com os seus enormes olhos e, entre soluos, murmurou:
       - Serei. Prometo. - A voz embargou-se-lhe. Fora a noite mais terrvel da sua vida,  exceo, talvez, daquela em que morrera o seu pai. - Sim, serei boa com 
ele... Lamento... que tenha de partir...
       Lua da Primavera levantou uma mo.
       - Chegou a minha hora. Nunca fui esposa dele. S sua amiga. Voc  que ir casar com ele. O John precisa muito de si, pequena. - Era a mesma coisa que John 
lhe chamava. - Voc dar uma boa esposa. Agora, vou busc-lo.
       E antes que Sabrina a pudesse deter, j desaparecera. Pouco depois, ouviu um rudo de passos. Meia dzia de pessoas corriam na sua direo.
       - Parem! Parem, todos! - Sabrina reconheceu a voz de John seguida do sussurro de vrias vozes.
       - Onde?... Muito bem, j podem ir-se embora... Oh, meu Deus..
       Ouviu-se um novo rudo de passos e, de imediato, apareceu John. Sabrina continuava de joelhos, envolta na saia e a tremer. John trazia um cobertor, que Lua 
da Primavera lhe dera antes de indicar o stio onde Dan Richfield se encontrava aos homens, que o foram de imediato procurar.
       - Oh, meu Deus... - A voz de John soou com extrema doura no ar da noite. Sabrina baixou os olhos. No conseguia olhar para ele.
       - No... no... por favor... no... - queria pedir-lhe que no olhasse para ela, mas no foi capaz de articular as palavras adequadas. S conseguia soluar 
agarrada s pernas do homem; e, de repente, teve plena conscincia do que estivera prestes a acontecer. Enquanto as lgrimas lavavam o sangue das faces, John envolveu-a 
no cobertor como se fosse uma criana pequena e pegou-lhe ao colo, aconchegando-a a si como fizera com a sua filha h muitos anos. Levou-a de imediato para casa, 
onde a depositou no sof de couro da sala de estar. Observou as contuses no rosto de Sabrina e o olhar amargurado que ela exibia. Nesse instante, sentiu que se 
Lua da Primavera no tivesse morto Dan Richfield, ele prprio o teria feito. Mas a ndia assegurara-lhe peremptoriamente que a rapariga no chegara a ser violada, 
e John deu graas a Deus por isso. Mas se o punhal no tivesse atingido o seu alvo ou tivesse levado um pouco mais a cravar-se na carne... Estremeceu s de pensar 
nisso, e ajoelhou-se no cho ao lado de Sabrina.
       - Pequena, como pude permitir que te acontecesse uma coisa destas? Nunca mais irs sozinha a parte nenhuma. Prometo. Vou mandar sempre um guarda-costas para 
onde quer que vs. Eu serei o teu guarda-costas... Isto nunca mais voltar a acontecer-te... - Mas a principal razo de aquilo no voltar a acontecer era o fato 
de Dan Richfield j estar morto. Ao que parecia, o punhal atravessara-lhe o corao e Dan tivera morte instantnea. Lua da Primavera demonstrara a sua indiscutvel 
destreza no manejo do punhal.
       - Se no tivesse sido ela... - disse Sabrina, recobrando o alento. Comeou a tomar o ch com usque que John a obrigou a tomar, sem querer pensar na sua figura 
escondida debaixo do cobertor que ele lhe trouxera. Lua da Primavera fora buscar as roupas da rapariga e dera-as a John antes de desaparecer de novo. John fitava-a, 
sentindo-se como se tivesse estado prestes a perder o que mais queria no mundo. - E se Dan a tivesse assassinado? Era um pensamento difcil de suportar. Havia lgrimas 
nos seus olhos quando lhe disse: - Nunca permitirei que volte a acontecer nada semelhante. Nunca. Compreendes? Nunca mais voltarei a perder-te de vista...
       Sabrina estendeu a mo trmula e estreitou a dele na sua.
       - A culpa no foi tua, foi minha. - Sabrina recomeava a recompor-se, mas ainda no estava em condies de se levantar, os joelhos ainda demasiado trmulos. 
- Tratou-se de contas antigas que o Dan tinha comigo. Poderia ter acontecido em qualquer lugar. O que me surpreende  que ele no tenha voltado a procurar-me no 
escritrio. Tinha-me um dio de morte, s isso... E sabes bem que o mesmo esteve prestes a acontecer noutra ocasio... Foi uma sorte no ter acontecido desta vez, 
como o foi o fato de a Lua da Primavera aparecer esta noite. - Lanou ento um olhar inquisitivo a John. - Sabia que, pouco antes, alguns dos homens tinham vindo 
falar-lhe  porta de casa. - Est morto?
       John anuiu com a cabea.
       - Est. O punhal atravessou-lhe o corao.
       - E a ela, que lhe vai acontecer? - Sabia muito bem que o peso da justia podia cair sobre a rapariga. Lua da Primavera matara para a defender. Mas tratava-se 
de uma ndia e a justia podia no fazer caso disso. No entanto, John j previra essa eventualidade.
       Esta noite, partir de comboio para o Dakota do Sul. E o corpo dele ser encontrado amanh... Tinha muito poucos amigos... - As palavras de John eram convincentes, 
e estava certa de que ele no iria ter complicaes com a justia. Confiariam na palavra de John. E, entretanto, o punhal j teria desaparecido. - No tens nada 
que te preocupar. - Sabrina nunca o vira to tranqilo e seguro de si mesmo, o que a fez sentir-se mais protegida do que em qualquer outro momento da sua vida. - 
E ela tambm no tem nada a temer. Esto ambas seguras. Alm disso, esse tipo teve exatamente o que merecia. S lamento ter-lhe concedido tanta confiana.
       - Foi o que aconteceu comigo. - Mil recordaes passaram como um torvelinho pela mente de Sabrina, seguidos da hedionda imagem de Dan a rasgar-lhe as roupas. 
No conseguiu evitar um n na garganta e cerrou os olhos, mas John estreitou-a nos braos.
       - Vou levar-te a casa.
       Sem lhe tirar o cobertor que a envolvia, levou-a cuidadosamente at ao automvel e conduziu-a a casa. Ento, tomou-a de novo nos braos e levou-a at ao quarto. 
Hannah, que a aguardava, apertou os lbios e abriu os olhos de espanto ao v-los entrar.
       - Que lhe aconteceu? - Mostrava uma enorme preocupao.
       - Est tima. - John explicou-lhe o sucedido e a velhota ficou horrorizada.
       - Esse filho da puta... Espero bem que o enforquem. - John no lhe dissera que ele j estava morto. No tardaria a chegar-lhe a notcia. - Graas a Deus, 
algum o deteve a tempo. Voc tem bons homens.
       - E bons amigos.
       Havia outras mulheres que no se importariam que Sabrina tivesse sido violada. Lua da Primavera sabia que perdera o homem que amara durante anos, mas protegera 
a sua noiva como se de uma filha se tratasse, e ele estava-lhe imensamente grato. Dar-lhe-ia um bom presente e iria p-la no comboio nessa mesma noite. Isso significava 
conduzir at ao amanhecer, mas era importante lev-la da cidade quanto antes, para a eventualidade de algum dar com a lngua nos dentes. Olhou para Hannah e deu-lhe 
uma pancadinha no brao.
       - Cuide bem da minha menina. - Os vinte e oito anos que mediavam entre ambos faziam com que John a considerasse quase como uma menina; no entanto, tambm 
sabia que Sabrina era uma pessoa enrgica, forte e capaz. No tardaria a recuperar do mau momento passado, e ele cuidaria da sua segurana durante o resto da vida. 
Era o que lhe prometera, e o que prometera a si mesmo.
       E foi o que voltou a prometer, dois meses depois, no dia do casamento, enquanto Sabrina, diante do altar da igreja de Santa Helena, o olhava com expresso 
de imensa felicidade. Grande parte dos oitocentos mineiros que haviam vindo assistir  cerimnia apinhava-se no interior do templo, mais parecendo sardinhas em lata; 
outros, que no haviam conseguido entrar, tiveram de contentar-se em presenciar a cerimnia atravs das janelas. At os que haviam abandonado Sabrina anos antes 
se encontravam ali, se no por amor a ela, por amor a John. Hannah chorou durante toda a cerimnia. E tanto os olhos de Sabrina como os de John se inundaram de lgrimas 
mais de uma vez.
       Aps a cerimnia religiosa, teve lugar um enorme banquete ao ar livre no recinto das Minas Thurston. No teriam cabido em nenhum outro local, tendo em conta 
que todos iam acompanhados das esposas e filhos, pois Sabrina quisera convidar toda a gente.
       - Uma pessoa s se casa uma vez - dissera Sabrina a John, a sorrir, enquanto faziam os seus planos, embora soubesse que semelhante afirmao no era vlida 
para ele. Mas custava-lhe a acreditar que John tivesse sido casado com algum anteriormente. No chegara a conhecer a sua esposa, pois Matilda morrera mais de dois 
anos antes de ela nascer. Era estranho imaginar John casado e com dois filhos. Era quase como se ele fosse um homem diferente. Conseguia imagin-lo melhor na companhia 
de Lua da Primavera, j que os vira vrias vezes juntos ao longo dos anos, mas essas imagens haviam-se esfumado quase por completo da sua memria. Era como se John 
no tivesse pertencido a mais ningum que no ela. E quando nessa noite apanharam o barco a vapor que os conduziria a So Francisco, ele disse-lhe, com um sorriso 
nos lbios:
       - Que fiz para merecer uma menina como tu a meu lado, Sabrina Harte?
       Sabrina gostou do som do seu novo apelido. E com um sorriso transbordante de felicidade, respondeu:
       - Eu  que sou uma rapariga cheia de sorte, John Harte.
       - -Isso  o que tu dizes.
       John oferecera-lhe uma viagem para qualquer lugar do mundo que ela quisesse, mas Sabrina surpreendera-o ao dizer-lhe que a nica coisa que queria era passar 
algum tempo na Manso Thurston. E foi justamente o que planejaram fazer. John conseguira deixar tudo organizado nas minas de modo a poder passar um ms em So Francisco. 
Permaneceriam a at s frias de Natal, e depois regressariam a Napa para voltar a tomar as rdeas dos negcios. Mas no era precisamente em negcios que pensavam 
quando chegaram  Manso Thurston bastante depois da meia-noite. Sabrina pedira ao seu banqueiro que contratasse alguns criados para aquele perodo, e, ao entrarem 
em casa, encontraram-na resplandecente de luz. Na sute principal, esperava-os a enorme cama com dossel ao lado do crepitante lume da lareira. Havia velas acesas 
e enormes jarres de flores por todo o lado. Para Sabrina, a casa estava mais bonita do que nunca. Ao olhar para a cama que fora de sua me h muitos anos e depois 
dela, deu-se conta de que iria ser o leito da sua noite de npcias. Ento, com um olhar tmido, virou-se para John.
       - Bem-vindo a casa! - disse Sabrina, numa voz sussurrante.
       John tomou-lhe a mo e conduziu-a at ao piso inferior. A, beberam champanhe diante da lareira da sala de estar. Finalmente, John, ao ver que ela dissimulava 
um bocejo, levou-a ao colo at ao quarto e depositou-a em cima da cama. Sabrina j lhe mostrara a parte que lhe correspondia da sute principal. Ele, depois de desaparecer 
por instantes nos seus aposentos, onde as malas j haviam sido desfeitas, apareceu de roupo vestido e com um sorriso meigo nos lbios. Envolta no seu robe de cetim 
rosa-plido, parecia uma princesa de conto de fadas, e quando o deixou cair dos ombros, ao lado da cama, os cabelos pareciam puro bano sobre a sedosa pele cor de 
marfim. Ento, num pice, John apagou as velas, e o quarto ficou iluminado pelo clido resplendor do lume da lareira.
       - No te parece estranho estares aqui comigo? - perguntou John, enquanto se metiam na cama.
       - Um pouco. Estou to habituada a estar aqui sozinha... - Mas no era s isso. Nunca mantivera qualquer relao com homem algum, o nico que beijara fora 
John, e o nico que se aproximara dela para alm deste fora, naturalmente, Dan. E agora, de repente, era a esposa de John na sua noite de npcias. Toda a seriedade, 
toda a energia e habilidade que demonstrara na direo das minas de nada lhe serviam naquele momento. Era delicada e vulnervel, e estava bastante assustada perante 
aquilo que a esperava. Ento, deu-se conta de que nunca falara com ningum daquelas coisas, a no ser com a governanta, mas esta talvez tambm no lhe dissesse grande 
coisa. John abraou-a, como se de uma criana se tratasse, mas aquilo que sentia por ela no tinha nada de amor paternal.
       - Sabrina... - No sabia como comear a perguntar-lhe o que queria saber. Lua da Primavera mostrara-se muito experiente nos seus primeiros contatos com ele. 
E houvera outras mulheres antes, mas nenhuma delas to jovem... Matilda, naturalmente, era virgem quando se casara com ele... mas ambos tinham dezoito anos... e 
agora encontrava-se ao lado daquela rapariga... daquela rapariga... e ela era sua. Olhou-a com ar terno. - Ningum falou contigo?
       Sabrina esboou um sorriso doce e ficou ligeiramente corada.
       - Creio que sei o que... - Confiava plenamente em John, e sabia que continuaria a confiar durante toda a vida, que era o que deveria ter feito anos atrs.
       - Mas... ningum te explicou?
       Sabrina abanou a cabea, e ele beijou-lhe os lbios, as faces, os olhos, e de novo os lbios. Tinha de se controlar. A rapariga fizera nascer nele algo que 
nunca conhecera. - Sabrina, amo-te tanto - sussurrou-lhe John, entre os cabelos, e ela arqueou o corpo em direo ao dele.
       - Ento,  s isso que preciso saber.
       E com a mxima delicadeza, John tomou uma mo de Sabrina e beijou a palma, depois o brao, a cintura, at chegar aos seios aveludados, possuindo-a ento. 
Na manh seguinte, continuavam enlaados na cama da sute principal da Manso Thurston. Ele ensinara-lhe tudo quanto precisava saber sobre a arte do amor.
       
      26
       
       Regressaram a Santa Helena no dia de Ano Novo. Nessa altura, j sabiam onde viveriam. O mais simples seria mudarem-se para a casa que Jeremiah construra 
para a sua primeira noiva, a que morrera antes de se casar. Os quartos do terceiro piso serviriam muito bem para quando chegassem os filhos; sobretudo, tendo em 
conta que Sabrina dizia insistentemente que queria ter, pelo menos, dois ou trs filhos. John soltou um cmico grunhido e riu-se:
       - Na minha idade? As pessoas pensariam que eram meus netos! J no tenho pedalada para isso.
       Sabrina olhou-o com ar cmplice e sussurrou-lhe ao ouvido:
       - Mas, ontem  noite, no tiveste qualquer problema em acompanhar a pedalada.
       - Isso agora no vem ao caso. - John olhou-a, embevecido. Aquela rapariga era um sonho que se tornara em realidade.
       - Nem queria acreditar que era eu prpria.
       Passavam a maior parte do tempo a rir e a falar dos muitos interesses que partilhavam. Sabrina mostrou-lhe tudo o que dizia respeito s Minas Thurston e apresentou-o 
aos seus homens. Reuniam-se trs dias por semana no escritrio dela, e nos restantes dias era ela que ia reunir-se com ele na mina. John tinha um excelente encarregado-geral 
nas Minas Harte, e s queria tomar a direo das minas de Sabrina. Tambm tinha previsto um encarregado para as Minas Thurston, o que lhe permitiria dedicar-se apenas 
s tarefas de superviso de ambos os negcios.
       - Assim, poderemos passar a maior parte do tempo na cidade.
       Ambos pareciam gostar da idia. Sabrina no sentia um interesse especial pela vida social que poderiam levar em So Francisco. Atraam-na mais as coisas de 
ndole cultural. Durante a lua-de-mel, alm de terem desfrutado do esplendor da magnificente manso que o pai de Sabrina construra, haviam ido  pera, ao ballet 
e ao teatro.
       - Fico sempre triste quando penso no que aconteceu ao meu pai. Construiu-a para a minha me e esta morreu ao fim de dois anos e meio. A casa ficou vazia. 
Foi uma verdadeira desgraa.
       John concordou com a cabea, pensando no passado distante.
       - O Jeremiah prestou-me uma grande ajuda quando a Matilda e os meus filhos morreram. - Aquelas recordaes j no o deixavam to amargurado. Passara j muito 
tempo E, alm disso, agora tinha Sabrina e, possivelmente, voltaria a ter filhos. Era o grande desejo de ambos. - Fiquei tristssimo quando soube que a esposa morrera, 
mas, depois disso, no quis ver ningum. Fui visit-lo uma vez e despachou-me. Fora um rude golpe para ele, e compreendi. - Sorriu e abanou a cabea, pensando na 
sua prpria juventude. - Nessa altura, eu no sentia uma grande simpatia por ele E o teu pai era um homem impecvel. Simptico, inteligente e extremamente modesto 
- E ensinara essas mesmas virtudes  filha, mas John j vislumbrara isso nela antes de se casar. - Eu estava to determinado a rivalizar com as minas dele, que me 
mantive totalmente distanciado do teu pai. Foi uma pena. Teria podido aprender muito com ele
       - De qualquer modo, julgo que ele gostava de ti. - Sorriu, - s espantosamente parecido com ele
       Sabrina j se apercebera daquela semelhana antes de se casar com John, mas, agora, tinha ocasio de o comprovar ao receber constantes mostras da sua pacincia, 
do seu afeto e da sua ternura, qualidades aliadas a um esprito perspicaz. Ambos passavam bons momentos a visitar as minas um do outro. Alm disso, Sabrina tentava 
ensinar ao marido o que sabia de vinicultura, mas ele no dispunha de tempo suficiente para isso. Gostava de provar os vinhos de Sabrina, mas cada vez havia menos 
garrafas. Cara uma forte geada nos vinhedos e perdera mais de metade das cepas, embora outros vinicultores tivessem perdido mais. "Sorte maldita!", costumava ela 
exclamar, decepcionada, mas tinham muitas outras coisas para fazer, adequar a casa de Napa ao novo residente, mudar a orgnica das minas e abrir a Manso Thurston 
e manter l uns quantos criados para poderem l ir quando lhe apetecesse.
       Alm disso, tinham de acostumar-se aos costumes um do outro, coisa que conseguiram muito facilmente, para grande surpresa de ambos. A nica decepo, partilhada 
pelos dois, era o fato de, no vero seguinte, ainda no se encontrar nenhum beb a caminho, apesar da freqncia e da intensidade com que faziam amor. Hannah chegou 
a question-la certo dia.
       - No andas a usar nada, pois no?
       - Que queres dizer?
       Sabrina pareceu algo confusa. Apesar do casamento com John, mantinha a mesma inocncia, e s sabia aquilo que ele lhe ensinara. No havia nem houvera ningum 
que a pudesse instruir sobre aquelas questes. Talvez Amlia o tivesse podido fazer, mas h dois anos que Sabrina no a via, embora lhes tivesse enviado uma valiosa 
prenda de casamento. Naturalmente, Sabrina no fazia a mnima idia do que Hannah estava a falar.
       - No ests a evitar a chegada dos bebs, pois no?
       -  possvel? - Sabrina pareceu surpreendida. Hannah franziu o sobrolho e concluiu que a ignorncia da rapariga naquele aspecto era total, o que a deixou 
mais aliviada. Era uma rapariga decente, muito diferente da me. Ainda se recordava dos anis de ouro que encontrara certo dia. - No sabia... Pode-se...? - Sempre 
suspeitara que algumas mulheres o faziam... como as mulheres cuja profisso as expunha constantemente a isso, ou... - Que fazem elas? - Estava intrigada com aquilo 
que estava prestes a saber, embora no fizesse tenes de evitar a gravidez. Pelo contrrio, tanto ela como John ansiavam por um filho.
       - Algumas usam casca de olmo, como as mulheres daqui, mas h mtodos mais requintados.
       Sabrina fez uma careta de repulsa que provocou o riso de Hannah.
       - As que tm possibilidades usam anis de ouro. - Hannah fez uma pausa, perguntando-se se no estaria a falar demais, mas, caramba!, Sabrina j era uma mulher 
adulta. - Como a tua me.
       - A minha me fez isso? Quando? - Perguntou Sabrina, surpreendida
       - Antes de te ter. O teu pai pensava que ela tinha tanto desejo de ter um filho como ele, mas ele era muito mais velho do que ela. - A diferena de idades 
entre Sabrina e John era ainda maior. - Ela dizia-lhe que no sabia o que  que podia estar a correr mal. Estavam casados h mais de um ano quando os descobri na 
casa de banho... os malditos anis... e entreguei-os ao teu pai. - Esboou um sorriso malicioso. - Depois daquilo, apareceste num pice. J estava com enjos quando 
voltaram para a cidade.
       Aquela revelao deixou Sabrina preocupada. Tanto pela indiscrio que Hannah cometera contra a sua me, como pelo fato de esta ter tentado evitar ter filhos. 
De repente, o corao comeou a bater mais depressa.
       - E que disse o meu pai?
       - Ficou que nem uma fera, mas nunca mais voltou a falar do assunto. Mostrou-se satisfeito logo que soube que vinhas a caminho. - Hannah parecia orgulhosa 
do que fizera e, por instantes, Sabrina, ao pensar na pobre me apanhada no seu ato prfido, odiou a velhota por ter posto a sua progenitora em cheque. No fora 
justo. Deveria ter permitido que a me tivesse sido me quando muito bem quisesse. Todavia, considerando que ela morrera pouco depois disso, talvez o destino tivesse 
escolhido bem... mas, vinte e trs anos depois, a filha tinha pena dela. Sabrina fizera os vinte e dois nessa primavera.
       - Que fez a minha me?
       - Ficou abatida... irritou-se... - Hannah sabia que Camille nunca perdoara ao esposo, mas no referiu isso a Sabrina. - Era uma mida meio amalucada, mas 
o teu pai casou-se com ela apesar de tudo. Ele tinha o direito de exigir que a sua esposa lhe desse filhos. Malditos anis de ouro... O teu pai deitou-os fora e 
a tua me chorou que nem uma criana...
       Sabrina ficou de corao destroado... pobre rapariga... -  noite, contou tudo a John.
       - Foi uma brutalidade por parte do meu pai. E acho que a Hannah agiu muito mal ao imiscuir-se no assunto. No devia ter contado ao meu pai. Bastaria t-la 
advertido e ela depois que se entendesse com o meu pai.
       - Talvez andasse a engan-lo.
       -  o que a Hannah quis insinuar, mas no me atrevo sequer a pensar. De vez em quando, a Hannah diz coisas desagradveis da minha me. Deve ter havido uma 
espcie de cimes entre elas. Quando a minha me chegou, h dezoito anos que a Hannah trabalhava para o meu pai. Julgo que isso teve uma certa influncia.
       - Fosse como fosse, ainda bem que ela encontrou esses anis. - John sorriu e perguntou: O que a levou a contar-te isso?
       Sabrina corou e sorriu-lhe.
       - Perguntou-me se eu estava a usar alguma coisa para evitar... Nem sequer sabia que isso se podia fazer. - Parecia menos embaraada. No havia nada que ela 
no lhe pudesse contar. Era o seu melhor amigo. - Nunca me falaste disso.
       - Pensei que fosse uma questo que no te interessasse.
       John pareceu surpreendido por ela se mostrar to curiosa em relao quele assunto.
       - No, mas  interessante saber estas coisas. - John riu-se e deu-lhe um belisco na bochecha.
       - Minha inocentinha. H mais alguma coisa que queiras saber?
       - H. - O semblante de Sabrina entristeceu-se por instantes. Mas receio que no tenhas a resposta, meu amor.
       Sabia, naturalmente, que ele tivera dois filhos com a anterior esposa, por isso o problema no era dele. - Gostava de saber por que motivo  que ainda no 
engravidei?
       - S o tempo o dir. Tens de ter pacincia, meu amor. S estamos casados h nove meses.
       Sabrina olhou-o com ar triste.
       - Nesta altura, j devia ter um beb nos braos. - John sorriu.
       - Bem, mas tens-me a mim. No te basta de momento?
       - Para sempre, meu amor.
       John puxou-a para si e abraou-a. Os seus lbios encontraram-se e Sabrina esqueceu tudo quanto Hannah lhe contara naquela tarde. S voltaria a pensar nisso 
uma ou duas vezes durante os seis meses seguintes, mas o que esperava ainda tardava.
       Ao chegar o ms de julho, quando levavam dezoito meses de casados e ela acabava de fazer vinte e trs anos, Sabrina sentiu-se mal um dia, praticamente logo 
que se levantou. O calor era muito forte, e na tarde anterior estivera a trabalhar com John nas minas. Tiveram uma discusso - coisa rara entre eles - sobre a convenincia 
ou inconvenincia de fundirem as minas Harte e Thurston. O conseqente nervosismo e a alta temperatura quase no a haviam deixado dormir durante toda a noite.
       - Sentes-te bem? - perguntou-lhe John quando ela se levantou da cama.
       - Mais ou menos.
       Ainda havia um clima frio entre eles que vinha da noite anterior. Ento, Sabrina voltou-se para ele, mas antes de poder articular mais qualquer palavra, caiu 
redonda no cho. John saltou de imediato da cama e foi dar com ela inconsciente.
       - Sabrina... Sabrina... querida... - Estava horrorizado. O espectro da temida gripe sempre o perseguira. Mandou chamar o mdico imediatamente, mas o homem 
no descobriu nela nenhum sintoma preocupante.
       - Provavelmente, est cansada. Talvez ande a trabalhar demasiado.
       Nessa noite, John fez um sermo  esposa. Estava na altura de deixar o novo encarregado-geral sozinho. Ele prprio o supervisionaria, ela poderia entreter-se 
com os vinhedos, embora nos tempos que corriam no fosse uma tarefa muito divertida. A geada continuava a fazer estragos. Mas Sabrina parecia no lhe dar ouvidos. 
Estava sonolenta e no tardou a adormecer na cadeira de balano. John levou-a ao colo para o quarto sem a acordar. Estava preocupado com o seu aspecto, e ainda mais 
ficou, no dia seguinte, quando Sabrina desmaiou de novo. Mas, desta vez, levou-a diretamente para Napa e reservou um camarote no primeiro barco a vapor com destino 
a So Francisco. Na manh seguinte, Sabrina encontrava-se j no hospital e a ser observada por uma equipe de mdicos, enquanto John passeava, impaciente, pelos corredores.
       - Ento? - perguntou ele ao primeiro homem que saiu da sala. O mdico sorriu.
       - Eu diria que para maro, embora um dos meus colegas acredite que seja em fevereiro.
       John ficou desconcertado, mas o sorriso enigmtico que o mdico esboou p-lo na pista do que estava a acontecer.
       - Quer dizer que...
       - Isso mesmo. Est grvida, meu amigo.
       Os gritos de alegria do futuro pai deviam ouvir-se no outro extremo da cidade. Nesse mesmo dia, John comprou a Sabrina um anel com um enorme diamante e ofereceu-lho 
nessa noite quando voltaram para a Manso Thurston. Haviam resolvido ter a criana ali, perto dos melhores mdicos da cidade. Os mdicos haviam-lhe dito que podiam 
ir para Napa at Dezembro. Ainda tinham muito tempo. O casal, delirante, passou a noite a falar do acontecimento, dos nomes para menino... para rapariga... da decorao 
do quarto do beb e, de tempos a tempos, Sabrina abraava John.
       - Sou a mulher mais feliz do mundo! - Ele sorriu.
       - Casada com o homem mais feliz do mundo.
       No dia seguinte, quando chegaram a Napa, Hannah recebeu-os extasiada. Agora, Sabrina fazia exatamente aquilo que lhe diziam. Manteve-se afastada das minas 
quase todos os dias e deixou de andar a cavalo. Passou longas tardes de descanso na cama,  espera de John. E, ao chegar o outono, quando o beb comeou a dar as 
primeiras mostras da sua existncia, ele apoiava a cabea no ventre da esposa, esperando sentir os movimentos do beb, mas ainda era muito cedo. Sabrina comeou 
a senti-lo ao cair das primeiras folhas, precisamente uns dias antes de um dos seus homens bater ruidosamente  porta.
       - H fogo na mina!
       Aquelas palavras, que romperam inesperadamente o silncio da noite, foram ouvidas primeiro por Sabrina, que teve a suficiente presena de esprito para assomar 
 janela e perguntar:
       -Em qual?
       - Na sua!
       Sabrina e John comearam a vestir-se apressadamente, mas ele ps-lhe uma mo firme no brao.
       - Tu ficas aqui, Sabrina. No quero que faas nenhum disparate. Eu encarregar-me-ei de tudo.
       - Tenho de ir. - Nunca ficara em casa em casos semelhantes. Poderia cuidar dos feridos ou, pelo menos, fazer ato de presena. Mas John foi firme.
       - No! Fica aqui! - E, sem lhe dizer mais nada, deu-lhe um beijo e deixou-a em casa, onde ela andou freneticamente de um lado para o outro durante seis horas. 
Na manh seguinte, viu o cu cheio de fumo e, como ainda no tinha notcias do sucedido, no conseguiu agentar mais tempo e meteu-se no automvel. Dirigiu-se, ento, 
a grande velocidade para as minas, enquanto Hannah lhe gritava do alpendre.
       - Vais-te matar! Pensa no beb!
       Sabrina, porm, s pensava em John. Queria certificar-se de que ele estava bem. Alm disso, as minas eram suas e no queria descartar a sua responsabilidade. 
Quando chegou, depararam-se-lhe por todo o lado os efeitos da destruio, mas no se via vivalma. Finalmente, apareceu o encarregado-geral e disse-lhe que o marido 
se encontrava numa das galerias a resgatar homens com uma equipe de salvamento que descera h mais de uma hora. Sabrina ps-se, ento, a olhar para o poo, com ar 
impaciente,  espera que sasse algum, quando se ouviu uma exploso. Incapaz de agentar mais tempo, precipitou-se para dentro da mina e viu que eles haviam ficado 
presos numa galeria. Saiu em busca de ajuda, os pulmes cheios de fumo, e uma dzia de homens entraram de imediato na mina para os resgatar. Quando viu sair John, 
deixou-se cair de joelhos, dando graas a Deus, vencida pelo fumo. Levaram-na para o escritrio, onde trabalhara durante mais de trs anos, e o mdico veio observ-la 
de imediato. Pareceu recuperada ao fim de alguns instantes, e John repreendeu-a. Pediu, ento, a um homem que a levasse a casa. Nessa noite, quando chegou a casa, 
sujo e a tresandar a fumo, encontrou Hannah no alpendre. A velhota exibia um ar taciturno e, com os olhos banhados de lgrimas, deu-lhe a notcia. John precipitou-se 
pelas escadas acima e encontrou Sabrina na cama, desfeita em lgrimas, com ar plido e de corao destroado. Perdera o beb uma hora antes.
       - E sei que nunca mais poderei ter outro...
       Ao v-la completamente desesperada, John apertou-a contra si, enchendo-a de fuligem, mas nenhum dos dois se importou e, por instantes, as lgrimas dele misturaram-se 
com as dela.
       - O mdico disse-te isso? - Sabrina abanou a cabea e soluou. - Ento, no penses nisso, meu amor. Teremos outro. - Olhou-a carinhosamente. E, da prxima 
vez, fars aquilo que te disser.
       John no quis insistir nas suas observaes. Sabrina j se sentia suficientemente culpada para que lhe recordassem a imprudncia que cometera. Contudo, ao 
fim de dois meses voltou a ser a mesma de sempre, a rir das coisas que ele lhe dizia, perdendo o constante ar angustiado que a perseguia como uma dor torturante 
de que no conseguia escapar. Foi um Natal difcil para ambos, mas, em janeiro, John levou-a para Nova Iorque. Viram Amlia vrias vezes e, de regresso, passaram 
por Chicago para visitar alguns amigos dele. Aquela viagem fez com que Sabrina recuperasse a felicidade que parecia ter perdido, o que deixou o marido muito mais 
aliviado. Todavia, estava preocupado com o fato de ela estar a demorar a engravidar outra vez. S ao fim de dois anos a viu no mesmo estado: plida, com ar doentio 
sem estar efetivamente doente. H j algum tempo que haviam deixado de falar no assunto. Sabrina abandonara todas as esperanas. H quatro anos que estavam casados, 
e foi precisamente no dia do aniversrio do casamento que John reparou que havia algo anormal nela. Quando lhe ofereceu uma taa de champanhe, Sabrina ficou, subitamente, 
lvida e recusou-a.
       - Deve ser de alguma coisa que comi... - Sabrina olhou para John e saiu precipitadamente da sala.
       No dia seguinte, quando John opinou que o problema dela no tinha nada a ver com a comida, ela desatou a chorar e saiu da sala, fechando a porta com violncia 
atrs de si. Nessa noite, quando regressou das minas, encontrou-a adormecida em cima da cama. Aqueles sintomas no lhe eram estranhos. J a vira assim antes, mas 
no se lembrava quando. Ento, da a dias, percebeu, finalmente, o que se passava. E, quando todas as dvidas se dissiparam da sua cabea, disse-lhe que achava que 
ela estava grvida.
       - Acho que ests enganado. - Sabrina tentou despach-lo, continuando a ler os relatrios das minas que ele lhe trouxera. Ultimamente, andava estranhamente 
preocupada, apesar de John estar a dar bem conta de tudo e de as minas irem de vento em popa.
       - No creio. - John estava satisfeito consigo prprio e com ela. Estava certo de que havia boas razes para estar.
       - Mas sinto-me muito bem. - Sabrina olhou-o, irritada, e saiu porta fora. S nessa noite, quando se deitavam,  que ele voltou a tocar no assunto.
       - No tenhas medo, pequena. Porque no tiramos as dvidas? Vou contigo.
       Ela abanou a cabea e os olhos inundaram-se-lhe de lgrimas.
       - No quero saber.
       - Por que no? - John estreitou-a nos braos. J sabia qual seria a resposta dela.
       - No quero voltar a alimentar iluses. Que aconteceria se...? - balbuciou Sabrina, no conseguindo conter as lgrimas. - Oh, John...
       - V l, pequena. Temos de tirar as dvidas. Desta vez, tudo correr bem. - E esboou um sorriso tranqilizador
       No dia seguinte, John levou-a ao hospital e viu confirmada a sua opinio sobre o estado de Sabrina. Escutaram, extasiados, a previso do mdico: o beb nasceria 
em julho. Nem queriam acreditar na sua boa sorte. Desta vez, John quase no a deixou sair da cama, e Sabrina mostrou-se extremamente cooperante. No queria voltar 
a correr nenhum risco, e ele tratava-a com todos os mimos. Voltaram para Napa em Janeiro, mas, em abril, mudaram-se para So Francisco para passar a os ltimos 
trs meses. John queria-a perto dos mdicos, e na Manso Thurston ela tinha todas as comodidades, enquanto ele ia vrias vezes por semana s minas. Comprou-lhe um 
Duesenberg e contratou um motorista para a conduzir pela cidade. No queria que ela conduzisse. Sabrina seguia avidamente as notcias que chegavam da Europa, e ambos 
se perguntavam se a guerra no estaria prestes a rebentar. A situao parecia tensa, mas John acreditava que tudo voltaria  normalidade.
       - E se a coisa piorar? - perguntou Sabrina, certa manh de junho, olhando para o marido por cima do jornal.
       Ele sorriu. Nessa altura, ela tinha o aspecto de um balo, e John adorava pr a mo na barriga para sentir os pontaps do beb. Seria um beb vigoroso. H 
trinta e dois anos, o seu filho Barnaby tambm era assim. Ainda se lembrava bastante bem- Mas sentia-se ainda mais exultante com este filho. Naquele momento, era 
impossvel concentrar-se nas questes de poltica internacional que a esposa tentava abordar.
       - E se estalar uma guerra?
       - No estalar. Pelo menos, para ns. Alm disso - acrescentou, sorrindo, - se chegssemos a entrar nela, descobririas as vantagens de estares casada com 
um velho, meu amor. J no tenho de me preocupar com essas coisas. No me mobilizariam.
       - timo. Sorriu. Quero-te sempre aqui, comigo e com o nosso filho.
       - Que te faz pensar que  um rapaz? - John tinha o mesmo pressentimento, que coincidia com o desejo de ambos, pelo menos, no que dizia respeito ao primeiro 
filho. Depois, prefeririam uma rapariga, se houvesse uma segunda oportunidade para isso. Apesar dos receios de Sabrina, a gravidez decorreu sem sobressaltos. Ainda 
era jovem. Acabava de completar vinte e seis anos, e apesar de se considerar velha, a sua idade permitiria um parto fcil. Pelo menos, era o que John esperava. Este 
queria que ela tivesse o beb no hospital, mas Sabrina insistia em ter o beb em casa. John ainda estava indeciso relativamente a essa questo. Olhou-a nos olhos 
e, com um sorriso nos lbios, repetiu a pergunta: - Por que um rapaz?
       - Os ps grandes - respondeu Sabrina, apontando para a protuberncia que sobressaa do grande balo em que o abdmen se transformara. - s vezes, pergunto-me 
se ele ter a pacincia suficiente para permanecer aqui dentro at ao fim do tempo. Est demonstrando uma impacincia incrvel.
       Todavia, quando a data prevista chegou e o vinte e um de julho passou sem novidade alguma, ficou provado que as suas previses estavam erradas. Sabrina comeou 
a impacientar-se.
       - Porque ser que est a atrasar-se tanto? - perguntou, uma noite, quando passeava com o marido pelos jardins da Manso Thurston. - J est com seis dias 
de atraso.
       - -Talvez seja uma rapariga. As mulheres nunca chegam a horas a lado nenhum - gracejou John, dando-lhe uma palmadinha na mo com que ela se agarrava ao seu 
brao. Pouco depois, reparou que, naquela noite, o passo de Sabrina era mais lento e pesado do que de costume, e enquanto subiam lentamente a escada, pareceu mais 
ofegante do que nos outros dias. A preocupao de John aumentava  medida que a barriga de Sabrina crescia. "E se o beb for demasiado grande", perguntara ao mdico 
na semana anterior. "Ento, fazemos-lhe uma cesariana,  uma operao muito simples hoje em dia". John esperava que a cesariana no fosse necessria, ainda que, 
segundo parecia, o beb fosse enorme em comparao com a pequenez da futura me. Era estreita de ancas, o que fazia temer grandes dificuldades na hora do parto. 
Trinta e dois anos antes, Matilda passara um mau bocado, apesar de ser uma robusta e s camponesa. Sabrina era muito mais frgil, mas ele j era mais velho e estava 
mais informado do que se passava  sua volta. O profundo amor que sentia pela esposa aos cinqenta e quatro anos fazia-o ver motivos de preocupao em tudo.
       - Queres que te v buscar qualquer coisa para beber? - perguntou John a Sabrina, j a noite ia avanada, ao reparar que ela se contorcia na cama enquanto 
lia um livro. Estivera inquieta durante todo o dia. Fazia um calor terrvel e o cu estava todo estrelado.
       - Estou a ficar farta, meu amor - sussurrou Sabrina, com um sorriso nos lbios, apontando para o enorme balo que ocupava o lugar do que fora a sua cintura 
fina.
       John tocou-lhe suavemente com a palma da mo e sentiu um vigoroso pontap.
       - Pelo menos, esta noite est em boa forma.
       -  pena que no possa dizer o mesmo de mim. Doem-me as costas, doem-me as pernas, no consigo estar sentada nem deitada, custa-me a respirar.
       John recordou ter ouvido algo parecido h muito tempo atrs, mas isso no impedia que agora, enquanto esfregava as costas a Sabrina pouco antes de apagar 
a luz, ela se sentisse to angustiada como a primeira vez que passara por aquela experincia. Sabia que, naquela poca, eram poucos os homens que partilhavam a cama 
com a esposa at tal ponto, mas no queria estar longe dela, e Sabrina dizia que no se importava de dormir com ele.
       - Achas que as pessoas ficariam chocadas se nos vissem neste momento? - John tinha o brao  volta dela e Sabrina, a cabea apoiada no peito dele, numa posio 
confortvel.
       - Que vissem. Sou feliz assim. E tu?
       - Tambm.
       Sabrina esboou um sorriso e apagou a luz. Ao olhar para a janela, viu o cu todo estrelado. Estava uma noite magnfica... a do dia vinte e sete de julho 
de 1914. Mal adormeceu, de lado, virada para John, sentiu um forte pontap na barriga, seguido de uma longa e dolorosa guinada. Abriu os olhos e olhou para John, 
que dormia profundamente e j ressonava. E aninhou-se ao lado dele. As costas doam-lhe mais do que antes e, quando tentou mudar de posio, sentiu outra guinada. 
Uma hora depois, voltou a sentir as contraes que j no tinha h meses. Quando se sentou para conter a respirao, sentiu um sbito derrame entre as pernas e a 
cama ficou encharcada num instante. John acordou, acendeu a luz e, olhando-a com ar sonolento, perguntou:
       - Entornaste alguma coisa? - Mas enquanto Sabrina abanava a cabea, corada at  raiz dos cabelos, John deu-se conta do que acontecera e puxou-a suavemente 
para si. - No te preocupes. Desta vez, vai tudo correr bem. - Levantou-se e voltou, pouco depois, com um monte de toalhas, chamou a criada e vestiu o roupo de 
seda azul. - Vou mandar a Mary mudar a cama. Entretanto,  melhor sentares-te aqui. Ajudou-a a sentar-se numa cadeira prxima e viu a sua cara de sofrimento quando 
voltaram as contraes. - Que sentes, amor?
       Sabrina voltou a corar. Sentia-se mais segura ao lado de John do que de qualquer outra pessoa, inclusive o mdico.
       - Parecem cibras.  normal? - Matilda nunca descrevera o que estava a sentir com tanto pormenor. Lembrou-se do beb que Sabrina perdera, mas era demasiado 
tarde para que isso voltasse a acontecer.
       - No sei. No tenho a certeza. O mdico disse para o chamarmos quando as dores comeassem. 
       - Achas que j chegou o momento? 
       Olhou para a cama encharcada e sorriu para a esposa.
       - Eu diria que sim, mas no te preocupes. Pensa que dentro de horas, ters um beb nos braos. - Era uma maravilhosa perspectiva que animou Sabrina.
       Mary entrou para mudar as roupas da cama, e John foi chamar o mdico. O mdico ia mandar duas enfermeiras especialmente contratadas para a assistir. Alm 
disso, recomendou a John que a mantivesse calma e deitada na cama, e no lhe desse nada de comer. Mas, ao fim de alguns minutos, ao entrar no quarto com uma xcara 
de ch na mo, encontrou-a sentada numa cadeira, com as mos sobre a enorme barriga e os dentes cerrados.
       - O mdico est a caminho, querida. Agora tens de te deitar.
       Agradeceu a Deus ir-se deitar, e mais agradecida ficou por ir ter o beb em casa. No quisera ir para o hospital porque, para ela, significava muito ter o 
beb na Manso Thurston. John acedera, mas estava preparado para a mandar para o hospital se fosse necessrio. Quando, em menos de uma hora, as duas enfermeiras 
chegaram, disseram que tudo iria correr bem. Depois, fizeram sair John do quarto, o que deixou Sabrina a chorar.
       - No podes ficar? - Tinha plena confiana nele e queria-o ter a seu lado. Ao fim e ao cabo, era a sua casa, mas as duas enfermeiras no lhe deram ouvidos.
       - Acho melhor no ficar.
       John olhou-a carinhosamente antes de se retirar. Sabrina tinha o rosto coberto de suor e os olhos ligeiramente vtreos; o intervalo entre as contraes parecia 
ser cada vez menor. Saiu do quarto no momento em que Sabrina comeava a gritar, e ficou  porta, a andar nervosamente de um lado para o outro. Pouco a pouco, os 
gritos foram deixando de se ouvir, mas voltaram a ouvir-se uma hora depois. Ento, John, j impaciente, bateu  porta e a enfermeira mais velha repreendeu-o.
       - Ela no deve ouvir barulho! - advertiu, com ar severo.
       - Porque no? Ela no tem nenhum problema com os ouvidos.
       Entretanto, Sabrina soltou outro grito, e ele, no conseguindo aguentar-se mais, irrompeu pelo quarto adentro e deu com ela deitada na cama com a enorme barriga 
 mostra, mas no se mostrou chocado. Acercou-se da cama e, antes que chegasse a contrao seguinte, pegou-lhe na mo e falou-lhe com todo o carinho que sentia. 
As enfermeiras no sabiam que fazer, e o mdico, que chegava naquele instante, ficou surpreendido por ver John no quarto com a sua paciente.
       - Bem, que temos aqui? - O homem tentou dissimular a surpresa pela presena de John no quarto. Era evidente que queria ver aquele inoportuno marido dali para 
fora, mas Sabrina parecia estar colada a ele. Nem sequer se mostrava preocupada com o fato de s estar coberta por um fino lenol. Este saa frequentemente de cima 
dela quando estava a ter as contraes, mas ela no parecia dar por isso. Arquejava desesperadamente de cada vez que tal acontecia. Ento, de repente, fez um movimento 
brusco para a frente e tentou sentar-se, contorcendo o rosto num esgar horrvel. As enfermeiras empurraram-na de imediato contra os lenis. O mdico aproximou-se, 
puxou o lenol para trs e examinou as partes mais ntimas de Sabrina, enquanto ela chamava por John e soltava urros horrveis. De repente, o rosto de John Harte 
ficou coberto de suor. Tinha vontade de estreitar a esposa nos braos, mas no podia fazer nada. Sabrina continuava a contorcer-se em cima da cama. O mdico fez-lhe 
ento sinal de que queria falar com ele fora do quarto. Sabrina sentiu-se tomada de pnico ao ver que eles se iam embora, mas s depois de mais outra contrao  
que John se juntou ao mdico no corredor e quis saber como  que o parto estava a correr.
       O mdico falou numa voz branda.
       - Est tudo a correr bem, Mister Harte, mas tem de sair de ao p dela.  um espetculo demasiado penoso para um marido. No posso permitir a sua presena, 
tanto por si como por ela. Tem de nos deixar trabalhar  vontade.
       - Trabalhar? - John Harte olhou para o mdico com ar irritado. - Mas  a minha esposa que est a fazer todo o trabalho! Alm disso, ela prefere ter-me ao 
p dela. Sou a nica famlia que tem. Sou o melhor amigo... e ela  tudo para mim. J estive em muitas herdades e sei como  que os bezerros e potros nascem.
       O mdico pareceu chocado.
       - Trata-se da sua esposa, Mister Harte.
       - Eu sei, doutor Snowe. E no quero que ela corra o menor perigo.
       - Ento, deixe-a nas nossas mos. Creio que foi por isso que requisitou os nossos servios.
       John hesitou, sem saber o que fazer. Estava decidido a permanecer junto de Sabrina se fosse esse o seu desejo, mas retirar-se-ia se a sua presena a embaraasse. 
John no se importava minimamente com o que as pessoas pudessem dizer, j era demasiado velho para se preocupar com esse tipo de coisas. Que se danasse o Dr. Snowe! 
Assim, olhando-o nos olhos, disse-lhe:
       - Se ela me chamar, entrarei. Estou em minha casa, essa mulher  minha esposa e o meu filho est prestes a nascer.
       O mdico pareceu contrariado, mas limitou-se a franzir os lbios.
       - Muito bem.
       - Vai tudo correr bem?
       - Eu diria que sim, mas creio que o nascimento  capaz ainda de demorar um pouco. A sua esposa tem de controlar as foras. Pode ser uma noite muito longa. 
- Olhou para o exterior e, ao ver o sol sobre o horizonte, retificou: - Bem... um dia longo. No creio que o beb nasa antes da hora do jantar. Deu uma olhadela 
ao relgio de bolso e sentiu-se alguma agitao no quarto
       - Como  que sabe?
       - Porque tenho experincia destas coisas. E j vi nascer muitos bebs. - "E voc no", foram as palavras que ficaram por dizer.
       - Mas ela parece que est quase..
       - No creio.
       Quando o mdico voltou a desaparecer no interior do quarto, John teve vontade de bater com a cabea na parede. Durante as cinco horas seguintes, enquanto 
percorria a casa toda sem parar, teve a sensao de que ia dar em maluco. Acabou por tomar dois conhaques e um usque, e teve vontade de dar um a Sabrina, mas isso 
teria provocado grande confuso. Finalmente, s duas da tarde, esgotado e desesperado, sentou-se na escada, debaixo da cpula de vitrais, sem deixar de pensar em 
Sabrina. Entretanto, as enfermeiras haviam entrado e sado vrias vezes do quarto, e o mdico s o fizera uma vez para inform-lo de que estava tudo a correr bem, 
mas que o parto ainda se encontrava um pouco demorado. Finalmente, s quatro da tarde, John ouviu Sabrina dizer algo num tom agudo e soltar um grito lancinante de 
seguida. Como que movido por uma mola, correu para a porta do quarto e deteve-se a. Escutou um gemido horrvel e um grito abafado. Tinha vontade de bater  porta 
e chamar por Sabrina, mas no o fez com receio de assust-la. Voltou a ouvir a voz da esposa, mas desta vez no foi um grito abafado. Sem conseguir suportar aquele 
martrio por mais tempo, entrou sorrateiramente no quarto. Ao princpio, ningum o viu. As persianas estavam corridas e as cortinas no deixavam entrar a claridade 
do exterior. Havia uma luz brilhante em cima da mesinha-de-cabeceira e outra aos ps da cama, em cima de outra mesa. Sabrina jazia no leito, no meio de um calor 
sufocante. Tinha as pernas abertas e um lenol por cima. O rosto estava inundado de suor e os cabelos eram um verdadeiro emaranhado. De repente, sentiu nova contrao 
e, revirando os olhos e agarrando-se desesperadamente ao lenol, soltou um grito agonizante. O mdico levantou o lenol, e John pde ver a apario de uma cabecinha 
redonda. Ficou boquiaberto. Teve vontade de anim-la enquanto ela continuava a fazer fora para expulsar o beb. O sangue saa a jorros de uma ferida aberta entre 
as pernas, mas John nem sequer pensava nisso. O seu nico pensamento era na cabecinha e na milagrosa mulher que a empurrava para fora. Sabrina voltou a gritar, e 
as enfermeiras incitaram-na a continuar a fazer fora, enquanto o mdico fazia girar o beb sob o olhar choroso do pai. E, de repente, ali estava ele... um rapaz 
perfeito. Apesar de estar ensangentado e molhado, Sabrina tomou-o nos braos, ao mesmo tempo que John, sem conseguir conter as lgrimas, os abraava aos dois. O 
mdico ficou surpreendido, mas, ao olhar para eles, sossegou. Havia sido um dos partos mais singulares que realizara. John e Sabrina talvez no fossem to insensatos 
como pensara. O beb fora concebido com amor, e agora nascia nos seus coraes e nas suas mos, enquanto ambos o beijavam carinhosamente. Eram cinco e catorze do 
dia 28 de Julho de 1914. Acabava de estalar a guerra na Europa.
       
      27
       
       Jonathan Thurston Harte foi batizado na velha Igreja de Santa Maria, na Califrnia Street, quando tinha seis meses de idade, em janeiro de 1915, quando a 
Europa se encontrava em plena guerra. Os pais ofereceram uma pequena recepo aos amigos na Manso Thurston. Os Crockers, os Floods, os Tobins e os Devines estiveram 
presentes. Foi um grupo pequeno mas seleto que ergueu as taas e brindou por ele com champanhe. Nessa noite, o pai e a me repetiram o brinde na intimidade do quarto 
onde ele nascera.
       - Que sorte temos tido, pequena!
       - Sim, muitssima
       Sabrina possua j tudo o que desejava na vida um marido que amava e um filho que adorava, as minas prosseguiam de vento em popa, embora ela continuasse a 
recusar fundi-las com as do marido, com o argumento de que elas tinham a sua prpria identidade.
       - Toda a gente sabe que estamos casados e que sou eu que as dirijo. Qual seria a diferena.
       - Para mim, faria diferena. - Ela pertencia a John, mas as suas minas, no, e, por uma razo remota que ela prpria no conseguia explicar, queria mant-las 
assim, embora ele estivesse  frente delas e a realizar um trabalho excelente. No tinha a menor queixa e, na realidade, com a chegada do pequeno Jon, perdera grande 
parte do interesse nas minas. At as contnuas geadas nos vinhedos no lhe pareciam uma tragdia. Nada conseguia preocup-la. S pensava em coisas agradveis, e 
no parava de dizer que Jon era parecido com John. Tinha os cabelos negros e os olhos cor de violeta, mas, de fato, no se parecia com nenhum dos dois. Hannah, pelo 
contrrio, sabia muito bem com quem  que ele era parecido. Era a mesmssima imagem de Camille, mas nunca quis diz-lo a nenhum dos dois.
       Permaneceram em Napa durante boa parte da primavera, e celebraram o vigsimo stimo aniversrio de Sabrina indo ao Grange Dance. Esse vero foi o mais maravilhoso 
de que ela se lembrava. John completara cinqenta e cinco anos, e a nica nota triste daqueles dias fora a chegada de uma carta com a notcia de que Lua da Primavera 
morrera num acidente, ao cair de uma ponte. Batera com a cabea nas pedras e tivera morte imediata. A carta fora remetida pelo irmo e escrita por um qualquer conhecido 
seu que sabia escrever. Dizia que John devia saber da ocorrncia, fato que deixou este comovido. Fora muito boa para ele. Quando Sabrina soube, tambm ficou triste. 
Seis anos antes, Lua da Primavera salvara-lhe a vida e evitara que perdesse a virgindade. Custava a acreditar que j se haviam passado seis anos. Pareciam ter passado 
a voar. Sabrina j no conseguia imaginar a vida sem John Harte. Era como se tivesse estado sempre a seu lado. As suas previses haviam-se concretizado. No mesmo 
dia do nascimento de Jonathan, estalara a guerra na Europa, mas no havia indcios de que os Estados Unidos iriam entrar nela. At mesmo depois de Jonathan completar 
os dois anos, no havia motivos para que os Estados Unidos viessem a envolver-se, pelo menos, era isso que os polticos diziam, mas Sabrina no era da mesma opinio.
       - Como  possvel que no entremos nela, John? Os aliados esto a morrer aos milhares. Achas que no acabaremos por lhes dar uma ajuda? O problema  que, 
se o fizermos, diro que somos loucos e, se no o fizermos, ter-nos-o pelas criaturas mais insensveis que h ao cimo da Terra. No sei qual ser a melhor opo.
       - Preocupas-te demasiado com a poltica.  o que sucede s mulheres que esto acostumadas a trabalhar. Quando param, no sabem o que fazer com elas prprias. 
- John adorava gracejar com o seu esprito inquieto.
       Mas o certo era que o pequeno Jon lhe dava muito que fazer, tanto que, embora desejasse ardentemente ir at Nova Iorque, decidiu no acompanhar John. Este 
tinha negcios em perspectiva para os dois em Detroit e alguns investimentos para tratar em Nova Iorque.
       - Poderamos regressar pelo Sul, se quisesses. - John tentava convenc-la porque detestava viajar sozinho. Adorava a sua companhia, e passavam a maior parte 
do tempo juntos.
       - Quanto tempo estaramos fora?
       John pensou durante alguns instantes
       - Provavelmente, trs semanas. Talvez quatro. Perderiam duas semanas s em ir e vir de um extremo ao outro do pas. Sabrina abanou a cabea.
       - No  possvel. Achas que poderamos levar o Jon? - John abanou a cabea.
       - Imaginas o que seria a nossa viagem com ele no comboio durante duas semanas.
       Sabrina soltou um gemido e desataram a rir.
       - Sim, imagino. S no consigo imaginar quando  que voltaria a recuperar a minha sanidade mental. - Jon tinha dois anos e mexia em tudo o que via. Era uma 
criana s e muito viva. Ainda assim, Sabrina tinha pena de no ter engravidado outra vez. Tentara desde que ele nascera, mas no conseguira. Todavia, essa possibilidade 
parecia-lhe menos importante  medida que passava o tempo e o pequeno ia crescendo. Por uma razo qualquer, que o mdico desconhecia, tinha certa dificuldade em 
engravidar. Mas ambos eram felizes com o seu filho nico. - Detesto ter de separar-me de ti durante tanto tempo, querido.
       - Tambm eu. - No parecia satisfeito. - De certeza que no queres deixar o Jon aqui com a Hannah?
       - No, no  possvel.  demasiado traquinas para a pobre velhota - E no havia mais ningum na Manso Thurston a quem pudessem confiar tranquilamente o filho. 
- Desta vez, no posso acompanhar-te.
       - Tudo bem.
       John continuou a fazer os preparativos para a viagem e, a nove de setembro, Sabrina acompanhou-o  estao na companhia do pequeno Jon; deram-lhe um beijo 
de despedida e ele disse-lhes adeus com a mo da carruagem privada que reservara para a viagem. John dirigiu-se para o Este, enquanto Jon e Sabrina voltavam para 
a Manso Thurston para esperarem a pelo seu regresso. Tinha alguns negcios a tratar no banco e queria comprar cortinas, estofos e tapetes novos Isso iria mant-la 
ocupada durante a ausncia do marido, mas, desde o momento em que ele partira que se sentia terrivelmente s. Vagueou pela enorme casa, ansiosa por receber notcias, 
e ainda mais ansiosa pelo regresso dele, mas ainda faltavam vrias semanas para que John regressasse. No dia seguinte, depois de brincar um bocado com o pequeno 
Jon, foi comprar tecidos que precisava para a decorao da casa. Ao sair de uma loja, perguntou-se onde  que John se encontraria naquele momento. Ento, ao passar 
por um ardina, lanou o olhar para o ttulo do jornal que ele exibia: DESCARRILAMENTO NA CENTRAL PACIFIC LINE. CENTENAS DE MORTOS. Perplexa, abriu caminho por entre 
a multido para ver o que o jornal dizia, arrancou-o praticamente da mo do rapaz e deu-lhe um dlar. Sentia o corpo todo a tremer. No havia nomes, nem lista de 
vtimas, mas era o comboio em que viajava o marido. O descarrilamento ocorrera em Echo Canyon, a este de Ogden, no Utah. Num estado de total aturdimento, Sabrina 
comeou a andar e deu consigo no banco, sem saber como l chegara. Parou no vestbulo, paralisada de medo, com as lgrimas a correrem-lhe pelas faces, at que algum 
a reconheceu.
       - Mistress Harte... em que posso ser-lhe til?... - Conduziram-na at ao escritrio do diretor, e Sabrina, sem dizer palavra e com o terror estampado no rosto, 
mostrou-lhe o jornal.
       - John, o meu marido, partiu nesse comboio ontem. H algum modo de saber... - No se atreveu a terminar a frase. Era possvel que John tivesse sado ileso, 
como tambm era possvel que se encontrasse entre as vtimas. Nesse caso, partiria imediatamente para o lugar onde ele se encontrasse. Jonathan teria de ficar com 
algum at ela regressar. Tratava-se de um caso de fora maior. Ento, olhou com ar suplicante para o diretor do banco. - No consegue saber?
       O homem fez um gesto afirmativo com a cabea.
       - Telegrafaremos para a nossa sucursal de Ogden para que nos consiga essa informao.
       O comboio ficara detido a, pois os srios danos que sofrera no lhe permitiam prosseguir viagem. Nessa tarde, sairia outro comboio de So Francisco para 
recolher os sobreviventes do sinistro.
       - E se contatssemos a companhia de caminho-de-ferro? Eles devem ter uma lista das vtimas.
       O diretor fez novo sinal afirmativo com a cabea.
       - Faremos tudo o que pudermos, Mistress Harte. Onde poderei encontr-la.
       Aguardarei por notcias em minha casa. Ou prefere que fique aqui?
       - No Mandarei um dos meus homens lev-la a casa e, logo que saiba mais qualquer coisa, comunicar-lhe-ei de imediato.
       O homem mostrava-se extremamente abalado. Os Harte eram os seus melhores clientes, como o fora antes Jeremiah Thurston, e s esperava que Mr. Harte tivesse 
sado ileso do descarrilamento. Ajudou Sabrina a entrar no automvel do vice-diretor, disse ao motorista que a conduzisse a casa e voltou para o escritrio a fim 
de dar vrias ordens urgentes. Telegrafou para a Central Pacific com pedido de resposta imediata, mandou um mensageiro ao chefe da linha de caminho-de-ferro, e aguardou 
no banco por notcias. E no foram boas notcias que chegaram. John Harte constava da lista de vtimas. Morrera numa das seis carruagens que descarrilaram e caram 
numa ravina de vrias centenas de metros de profundidade. S poucas horas antes o seu cadver fora resgatado do canyon, no se sabendo, ao princpio, qual era a 
sua identidade. Mas agora j se sabia de quem se tratava, e a sucursal do banco enviou tambm as suas mais sentidas condolncias para a famlia enlutada. Ao fim 
da tarde, o diretor do banco, extremamente nervoso, dirigiu-se  Manso Thurston, atravessou os portes e bateu  porta. Uma criada abriu a porta, e ele pediu para 
ver Mrs Harte, se possvel. Sabrina veio logo, mal lhe disseram quem era, deixando Jon com uma das criadas. No seu semblante vislumbrava-se alguma esperana. Seguramente 
j sabiam que John andava a ajudar toda a gente. Estava to acostumado aos desastres que ocorriam nas minas desde h vrios anos, que se comportava maravilhosamente 
em ocasies como aquela. Do alto da grande escadaria, Sabrina olhou para baixo, com um sorriso nervoso nos lbios, mas a expresso do rosto do banqueiro deixou-a 
especada no stio onde se encontrava.
       - John?... - sussurrou Sabrina sob a grande cpula. - Ele... ele est bem, no est? - Desceu mais uns degraus e parou de novo quando o homem avanou para 
ela para lhe dar a mo, enquanto abanava a cabea. - Ele no est?...
       O banqueiro quisera dizer-lhe de outro modo; pelo menos, quando estivesse sentada, para que no desmaiasse nos seus braos. Por nada deste mundo queria ser 
ele a dar-lhe a notcia, mas no tinha alternativa. A tarefa coubera-lhe a ele, e olhou para ela com um ar angustiado. Tais coisas no deveriam acontecer a pessoas 
como aquelas, que se amavam tanto, que levavam umas vidas to honestas e que, ao fim de tanto tempo, haviam descoberto que se amavam.
       - Sinto muito, Mistress Harte. Acabamos de receber a notcia... - disse, suspirando profundamente. No iria ser fcil para ela. - Morreu no descarrilamento. 
Recuperaram o corpo... - Custava-lhe dizer aquilo, mas agora j no podia voltar atrs - ...do fundo de uma ravina, precisamente esta tarde.
       Sabrina deixou escapar um gemido gutural, como o que exalara no momento de dar  luz Jon, mas muito pior do que aquele, e no anunciava a chegada de um novo 
ser. John deixara de existir. Levantou os olhos para o diretor do banco; neles havia mais dor do que a que ele tivera ocasio de ver alguma vez na vida. No sabia 
que mais dizer-lhe, e assim ficaram, imveis, na grande escadaria da Manso Thurston, debaixo da cpula mandada construir pelo pai de Sabrina e reconstruda por 
ela depois da sua destruio, em 1906. Mas nenhum dos dois a via agora. S viam os olhos um do outro. Os dela encheram-se de lgrimas. Sabrina acompanhou-o, ento, 
at  porta. No gritou, no chorou, no desmaiou, nem deu o menor sinal de histerismo. Limitou-se a conduzir o homem at  porta principal, com ar de quem sentia 
que o mundo chegara ao fim. E, para Sabrina, chegara.
       
       
LIVRO III
       
      OS LTIMOS ANOS DE SABRINA
       
      28
       
       No havia nenhum modo de explicar ao pequeno Jon Harte, de dois anos, que o pai morrera. Mal falava, e no existia qualquer maneira de o fazer compreender. 
Mas ningum o ignorou; e, quando o corpo de John voltou para a cidade, realizou-se um servio religioso na velha Igreja de Santa Maria, e o funeral em Napa, onde 
foi sepultado. Sabrina sentia-se como se tivesse morrido ao lado de John. Mandara abrir o caixo quando o corpo chegou, e ficou sentada, na biblioteca da Manso 
Thurston, a olhar para ele, para as feridas e o pescoo partido, tirando-lhe com suavidade a areia que ainda havia no rosto,  espera que despertasse de um momento 
para o outro, para lhe dizer que tudo no passava de um pesadelo. Mas John Harte no se mexeu. A sua vida com ele chegara ao fim. Estavam casados h sete anos, e 
no conseguia imaginar como seria a sua vida dali para a frente. Nada na sua existncia a deixara to destroada como aquela desgraa. Passava horas sentada no alpendre, 
de olhar perdido no espao, depois, aparecia Hannah e, dando-lhe uma palmadinha no brao, recordava-lhe alguma tarefa que tinha de realizar ou que Jonathan reclamava 
a sua presena. Era como se a morte de John lhe tivesse esvaziado a cabea. No sentia nada, no via nada, no dizia nada a ningum, e praticamente no fazia uma 
carcia ao filho. J lhe tinham dito vrias vezes que havia muitas coisas que precisavam da sua ateno em ambas as minas, mas no conseguia decidir-se a ir a nenhuma 
delas, nem s suas nem s dele. Por outro lado, ainda no compreendia por que razo  que se opusera to obstinadamente  fuso de ambas as minas. Por que tanta 
teimosia? J no se lembrava, nem mostrava o menor desejo de continuar a cuidar dos negcios.
       - Mistress Harte, tem de vir - rogara-lhe o encarregado-geral uma meia dzia de vezes, ao passar pela casa de Santa Helena. Ela dizia-lhe que sim com a cabea, 
mas no ia no dia seguinte, nem no outro a seguir, nem em nenhum dos outros dias. E assim se passou um ms. Finalmente, j desesperados, os encarregados das minas 
foram ter com ela e, desta vez, ela sabia que no podia continuar a demitir-se das suas responsabilidades. Meteu-se no automvel de John e, juntamente com eles, 
dirigiu-se primeiro s suas prprias minas. Ao entrar no escritrio em que trabalhara durante tantos anos, teve a impresso de que retrocedera no tempo. Lembrou-se 
do primeiro dia em que ali fora depois da morte do pai, da enrgica alocuo que dirigira aos seus homens atravs do megafone, do abandono da maior parte deles... 
da cena horrvel com Dan... De repente, sentiu-se ainda mais s do que naqueles tempos, como se a dor fosse de ontem e no de uma dcada atrs. Olhou para os dois 
homens e desfez-se num mar de lgrimas. O encarregado, algo embaraado, tomou-a nos braos.
       - Mistress Harte... sei a dor que sente por voltar aqui... mas...
       - No, no. - Abanou a cabea, olhando-o com ar desesperado. - No compreende. No consigo voltar a pegar nisto... no consigo... J no tenho a fora de 
outrora... - O homem no compreendeu. Ento, suspirou e tentou recuperar o domnio sobre si mesma. Finalmente, sentou-se na cadeira que fora ocupada tantas vezes 
por John quando trabalhava ali. - No estou em condies de voltar a dirigir as minas. Agora tenho um filho em quem pensar.
       Os dois encarregados sabiam que ela j o conseguira fazer, o que fora uma verdadeira proeza, e que realizara um trabalho excelente, mas agora nenhum dos dois 
acreditava que ela voltasse a repetir a faanha.
       - No pretendemos que faa tal coisa, Mistress Harte. - Sabrina pareceu surpreendida e, por sua vez, aliviada, ao ouvir aquelas palavras. Ento, deu-se conta 
de que aquilo era uma das coisas que mais temera no ms anterior: ter de enfrentar, completamente s, o lugar e o ambiente em que John trabalhara com tanto afinco. 
As minas estariam mais vazias sem ele. No conseguiu suportar a idia e levantou-se, tinha um n na garganta.
       - Quero que continuem a dirigir as minas da mesma forma que as tm dirigido at agora. Reunir-me-ei convosco regularmente para saber como  que as coisas 
esto a ir. E... - Acrescentou, para surpresa de ambos: - Quero fundir todas as nossas minas. Sabia que deveria ter feito isso em vida de John, e sentia-se culpada 
por se ter oposto aos seus desejos durante tanto tempo, como se no tivesse confiana nele. - Ao fim e ao cabo, toda a gente sabe que as duas funcionam como uma. 
Quero que se chamem Minas Thurston-Harte.
       - Fique descansada.
       Todos sabiam que o processo de legalizao daquele projeto levaria algum tempo, por isso iam p-lo j em marcha. Sabrina mostrou, ento, um ligeiro indcio 
da mulher que fora ao fazer uma srie de anotaes em duas folhas de memorando e entregou uma a cada um dos homens.
       - Alm disto, quero as minas dirigidas como at agora. Continuem tudo o que o meu marido fez. Que nada mude em nenhuma das minas.
       Durante os meses seguintes, porm, Sabrina descobriu que havia problemas em ambas as minas, especialmente na dele. Os lucros das Minas Harte haviam baixado 
muito durante os ltimos anos, mas John nunca se queixara disso, e demonstrara uma grande honestidade ao no cobrir nunca os seus prejuzos com os lucros das Minas 
Thurston. Sabrina tinha mais uma razo para estar agradecida ao seu defunto esposo, e sentiu uma mgoa imensa ao pensar nos apuros por que ele passara sozinho, sem 
nunca lhe dizer nada. Mas as preocupaes sobre o que acontecera nas Minas Harte ficaram radicalmente alteradas quando, em 1917, os Estados Unidos entraram na Grande 
Guerra. De repente, a conseqente necessidade de armas e munies originou uma enorme procura de cinbrio, isto , sulfureto de mercrio, e os lucros de ambas as 
minas aumentaram vertiginosamente. Nessa altura, j eram conhecidas como Minas Thurston-Harte, e Sabrina comeou a fazer dinheiro a rodos, coisa a que no deu muita 
importncia. A sua nica preocupao, alm de no ter superado ainda a dor pela perda do homem que tanto amara, era o seu filho Jon. Ento, como que querendo encontrar 
uma parte perdida do esposo, comeou a trabalhar de novo nas minas vrios dias por semana. Isso afastaria da sua mente os pensamentos angustiantes que ainda a atormentavam, 
e mant-la-ia ocupada durante as horas em que Jon estivesse na escola. Mas o aumento crescente dos pedidos que as minas iam recebendo obrigou-a a passar cada vez 
mais tempo nelas, ao ponto de comear a trabalhar com a mesma intensidade de outros tempos. Tinha de ficar no escritrio at altas horas da noite e, muitas vezes, 
quando regressava a casa ao fim do dia, excessivamente cansada para pensar em comer ou fazer qualquer outra coisa, era j demasiado tarde para ver o filho.
       Agora, raras vezes ia a So Francisco. A Manso Thurston voltava a estar fechada. De vez em quando, ia l passar uns dias, com Jon, desembaraando-se sozinha 
como fizera depois da morte do pai. Passaram a um Natal, mas a lembrana das horas felizes vividas com John e da noite em que nascera o seu filho foi de mais para 
Sabrina. Sabia como o seu pai sentira a morte da me, o que a ajudava a compreender a sua prpria dor, tendo em conta que ela vivera muito mais tempo com John do 
que Jeremiah com Camille. No conseguindo agentar mais, voltou novamente para Napa para se sumir nas minas durante todo o dia
       E, com o tempo, foi-se dando conta de que Jon detestava essa sua forma de viver
       - No fazes mais do que trabalhar nessas malditas minas e nunca ests ao p de mim!
       Sabrina sabia que Jon no gostava da constante ateno que dispensava aos negcios. Mas encontravam-se em 1926, e as minas passavam novamente por alguns problemas, 
desta vez as duas. Havia menos procura de cinbrio, e tivera de despedir muitos homens e encerrar vrias galerias. Por outro lado, havia sete anos que a chamada 
"lei seca" estava em vigor, o que transformara os seus vinhedos em algo intil. Tudo isso motivou que, pela primeira vez na vida, comeasse a preocupar-se com a 
sua situao econmica, sobretudo tendo em vista que no queria privar Jon de nada. O rapaz s tinha doze anos e tencionava dar-lhe tudo o que ela tivera Em certos 
aspectos, era uma criana difcil. No s se mostrava ressentido pelo duro trabalho, prprio de um homem, a que a me se entregava durante longas horas, mas tambm 
pelo fato de o pai ter morrido. Parecia culpar a me por isso
       - A culpa no  minha, Jon! - dissera-lhe Sabrina, milhares de vezes, mas o problema era que, de certo modo, se sentia culpada pela morte de John, como se 
a sua obrigao devesse ter sido a de o acompanhar e morrer com ele. Todavia, se ela tambm tivesse morrido, que seria feito de Jon?
       - Todos os meus amigos acham que s esquisita. Trabalhas muito mais do que os pais deles.
       - No posso evitar. Sou responsvel por ti, meu filho, e vivemos tempos muito difceis.
       Em 1928, com o corao completamente destroado, Sabrina vendeu a mina de John e investiu tudo o que recebeu da venda na bolsa de valores imobilirios, esperando 
que um dia as aes pudessem render uma fortuna para Jon. Mas aquele sonho transformou-se num pesadelo horrvel no dia 29 de outubro de 1929, a tristemente clebre 
"Tera-Feira Negra". Perdeu tudo o que ganhara com a venda da mina de John. Sentia-se culpada do mau emprego que dera quele dinheiro. Trs anos depois, teve de 
enfrentar a necessidade de mandar John para a universidade. Enquanto no dormia a pensar na sua pssima situao econmica que o filho ainda desconhecia, Jon no 
parava de falar em ingressar em Princeton ou Harvard, em viajar para a Europa e no carro que queria que a me lhe comprasse antes de entrar para a universidade. 
Sem se dar conta do momento difcil por que ela estava a passar, no deixava de lhe fazer constantes exigncias. Sempre fora um rapaz exigente e Sabrina permitira-lhe 
que o fosse dando-lhe tudo quanto podia, como se com isso conseguisse minorar o remorso que sentia pela morte de John, quando o seu filho s tinha dois anos, e pelo 
fato de trabalhar to arduamente, privando-o da sua presena. Mas satisfazer todas as vontades de Jon no fez com que John voltasse  vida, s tornou a existncia 
de Sabrina terrivelmente difcil no momento de escolher a universidade para o filho e, pior ainda, quando este foi aceite em Harvard, Princeton e Yale.
       - Bem - disse Sabrina, contendo a respirao e tentando aparentar tranqilidade. Ao longo dos dois anos e meio, desde que comeara a Depresso, aprendera 
a dissimular aquele tipo de situaes. - Para onde queres ir?
       Como poderia ela pagar as propinas? Entretanto, as minas no lhe rendiam praticamente nada. Restava-lhe o recurso de vender a casa de Santa Helena. Haviam-se 
mudado para So Francisco quando Jon comeara a preparar-se para a entrada na universidade, e obrigara Hannah a acompanh-los, praticamente contra sua vontade, mas 
a velhota j regressara para a casa de Napa. Ali era mais feliz, e Sabrina lamentava ter de deix-la sem o seu alojamento preferido, mas no lhe restava outra opo. 
Teria de vender a casa de Napa para poder mandar Jon para a universidade quando chegasse o outono.
       - Talvez para Harvard, mam - disse-lhe Jon, to satisfeito consigo prprio que a fez sorrir.
       - Ests satisfeito contigo prprio, no ests? - Fosse como fosse, Jon era bom rapaz, e, se era mimado, a culpa era s dela. Sabrina tinha conscincia disso. 
- Na realidade, tambm estou satisfeita contigo. At agora, as tuas notas tm sido excelentes. Mereces entrar numa dessas universidades. Achas que Harvard  a mais 
adequada para ti?
       - Acho que sim. - Jon franziu o sobrolho. Quase se decidira por Yale, mas achava New Haven to triste como Santa Helena. Queria mais atividade. Toda a gente 
dizia que Boston era uma cidade fabulosa, e Cambridge no era mais do que um prolongamento dela. Estava to interessado pela vida social como pelas oportunidades 
que lhe oferecia o ambiente universitrio, coisa que no era surpreendente ou despropositado num rapaz de dezoito anos. Despropositado fora o pedido que fizera  
me antes de acabar a escola secundria nesse ano. Tinha quase dezoito anos, e Sabrina quarenta e quatro, mas, no modo de ver de Jon, a me poderia ter mais de um 
sculo. Muitas vezes, Sabrina parecia ausente, distrada, por razes que no partilhava com ele.
       - No te importas que compre um carro e o mande para o Este no comboio, pois no, mam? Em Cambridge, vou precisar dele a toda a hora - afirmou Jon, com um 
sorriso angelical. No lhe passava pela cabea que a me dissesse no a algum dos seus caprichos. Sabrina raramente o fazia, mesmo que tivesse de se privar de alguma 
coisa. Mas, desta vez, nem sequer podia pensar em comprar outro carro. Ainda no vendera a casa de Santa Helena e comeava a ficar desesperada. As propinas para 
o ano seguinte tinham de ser pagas em princpios de julho e, se no vendesse a casa de Napa, no fazia idia de como poderia resolver o problema. - Creio que o melhor 
seria um pequeno Model A com assento suplementar.  o carro ideal, e se estiver muito frio... - Sabrina levantou uma mo e esboou um olhar de pnico que Jon nunca 
vislumbrara nos seus olhos. Ele s pensava nele. A me, pelo contrrio, s estava preocupada com as suas reservas de dinheiro que eram cada vez mais escassas. Mas 
agora eram praticamente estranhos. Sabrina tolerara-lhe demasiadas coisas.
       - No creio que neste momento seja uma boa idia comprar um carro, Jon.
       - Porque no? - Olhou-a, surpreendido. - Preciso de um carro.
       Havia algo dentro dela que no lhe permitia contar a verdade. Provavelmente, o orgulho.
       - Ao princpio, podes passar muito bem sem um carro, Jon. Por amor de Deus, s vais fazer os dezoito em julho, e no creio que todos os teus colegas cheguem 
 universidade ao volante de um Model A novinho em folha. - O tom seco com que ela lhe disse tudo isto deixou Jon horrorizado.
       - Aposto que a maioria deles aparecer com um carro de uma marca qualquer. Meu Deus, como  que queres que eu l aparea?
       - No primeiro perodo, poderias ir de bicicleta - disse Sabrina, engolindo em seco, ou a p. Falaremos do carro no prximo ano.
       Talvez ento as coisas estivessem a correr melhor nas minas, embora ela no vislumbrasse a perspectiva de as coisas mudarem. No tocante aos vinhedos, h treze 
anos que estavam abandonados. J perdera a esperana de os renovar, e estava a pensar vender os terrenos. A nica coisa que sabia que nunca venderia seria a Manso 
Thurston, e tambm decidira desfazer-se do menor nmero de terrenos possvel. Sabia o que aquelas propriedades haviam significado para o pai quando construra o 
seu imprio; como tal, queria manter o maior nmero possvel para, um dia, deixar a Jon.
       - No compreendo a tua maneira de pensar - disse o rapaz, andando de um lado para o outro, visivelmente indignado. - J me imaginaste em cima de uma bicicleta? 
Todos se ririam de mim!
       - Isso  ridculo. - Sabrina sentia-se tentada a dizer-lhe qual era exatamente a sua situao econmica, mas sabia que nunca o faria. No queria assust-lo, 
e era demasiado orgulhosa. - Jon, metade da populao do pas encontra-se sem trabalho. As pessoas poupam o mximo que podem. Ningum ficar chocado por querermos 
fazer algumas economias. Chocadas ficariam se te vissem chegar num carro novinho em folha. A depresso econmica faz-se sentir por todo o lado. Suponho que no queres 
parecer um patego emproado do Oeste.
       - Tu  que ests a ser ridcula. Que nos importa essa maldita depresso? No nos afetou, pois no? Por que preocuparmo-nos com isso?
       Sabrina compreendeu que se equivocara ao oferecer-lhe uma imagem to cor-de-rosa da vida. De certo modo, isso tornara-o irrealista e insensvel. Ela era a 
nica responsvel por Jon no compreender os apuros por que a me estava a passar. Como poderia ele dar-se conta disso. Ela nunca lhe explicara nada E continuava 
sem querer dizer-lhe nada sobre a situao difcil em que se encontrava. Ocultara durante demasiado tempo os seus problemas para os revelar agora.
       - No deves ceder a atitudes irresponsveis, Jon. Temos de ter cuidado.
       Jon interrompeu-a
       - No estou a cometer nenhum ato irresponsvel, bolas! A nica coisa que quero  um carro.
       Jon ainda estava amuado quando, no dia da sua partida para a universidade, a me o acompanhou at ao comboio para Boston. E, como noutras ocasies semelhantes 
desde que John morrera, Sabrina sentiu um n na garganta ao ver o filho subir para o comboio. Tivera vontade de o acompanhar, mas havia demasiado que fazer nas minas. 
Entretanto, conseguira vender a casa de Napa na altura certa. O dinheiro chegaria para pagar os estudos e a estada de Jon em Harvard, e s rezava para que as coisas 
melhorassem a tempo de poder continuar a permitir-se aqueles gastos. A venda da casa de Napa destroara-lhe o corao. Fora propriedade da famlia de Jeremiah durante 
sessenta anos, e era a casa que ele construra para a noiva que morrera de gripe, e para onde levara Camille depois de se casar com ela, alm de ser a casa onde 
Sabrina nascera. Jonathan no considerou que tivessem perdido grande coisa com isso, pois achava Napa um lugar aborrecido. Entretanto, Hannah morrera dois anos antes, 
o que evitou que a velhota visse a casa que tanto amava passar para outras mos. Hannah nunca tivera grande inclinao pela Manso Thurston. Preferia a casa de Santa 
Helena, onde agora viviam estranhos, mas Sabrina tinha, pelo menos, o consolo de que Jon no se importava com isso. Queria dar-lhe a melhor educao possvel, com 
ou sem depresso econmica. Por isso, ficou furiosa quando viu as primeiras notas. Estava com negativas a tudo e, segundo parecia, ia raramente s aulas, o que fez 
com que o repreendesse seriamente quando ele lhe telefonou no Dia de Ao de Graas. Amlia convidara-o para ir a Nova Iorque, mas ele preferira ficar em Cambridge 
com os amigos.
       Amlia tinha ento oitenta e seis anos, e embora Sabrina ainda a achasse uma pessoa elegante e extraordinria, Jonathan no conseguia suport-la.
       -  to velha, mam.
       E era-o, inegavelmente, mas havia nela algo mais do que velhice. Sabrina lamentava que Jon fosse demasiado jovem para ver isso. Sentia alguma amargura pelo 
fato de ele no a apreciar, mas no valia a pena discutir com ele. Agora tinha, isso sim, de o repreender por causa das notas.
       - Se no levares os estudos mais a srio, ver-me-ei obrigada a anular-te a matrcula. - O que teria sido um alvio para ela, mas a inteno era mais a de 
o assustar. Ele ainda lhe deveria querer falar do Model A, mas, depois do sucedido, no acreditava que o fizesse. -  melhor que comeces a ir s aulas. Caso contrrio, 
ters de voltar e ir trabalhar para as minas comigo. - Para ele, aquilo era pior do que a morte. Detestava tudo o que estivesse relacionado com as minas, exceto 
o dinheiro que lhe proporcionavam e que lhe permitiam ter as coisas que o faziam sentir seguro e importante, como o carro que queria a toda a fora ter. Contudo, 
desta vez, no podia ajud-lo. Queria o carro para ser igual aos colegas. Afinal de contas, no tinha pai. Mas durante mais quanto tempo  que ela seria obrigada 
a sentir-se culpada por isso? Esse sentimento acompanhara-a durante anos, mas no fora capaz de lhe trazer o marido de volta. Espero que leves os estudos mais a 
srio e que as prximas notas sejam melhores. Veria as notas quando Jon viesse passar as frias de Natal em casa. A viagem implicaria um importante gasto, mas Sabrina 
no queria ficar sozinha no Natal e perder a oportunidade de ver o filho.
       No havia nada mais na sua vida a no ser Jonathan e a deprimente realidade de no conseguir agentar as minas durante muito mais tempo. Se recebesse uma 
proposta de venda para os terrenos dos vinhedos, sabia que os venderia, embora no parecesse haver ningum interessado neles. Eram inteis. Durante algum tempo, 
dedicara-se  produo de ameixas, nozes, mas e uvas de mesa, mas no obtivera o menor lucro. Sempre tivera o sonho de produzir vinhos requintados, sonho esse 
que nunca se materializara, e perguntava-se se conseguiria tirar uma s gota de vinho das cepas.
       Em dezembro de 1932, quando voltou a ver Jon, ficou surpreendida ao comprovar que durante os ltimos meses passados em Harvard se transformara num homem. 
Parecia j uma pessoa adulta e demonstrava uma surpreendente maturidade ao falar. Todos os seus gostos eram os de um adulto, inclusive o que sentia por raparigas. 
Sabrina reparou que, quando saa com os amigos, voltava quase sempre de madrugada, mas ainda havia nele atitudes que no haviam mudado. Continuava  espera que a 
me lhe satisfizesse todos os seus caprichos e necessidades, e a nica coisa que ele pagava eram as suas meninas
       Conseguira melhorar as notas, o que tranqilizara Sabrina, mas esta sabia que Jon voltaria a insistir naquilo que tanto temia. S dois dias depois de ter 
chegado a casa, comeou a importun-la com a sua obsesso, e no o fez antes porque ela estivera ocupada at ento.
       - Bem, mam... ento, o carro?
       - Tens as chaves l em baixo, querido - Sabrina sorriu. - Nunca se opusera a que Jon conduzisse o carro, mas ficou surpreendida ao ver a cara dele.
       - No me refiro a esse carro, mas sim ao novo. - Sabrina ficou sem pinga de sangue. Acabara de verificar novamente as cifras do rendimento das minas, e eram 
desesperantes. S uma boa guerra a poderia tirar daquele buraco. Sentia-se culpada por ter aqueles pensamentos, mas, na realidade, era o que aquele maldito pas 
precisava naquele momento. Ningum esperaria que uma mulher pensasse daquela maneira, mas ela sabia muito bem quais eram as molas da economia. Entretanto, comeava 
a preocup-la seriamente a possibilidade de ter de fechar as minas. No conseguia suportar os gastos que acarretavam. Ainda vivia do dinheiro que recebera da venda 
da casa de Napa, e precisava do resto para pagar os estudos de Jon no ano seguinte. Agora, no necessitava de quase nada para ela. Vendera tudo o que considerava 
suprfluo, exceto o carro, e no mantinha nenhum criado na Manso Thurston. S conservara os terrenos dos vinhedos e, de momento, as minas que o pai lhe deixara. 
Perdera o resto na depresso de 1929.
       - No acho que precises de um carro neste momento. No podia sequer pensar naquele gasto.
       - Por que no? - Jon olhou-a furiosamente, com todo o vigor dos seus dezoito anos, e certo de que j era um homem.
       - Temos de falar nisso agora? No podemos esperar?
       - Por qu? Vais a correr para o trabalho, como  teu hbito?
       Na realidade, tinha de ir a Santa Helena tratar de alguns assuntos. O encarregado-geral continuava a dirigir quase tudo por conta dela, mas Sabrina passava 
ali muitas horas a tentar pr as coisas nos eixos. No queria deixar aquela responsabilidade nas mos de ningum. No foi, pois, de estranhar que olhasse para Jon 
com a tristeza estampada no rosto.
       - No sei por que me dizes isso, Jon. Sempre estive aqui quando precisaste de mim.
       - Quando? Enquanto eu dormia? Quando estavas demasiado cansada para falar ao voltar para casa?
       Sabrina estava chocada com as coisas que Jon lhe dizia. Durante o resto das frias, continuou a aborrec-la com o tema do carro, mas sem proveito. Finalmente, 
quando partiu de novo para o Este, Sabrina estava cansada dos contnuos ataques que ele lhe fizera e sentia-se mais culpada que nunca por no poder dar a Jon o que 
este lhe pedia. Como vingana, o filho escreveu-lhe a dizer que s voltaria para casa em julho. Um dos "homens" que conhecera na universidade convidara-o a ir a 
Atlanta, mas no referia o nome do rapaz nem dava qualquer pormenor sobre a famlia. Era a sua maneira de a castigar, pensou Sabrina, por no lhe ter comprado o 
brinquedo que queria.
       Nesse vero, Jon voltou para casa em meados de julho, mas nesse ano no tinham stio para onde ir. J no possuam a casa de Napa. S lhes restava a Manso 
Thurston. Sabrina falou-lhe na hiptese de irem at ao lago Tahoe, mas Jon ficou de tal modo furioso ao ver que ela ainda no estava disposta a comprar-lhe o Model 
A, que foi para o lago sozinho com os amigos. Ao fim e ao cabo, o rapaz tinha j dezenove anos, e Sabrina no podia andar atrs dele para todo o lado, mas desgostava-a 
o fato de ele desaparecer daquele modo do seu lado, deixando-a sozinha na Manso Thurston.
       No por muito tempo, porm. Nesse Inverno, a situao piorou para Sabrina. As minas haviam deixado de render o suficiente para atender aos seus prprios gastos 
e aos de Jon. Na realidade, as minas comeavam a ficar em situao deficitria, o que obrigou a que s uma galeria se mantivesse em funcionamento. Como resultado 
disso, a Jonathan, ao voltar  Manso Thurston, no Natal, depararam-se-lhe quatro desconhecidos a viver l. A me comeara a alugar quartos, e, quando Jon se deu 
conta do que ela fizera, ficou fora de si
       - Meu Deus, ests louca? Que pensaro as pessoas? - Sabrina compreendia a revolta de Jon, mas, nesse ano, a sua situao econmica chegara a ser desesperada, 
e no lhe ocorrera outra coisa para a aliviar um pouco. Pusera os vinhedos  venda, mas ainda no encontrara comprador. Naquele momento, o dinheiro que entrava nos 
seus cofres era muito pouco. Finalmente, chegara a hora de explicar tudo ao filho.
       - No pude fazer outra coisa, Jon. As minas esto praticamente paradas. Tinha de valer-me de algum meio para conseguir dinheiro. Tu sabes muito bem disso. 
Atualmente, os teus gastos so muito superiores aos meus.
       A vida de Jon em Cambridge, na companhia dos seus novos e elegantes amigos, era uma festa contnua. Sabrina nunca se queixara disso, mas aquele era o preo 
que tinham que pagar. 
       - J te deste conta de que agora no posso trazer nenhum dos meus amigos aqui? Meu Deus! Parece um bordel.
       Sabrina no agentou mais.
       - Suponho, pelo dinheiro que andaste a estourar l pelo Este, que visitaste muitos.
       - No me venhas agora com sermes! - gritou-lhe Jon, certa vez, a altas horas da noite. - Por acaso, no te transformaste na madame da casa de putas que  
agora a Manso Thurston?
       Sabrina deu-lhe uma bofetada. Doeu-lhe ter de faz-lo, mas as coisas entre os dois estavam impossveis. Por isso, sentiu-se, at certo ponto, aliviada quando, 
no vero seguinte, Jon lhe disse que no viria passar nenhum dia em casa. Iria de novo para Atlanta veranear com os "amigos". A Sabrina desagradava-lhe ter de passar 
tanto tempo sem ver o filho, mas supunha que ele se encontraria entre gente decente. Bem vistas as coisas, era a melhor soluo para ambos, pois ela tambm no teria 
conseguido suportar as impertinncias do rapaz por causa do carro. Finalmente, e se bem que isso lhe cortasse o corao, decidiu vender as minas. Naquele momento, 
estavam quase esgotadas, pelo que teve de as vender pelo simples valor do terreno. Isso permitiu-lhe continuar a pagar os estudos do filho, embora dessa vez apenas 
durante um ano. Alm disso, prescindira dos hspedes, de modo que, quando Jon veio passar o Natal em casa, j no existia aquele motivo de desavenas entre eles. 
Dessa vez, a sua estada foi mais tranqila, e no falou no carro. Tinha outros propsitos em mente, que ainda eram um problema maior para a sua me. Em junho, queria 
ir para a Europa com um grupo de amigos, e Sabrina no fazia a mnima idia de como  que ele iria pagar aquelas frias.  exceo das jias, no lhe restava mais 
nada para vender, mas estava a reserv-las para poder pagar o ltimo ano de universidade de Jon. No entanto, aquela viagem parecia to importante para o rapaz. Com 
um suspiro de cansao, Sabrina sentou-se, uma noite, a conversar com ele
       - Com quem irias.
       H muito tempo que Jon no ia a parte nenhuma com ela, mas tinha quase vinte e um anos e no era compreensvel esperar isso dele Mas, s vezes, o fato de 
no saber com quem  que ele passava o tempo na escola deixava-a nervosa. S esperava que se tratasse de gente respeitvel, e no tinha razes para pensar o contrrio. 
Havia tantas coisas que no sabia a respeito dele. Coisas que o pai teria querido saber a todo o custo. Sabrina, porm, no estava segura de qual era o seu lugar 
e no queria intrometer-se na vida do filho. Alm disso, ele no se mostrava interessado em falar com ela. Aqueles anos foram muito difceis para os dois. Jon queria 
tudo, e quando lhe apetecia. As relaes que mantinha agora com ela baseavam-se em pedidos e necessidades. H muito que expresses de amor entre me e filho haviam 
deixado de existir. Sabrina tinha saudades da criana que trepava para o seu colo para a abraar. Era precisamente nisso que ela pensava enquanto o observava, sentada, 
na biblioteca.
       - Bem, posso ir?
       - Para onde? - Sabrina estava to cansada e absorta que perdera o fio  conversa. S lhe restava a casa em que viviam, os terrenos dos vinhedos e as jias 
que haviam pertencido a Camille, mas nada daquilo dava rendimento algum nem oferecia uma perspectiva de tempos melhores. Durante aqueles ltimos meses, Sabrina estivera 
a pensar na possibilidade de conseguir um emprego, mas no fazia idia de qual poderia ser. Por outro lado, havia sociedades imobilirias que queriam comprar-lhe 
os terrenos ocupados pelos jardins da Manso Thurston, a fim de construir casas neles. Aquilo poderia ser a soluo para os seus problemas financeiros, mas ainda 
no estava decidida a vend-los. Ainda no se sentia assim to senil, s tinha quarenta e seis anos
       - Para a Europa, mam.
       - Mas ainda no me disseste com quem.
       - Que importncia  que isso tem? Nem sequer conheces os nomes.
       - Por que no? - Talvez Amlia soubesse de quem se tratava. Ela tinha uma memria fantstica e, ao que parecia, conhecia toda a gente da costa este que era 
ou que tivesse sido algum. - Por que motivo no me dizes os nomes dos teus amigos, Jon?
       - Porque j no sou um menino de dez anos - resmungou, dando um salto da cadeira como que impelido por uma mola. - Deixas-me ir ou no? J estou farto desta 
brincadeira.
       - A que brincadeira te referes? - A voz de Sabrina era tranqila e pausada, como fora sempre, e no revelava nada da dor e da tenso em que vivera nos ltimos 
anos. S quem soubesse ler-lhe o olhar se aperceberia da mgoa que lhe ia no corao e na alma. Amlia havia-se dado conta disso na ltima vez em que se encontraram 
e sentira imensa pena dela. Desde a morte de John Harte, dezoito anos antes, no houvera nenhum outro homem na vida de Sabrina, mas tambm era certo que, desde ento, 
no conhecera nenhum outro que lhe chegasse aos calcanhares, e no o conheceria nunca. Levantou os olhos para Jon. No se parecia com nenhum dos dois. Nem com ela 
nem com o pai. Faltava-lhe a disciplina, a paixo pelo trabalho rduo. Pelo contrrio, gostava de divertir-se e procurava sempre a forma mais fcil de conseguir 
as coisas. Aquela tendncia preocupava, por vezes, Sabrina. Tinha de conseguir as coisas por si mesmo, e talvez agora fosse a altura certa. Era precisamente nisso 
que Sabrina pensava, enquanto Jon andava nervosamente de um lado para o outro da sala.
       - Jonathan, se tens tanta vontade de ir para a Europa, por que razo no arranjas um emprego em Cambridge por uns tempos?
       Jon lanou-lhe um olhar entre o perplexo e o irado.
       - E por que motivo no arranjas esse emprego, em vez de andares a lamentar-te que s pobre a toda a hora?
       -  isso que fao? - Os olhos encheram-se-lhe de lgrimas. Jon magoara-a profundamente. Procurara sempre no o massacrar com as suas queixas, mas ele sabia 
sempre quais eram os seus pontos fracos para a magoar. Sabrina levantou-se, cansada. Fora um dia longo para si, extremamente longo, e talvez ele tivesse razo. Talvez 
fosse ela quem devesse pr-se a trabalhar. Naturalmente, no era a primeira vez que pensava naquela possibilidade. - Lamento que fales dessa maneira. E talvez tenhas 
razo. Talvez devamos ambos trabalhar. So tempos difceis para toda a gente, Jon.
       - Pois na universidade no  isso que acontece. L todos tm o que querem, exceto eu.
       Outra vez o carro. Sabrina enviara-lhe tudo o que ele pedira e, como ambos sabiam, dispunha de uma generosa soma em dinheiro para atender aos seus gastos. 
Mas no tinha carro e agora havia uma viagem para a Europa. No lhe restava outro remdio seno fazer algo para conseguir uma fonte de rendimento.
       - Verei o que posso fazer
       Logo que Jon partiu para a universidade, Sabrina comeou a matutar na maneira de arranjar dinheiro. Era praticamente impossvel procurar um emprego naquela 
altura. Encontravam-se em 1935, e h anos que a economia estava empobrecida. Alm disso, no sabia escrever  mquina, no tinha experincia de ditado, no tinha 
os conhecimentos necessrios para secretaria, e os postos de direo de minas de mercrio no caam das rvores. Deixou-se rir para evitar chorar de desespero. De 
qualquer modo, era a nica coisa que sabia fazer. Entretanto, em maro, recebeu uma carta de Amlia, escrita com mo trmula, em que lhe dizia que um amigo seu ia 
visitar a Califrnia para comprar terras. Tratava-se de um homem chamado Vernay... De Vernay, mais exatamente. Sabrina sorriu perante aquele preciosismo de Amlia. 
Os vinhedos de Vernay produziam os vinhos mais requintados de Frana, e o homem, aproveitando o fim da lei seca, queria trazer algumas das suas cepas para os Estados 
Unidos. Amlia pedia desculpa por aborrecer Sabrina com tudo aquilo, mas, como sabia dos conhecimentos dela naquela rea, gostava de saber se ela poderia aconselh-lo.
       Sabrina no se importava de fazer aquele favor  amiga, mas, de repente, lembrou-se de que ele poderia interessar-se pela compra dos seus vinhedos. Nesse 
momento, de nada lhe serviam. Alm de estarem abandonados, no se encontrava em condies de voltar a dedicar-se  explorao vincola. Por outro lado, a lei seca 
durara demasiado tempo. Catorze anos haviam sido mais do que suficientes para faz-la desistir do seu sonho de um dia produzir o seu prprio vinho. Fora uma idia 
um tanto ou quanto louca, e at John estava sempre a gracejar com ela por causa dos vinhos, embora estivesse pronto a reconhecer que eram bons. Chegara a ser uma 
perita na matria, mas j esquecera grande parte dos seus conhecimentos. S sabia de minas de mercrio, e quem  que poderia interessar-se pelos seus servios? Ningum, 
como ela bem sabia. No lhe restava outro consolo que o de pensar nos velhos tempos... quando dirigia pessoalmente as Minas Thurston... quando a maioria dos homens 
a abandonara... quando voltara a erguer o negcio. Ento, teve vontade de dar uma reprimenda a si prpria. Ainda era muito jovem para pensar s no passado. Naquela 
primavera, faria quarenta e sete anos e, coisa extraordinria, apesar de tudo por que passara, sabia que aparentava muito menos idade. Todavia, sentia o peso de 
cada ano que passava. Era nisso que Sabrina pensava um dia, enquanto se encontrava no jardim a aparar as sebes com uma enorme tesoura. Ao olhar para a rua, apercebeu-se 
da presena de um homem de cabelos grisalhos que lhe fazia sinal com a mo do outro lado do porto. Devia ser para entregar alguma encomenda, pensou, e acercou-se 
dele, levando a mo enluvada  testa para proteger os olhos do sol. O homem estava impecavelmente vestido, o que no se poderia dizer dela. Tinha um aspecto horrvel. 
Envergava umas roupas velhas do filho, mas arregaara as calas e pusera uma jaqueta por cima. O cabelo estava apanhado num carrapito, donde escapavam longas madeixas. 
Olhou para o homem de cabelos grisalhos e fato de bom corte e perguntou-se que estaria ele ali a fazer. Talvez se tivesse perdido, pensou, ao abrir o porto.
       - Em que posso ajud-lo? - perguntou Sabrina, com um sorriso.
       O homem pareceu surpreendido, mas correspondeu  pergunta com um sorriso entre o amvel e o divertido. Quando falou, Sabrina reparou que o fazia com sotaque 
francs.
       - Mistress Harte?
       Sabrina assentiu com a cabea e ele sorriu.
       - Sou Andr de Vernay, amigo de Mistress Goodheart, de Nova Iorque. Creio que ela lhe escreveu.
       Por instantes, Sabrina no se lembrou de nada, mas no tardou a recordar a carta que Amlia lhe escrevera umas semanas antes, e olhou-o nos olhos, que eram 
quase da mesma cor que os seus.
       - Entre, por favor. Segurou o porto, e o homem entrou, observando os extensos jardins que rodeavam a casa.
       - J mal me lembrava... foi h vrias semanas...
       - Sa de Frana mais tarde do que o previsto. - Era extraordinariamente corts e tinha um aspecto elegantssimo. Sabrina conduziu-o at  casa, enquanto ele 
se desculpava por no ter mandado avis-la da sua chegada. E no conseguiu evitar a pergunta: -  a senhora que faz todos esses trabalhos de jardinagem? - Pareceu 
surpreendido.
       Sabrina sorriu.
       - Fao tudo. - Havia um certo orgulho naquelas palavras, mas era bem melhor quando no tinha de o fazer. - Acho que me faz bem. E riu-se. - Fortalece o carter. 
- Fingiu contrair os msculos do brao e ele riu-se. - E tambm os bicpites. No consigo viver sem ambas as coisas. - Atirou com a jaqueta para cima de uma cadeira, 
olhou para as calas ridculas que trazia e voltou a rir. - Bem, pensando bem, talvez tivesse sido boa idia ter-me avisado. - Ele tambm se riu. - Toma uma xcara 
de ch?
       - Sim. No... isto ... - Os olhos pareciam arder ao olh-la. Dava a sensao de que viajara para to longe s para falar com ela, o que divertia Sabrina. 
Parecia que a cabea lhe ia rebentar de um momento para o outro se no lhe dissesse quanto antes aquilo que tinha em mente. Enquanto ela preparava o ch, Vernay 
sentou-se numa cadeira da cozinha. - O que desejo, madame,  que me aconselhe. Madame Goodheart disse-me que a senhora conhece a zona melhor do que ningum. Refiro-me 
 rea de Napa. - Dava a impresso de estar a referir-se a uma parte de Frana, o que fez sorrir Sabrina.
       - Creio que sim.
       - Quero criar a os melhores vinhos franceses. - Sabrina serviu-lhe o ch e sentou-se diante dele para servir o seu.
       - Foi o que eu quis fazer h muito tempo.
       - E o que a levou a mudar de idias?
       Vernay parecia preocupado. Sabrina fitou-o, em silncio, perguntando-se por que motivo  que Amlia o mandara ter com ela. Era um homem surpreendente. Bem-parecido, 
alto, aristocrtico e inteligente, dava a sensao, enquanto tomava o ch na cozinha, que estava ali por um motivo especial, por uma qualquer razo que Sabrina ainda 
no vislumbrara e que tentava adivinhar enquanto ele falava.
       - No mudei de idias, Monsieur de Vernay, as circunstncias  que me levaram a fazer outras coisas. H vrios anos, o mldio deu-nos cabo das cepas. Depois, 
com a lei seca, foi impossvel sequer pensar, durante catorze anos, na vinicultura. Entretanto, os vinhedos ficaram em completo desleixo, e agora... no sei... creio 
que j  demasiado tarde. Mas desejo-lhe sorte. A Amlia diz que quer comprar terras. Seria uma boa ocasio para lhe vender as minhas. - Vernay deu imediato sinal 
de interesse e pousou a xcara em cima da mesa, mas Sabrina abanou a cabea. - No lhe faria uma coisa dessas. Est tudo to desprezado que s com dinamite conseguiria 
limpar o terreno. Durante muitos anos, os meus interesses em Napa resumiram-se exclusivamente  explorao mineira. Os vinhedos sofreram com isso. Nunca tive tempo 
de fazer aquilo que realmente queria. Consegui alguns bons vinhos, mas no passei da.
       - E agora? - Vernay era extremamente dinmico, e esperava que os outros tambm o fossem.
       Sabrina sorriu e encolheu os ombros.
       - J vendi as minas. Fazem parte do passado.
       - Que tipo de minas? Ficou intrigado. - Amlia falara-lhe de Sabrina, mas no o suficiente. Descrevera-a at num tom algo misterioso. " uma rapariga fabulosa 
e sabe tudo o que se possa imaginar sobre o vale. Fale com ela, Andr. No a deixe escapar." Aquela recomendao parecera-lhe algo estranha, mas agora, diante dela, 
compreendia, at certo ponto, as palavras de Amlia, pois Sabrina mostrava-se bem mais esquiva, como se estivesse a esconder-se de toda a gente. - Que tipo de minas 
tinha, Mistress Harte? - insistiu.
       - De mercrio.
       - Cinbrio - disse ele, sorrindo. - Sei muito pouco disso. Tinha algum  frente delas? - Nos ltimos tempos, assim fora, mas Sabrina desatou a rir e abanou 
a cabea. Naquele momento, a expresso do seu rosto f-la parecer muito mais jovem. Apesar do seu desalinho e do improvisado atavio de jardineira, era uma mulher 
bonita cuja idade era difcil de precisar. Sabrina pensava o mesmo a respeito dele.
       - Por algum tempo, dirigi-as eu mesma. Durante um pouco mais de trs anos, depois da morte do meu pai. - Andr de Vernay ficou impressionado. No era tarefa 
fcil para uma mulher. Amlia tinha razo. Sabrina era uma mulher fabulosa, e devia ter sido tambm uma rapariga fabulosa. Sentia-o. - Depois, foi o meu marido quem 
ficou  frente das minas. A voz tomou um sbito tom de tristeza. - As coisas mantiveram-se assim at ele morrer. Ento, voltei a tomar as rdeas das minas, tanto 
das minhas como das dele, para acabar por as vender h poucos anos.
       - Deve ter saudades do trabalho.
       Sabrina fez um gesto afirmativo com a cabea, admitindo esse fato sem rodeios.
       - Tenho.
       Vernay tomou outro gole de ch e, esboando um sorriso, perguntou:
       - Quando poderei ver as suas terras, Mistress Harte? - Esta riu-se e abanou a cabea.
       - Oh, no, no lhe faria uma coisa dessas. Mas terei muito gosto em indicar-lhe as pessoas com quem poder falar para comprar boas terras para vinhedos. Deve 
haver muitas  venda. - O semblante de Sabrina tomou um ar mais sbrio. - As pessoas por estes lados esto a atravessar muitos problemas econmicos. 
       - Isso  assim em todo o lado, Mistress Harte. - As coisas no estavam melhor em Frana. S na Alemanha, sob o regime de Hitler, a economia parecia dar mostras 
de melhorias, mas s Deus sabia o que esse louco viria a fazer. Andr no confiava nele, assim como a maioria das pessoas, embora os Norte-Americanos achassem que 
ele no representava qualquer ameaa. Vernay no partilhava dessa opinio. - Mas h muitos anos que tenho esta idia na cabea. E no meu modo de ver, este  o momento 
oportuno para a pr em prtica. Acabo de vender os vinhedos que possua em Frana, e quero estabelecer-me aqui. 
       - Por qu? - Sabrina no conseguiu evitar a pergunta ao ouvir falar de planos to arriscados. 
       - No me fio no que est a acontecer na Europa neste momento. Vejo o Hitler como uma ameaa efetiva, embora muito poucas pessoas concordem comigo. Creio que 
estamos a precipitar-nos para uma nova guerra, e prefiro estar aqui.
       - E se no houver nenhuma guerra? Regressa ao seu pas?
       - Talvez sim, talvez no. Tenho um filho e gostaria que ele tambm viesse para c.
       - Onde est agora?
       - A esquiar na Sua. - Riu. - Ah, a vida difcil da juventude!
       Sabrina tambm se riu.
       - Que idade tem?
       - Vinte e quatro. Trabalha comigo nos vinhedos h dois anos. Estudou na Sorbonne; depois, voltou para trabalhar comigo. Chama-se Antoine.
       - Sabrina notou o orgulho com que falava do filho e observou:
       - Tem muita sorte. O meu filho faz vinte e um anos este ano, est a estudar numa universidade do Este, e duvido que queira voltar a viver em So Francisco. 
Parece ter-se apaixonado por aquela parte do pas.
       - Isso passar. Ao Antoine, ao princpio, acontecia-lhe a mesma coisa com Paris, e agora no pra de me dizer que Paris  um lugar horroroso e que  muito 
mais feliz em Bordus.  to provinciano que nem sequer quis vir comigo para Nova Iorque. Todos tm as suas idias, mas, no final - esboou um sorriso malicioso, 
- acabam por recuperar a humanidade perdida. O meu pai sempre disse que adora os filhos... depois de fazerem os trinta e cinco anos. S temos de esperar mais uns 
aninhos.
       Sabrina riu-se e serviu-lhe outra xcara de ch. Ento, de repente, ocorreu-lhe uma idia, e olhou para o relgio da cozinha. Vernay reparou no gesto e perguntou 
com sbita preocupao:
       - No estou a ma-la, Madame Harte?
       - Trate-me por Sabrina, por favor. No, no me est a maar, de forma alguma. S estava a pensar que talvez pudssemos ir agora at Napa no meu carro. Gostaria 
de mostrar-lhe pessoalmente algumas das terras mais interessantes. Como est a sua agenda para hoje? - Vernay ficou sensibilizado.
       - Adoraria, mas tenho a impresso de que, por minha culpa, deixar coisas por fazer.
       - S deixarei de cortar a sebe. Alm disso, h j muito tempo que no vou a Napa. Ser um prazer para mim fazer a viagem na sua companhia. - Era o mnimo 
que podia fazer pela antiga amiga de seu pai. Amlia fora sempre to boa para ela, durante tantos anos. - A propsito, como est a Amlia?
       Sabrina pousou as xcaras no lava-loua, e Andr acompanhou-a at ao salo principal.
       - Muito bem. Cada vez mais velha e caduca, naturalmente, mas, considerando que j fez os oitenta e nove, o estado das suas faculdades  notvel. A mente tem 
a agudeza de uma lmina afiadssima. - Riu-se. - Adoro discutir com ela. Nunca ganho, mas  um desafio que sempre me deu muito gozo. Temos idias polticas muito 
diferentes. - Sorriu para Sabrina... Corou, e ela sorriu.
       - Creio que o meu pai sempre teve um fraquinho por ela. E ela foi sempre amorosa para mim. Em muitos aspectos, foi como uma me. A minha morreu quando eu 
tinha um ano.
       Sabrina desculpou-se e foi mudar de roupa. Quando voltou, trazia um bonito vestido saia-casaco de tweed cinzento e azul e sapatos rasos. Os cabelos estavam 
puxados para trs. Vernay ficou impressionado pela natural elegncia de Sabrina. O seu aspecto era muito diferente do que oferecia uns minutos antes, o que reavivou 
de novo na mente de Vernay a expresso "rapariga fabulosa". Amlia tinha razo. Sempre tivera. Em tudo... exceto em poltica, pensou ele, enquanto seguia Sabrina 
para o exterior da casa. A garagem estava oculta por rvores e sebes que se erguiam perto do porto por onde ele entrara. Sabrina tirou de dentro dela um Fora azul 
com seis anos, abriu a porta a Vernay e partiram. J a caminho do Norte, Sabrina virou-se para o seu acompanhante e disse, por entre um sorriso:
       - E eu que estava a pensar acabar de cortar as sebes hoje. - Mas o certo era que se sentia encantada por ir para Napa com ele.
       
      29
       
       Chegaram a Santa Helena duas horas e meia depois de terem sado de So Francisco, e Sabrina, ao voltar a respirar o fresco ar do vale e ao ter de novo diante 
dos seus olhos as verdes colinas, sentiu uma emoo como h muito no sentia. No voltara a Napa desde que vendera a casa e as minas, mas agora dava-se conta do 
grande quinho que aquelas paragens ocupavam no seu corao e da enorme paz de esprito que lhe proporcionavam Ao reparar que Andr de Vernay a observava, virou-se 
para ele, exalando um suspiro e com um sorriso nos lbios. Ela no precisava de dizer nada, ele compreendia perfeitamente o estado de nimo de Sabrina.
       - Compreendo como se sente.  o mesmo que sinto por Bordus e o Mdoc.
       Aquele vale significava muito para ela. Durante muito tempo, fora parte integrante da sua vida. Com verdadeiro entusiasmo, ia indicando a Andr os pontos 
mais importantes. Oakville Rutherford, alguns dos vinhedos surgidos ultimamente. Indicou-lhe as colinas onde se situavam as suas antigas minas e, depois de deixar 
para trs o Silverado Trail, parou o carro e apontou para uma grande extenso de terreno. A quantidade de mato que o cobria evidenciava que no se cortava ou plantava 
nada desde h vrios anos. Um poste com o letreiro "VENDE-SE" encontrava-se derrubado. Sabrina no tentara desfazer-se daquelas terras nem sabia que destino dar-lhes. 
Noutros tempos, sonhara que obteria delas excelentes colheitas de uvas. Virou-se, deteve o olhar nos olhos azuis de Andr e encolheu os ombros num gesto de desculpa.
       - Isto aqui j foi muito bonito. - Depois, definiu-lhe os diferentes vinhos que obtivera, falou-lhe do mldio e do modo como a lei seca acabara de vez com 
os vinhedos. - Acho que nunca mais cultivarei nada aqui. Tinha uns oitocentos hectares ali e uns vinhedos mais  frente. - Andr falava pouco. Entraram nos terrenos, 
afastando os ramos que lhes impediam o caminho, enquanto ele ia fazendo uma idia do que Sabrina possua e comprovava a qualidade da terra agachando-se de vez em 
quando para apanhar punhados dela e a examinar. Por fim, olhou com ar srio para Sabrina e, com acentuado sotaque francs que a fez sorrir, disse:
       - Tem aqui uma mina de ouro, Mistress Harte. - Estava a falar a srio.
       Sabrina abanou a cabea
       - Pode t-lo sido durante algum tempo, mas no agora. Como tudo o resto, perdeu valor. - Estava a pensar nas minas que tivera que fechar e nos vinhedos, outrora 
to bem cuidados. Aquilo era uma espada de dois gumes. Aquele regresso ao lugar que ela e o pai tanto haviam amado enchia-a de agradveis recordaes, mas fazia-lhe 
ver que nada do que ali houvera existia j; o seu pai... John., at mesmo Jon quase desaparecera. Sabrina sentiu gravitar sobre ela todo o peso da juventude perdida. 
De repente, lamentou ter voltado ali. De que lhe serviria chorar sobre o passado? - Eu devia vender tudo isto num destes dias. Nunca c venho, e as terras no me 
rendem nada.
       - Eu poderia compr-las - disse Vernay, mantendo a porta do carro aberta para que ela entrasse, - mas seria como roubar um filho. Julgo que ainda no se deu 
conta da excelente terra que tem aqui. - Era um solo to rico como o do Mdoc. Instintivamente, sabia que podia produzir maravilhas ali. - Sim, quero comprar terras 
aqui, Sabrina... - Semicerrou os olhos ao olhar para as colinas. Aquilo no era Bordus, mas um lugar bonito, e podia ser feliz nele. Se conseguisse trazer Antoine 
e uns quantos dos seus melhores homens, poderia fazer coisas maravilhosas, mas primeiro tinha de saber com que terras poderia contar.
       - Est a falar a srio. - Pelo olhar dele, Sabrina via que sim. Afinal de contas, oferecera-se para o ajudar. Andr no estava a pression-la para que lhe 
vendesse as terras. Alm disso, conhecia todos os proprietrios das redondezas. Levou-o  melhor agncia de compra e venda de propriedades agrcolas, o que permitiu 
a Andr saber que havia uns mil e quinhentos hectares  venda junto s terras de Sabrina. O preo era baixo, e havia muito trabalho para fazer, mas Andr estava 
ansioso por v-las antes de escurecer. Sabrina levou-o no carro.
       J as vira quando da primeira visita, mas ento desconheciam qual a rea que estava  venda. Andr percorreu os terrenos, examinou tudo meticulosamente, apalpou 
a terra, partiu vrias vides secas, tocou numa infinidade de folhas e inspirou o ar como se quisesse saturar-se dele. Sabrina observava-o da estrada. Divertia-a 
a total entrega com que Andr fazia todas as coisas, a sua prudncia e a sua seriedade. Todavia, quando voltaram a falar, havia uma certa malcia no olhar de Andr, 
mas no quando discutiram sobre cepas, sobre a sua remite, ou sobre aquelas terras, quando regressavam  agncia. Estava imensamente satisfeito, e era visvel um 
contagiante entusiasmo no seu olhar.
       - Que diria, Sabrina, se lhe pedisse que me vendesse as suas terras?
       - Em vez das que vimos? - Pareceu surpreendida.
       - Alm das que acabamos de ver. E ainda tenho uma idia melhor. Podamos ser scios. Eu cultivaria as suas terras ao mesmo tempo que as minhas. Ficaramos 
assim com uns magnficos vinhedos.
       Por instantes, os olhos de Sabrina danaram. Era o que sempre quisera fazer. Mas agora?
       - Est a falar a srio.
       - Claro que sim.
       Voltaram ao escritrio do corretor imobilirio, e Andr, num abrir e fechar de olhos, negociou o preo e fechou o negcio, para alvio do homem. A famlia 
iria comer bem com a comisso que ele receberia, e tinha quatro filhos para alimentar.
       Andr virou-se para Sabrina.
       - Que me diz?
       Fez-se uma interminvel pausa, durante a qual ambos contiveram a respirao. Sabrina sentiu uma emoo que no sentia desde h muito tempo. O entusiasmo pelos 
negcios, pelo trabalho, pelo patrimnio, pelas compras e as vendas. Solenemente, abanou a cabea.
       - No lhe vendo as minhas terras, Andr. - Instintivamente, ele esperara aquela resposta.
       - Permite-me, ento, que cultive os seus vinhedos e que sejamos scios? - Juntos, seriam donos de uns trs mil hectares, uma propriedade enorme. Sabrina fez, 
ento, um gesto de concordncia com a cabea, enquanto os olhos brilhavam tanto como os dele.
       - De acordo
       Selaram o contrato com um aperto de mos, perante a curiosidade e olhar satisfeito do corretor, que tinha a sensao de que acabava de se fazer histria, 
e no estava longe da verdade. Pouco depois, Andr passou-lhe um cheque como sinal da compra que acabava de realizar. E s ento se lembrou de que precisava de uma 
casa.
       Nem sequer pensara nisso. Olhou para Sabrina, algo desconcertado. Necessitava de alojamento para si e para o filho, decente, mas no muito grande. Para comear, 
poderia alugar uma pequena casa. Ia deixar o pequeno e elegante castelo que possua em Frana, no Mdoc Mas o seu desejo era deixar tudo. Havia algo dentro de si 
que lhe dizia que a Europa caminhava para o abismo E aquele era um novo pas, um novo mundo, uma nova oportunidade. Era algo muito mais excitante do que ficar comodamente 
sentado na sua torre de marfim. Antoine tambm ficaria entusiasmado com tudo aquilo. De regresso, j passava um pouco das oito horas, pararam numa estao de servio 
para tomar uma refeio ligeira. Devoraram com incrvel apetite um par de hambrgueres e beberam cerveja. Entretanto, Sabrina contou-lhe como era o vale de Napa 
noutros tempos.
       - Nasci aqui, em Santa Helena, na casa do meu pai.
       - Ainda a conserva?
       -Vendi-a. - Olhou para Andr com ar franco, no tinha nada a esconder. - Vendi-a para conseguir pagar os estudos do meu filho. Quando, em mil novecentos e 
vinte e nove, a bolsa deu o estouro, o rapaz tinha quinze anos, e trs anos depois mandei-o para uma universidade do Este. Estava em vias de perder as minas, perdi 
todas as aes que tinha na bolsa e j no precisava da casa de Napa. H anos que vivemos na cidade. - No se sentia muito orgulhosa de admitir os seus problemas 
perante ele, mas Andr era um homem muito compreensivo. A partir do momento em que haviam firmado, com um aperto de mos, o acordo de cultivar juntos as suas terras, 
Sabrina sentira-se ligada a ele de um modo muito peculiar. Era como se se tivessem tornado amigos de um momento para o outro. Naturalmente, a recomendao de Amlia 
no fora alheia  confiana que Andr inspirara a Sabrina. - Ainda tenho de pagar os estudos do meu filho durante mais um ano. Ento, quando acabar o curso - acrescentou, 
com um pequeno suspiro de alvio, - terei, pelo menos, a satisfao de ter-lhe dado tudo quanto pude.
       - E voc? Que lhe d o seu filho?
       Sabrina esteve quase a dizer "amor", mas no estava certa de que fosse isso. Supunha que Jonathan lhe dava algo: a sensao de no se sentir to s quando 
ele vinha a casa, de que, nalgum lugar do mundo, havia algum que a amava, ainda que o rapaz nunca o tivesse manifestado. Estava mais interessado no que a me lhe 
poderia dar.
       - No sei ao certo, Andr. No sei bem o que os filhos nos do, a no ser a alegria de saber que so nossos.
       - Ah! - exclamou, meneando a cabea num gesto muito francs. - D-lhe mais uns anos.
       Sabrina riu-se ao pensar nalgumas das discusses que tivera com o filho.
       - Oxal tenha razo. E, quanto aos terrenos, que planos tem para eles? - Sabrina estava fascinada com a determinao que ele exibia sempre que falava deles. 
Andr estava decidido a deixar Bordus e a mudar-se para ali. - Acha mesmo que as coisas vo assim to mal em Frana, Andr?
       - Cada vez pior. Estou absolutamente certo disso. Discuti essa questo com a Amlia a ltima vez que nos encontramos em Nova Iorque. Disse que os franceses 
so demasiado inteligentes para se deixarem vencer pelas circunstncias, mas creio que, desta vez, est enganada. Politicamente, estamos debilitados, economicamente, 
no somos muito fortes e, alm disso, temos aquele louco do Hitler a leste que no pra de nos agitar a bandeira nazi. Sinceramente, creio que chegou o momento de 
partir, pelo menos, durante uns tempos.
       Sabrina perguntou-se se ele no estaria tomado de pnico. Talvez se devesse  idade. Andr dissera-lhe que tinha cinqenta e cinco anos, e ela sabia que John 
se tornara mais conservador naquele momento da vida, e que comeara a preocupar-se com a poltica como nunca o fizera. De repente, principiara a ver perigos por 
todo o lado, coisa que Sabrina tambm notara no pai naquela idade, sem que os seus receios viessem a confirmar-se. No fez, pois, muito caso das apreenses de Andr, 
que a estava a olhar com ar pensativo. Depois de tomar o ltimo gole de caf, observou:
       -  possvel, Sabrina, que pense que no me encontro no meu perfeito juzo, mas no consigo deixar de pensar naquelas terras. Nas suas e nas minhas. So adequadssimas 
para o que quero levar a cabo. Por outro lado, disse-me que noutros tempos tambm esteve muito interessada nos vinhedos. Por que razo, em vez de mos arrendar, no 
se converte num scio ativo e comea o negcio comigo?
       - Esses tempos j fazem parte do passado. J no sou uma mulher de negcios, Andr. - Precisamente por s-lo, pagara um elevado preo, a ira do filho.
       - No sei por que, mas no consigo pensar neste negcio sem a incluir nele. Parece-lhe uma loucura assim to grande?
       - Um pouco - afirmou Sabrina, enquanto a empregada voltava a encher-lhes as xcaras de caf. Andr costumava beb-lo em grandes quantidades e, com um grande 
tato, deixou entender que o de Frana era muito melhor, uma insinuao que fez rir Sabrina, mas estava curiosa por ouvir os projetos dele.
       - Em que est a pensar, Andr?
       Soltou um leve suspiro e voltou a pousar a xcara de caf em cima da mesa.
       - Gostaria de comprar a superfcie necessria desses terrenos para que possamos considerar-nos scios em igualdade de condies? Fifty-fifty em tudo.
       Sabrina deixou escapar uma gargalhada ao ouvir aquele termo americano.
       - Comprar, eu? Andr, vejo que ainda no se deu conta da minha situao. Mal tenho para manter o meu filho na universidade. S me resta a casa de So Francisco 
e aquela selva que acabou de ver em Napa. Como poderia eu comprar esses terrenos em sociedade consigo? - Envolvia a compra de uns quatrocentos hectares, gasto que 
no podia permitir-se em absoluto.
       Andr pareceu desiludido, mas ainda no se dava por vencido.
       - No sabia... s pensei... - Havia algo de francs nos olhos azuis, que encantava Sabrina. Andr era um homem bem-parecido, e a sua beleza e a sua agilidade 
faziam-no parecer mais jovem do que realmente era. Passava bem por um homem com menos vinte anos. - Ento, no tem outros recursos? - Era uma pergunta excessivamente 
direta, mas feita sem ms intenes. Andr estava ansioso por chegar a um acordo com Sabrina. Alm da excelente impresso que tinha dela pelas extraordinrias coisas 
que Amlia lhe contara sobre o acerto e a habilidade com que dirigira as minas durante vrios anos, acreditava que ela seria capaz de encontrar o meio de comprar 
os vinhedos conjuntamente com ele. E tambm estava convencido de que sabia mais de vinicultura do que lhe fizera crer.
       - H muitos anos que no presto ateno a essas coisas, Andr. Quando era jovem, acreditava que poderia produzir aqui vinhos to bons como os franceses, mas 
h quantos anos  que isso foi? Quinze? Vinte e cinco? A minha experincia vincola ser-lhe-ia de muito pouca utilidade. - Estava surpreendida com o fato de Andr 
ter chegado a propor-lhe a formao de uma sociedade, mas tinha de admitir que a idia a intrigava. Todavia, sentia maior interesse por aquela proposta do que pelo 
simples arrendamento dos vinhedos. - No nego que gostaria de colaborar consigo, mas deveria vender as terras que possuo em vez de comprar mais. - Suspirou ao pensar 
na situao. Ainda tinha de fazer frente s despesas de manuteno de Jonathan em Harvard durante mais um ano. Deveria efetuar o pagamento da a meses e, para satisfaz-lo, 
s contava com o dinheiro que pudesse fazer da venda das terras de Napa, dos terrenos ocupados pelos jardins que circundavam a Manso Thurston e das jias da me, 
que nunca usava. Refletiu, por instantes, sobre o assunto, e voltou a faz-lo nessa noite quando j estava na cama. Andr voltaria sozinho a Napa no dia seguinte 
para ver mais pormenorizadamente o terreno que comprara na vspera e falar com os proprietrios sobre o negcio. Alm disso, aproveitaria a viagem para ver se podia 
encontrar alojamento.
       Ao pensar em Andr, Sabrina deu-se conta de que gostava cada vez mais dele, e desejava que ele tivesse o maior dos xitos com os seus vinhos. No podia deixar 
de admirar uma pessoa que, com a sua idade, abandonava o pas de origem e todas as comodidades para comear de novo a onze ou doze mil quilmetros de distncia. 
Era preciso algo mais do que esprito de aventura para levar a cabo uma empresa como aquela, e ela admirava-o. Quase tanto como Andr a admirava a ela. Ele sentia 
que Sabrina era dona de uma extraordinria fora interior, em conformidade com aquilo que Amlia insinuara antes de se conhecerem. Carregava um pesado fardo. No 
era difcil adivinh-lo, ainda que o nico indcio disso fosse o que ela lhe dissera quando lhe propusera a compra das terras a meias E ainda estava a pensar na 
idia de Andr, lamentando no poder comprar a parte do terreno que lhe correspondia, quando, na manh seguinte, se sentou, de repente, na cama. Se vendesse os jardins 
que circundavam a Manso Thurston, conseguiria arranjar o suficiente para pagar o ltimo ano de estudos de Jon e ainda lhe sobraria dinheiro para outras coisas. 
Pensou na possibilidade de o pr a render ou fazer um ou dois investimentos, mas a verdade era que no havia melhor investimento do que a compra de terras. O pai 
sempre lhe dissera isso, e, se se juntasse a Andr na compra dos vinhedos, no lhe restaria um nico cntimo, mas se, como parecia, ele sabia o que estava a fazer, 
os lucros no se fariam esperar. Tal deciso, dada a situao econmica do pas, no deixava de implicar um tremendo risco, mas o corao dizia-lhe que no podiam 
fracassar. O sangue comeara a correr-lhe nas veias com o mesmo mpeto de outros tempos, quando conduzira as minas a um apogeu nunca antes alcanado. Alm disso, 
era isso que desejara desde o primeiro momento. J em menina, gostava mais dos vinhedos do que das minas. Pensou nisso durante todo o dia, perguntando-se se Andr 
teria comprado mais terrenos. Entretanto, fez duas ou trs chamadas para oferecer a venda dos jardins e, quando Andr lhe telefonou nessa noite, estava to entusiasmada 
que ele mal percebia o que ela dizia.
       - Poderei faz-lo consigo, Andr!
       O corretor acreditava que, no dia seguinte, haveria uma oferta de compra dos jardins da Manso Thurston. H anos que duas companhias imobilirias esperavam 
por aquela ocasio, e estavam dispostas a pagar um bom preo. O que significava que teria de viver com obras  sua volta, e nunca mais voltaria a gozar do isolamento 
que tivera at ento, mas no se importava. Desde que pudesse entrar no negcio com Andr... Este mal percebia o que ela dizia e estava confuso.
       - Qu?... O qu?... que disse?... Mais devagar, mais devagar... - Andr ficara contagiado com o entusiasmo de Sabrina, certo de que algo maravilhoso acontecera, 
mas no fazia a menor idia do qu.
       - Desculpe, no estou a explicar-me bem. Primeiro que tudo, como  que correram as coisas hoje?
       - Muito bem. Maravilhosamente. - Tambm parecia entusiasmado. - E tive esta idia: compro as terras, vendo-lhe quatrocentos hectares e paga-me quando puder. 
Pode faz-lo dentro de cinco anos, se quiser. Nessa altura, o vinho ter-nos- enriquecido aos dois. - Andr riu-se e Sabrina esboou um largo sorriso.
       - No precisa de fazer isso. Tive uma idia. - Ia a explicar-lha, mas pensou que mais valia fazer outra coisa. - Tive uma idia excelente. No quer vir tomar 
um conhaque? Gostaria de falar consigo sobre o assunto.
       - Ah!... - Andr mostrava-se intrigado, e o conhaque era uma tima idia. - No acha que j  muito tarde? J passa das dez.
       Sabrina estava impaciente por lhe comunicar os seus planos. No podia esperar at ao dia seguinte. Parecera uma criana excitada durante toda a tarde, e Andr 
acedeu a sair do hotel e a apanhar um txi. Cinco minutos depois, estava j a bater  porta principal. Sabrina voou pelas escadas abaixo para lha abrir. Tinha j 
o conhaque  espera dele na biblioteca, junto  lareira. Sabrina subiu apressadamente as escadas, seguida do recm-chegado, que, a rir, lhe perguntou:
       - Que diabo se passa hoje consigo, Sabrina?
       Ao ouvir o seu nome com sotaque francs, no conseguiu conter o riso. Serviu-lhe prontamente o conhaque e convidou-o a sentar-se.
       - Tive uma idia... sobre as terras de Napa.
       O brilho no olhar de Sabrina provocou uma tremenda curiosidade em Andr, que se interrogou se seria por isso que ela o chamara. Talvez ela fosse fazer um 
milagre.
       - Sabrina, acabe com esse mistrio todo! - sussurrou. Sabrina olhou para Andr. O seu instinto feminino dizia-lhe que a sua vida estava prestes a dar uma 
volta, como j acontecera noutras ocasies... como quando o pai morrera e ela tivera de tomar as rdeas das minas... como quando casara com John... como quando Jonathan 
nascera... E agora, de repente, a sua vida voltaria a dar uma volta importante. Teve plena conscincia disso quando os seus olhos se cruzaram. Sempre acreditara 
que os seus dias de poder haviam terminado para sempre, mas agora sabia que estavam a comear de novo. Queria fazer sociedade com Andr. Era o seu maior desejo. 
E o seu outro instinto, o comercial, permitia-lhe ver algo pouco comum naquele homem. Andr de Vernay entrara na sua vida. E agora ela caminharia a seu lado. Podia 
confiar plenamente nele. A longa amizade de Andr com Amlia era garantia mais do que suficiente.
       - Quero comprar os terrenos consigo.
       Os olhares de ambos encontraram-se e detiveram-se por instantes.
       - Pode faz-lo? Eu pensava que...
       - Estive toda a noite a pensar nisso, e hoje fiz alguns telefonemas. Bastar que venda os jardins que circundam a Manso Thurston. Tambm preciso do dinheiro 
para pagar o prximo ano de estudos do meu filho em Harvard. - Estava a ser franca com ele. Se iam ser scios, no lhe ia esconder nada, e nunca o faria. - Mas se 
receber um bom preo por eles, e creio que isso  possvel, poderei comprar a minha parte dos terrenos. Seramos scios com partes iguais logo desde o incio. - 
Os olhos brilhavam. Andr fitava-a, como se tambm se tivesse dado conta de que ia iniciar-se algo muito importante para os dois. Sabrina semicerrou os olhos. Olhou 
para ele, com o mesmo estado de esprito de quando decidira dirigir pessoalmente as minas. - Agora vejo tudo de forma muito clara.
       - Tambm eu. - Andr fitou-a durante um longo instante, depois ergueu o copo. - Ao nosso xito, madamme Harte. - Havia uma seriedade no seu olhar que ela 
raras vezes observara nele, e ergueu o copo.
       Depois, o semblante de Sabrina voltou a mostrar preocupao. No ignorava que tinha muito trabalho pela frente, mas estava disposta a no virar a cara  luta.
       - Quem cultivar os vinhedos? Vai mandar vir gente de Frana?
       - Vou trazer trs homens e o meu filho. Ao princpio, ns os cinco faremos tudo o que seja necessrio, e contrataremos mo-de-obra local quando precisarmos. 
Porque suponho que a minha amiga no se vai oferecer para apanhar uvas, pois no? - Tomou-lhe a mo e, olhando-a nos olhos, sorriu. - Est decidida a levar tudo 
isto para a frente?
       - Nunca falei to a srio. Sinto-me como se tivesse renascido. - As guas estagnadas da sua vida haviam comeado a fluir de novo, e naquele instante deu-se 
conta das saudades que tinha de trabalhar, de dirigir as minas, de construir algo. A nica coisa que fizera nos ltimos anos fora ver tudo aquilo que conseguira 
com o esforo do seu trabalho desaparecer. E agora, de repente, graas a Andr, voltava  atividade. - Se isto der resultado, ficarei com uma enorme dvida para 
consigo, Andr.
       - Ah, non, - protestou, abanando a cabea. - Eu  que ficarei em dvida para consigo por toda a vida se comprarmos as terras. - E, cerrando os olhos, viu 
aparecer na sua mente a realizao dos seus sonhos. - Teremos um enorme xito... estou plenamente convencido disso... os nossos vinhos sero os melhores do mundo, 
inclusive de Frana... e talvez cheguemos a fazer um ou dois champanhes... - Sabrina tinha vontade de chorar. As palavras que ouvira enchiam-na de felicidade. Aquilo 
era precisamente o que desejava h vrios anos, e agora ele estava a oferecer-lhe essa oportunidade. Amlia enviara-o como um mensageiro do destino que tivera a 
misso de a fazer reviver. Os trs dias seguintes foram de autntico frenesi para ambos. Falaram com os bancos, chegaram a acordo quanto aos terrenos que seria pertena 
de cada um deles, voltaram a inspecion-los, puseram-se de novo em contato com os vendedores dos vinhedos e, finalmente, com as duas companhias imobilirias interessadas 
na compra dos jardins da Manso Thurston. E, milagrosamente, ao fim de uma semana, ambos os negcios estavam fechados. Vendera tudo o que tinha em Nob Hill, exceto 
a Manso Thurston e um pequeno jardim situado atrs da casa E, em Napa, entre os terrenos comprados por ambos e os que Sabrina j possua, j eram proprietrios 
de quase seis mil hectares de vinhedos, mas, legalmente, pertencia metade a cada um. Os seus advogados andaram numa roda-viva durante vrios dias, os banqueiros 
de Sabrina haviam querido comprovar a solvncia de Andr, enviando telegramas para todo o lado, e Sabrina telefonara umas duas vezes a Amlia a agradecer-lhe tudo 
o que ela fizera. Foi a semana mais frentica da vida de Sabrina. E, quando, no final da semana, acompanhou o seu amigo  estao, antes de ele subir para o comboio 
com destino a Nova Iorque, despediram-se com um aperto de mos e, desta vez, com um beijo que Andr lhe deu em ambas as faces.
       - Somos um par de loucos, no acha? - Sabrina sentia-se de novo uma rapariguinha. Ele, por seu turno, ainda estava mais atraente depois das vrias tardes 
que passara com Sabrina a passear pela propriedade, sob o sol de Napa. Mas, de to entusiasmada que andava com tudo o que j haviam conseguido, ainda no prestara 
ateno a esse pormenor, e tinha ainda de encontrar uma casa para Andr e Antoine com, qui, um anexo para os trs trabalhadores que viriam de Frana. - Quando 
volta, Andr?
       Ele prometera telefonar-lhe de Nova Iorque e mandar-lhe um telegrama de Bordus. Tinha muito que fazer ali, mas esperava poder regressar dentro de um ms.
       - Dentro de quatro semanas. Cinco semanas, no mximo.
       - Suponho que nessa altura j terei encontrado uma casa apropriada. Na pior das hipteses, podem ficar na Manso Thurston.
       - No me desagradaria. - E riu-se ao pensar nos seus trabalhadores do Mdoc a vaguear pela elegante manso de Nob Hill. - Transformamo-la numa quinta.
       - No vejo nenhum inconveniente em aloj-los em minha casa. - Enquanto o comboio se punha em marcha, Sabrina desejou boa sorte a Andr e fez-lhe adeus com 
a mo. Por instantes, sentiu um aperto no corao ao recordar-se do comboio que, dezenove anos antes, no chegara a Detroit.
       Porm, a vida no podia voltar a ser to cruel, e dessa vez no foi. Ao fim de cinco semanas, Sabrina encontrava-se de novo na estao para receber Andr, 
Antoine e os trs homens. Havia alugado uma pequena casa de campo para eles, no terreno adjacente ao que eles haviam comprado. A seu tempo, Andr e Antoine poderiam 
mandar construir uma casa, mas de momento no era necessrio. Dirigiram-se, ento, para o vale de Napa. Antoine e os homens ficaram entusiasmados ao ver o que Andr 
e Sabrina haviam comprado. Ela ficou surpreendida perante o encanto de Antoine. Era um rapaz alto e magro, bem-posto, com os olhos azuis do pai e uma espessa melena 
ruiva. As suas maneiras eram as de um homem corts e ponderado. Apesar de no se expressar bem em ingls, conseguia dizer a Sabrina tudo o que queria. Passaram a 
tarde do segundo dia a examinar os vinhedos e a falar como velhos amigos. Andr era muito diferente do filho, mas o que mais a surpreendeu em Antoine foi o seu bom 
carter. Parecia querer ajudar toda a gente, relaxava o ambiente quando ficava tenso, o que acontecia muitas vezes dado o temperamento francs daqueles homens; parecia 
gostar da companhia do pai e mostrava-se cada vez mais amvel e brincalho com Sabrina. Esta estava curiosa por saber como se entenderia com Jon. S queria que se 
dessem o melhor possvel.
       Jon regressou em junho, seis semanas depois da chegada de Andr e Antoine. Encontravam-se h alguns dias na Manso Thurston pois tinham de se reunir com o 
banqueiro de Sabrina a fim de conseguir os emprstimos de que precisavam. A barafunda no exterior da casa era insuportvel. Os operrios preparavam o terreno para 
os edifcios projetados. O pequeno jardim com que Sabrina ficara nas traseiras da casa no tinha qualquer serventia. Voavam pedaos de cimento por todo o lado, o 
p caa sobre eles em densas nuvens e as rvores eram arrancadas por potentes gruas. Sabrina assistia, com grande mgoa, a toda aquela destruio, e tentava no 
pensar no assunto. Entristecia-a ver tantas mudanas  sua volta, mas no havia fuga possvel. Pelo menos, ficava-lhe o consolo de saber que estava a fazer algo 
apaixonante com Andr e Antoine. Conseguira pagar o ltimo ano de estudo de Jon, e dava graas a Deus por o ter conseguido. Mas agora era muito pouco o que lhe restava. 
Queria entregar-se de corpo e alma, com Andr, aos vinhedos. Ia a Napa vrias vezes por semana para observar, com satisfao, o curso dos trabalhos. E ele ia a So 
Francisco uma vez por semana e ficava alojado na sute dos convidados da Manso Thurston. E era a que se encontrava na companhia de Antoine quando Jon chegou, que 
os fitou com ar hostil enquanto deixava a bagagem no vestbulo.
       - Mais hspedes, querida mam?
       Sabrina teve vontade de lhe dar um par de aoites pelo tom insolente das suas palavras, mas contentou-se em lanar-lhe um olhar indignado.
       - No podes chamar-lhes isso, Jon. Apresento-te o Andr e o Antoine de Vernay. No sei se te lembras do que te escrevi sobre o investimento que realizamos 
nos vinhedos de Napa.
       - Tudo isso me parece um tremendo disparate
       Jon era o oposto do filho de Andr, que a acolhera to carinhosamente. Mas era evidente que, para Jon, aqueles intrusos representavam uma ameaa. A me voltava 
a embrenhar-se nos negcios, o que lhe trouxe  memria os tempos da sua juventude em que detestava v-la trabalhar. Antoine estendeu-lhe a mo, que Jon apertou 
com indiferena. Tinha outras coisas em que pensar agora que estava na cidade. Na semana seguinte, chegariam dois amigos seus de Harvard, e iria para o lago Tahoe, 
e depois para La Jolla com amigos. No era propriamente o Vero que planejara. Teria preferido ir para a Europa com o seu amigo Dewey Smith, mas, como a me insistira 
para que viesse a casa, iria vingar-se obrigando-a a prometer-lhe que o deixaria ir para a Europa no ano seguinte, quando acabasse o curso. Achava que merecia a 
viagem que quase todos os seus colegas faziam todos os anos. Por que motivo tinha de passar o vero em casa? Queria ir  Normandie quando fosse lanado  gua. Considerava 
que, ao fim e ao cabo, merecia aquele prmio. No era todos os dias que se acabava um curso em Harvard. Mas no disse nada  me sobre os seus planos. Tinha muito 
tempo para a tentar convencer, e o que mais necessitava naquele momento era de um carro, para quando chegassem os seus amigos.
       - Podes usar o meu quando eu estiver na cidade. Eu ando de carro eltrico.
       Andr escutava-os enquanto fazia alguns telefonemas na biblioteca. Surpreendia-o a pacincia que Sabrina tinha com o rapaz, mas era o seu nico filho, e isso 
explicava tudo. O pai de Jon morrera quando este s tinha dois anos, e Sabrina dissera-lhe que sempre se sentira culpada por nunca lhe ter dado a devida assistncia, 
pois passava horas interminveis nas minas.
       - Mas f-lo por ele. Tive o mesmo problema com o Antoine quando a Eugenie morreu, mas ele teve de compreender. Eu era um homem. E voc tinha uma enorme responsabilidade 
sobre os ombros.  provvel que ele j tenha compreendido isso.
       - S compreende o que lhe interessa. - Sabrina sorriu para o seu scio e amigo. Conhecia bem o filho, e, embora lhe causasse problemas s vezes, tambm sabia 
que, em parte, a culpa era dela, por t-lo mimado tanto. Nesse instante, preocupava-a que a aborrecesse com o carro na presena de Andr.
       - Por amor de Deus, mam, no podemos comprar outro carro?
       - J sabes que, de momento, no nos podemos permitir tal luxo. - Sabrina tentou manter a voz baixa, mas ele no fez o mesmo.
       - Por que diabo no podemos faz-lo. Compras uma srie de coisas, terras em Napa, vinhedos, e sabe l Deus que mais.
       Jon mostrava-se extremamente injusto. H anos que a me no comprava nada para ela prpria. Os vestidos, embora de bom corte, estavam fora de moda. Andr 
reparara nisso, e tinha plena conscincia dos sacrifcios que aquela mulher fizera. E j quase no lhe restava nada do dinheiro da venda dos jardins da Manso Thurston. 
Gastara-o todo na compra dos vinhedos e no pagamento dos estudos de Jon. No dispunha de dinheiro para luxos, nem sequer para ela mesma, mas Jon parecia decidido 
a no aceitar a realidade da situao e continuava a pression-la.
       - Jon, ests a ser injusto. Usa o meu carro, por amor de Deus.
       Guardava o automvel numa garagem que havia do outro lado da rua e que alugara a uns amigos. A sua fora deitada abaixo juntamente com a parte da propriedade 
que vendera s sociedades imobilirias.
       - E como  que queres que vivamos com toda esta barulheira? - gritou Jon.
       S  noite, quando os trabalhos pararam,  que Sabrina se deu verdadeiramente conta do barulho das obras. Depois de ouvir toda aquela barafunda durante um 
ms seguido, j se acostumara a ela. Contudo, segundo lhe haviam dito, aquela situao ainda duraria um ano.
       - Lamento, Jon, mas isto  s durante algum tempo, alm disso, ests quase sempre fora. - E esboou um sorriso terno. - No prximo ano, quando voltares  
universidade, j tero terminado.
       Jon soltou um sonoro suspiro de enfado.
       - Espero bem que sim. Agora, quanto ao carro, posso lev-lo esta tarde.
       - Sim, claro
       Jon queria sair com uma rapariga. Era amiga de um amigo e estudante do segundo ano na universidade feminina de Mills.
       - Queres jantar conosco esta noite. - Estava acostumada a faz-lo muitas vezes com Antoine e Andr, e queria que Jon os conhecesse melhor, mas este j tinha 
outros planos e levantou-se abanando a cabea.
       - Desculpa, no posso. - E, olhando para o amigo da me, que estava a falar ao telefone, acrescentou, supondo que ele no conseguiria ouvir. - Trata-se de 
um novo amor?
       A inesperada pergunta fez com que Sabrina corasse, mas, pelo trejeito que deu  boca, foi visvel que ficou pouco  vontade.
       - S  meu scio. Mas gostaria que o conhecesses melhor, assim como o filho.
       Jonathan encolheu os ombros. Eram, seguramente, um par de pategos franceses que no mereciam a sua ateno. Deduziu isso pelo interesse que mostravam nas 
terras, pelo fato de virem de Bordus e pela simplicidade como trajavam. Naturalmente, ignorava que eram de linhagem nobre, e eles no haviam falado no castelo que 
acabavam de vender. Jon, porm, tinha outras preocupaes, sobretudo agora que o carro da me estava  sua disposio. Ao fim de meia hora, j se fora embora, e 
s voltaria a altas horas da noite. Na manh seguinte, pouco depois do amanhecer, Sabrina deixou a casa na companhia de Antoine e Andr e dirigiu-se para o vale 
de Napa, donde s regressou  noite, sendo ela prpria a conduzir. Agora fazia-o continuamente, pois as idas e vindas entre a Manso Thurston e os vinhedos eram 
constantes. Todavia, ainda havia muito que fazer.
       - Como  possvel que tenhas cometido tamanha loucura? - perguntou-lhe Jon, quando se encontraram nessa noite.
       Sabrina apercebeu-se do ar acusador no olhar de Jon. Dava a impresso de que estava a recrimin-la por ter feito um mau investimento ou por passar tanto tempo 
fora, como quando dirigia as minas. Mas ele fizera j vinte e um anos e passava a maior parte do tempo na universidade, a quase cinco mil quilmetros de distncia. 
E Sabrina tinha o direito de dedicar-se a algo que a entusiasmasse, como a explorao dos vinhedos. Era o que sempre quisera fazer na vida, e s tinha quarenta e 
sete anos. No desejava ficar a um canto,  espera da morte, pelo simples fato de o filho ter atingido a maioridade. Aquilo era o melhor que lhe poderia ter acontecido, 
mas Jon via isso como uma ameaa, e no dissimulava a sua averso por todos aqueles planos sempre que o assunto vinha  baila, como se lhe estivessem a tirar qualquer 
coisa.
       - Vai tudo correr bem. Prometo-te. Vamos ter os melhores vinhos dos Estados Unidos.
       Jon limitou-se a encolher os ombros.
       - E ento? De qualquer modo, prefiro beber um usque. - Sabrina soltou um suspiro de exasperao. s vezes, o filho era insuportvel.
       - Felizmente, nem todos pensam como tu.
       Jon olhou-a com um ar de total indiferena e disse:
       - A propsito, na prxima semana chegam uns amigos meus  cidade.
       Sabrina franziu o sobrolho.
       - Mas vais a Tahoe, no vais?
       - Vou. Pensei que talvez pudessem passar por aqui s para te cumprimentar.
       Era a primeira vez que Jon fazia a sua me uma sugesto daquela natureza, o que a fez suspeitar que se trataria de uma rapariga. Sabrina esboou um sorriso 
tmido.
       -  algum amigo especial para ti?
       - . - Mas, ao imaginar o que a me estava a pensar, abanou a cabea. - No, no  nada disso  s amizade. No te preocupes, depois vers.
       Sabrina teve a impresso de ver uma sombra de culpa nos olhos do filho, mas no tinha a certeza.
       - Como se chama? perguntou-lhe, quando Jon j estava a sair de casa. 
       - Du Pr.
       Sabrina ficou sem saber se se tratava de uma mulher ou de um homem, e esqueceu-se de lhe perguntar antes de ele partir para Tahoe, na semana seguinte.
       
      30
       
       Depois de Jon ter ido para o lago Tahoe com os amigos, Sabrina passou a maior parte do tempo em Napa, na companhia de Andr, Antoine e os trabalhadores franceses. 
Tinham muito trabalho pela frente. Havia muito mato para limpar, e nos seus prprios terrenos muitas vides para arrancar, outras para podar e ainda teriam de plantar 
as novas cepas que Andr trouxera de Frana. S da a um ano  que ele se consideraria satisfeito com o estado dos vinhedos, mas estavam todos preparados para isso. 
O projeto encontrava-se em andamento. J tinham escolhido uma marca para os vinhos que produziriam. O vinho corrente levaria o nome de Harte-Vernay, e os de maior 
qualidade, o de Chateau de Vernay. Sabrina estava encantada com tudo. Regressou a So Francisco, depois de passar uma semana debaixo do sol trrido de Napa, com 
a pele escura como o alcatro e os olhos transformados em dois pedaos de resplandecente cu azul. Trazia as sandlias que Andr lhe trouxera de Frana, e calas. 
Comeara a abrir o correio na Manso Thurston, quando tocou o telefone do escritrio e uma voz desconhecida de mulher lhe comunicou que queria falar com ela.
       "Deve ser a amiga do Jon", pensou Sabrina. Estava curiosa por saber quem era, mas naquele momento sentia maior preocupao pela pilha de faturas que tinha 
na mo. A lista de coisas que havia para pagar era interminvel, o que denotava que Jon no se privara de nada nas ltimas semanas... trs restaurantes... o clube... 
o alfaiate preferido...
       - Sou a condessa Du Pr. - O Jon sugeriu-me que lhe telefonasse...
       Sabrina franziu o sobrolho, mas lembrou-se, de imediato, do nome. Du Pr... Todavia, Jon no lhe dissera que se tratava de uma condessa. Talvez fosse a me 
de uma rapariga por quem Jon sentisse especial predileo. Sabrina afastou o bocal para soltar um suspiro de enfado. No estava com disposio para falar com ningum, 
e muito menos com uma mulher que se anunciava daquela maneira. O tom de voz era americano, teria jurado que do Sul, mas o seu nome era francs, tal como o sotaque. 
Era pena Andr e Antoine no se encontrarem na cidade. Mas prometera a Jon que atenderia a sua amiga.
       - Suponho que o Jonathan lhe disse que eu telefonaria.
       De fato, disse. Sabrina tentava ser amvel com a desconhecida sem afastar o olhar do monto de faturas que tinha  sua frente.
       -  um rapaz encantador.
       - Obrigada. Vem visitar So Francisco? - Sabrina continuava a ignorar por que razo aquela mulher lhe telefonara, e no sabia o que dizer-lhe.
       - J estou na cidade.
       -  pena que o Jon no esteja em So Francisco. Est nas montanhas com uns amigos.
       -  timo para ele. Talvez tenha ocasio de o ver quando regressar.
       - Sim... - Sabrina endureceu um pouco o tom de voz, mas tinha de cumprir o que prometera a Jon. - Posso convid-la para um ch um dia desta semana? - Com 
a quantidade de coisas que tinha para fazer, a ltima que desejava era receber visitas, mas no lhe restava alternativa.
       - Seria uma honra para mim. Adoraria conhec-la, Mistress Harte. - Pareceu fazer uma pausa ao pronunciar o apelido de Sabrina, e esta pensou que quanto mais 
depressa recebesse aquela estranha, mais depressa se veria livre dela.
       - Esta tarde?
       - Com muito gosto.
       - Tambm a receberei com muito gosto - mentiu Sabrina. - A minha morada ...
       As suas palavras foram interrompidas por um suave risinho.
       - Oh, no  necessrio... O Jon deu-ma h muito tempo. - Sabrina no conseguiu descortinar se a desconhecida era velha ou jovem, se era uma grande dama ou 
uma namorada, ou simplesmente uma mulher que conhecera por acaso. Era uma situao absurda. Quando Andr lhe telefonou, mais tarde, e lhe pediu que fosse ao banco 
fazer-lhe um recado, teve de dizer-lhe que no podia ir.
       - Que aborrecimento! O Jon pediu-me que recebesse uma amiga dele que est de passagem pela cidade, e vi-me obrigada a convid-la a tomar ch. - Deu uma olhadela 
ao relgio. O servio de ch estava preparado. Sabrina envergava um vestido de flanela cinzento com gola em veludo e um colar de prolas que o pai lhe oferecera 
quando ainda era muito jovem. - J devia ter chegado h dez minutos e, pela conversa dela, parece que no vai deixar-me tempo livre para ir a lado nenhum. Peo imensa 
desculpa, Andr.
       - No se preocupe. Isto pode esperar.
       Andr imaginou-a tal como a havia visto no dia anterior: a abrir caminho por entre a selva em que se transformara o seu antigo vinhedo, com os cabelos desgrenhados, 
o rosto bronzeado e os olhos de um azul quase mediterrnico. Ao pensar que se preparava para tomar ch com uma convidada, no conseguiu conter o riso. Sabrina fez 
uma careta.
       - No sei o que quer essa mulher, mas o Jon pediu-me que a recebesse, e estou a cumprir o meu dever. Mas preferia estar a com vocs. Como vo as coisas?
       - timas. - Mas antes de ele poder dizer o que quer que fosse, a campainha tocou.
       - Bolas! A est ela. Tenho de desligar. Telefone-me se surgir algo de especial.
       - Assim farei. A propsito, quando volta para aqui? - Sabrina queria ir trabalhar com eles, aproveitando a circunstncia de Jon s voltar da a uma semana.
       - Amanh  noite. Posso ficar na casa de campo convosco? - Era a nica mulher do grupo, mas conseguia adaptar-se facilmente s incomodidades da vida rstica 
que levava em Napa.  noite, oferecera-se at para ajudar a fazer o jantar, embora no tivesse muito jeito para cozinhar. - Tenho de reconhecer, sei dirigir melhor 
uma mina do que cozinhar. - Sorriu ao lembrar-se do dia em que deixara queimar os ovos do pequeno-almoo. A partir daquele dia, eram eles que cozinhavam por Sabrina, 
mas, em compensao, ela fazia a parte de homem do trabalho, coisa nada estranha para ela. Andr admirava-a por isso. Na realidade, admirava-a por muitos aspectos.
       - Claro que poder c ficar. Temos de construir quanto antes outra casa com melhores condies. - O plano consistia em construir uma casa simples para os 
trabalhadores, e outra mais elegante para ele e Antoine, numa das colinas, mas no seria para j. Tinham outras prioridades. - Ento, at amanh  noite, Sabrina. 
Conduza com cuidado.
       - Obrigada.
       Sabrina desligou o telefone e desceu as escadas a correr para abrir a porta principal. Diante de si encontrava-se uma mulher de olhar inquiridor. Trazia um 
vestido de l preta bastante cingido ao corpo. Os cabelos eram negros como o carvo, dando a impresso de serem pintados, mas tinha uma cara bonita, e os olhos, 
que pareciam estar a examinar Sabrina centmetro a centmetro, eram de um azul brilhante. Entrou e levantou os olhos para a cpula como se soubesse que a encontraria 
a.
       - Boa tarde... - Vejo que o Jon lhe falou da cpula.
       - No. - Olhou para Sabrina e sorriu. Esta teve a estranha sensao de j ter visto aquela mulher antes, mas no se lembrava onde. - No se lembra de mim, 
pois no? - Os olhos nunca se afastaram dos de Sabrina, que abanou ligeiramente a cabea. - No  possvel que se recorde. - Sabrina voltou a notar o sotaque sulista. 
- Pensei que talvez visse alguma fotografia minha. Um calafrio percorreu a espinha de Sabrina ao ouvir dizer com voz sussurrante. - Chamo-me Camille du Pr... Camille 
Beauchamp... - Sabrina sentiu uma vaga de terror quando a mulher continuou a dizer no mesmo tom: - E tambm Camille Thurston, ainda que por pouco tempo...
       - No podia ser. - Sabrina ficou pregada ao solo com os olhos fixos nela. Era uma brincadeira. Tinha de ser. A sua me morrera. Sabrina deu um passo atrs 
como se tivesse recebido uma bofetada.
       - Acho melhor que saia... - Sabrina sentia-se como se algum estivesse a tentar sufoc-la. A voz era tensa. No conseguia mexer-se do mesmo stio, enquanto 
Camille continuava a observ-la, sem se dar conta da enormidade do golpe que acabara de desferir. Era como se a tivesse visto surgir do mundo dos mortos. Sabrina 
nunca vira nenhuma fotografia da me, graas ao cuidado de seu pai, mas, agora, percebia a quem Jon saa. Era a imagem da av... os cabelos... o rosto... os olhos... 
a boca... os lbios... Sabrina sentiu uma vontade irresistvel de gritar, mas, em vez de o fazer, deu outro passo atrs. -  uma brincadeira muito cruel... A minha 
me morreu h muito tempo... - Estava quase sem alento, mas havia algo que a no deixava pr aquela mulher na rua, algo que a fascinava; sempre se perguntara como 
era a sua me, e agora... Seria possvel?... Sentira tanta necessidade de uma me em pequena... e, de repente, aparecia aquela mulher... - Quem podia ser? - Sabrina 
deixou-se cair pesadamente numa poltrona sem tirar os olhos da recm-chegada. Camille Beauchamp Thurston du Pr fazia o mesmo. Estava satisfeita com o efeito que 
provocara.
       - No morri, Sabrina - disse a mulher, numa voz firme. - O Jon contou-me que foi isso que o teu pai te disse. No foi justo da parte dele.
       - Que deveria ele ter-me dito? - Sabrina no conseguia desviar os olhos dela. Era praticamente impossvel compreender o que acontecera. A sua me sara da 
sepultura para se atravessar na sua vida. Agora, ali estava, em carne e osso, dando mostras de grande tranqilidade. No compreendo.
       Camille comportava-se como se aquela cena fosse a coisa mais natural do mundo. Passeou-se por debaixo da cpula, explicando-lhe o que acontecera. Sabrina 
continuava sem acreditar no que via.
       - H muito tempo, o teu pai e eu desentendemo-nos.
       Esboou um sorriso apologtico, como que a tentar seduzi-la, mas Sabrina estava demasiado chocada para bajulaes.
       - Nunca fui feliz nesta casa. - A recordao de Napa quase a fez estremecer. - E muito menos na outra. Napa nunca foi o meu lugar ideal para viver. - Tratava-se 
de uma verso deformada da realidade de cinco dcadas atrs. - Ento, fui para Atlanta, para a minha casa, porque a minha me estava doente. - Sabrina olhou, incrdula. 
Era a primeira vez que ouvia aquela histria, e ficou atnita. Por que motivo lhe mentira o pai? - Antes de me ir embora, tivemos uma discusso terrvel sobre a 
convenincia de ir para minha casa. E, enquanto me encontrava a, escreveu-me a dizer que nunca mais voltasse. Foi ento que descobri que ele tinha uma amante aqui, 
em So Francisco. - Sabrina esbugalhou os olhos de espanto. Seria verdade? - No permitiu que eu regressasse a casa, nem que voltasse a ver-te... - Comeou a chorar. 
- A minha nica filha... Estava to desconsolada que fui para Frana. - Ainda a fungar, voltou a cabea para o lado, enquanto Sabrina a observava, pasmada. Se a 
mulher estava a mentir-lhe, ento era uma verdadeira mestra nisso. Teria convencido qualquer pessoa da autenticidade da sua dor. - Levei anos a recuperar desse choque. 
A minha me morreu... Permaneci em Frana durante mais de trinta anos. E, desde ento, tenho andado sem rumo certo... - Na realidade, fora para casa do seu irmo 
Hubert logo que Thibaut du Pr morrera, e a vivera desde ento, levando uma vida muito mais cmoda do que a que lhe permitira Du Pr. At que o destino lhe pusera 
Jonathan no seu caminho.
       O nome Beauchamp no significara nada para Jon. Sabia que tivera uma av com aquele apelido, mas h muito tempo que morrera ou, pelo menos, assim pensava. 
Mas quando, durante umas frias no primeiro ano de estudos em Harvard, foi a Atlanta com o neto de Hubert, descobriu a sua av a e, durante dois anos, falaram vrias 
vezes sobre a possibilidade de ela ir para a Califrnia com ele. Ao princpio, pensou que a me ficaria encantada, mas depois, instintivamente, chegou  concluso 
de que no seria assim. Todavia, havia algo dentro dele que o impelia a fazer a surpresa a sua me, algo por que lutara durante tanto tempo: pr Camille em contato 
com Sabrina. Ao fim e ao cabo, pouco lhe importava que a me fosse apanhada de surpresa. Naquele momento, estava aborrecido com ela. Achava que era cada vez mais 
exigente e menos compreensiva com ele. Nem sequer lhe comprara o carro por que h tanto tempo ansiava. No devia nada  me, pelo menos, era essa a sua convico. 
Finalmente, dissera a Camille que chegara o momento oportuno. "A minha me merece esse sobressalto", pensou Jon, recordando os tempos em que ela o deixava sozinho 
para ir trabalhar nas malditas minas. Jon no ignorava qual era o verdadeiro propsito de Camille, que consistia em ir viver para a Manso Thurston. Ao fim e ao 
cabo, a casa era sua, e no de Sabrina Harte, mas no referiu tal coisa  filha. Esperaria alguns dias para faz-lo.
       Por outro lado, Camille prometera um carro ao neto. Mas, naquele momento, tinha outras coisas em que pensar. Sabrina fitava-a, desconfiada.
       - Por que razo  que o meu pai me mentiria?
       - Terias gostado de saber a verdade, que o teu pai expulsara a tua me de casa? Ele s te queria para ele, a ti e quela bruxa que te criou. - Jon informara-a 
daquele fato como de tantos outros. A odiada Hannah vivera muito tempo com Sabrina, mas j no existia. - E no permitia que eu me imiscusse nos seus assuntos. 
Tinha uma amante em Calistoga, sabias? - Aquelas palavras fizeram Sabrina pensar. H muito tempo, ouvira histrias sobre o seu pai e uma tal Mary Ellen Browne, mas 
sempre supusera que aquela relao tivera lugar antes de se casar com Camille. Dizia-se at que tinham um filho, mas Sabrina nunca dera muito crdito a esses mexericos. 
E tinha outra mulher em Nova Iorque. Aquilo soou ligeiramente a verdade, mas Sabrina ps de lado a idia, pois nunca acreditara que o pai tivesse tido um caso com 
Amlia... talvez nos ltimos anos de vida, mas no antes. A relao entre eles sempre lhe parecera to pura... e terna... Sabrina olhou para Camille num estado de 
verdadeira confuso.
       - No sei que pensar. Por que razo no apareceu h mais tempo? Por que s agora?
       - Porque no consegui encontrar-te antes.
       - Nunca fui para lado nenhum. Vivo na mesma casa que ele construiu para si. - Aquelas palavras encerravam um tom de acusao, mas Camille pareceu no notar. 
- Poderia ter-me encontrado h muito mais tempo.
       - Nem sequer sabia se eras viva. E, alm disso, sabia que o Jeremiah continuava a viver contigo e no me teria deixado ver-te.
       Sabrina esboou um sorriso cnico.
       - Tenho quarenta e sete anos. Poderia ter vindo ver-me quando muito bem entendesse, estivesse o meu pai vivo ou no. - Naquele momento, Jeremiah, se fosse 
vivo, teria noventa e dois, e no representaria qualquer ameaa para quem quer que fosse, e muito menos para aquela cnica que tinha diante de si. E agora, Sabrina 
j no conseguia sentir nada por ela, alm de desconfiar de tudo o que ela dizia. E por que razo  que Jon conduzira Camille at ela sem a avisar? Aquela atitude 
do filho desconcertava-a. Porque no a prevenira da verdadeira natureza daquela visita? Odiava-a assim tanto? Ou seria aquela a idia que Jon tinha de uma brincadeira? 
Por que razo  que s apareceu agora? Queria dissipar todas as dvidas e pr tudo em pratos limpos.
       - Sabrina, minha querida, s a minha nica filha. - A voz pareceu embargar-se-lhe.
       - Isso j faz parte do passado. J no sou uma criana. 
       Com a mais ingnua das expresses, Camille disse:
       -  que no tenho para onde ir.
       - Onde  que viveu at agora?
       - Em casa do meu irmo, mas ele morreu h pouco, e no tive outro remdio seno ir viver com o meu sobrinho, que  o pai do amigo do nosso Jonathan. - Aquele 
"nosso" crispou os nervos de Sabrina. - Mas o ambiente a no me  muito favorvel. De fato, fiquei sem casa desde que o meu marido morreu... isto ... o meu amigo... 
- Camille corou. Dissimulou como pde o deslize, mas Sabrina no o deixou passar em claro.
       - Voltou a casar-se, Madame du Pr? - Enfatizou o apelido e ficou  espera que Camille se explicasse. Tinha a sensao de que a partir desse momento s iria 
ouvir coisas desagradveis dos lbios daquela mulher.
       Todavia, Camille conseguiu desconcert-la de novo.
       - Deves compreender, minha filha... que o teu pai e eu nunca chegamos a divorciar-nos. Era sua esposa quando morreu, e continuo a s-lo agora. - Jonathan 
assegurara-lhe de que, embora no tivesse conhecido Jeremiah, sabia que este no voltara a casar-se. O seu av morrera oito anos antes de ele nascer. - Legalmente 
acrescentou, com ar malicioso, sou a dona desta casa.
       - Como? - Sabrina ps-se em p de um pulo, como se tivesse recebido uma descarga eltrica.
       - Pois sou. Estivemos casados at ao fim, e ele construiu esta casa para mim, sabes?
       - Por amor de Deus, como pode dizer uma coisa dessas? - Sabrina sentiu vontade de a estrangular. Depois de tudo o que sofrera, aquela mulher queria tirar-lhe 
a nica coisa que lhe restava. Onde estava quando eu precisava de si? Quando tinha cinco anos, dez ou doze?... Onde estava quando o meu pai morreu?... Quando tive 
de ocupar o lugar dele  frente das minas?... Quando... Sentiu um n na garganta e teve de fazer uma ligeira pausa. - Como se atreve a voltar nesta altura? Passei 
uma infinidade de noites sem dormir, curiosa por saber como fora a minha me, a chorar ao pensar que morrera, e ainda consigo lembrar-me da dor que o meu pai sentiu... 
e agora aparece-me aqui a dizer que foi cuidar da sua me e que ele no a deixou voltar. Pois bem, no acredito numa nica palavra daquilo que me acabou de contar, 
est a ouvir? Numa nica palavra sequer! E esta casa no  sua. Pertence-me a mim, e um dia pertencer ao Jonathan. O meu pai deixou-ma em testamento, e eu deix-la-ei 
ao meu filho quando morrer. Nada disto  seu. - Chorava e tremia de indignao, enquanto Camille a observava. - Entendido? Esta casa  minha, no  sua. Maldita 
seja! E no denigra a memria de meu pai. H quase trinta anos, morreu nesta casa, uma casa que sempre foi um lugar sagrado para ele... E tem razo, construiu-a 
para si, mas, por uma qualquer razo que desconheo, voc desapareceu.  demasiado tarde para voltar com essas pretenses.
       Camille estivera ausente durante quase cinqenta anos e voltara de repente. Todavia, mostrava-se estranhamente tranqila. No viera desprevenida, embora ficasse 
espantada com a veemncia de Sabrina.
       -No percebes que no podes obrigar-me a sair? - retorquiu Camille, olhando com falsa doura para a mulher que agora se atrevia a chamar de filha. Sabrina 
estava furiosa.
       - No posso?! Isso  o que vamos ver! - Deu um passo para ela. - Chamo a Polcia se no sair daqui imediatamente.
       - Muito bem, ento mostrar-lhes-ei esta certido de casamento e outros documentos que trago comigo. Quer gostes, quer no gostes, sou a viva do Jeremiah 
Thurston, e o Jonathan e eu vamos impugnar o testamento. Depois disso, sers tu que ters de pedir-me se podes ficar aqui, e no o contrrio, como agora.
       - No pode estar a falar a srio.
       - Podes ter a certeza que estou. Se te atreveres a pr-me a mo em cima, eu  que chamarei a Polcia.
       - E que tenciona fazer? Viver aqui durante os prximos cinqenta anos.
       Camille no permitiu que o sarcasmo a preocupasse. Estava habituada a levar a sua avante em situaes mais difceis E, alm disso, planejara longamente tudo 
aquilo com Jonathan. Este hesitara durante muito tempo, mas acabara por ceder. Camille sabia que ele acabaria por ceder aos seus desejos, por isso, esperara pacientemente 
at quele momento. Sabrina no iria ver-se livre dela com muita facilidade.
       - Viverei aqui o tempo que me apetecer.
       Todavia, tinha outro plano de que nem sequer falara a Jonathan Ficaria na Manso Thurston durante uns meses, os suficientes para dar a sensao de que se 
apossara da casa e pr Sabrina  beira do desespero. Ento, talvez conseguisse chegar a um acordo com a filha que lhe permitisse voltar vitoriosamente, e com dignidade, 
para o Sul, com o dinheiro suficiente para comprar uma casa. No tinha o mnimo desejo de ficar a viver definitivamente no Sul, mas, de momento, era a melhor soluo 
para ela. Sabia muito bem quais eram os seus direitos. Tanto quanto sabia, Jeremiah nunca apresentara nenhuma ao de divrcio. Quando morrera, ainda estavam legalmente 
casados. Contudo, se ela impugnasse agora o testamento, a querela poderia levar muito tempo a resolver-se Mais do que estava disposta a esperar.
       - No pode mudar-se para aqui sem mais nem menos. - Sabrina olhava-a, horrorizada. - No permitirei. - Mas enquanto Sabrina falava, Camille foi at  porta 
e fez sinal a algum que esperava no exterior. Um moo de fretes carregou, ento, meia dzia de malas para o interior da casa. E ainda ficaram dois bas enormes 
 espera. Sabrina correu para o homem. - Leve essa porcaria daqui para fora! - gritou. Referia-se  bagagem e a Camille. E, apontando para a porta, levantou de novo 
a voz. - E j! - Era o tom que empregara noutros tempos nas minas, mas desta vez no surtiu efeito. Pelos vistos, tinha mais medo de Camille do que dela. - Ouviste, 
rapaz?
       - No posso... Sinto muito, madame.
       O moo de fretes tremia que nem varas verdes enquanto Camille o conduzia, com ar impassvel, pelas escadas acima. 
       Camille ainda se recordava de tudo: a sute principal, a biblioteca, o toucador... e mandou o moo deixar as malas no quarto de vestir, enquanto Sabrina tentava 
arrast-las da para fora; Camille olhou-a com desprezo, como se ela fosse uma criana.
       - No vale a pena. Vou ficar aqui. Sou tua me, gostes ou no.
       E era aquela a me com que Sabrina sonhara durante tanto tempo e por quem nutrira tanta ternura. De repente, os olhos inundaram-se-lhe de lgrimas de raiva 
e sentiu-se como uma criana desamparada. No acreditava que aquilo estivesse a acontecer. No era de estranhar que o pai a tivesse impedido de voltar para casa. 
Era uma bruxa, uma monstruosidade, mas como iria ver-se livre dela? Entrou na biblioteca, telefonou a Andr e explicou-lhe a situao aflitiva em que se encontrava.
       - Estar louca?
       - No sei - disse Sabrina, a soluar. - Nunca vi semelhante coisa. Instalou-se aqui em casa como se s tivesse sado dela para dar um passeio. - Assoou-se 
ruidosamente. Andr lamentava no se encontrar ali para a consolar. - E o meu pai nunca me disse nada... - Voltou a soluar. - No compreendo... sempre me disse 
que ela morrera quando eu tinha um ano...
       - Talvez tenha fugido. Isso acabar por se saber. Algum tem de saber a verdade. - Ambos pensaram ao mesmo tempo na mesma pessoa, mas foi Andr que disse 
o nome primeiro. - A Amlia. Telefone-lhe para Nova Iorque! Ela contar-lhe- tudo. Entretanto, ponha-a na rua.
       - Como? De rastos? Ela j ps a bagagem no meu quarto de vestir.
       - Ento, tranque-a no quarto. Ela no pode espezinh-la dessa maneira, no acha? - Andr tambm parecia nervoso, e Sabrina sentia-se em nsias por telefonar 
para Amlia de imediato. Queria saber o que acontecera entre o pai e aquela mulher que dizia ter estado casada com ele. - Quer que eu v j para a? - perguntou 
Andr, oferecendo-lhe os seus prstimos antes de desligar. Com a Bay Bridge, a viagem era agora mais fcil e mais curta, mas, mesmo que no fosse, teria ido na mesma. 
Antoine poderia tomar conta das coisas durante a sua ausncia. 
       - -No faa nada ainda. Voltarei a telefonar-lhe. Primeiro, quero falar com a Amlia, depois, com o meu advogado.
       Contudo, no foi possvel. Amlia, segundo disse a governanta, tinha uma terrvel dor de garganta, e era-lhe impossvel falar ao telefone. Mas Sabrina tambm 
no a queria apavorar dando-lhe conta do desespero em que se encontrava. Quanto ao advogado, gozava alguns dias de frias. "S voltar daqui a um ms", disse a secretria 
com indiferena. Sabrina voltou a enfrentar Camille num estado de autntica histeria.
       - Madame du Pr... condessa... seja l quem for, no pode ficar aqui. Se quer reclamar algum direito sobre os bens do meu pai, e se essa reclamao tiver 
base legal, ento, poderemos falar disso com o meu advogado quando ele regressar, dentro de um ms. Entretanto, ter de ficar num hotel.
       Camille olhou por sobre o ombro para Sabrina, enquanto pendurava a roupa. J pusera um monte de vestidos da filha em cima de um cadeiro. Sabrina teve um 
desejo enorme de a estrangular. Pegou nas suas roupas, empurrou Camille para o lado, e atirou furiosamente as roupas da me para o cho. E, a plenos pulmes, gritou:
       - Fora daqui! Estou na minha casa e no na sua! - Camille, porm, sem perder a calma, olhou-a como se enfrentasse uma criana birrenta.
       - Sei que  difcil para ti depois de tantos anos sem nos vermos. Mas tens de te controlar. O Jon espera encontrar-nos felizes quando voltar. Ele adora-nos, 
e precisa de um lugar onde reine a paz.
       - No acredito no que estou a ouvir. - Sabrina fitou-a com ar irado. Era uma das raras vezes na sua vida em que se encontrava completamente desamparada. Havia 
poucas coisas que no conseguira resolver at ento, e aquela era uma delas. - Tem de sair daqui!
       - Mas, por qu? Que diferena  que isso te pode fazer? A manso  enorme. H espao mais do que suficiente para todos ns. - Camille reparou no olhar assassino 
que Sabrina lhe dirigia. Ento, com ar de quem estava a fazer um grande favor, acrescentou: - Muito bem... Alojar-me-ei no quarto de hspedes, e nem dars pela minha 
presena, minha querida. - Esboou um sorriso divertido, pegou nas suas coisas, e o moo de fretes, de que Sabrina j nem se lembrava, agarrou novamente nas malas 
e nos bas e, em passo apressado, levou tudo para o novo destino. Camille tinha uma memria excelente. Conduziu o moo at  porta correta e, pouco depois, ele saiu.
       Quando Andr telefonou a Sabrina, no final dessa tarde, ainda notou o mesmo tom histrico na voz da amiga.
       - Que lhe disse a Amlia?
       - No pde falar comigo. Tem febre e uma terrvel dor de cabea.
       - Oh, meu Deus... J ps essa mulher na rua? Pode ser uma impostora. Estive a pensar nisso depois de ter falado consigo. - Mas Sabrina limitou-se a abanar 
a cabea, em silncio.
       - No creio que seja, Andr. Conhece esta casa na perfeio, ao fim de tantos anos.
       - Talvez algum a tenha instigado. Algum trabalhador que tenha despedido...
       Havia, no entanto, ainda outra razo que fazia crer a Sabrina que se tratava efetivamente de Camille Beauchamp: a extraordinria parecena com Jon. Disse 
isso a Andr, e este escutou-a com evidente preocupao.
       - Porque acha que ela voltou?
       - Ela no fez qualquer segredo disso. - Os olhos de Sabrina inundaram-se novamente de lgrimas. - Quer a manso, Andr.
       - A Manso Thurston? - perguntou, horrorizado. Embora conhecesse Sabrina ainda h pouco tempo, sabia o que a manso significava para ela. - Isso  um absurdo!
       - Espero que os tribunais sejam da mesma opinio. E o meu advogado estar fora da cidade at ao prximo ms. Que posso fazer entretanto?  mais teimosa do 
que uma mula, e instalou-se no quarto de hspedes como se eu estivesse  espera dela. Como pode ela fazer-me tal coisa?
       - Aparentemente,  fcil. Qual  o papel do Jon em tudo isso?
       Ela prpria no sabia, e no queria acusar falsamente o filho. 
       Mas, a julgar pelo pouco que ouvira de Camille, suspeitava que havia algo de hediondo em todo o assunto.
       - Ainda no sei. - Era evidente que no queria dizer mais nada sobre o assunto naquela altura.
       - Posso fazer alguma coisa por si, Sabrina?
       - Pode. - Sabrina esboou um sorriso amargurado. - Ponha-ma na rua. Faa-a desaparecer. Faa com que ela nunca mais aparea.
       - Quem me dera poder.
       Instalou-se um breve silncio entre ambos.
       - Sonhei tantos anos com ela, curiosa por saber como  que ela seria... Um dia, cheguei a entrar secretamente nesta casa, quando tinha doze ou treze anos, 
e encontrei algumas coisas dela... e agora, aparece, de repente, como uma mulher do mais vil e diablico que se possa imaginar... Quem me dera nunca a ter visto, 
Andr, se ela for exatamente quem diz ser.
       - Espero bem que no seja. - Ou talvez fosse quem dizia e poderiam chegar a um acordo. Embora isso fosse extremamente difcil. De qualquer forma, era demasiado 
tarde para isso. Ela aparecera e no arredava p da manso, e agora Sabrina tinha de a pr na rua. Sabrina passou toda a noite sem pregar olho, no quarto, a pensar 
no que estava a acontecer, com o desejo de irromper pelo quarto dos hspedes adentro e arranc-la da cama... Em vez disso, encontraram-se na cozinha, na manh seguinte, 
 hora do pequeno-almoo. Contudo, Sabrina teve de reconhecer que, considerando a idade, Camille ainda era bonita, e que, cinqenta anos antes, quando o seu pai 
se casara com ela, ainda devia ser muito mais. Cinqenta anos.. ou quarenta e nove. Sabrina, sentada diante dela, observou-a, por instantes, em silncio, perguntando-se 
qual teria sido o problema que a levara a sair de casa e a nunca mais voltar. Quem seria Du Pr? Talvez a chave do problema estivesse a. Mas no disse nada a Camille. 
Baixou os olhos para a mesa e bebeu o ch. No conseguia acreditar que aquilo estivesse a acontecer. Como quando morrera John, tinha a sensao de que o mundo ficara 
de pernas para o ar. Entretanto, Camille parecia flutuar alegremente pela cozinha, como se se sentisse feliz por ter voltado finalmente para casa. Sabrina fitou-a 
de novo, sem perder o ar de assombro. Camille sentou-se diante da filha, e ambas as mulheres ficaram de olhos fixos uma na outra. Depois de se terem visto pela ltima 
vez, quarenta e seis anos antes, quando Sabrina tinha um ano, as circunstncias, ou talvez a ambio, voltavam a juntar me e filha. Como teria sido o comportamento 
de sua me naqueles tempos remotos, perguntou-se Sabrina. Lembrou-se, ento, daquilo que Hannah lhe contara h muito tempo atrs sobre uns anis que Camille usara 
como contraceptivo... que a velhota descobrira... e que o pai ficara furioso... e Sabrina viera logo a seguir. De sbito, sentiu uma vontade incontrolvel de lhe 
perguntar se ela e o pai haviam desejado o seu nascimento, mas j imaginava a resposta e, alm disso, que importava agora esse pormenor? Fizera quarenta e sete anos 
e tinha um filho j crescido, o pai adorara-a e a me estava... morta, pensou Sabrina, em silncio. Mas a me no morrera. Desaparecera.
       - Por que razo  que o deixou? - perguntou Sabrina, quase involuntariamente. - Conte-me a verdade.
       - J te disse - respondeu Camille, evitando o olhar da filha. - A minha me estava muito doente. Morreu, pouco tempo depois. - No parecia agradar-lhe falar 
do assunto com Sabrina.
       - Quando a sua me morreu, estava com ela?
       - Nessa altura, encontrava-me em Frana. - Por que mentir-lhe? Que importncia  que isso tinha? O que interessava  que voltara para a manso. Continuava 
a ser a esposa de Jeremiah Thurston, e Sabrina estava aterrorizada. Jon tinha razo: Camille era mais dura do que Sabrina. O forte fora tomado, praticamente sem 
luta. Camille estava orgulhosa de si mesma. As coisas haviam-lhe sado melhor do que imaginara, e quando Jon voltasse tudo seria ainda mais fcil. Um aliado seria 
sempre uma grande ajuda. E ele prometera-lhe o seu incondicional apoio.
       - Viveu muito tempo em Frana?
       - Trinta e quatro anos.
       -  muito tempo. Voltou a casar-se? - Sabrina tentava faz-la cair na armadilha, mas Camille, com um sorriso, respondeu:
       - No. No voltei a casar-me, embora use um apelido diferente.
       - Suponho que tambm no seja condessa de nascimento... e esse "Du Pr"?...
       Camille fixou o seu olhar no de Sabrina.
       - Era o meu patrono em Frana.
       - Sim, claro. Ento, era a amante dele. - Sabrina esboou um sorriso cndido. - Pergunto-me at que ponto  que esse fato pode prejudicar as suas pretenses. 
Alm disso, trinta e quatro anos  muito tempo.
       - Durante o qual estive casada com o Jeremiah Thurston, e continuo a estar. Por mais que tentes, no podes alterar esse fato, Sabrina.
       - Continuo a pensar no interessante que seria a sua vida com o seu... patrono... - Sabrina sublinhou a palavra com a inteno de a fazer corar, mas no o 
conseguiu.- E agora, aparece a querer apossar-se desta casa. No teve m idia. J fez os seus planos para o Dia de Ao de Graas? Ou pensa decor-la de novo? No 
perca tempo. - Sabrina falava num tom malicioso que no era normal nela.
       Pouco antes do meio-dia, chegou Andr. Camille descia a escadaria principal e sorriu-lhe. Era um homem muito atraente, e ficou encantada ao descobrir que 
era francs, mas o seu interesse por ele decaiu quando percebeu de que estava do lado de Sabrina e que faria tudo o que pudesse para a expulsar da casa. Tentou falar 
com ele de Frana. Segundo parecia, passara quase toda a sua vida numa pequena cidade do Sul, mas tambm residira em Paris. Camille deu a entender que vivera a 
faustosamente, mas Andr percebeu que mentia e, com ar de enfado, virou-lhe as costas. Queria falar com Sabrina a ss.
       - J guardou a sete chaves a prata e as jias? Pode ser uma ladra vulgar com muita astcia...
       Sabrina riu-se.
       - As nicas jias que tenho so as dela. Pelo menos, a maior parte. A julgar pela desfaatez com que age, no tardar a exigir-me que lhas devolva.
       - Mas, pelo amor de Deus, no lhas d. Continuo a achar que devia chamar a Polcia. - No gostava do aspecto daquela mulher. Mas quando telefonou para a Polcia 
e tentou explicar a situao, eles disseram-lhe para no se meter em assuntos familiares. Um telefonema para um advogado que conheciam foi igualmente desencorajador. 
Disse que teria de levar o assunto a tribunal e que, uma vez que j se encontrava instalada em casa, seria praticamente impossvel p-la na rua at  leitura da 
sentena, a no ser que eles a pusessem  fora fora de casa. Nesse caso, ela teria direito a pr-lhes uma ao em tribunal.
       - Ontem, no deviam t-la deixado entrar - -disse Andr.
       - Est louco? Como  que eu poderia saber? Irrompeu pela casa dentro como uma diviso de tanques russos e a primeira coisa que fez foi tirar as minhas roupas 
do roupeiro e atir-las para cima de um cadeiro. Ainda tive a sorte de ela aceitar mudar-se para a sute de hspedes, se no, seria eu quem teria de dormir l.
       - Como? - Andr tentou conservar a calma, mas era impossvel. - Est a dormir no meu quarto! Ponha-a de l para fora! - A indignao do francs fez rir Sabrina, 
mas os seus olhos estavam de novo inundados de lgrimas.
       - No compreendo, Andr. - Fora um choque tremendo. - Por que razo  que o meu pai no me disse nada?
       - S Deus sabe o que se teria passado entre eles. A julgar pelo aspecto e os modos dessa mulher, trata-se de uma pessoa sem escrpulos, e no acredito em 
nada do que ela lhe contou.  pena a Amlia no poder falar ao telefone.
       A impacincia de Andr era tanta que, mesmo correndo o risco de parecer descorts, insistiu para que Sabrina voltasse a telefonar a Amlia, e desta vez teve 
a sorte de a chamarem ao telefone. Tinha uma rouquido tremenda e queixava-se de dor de garganta, mas, pelo menos, conseguiu p-la ao corrente de tudo, contando-lhe 
a aventura de Camille com Du Pr, que a levara a abandonar o esposo e a filha.
       - Lamento que ela tenha voltado para te atormentar dessa maneira. Ela j ento era uma rapariga extremamente egosta e com muito mau corao; pelos vistos, 
no melhorou com a idade.
       Sabrina esboou um sorriso amargo ao ouvir as palavras da amiga.
       - No creio que em nova fosse melhor do que agora. - Ento, pensou no que Amlia lhe contara sobre a fuga de Camille. - O meu pai deve ter ficado de corao 
destroado.
       Agora compreendia melhor a relutncia de ele falar dela. Nunca recuperara do choque.
       - Sim, ficou muito magoado. Mas tinha-te a ti. - Amlia sorriu, recordando aqueles tempos. - Eras a alegria da sua vida. Creio que com o passar dos anos quase 
chegou a esquec-la. O Jeremiah prosseguiu a sua vida. Mas os primeiros anos... foram muito duros.
       Sabrina resolveu fazer-lhe uma pergunta.
       -  verdade que o meu pai tinha uma amante e que essa foi a razo de ela o ter abandonado?
       - De modo nenhum! - Amlia pareceu ficar ofendida.
       - O Jeremiah sempre foi fiel  Camille. Isso posso eu garantir-te. De fato, andou um bocado preocupado por demorares tanto tempo a vir ao mundo. No queria 
contar-lhe a perfdia com os anis contraceptivos e, embora se lembrasse muito bem desse assunto, no quis referi-lo a Sabrina. Segundo parece, para grande desgosto 
do teu pai, a Camille teve algo a ver com esse atraso, mas no vale a pena falar disso agora, minha querida. No permitas que tudo isto te preocupe. Tens mas  que 
a pr no olho da rua.
       - Quem me dera! Segundo parece, temos de levar o caso a tribunal.
       -  uma autntica desgraa que te caiu em cima, minha pobre menina. - Aos quarenta e sete anos, Sabrina j no era uma menina, mas as palavras de Amlia tocaram-na 
profundamente. - Essa mulher merecia levar um tiro. O Jeremiah deveria ter feito isso h muito tempo. Agora no terias tantos problemas.
       - Talvez. - Sabrina sorriu, grata por ter algum com quem desabafar. - Depois, conto-lhe como  que isto tudo acabou.
       - No te esqueas. A propsito, como est o Andr? Ouvi dizer que vocs os dois esto a reconstruir o mundo e o vo encher de bbados.
       - Um dia destes. Sabrina riu-se da descrio que a amiga fazia dos seus planos. - E voc, como vai?
       - Muito bem. S esta dor de garganta no me larga. No penso morrer por agora, no tenhas medo.
       - timo. Precisamos de si.
       - Mas no precisam dela. E nunca precisaram. Por isso, ponham-na a andar quanto antes.
       - Amm. - Sabrina agradeceu-lhe e desligou o telefone. Voltou-se, ento, para Andr. No poderiam fazer nada at levarem o caso a tribunal. Entretanto, Camille 
continuava a dar voltas pela casa com um vestido de seda branco e brincos com uns diamantes que Sabrina suspeitava no serem verdadeiros. Sabrina olhou para Andr, 
desesperada. - Que vou eu fazer?
       A perspectiva de viver com ela at que os tribunais resolvessem o caso quase dava com ela em doida. Nada melhorou quando Jon chegou, no dia seguinte. Cumprimentou 
Camille como uma av h muito esperada. Sabrina foi, ento, at ao quarto dele e fechou a porta atrs de si. Encontrou-o sentado na cama. O rapaz no parecia ter 
muita vontade de falar, mas Sabrina no lhe deu hiptese de escolha.
       - Quero falar contigo, Jon.
       - Sobre o qu? - Ele sabia muito bem do que ela lhe queria falar, mas dava-lhe gozo pensar na fria em que ela devia estar. Que diabo! Porque no? A me nunca 
lhe dera aquilo que ele mais desejava: a viagem para a Europa e o carro que lhe pedia h trs anos. No fazia mais do que lamentar-se da sua pobreza e de andar de 
um lado para o outro da casa a gemer. Pois bem, agora a av tirar-lhe-ia a Manso Thurston das mos, e assim poderia ir viver para Napa com o agricultor francs 
com quem andava to atarefada a plantar vides. E ele e a av poderiam viver esplendorosamente na Manso Thurston. E Camille prometera-lhe comprar um carro logo que 
as coisas estivessem a seu gosto. Iria ver cumpridos os seus desejos, e estava impaciente de os ver transformados em realidade. Com carro prprio, o seu ltimo ano 
de estudos ia ser muito divertido... partindo do princpio de que ele e Camille conseguiriam a tempo o que haviam planeado. Depois, a viagem para a Europa, o prmio 
pela licenciatura, como a av tambm lhe prometera... Em seguida, iria para Nova Iorque, onde encontraria um bom emprego, razo por que pouco lhe importava quem 
iria ficar a viver na casa. Provavelmente, nunca mais voltaria a residir nela, a no ser por curtos perodos de tempo. Considerava que So Francisco era uma pattica 
cidade provinciana. Depois de ter passado trs anos em Cambridge, estava preparado para viver em Nova Iorque, embora no desgostasse de outros lugares... Boston... 
Atlanta... Filadlfia... Washington...
       - Quero que me ds uma explicao.
       Os agradveis pensamentos de Jon viram-se interrompidos pelo olhar fulminante da me. Sabrina quase tremia de raiva. No conseguia evitar. Mas j no podia 
fazer-lhe nada. A av encontrava-se j em casa, e conseguira introduzir-se nela pelos seus prprios meios. Ao princpio, quisera que Jon a deixasse entrar numa altura 
em que Sabrina se encontrasse fora, mas ele recusara-se a ir to longe. Ento, Camille resolvera agir por sua conta e risco. Jon sabia que ela conseguiria. Ainda 
era mais dura do que Sabrina, mas parecia ter muito mais em comum com o neto. Como Sabrina receava, pensavam da mesma maneira, e era precisamente sobre isso que 
queria falar tambm com Jon.
       - Que papel desempenhaste nisto tudo? - O olhar era fulminante.
       - Que queres dizer?
       - No te faas desentendido. A tua av disse-me que te conhece h trs anos. Por que razo nunca me disseste?
       - Pensei que ficarias chateada. - E desviou o olhar. Sabrina, sem conseguir conter-se, deu-lhe uma bofetada.
       - No me mintas!
       Jon levantou os olhos para ela, desconcertado. A me nunca o olhara daquela maneira. O olhar doeu-lhe mais do que a bofetada, mas ela nunca se sentira to 
atraioada; quanto mais pensava nisso, mais crescia a sua indignao.
       - Bolas, que te interessa quem  que eu conheo! Tenho de te contar tudo o que fao?
       - Ela  a minha me, Jon, e tu conheceste-a h trs anos. Por que razo  que a ajudaste a cometer esta infmia?
       - No a ajudei a fazer nada. - Encolheu os ombros. - E bem vistas as coisas, talvez tenha tanto direito a possuir esta casa como tu. Disse que quando o av 
morreu estava casada com ele.
       -No podias ter-me avisado? - O rapaz no respondeu. Isso fez com que Sabrina lhe gritasse: - No podias? Sabes o que  o pior de tudo isto, Jon? O que me 
fizeste. Ela nunca foi uma me para mim, mas tu s meu filho, e no s permitiste que acontecesse esta atrocidade, como tambm a ajudaste a comet-la. No tens vergonha?
       O rapaz lanou-lhe um olhar hostil, e algo comeou a morrer dentro de Sabrina ao ouvi-lo responder:
       - No sinto nada.
       - Ento, ds-me pena.
       - No preciso nada de ti - disse Jon, enquanto a me saa do quarto.
       Sabrina no conseguia suportar o que estava a ver no filho. Era extremamente parecido com Camille. Durante anos, no conseguira achar-lhe parecenas com ningum. 
Era muito diferente do av, do pai, dela prpria, mas agora sabia donde lhe vinham os genes. Era exatamente igual a Camille, e to infame como ela. Depois de tudo 
o que fizera pelo filho, recebia como prmio a sua infidelidade. Alguma vez, nalgum lugar, algo devia ter-se entortado nele, algo que jamais voltara a endireitar-se; 
e agora era j demasiado tarde para corrigir o mal. Sobretudo se Camille continuasse ali a estimular-lhe os seus piores instintos. Durante os dias seguintes, viu-os 
a colaborar e a conspirar, a cochichar coisas ao ouvido e a sair juntos. Sabrina sentia-se completamente abandonada pelo filho. Av e neto haviam-se conluiado contra 
ela. Tinha muitas coisas que fazer, mas o estado de esprito em que se encontrava no lhe permitia concentrar-se em nada. E, por outro lado, no se atrevia a deixar 
a casa para ir a Napa ver Andr e o andamento dos trabalhos. Temia que, se sasse da manso, lhe fizessem algo pior, como roubar-lhe tudo o que pudessem ou, qui, 
mudar as fechaduras das portas para que ela no pudesse voltar a entrar em casa.
       - No pode ficar a, aterrada, durante os prximos meses. - Andr estava preocupado com ela.
       - Acha que isto ainda vai levar assim tanto tempo?
       - Talvez. Sabe o que disse o advogado.
       - Acho que dou em doida antes disso.
       - No endoidea antes de c vir ajudar-me a tomar umas decises relativas aos vinhedos. - Ento, teve uma idia. - Sabe uma coisa? Vou mandar o Antoine dar 
uma espreitadela s coisas a em casa enquanto voc estiver aqui. E quando voc regressar a casa, ele poder voltar para Napa.
       Era um plano bem estudado e funcionou. Aquilo foi exatamente o que fizeram durante os dois meses seguintes. Entretanto, o advogado de Sabrina regressou e 
tomou conta do caso, embora dissesse que era muito pouco o que podiam fazer de momento O assunto, naturalmente, teria de resolver-se em tribunal, o que poderia levar 
outros dois meses. Chegou o momento de Jon ter de voltar para a universidade e, quando isso aconteceu, a frieza que existia entre me e filho continuava igual. O 
rapaz foi jantar fora com Camille na noite anterior  sua partida, e Sabrina fez o mesmo na companhia de Andr e Antoine. O deplorvel estado das relaes entre 
Jon e a me era praticamente irreparvel, ao ponto de Sabrina ter a sensao de ter perdido o filho E, em certo sentido, assim acontecia. De momento, era a nica 
coisa que Camille conseguira. Prometera a Lua ao rapaz para quando conseguissem expulsar Sabrina da casa. Jon parecia guardar rancor  me e, inclusive, manter desejos 
de vingana contra ela, pela morte do pai e pela deciso de Sabrina dirigir pessoalmente as minas. Ele nunca lhe perdoaria essas coisas, e f-la-ia pagar pelo resto 
da vida. Um dia, falou disso a Andr enquanto passeavam pelos vinhedos.
       - Devo ter falhado com ele. Se o pai no tivesse morrido, eu no teria voltado a trabalhar. Eu no trabalhava a tempo inteiro, mas suponho que ele queria 
mais do que aquilo que eu podia dar-lhe.
       - Talvez seja um eterno insatisfeito. No se pode fazer nada para compensar esse tipo de pessoas.
       - Gostaria de resgat-lo das mos de Camille. Ainda no viu aquilo que ela , mas tenho a certeza de que isso acontecer. Ento, sofrer uma grande desiluso.
       Andr achava que o rapaz merecia sofrer essa desiluso pela sua perfdia. No prestava como pessoa. Andr no gostava do rapaz, mas nunca diria a Sabrina. 
Era o seu nico filho e, apesar da dor que lhe ia na alma, continuava a am-lo. Era seu filho. Antoine tambm a tentava confortar. Consciente daquilo por que Sabrina 
estava a passar, mostrava-se extremamente amvel e atencioso com ela. De vez em quando, trazia-lhe flores, cestos de fruta e outros pequenos presentes. Aquelas atenes 
significavam muito para ela, e sempre que as recebia contava a Andr, elogiando o carter do filho. O homem ficava orgulhoso, e Sabrina invejava a amizade existente 
entre pai e filho. Esperava que, da a alguns anos, quando Jon tivesse a mesma idade que Antoine, estivesse mais maduro e se aproximasse mais dela. Todavia, algo 
lhe dizia que aqueles sonhos no chegariam a transformar-se em realidade. Sempre que se sentia invadida por semelhantes pensamentos, orientava a sua mente para os 
vinhedos que estava a criar com Andr e para a ao que tinha em tribunal contra Camille. Sabia que a data da audincia estava prxima, o que no parecia apoquent-la. 
Continuava a jogar bem as suas cartas. Quando faltava apenas uma semana para a audincia, bateu  porta da sute de Sabrina. Era dia nove de dezembro e deviam comparecer 
perante o tribunal no dia dezesseis do mesmo ms,
       - Sim?
       Sabrina tinha o robe vestido e os ps descalos. Ainda no acreditava no que Camille lhe fizera. H mais de cinco meses que aquela mulher residia na manso. 
A vida de Sabrina era um interminvel pesadelo do qual parecia nunca mais acordar. Camille andava sempre por perto, deambulando pela manso como se fosse a dona. 
Muitas vezes punha os seus vestidos baratos e as peles velhas e ia pavonear-se pela cidade. De vez em quando, desaparecia um objeto valioso da casa, e Camille garantia 
que nada tinha a ver com isso, mas Sabrina sabia que no era verdade. Todavia, no podia evitar aqueles furtos, pois era-lhe impossvel vigi-la continuamente. Alm 
disso, tal como confidenciara a Andr h algum tempo, Camille tentara reclamar as suas jias, mas Sabrina no lhe dera ouvidos. Por uma ironia do destino, tinha 
de tolerar a presena daquela mulher em sua casa, mas era a nica coisa que lhe permitia. E quando comearam a chegar faturas de Camille e Jon, negou-se a pag-las. 
Ambos pareciam tentar tudo o que podiam para a arruinar, o que teriam conseguido se Sabrina tivesse pago a montanha de faturas referentes a coisas que compravam 
em seu nome. Deixou que as faturas se acumulassem e depois enviou-as por correio para Jon, que se encontrava na universidade. J tinha vinte e um anos e, tal como 
Sabrina lhe dissera, se ele queria viver daquela maneira, teria de tomar a responsabilidade de todos os gastos. Mas a av asseverara-lhe que ela prpria se responsabilizaria 
por tudo logo que pusesse Sabrina fora da manso, e, na sua opinio, j no faltava muito para isso. E tambm deixou que as faturas de Jon se acumulassem. Havia 
centenas delas, todas por pagar, em cima da secretria de Jon. Iria d-las  av quando voltasse a v-la, tal como fazia com a me, noutros tempos, quando regressava 
a casa. Esses dias, porm, j faziam parte do passado, como a me lhe dizia constantemente. Graas a Deus, no tinha de a escutar com muita freqncia, pois encontrava-se 
a quase cinco mil quilmetros de distncia. Mas Camille e Sabrina encontravam-se a apenas um metro de distncia uma da outra quando esta ltima abriu a porta do 
quarto
       - Que quer?
       - Pensei que talvez pudssemos falar.
       Quando tinha um plano em mente, Camille costumava expressar-se num tom marcadamente sulista. E o que mais repugnava a Sabrina era a hiptese de continuar 
a pensar naquela voz durante o resto da sua vida... e a preocupao de poder parecer-se em algo a Camille ou comportar-se como ela... um simples gesto em comum teria 
sido repugnante O que no podia evitar era que Jon se parecesse tanto com a av. Todavia, nada disso se manifestava agora no seu olhar.
       - Falar? De qu? No tenho nada para lhe dizer.
       - No preferias falar em vez de ir para os tribunais?
       - No necessariamente - respondeu Sabrina num tom frio. Cada vez estava mais convencida de que iria desmascar-la. O seu advogado dissera-lhe que quanto mais 
refletia sobre o caso, mais longe estavam as possibilidades de Camille ganhar. O testamento de Jeremiah exclua-a sem mencionar o seu nome. "quaisquer pessoas com 
quem possa ter casado." Sabrina recordava-se que aquela clusula lhe parecera estranha quando da leitura do testamento, mas estava to transtornada nessa altura 
que no procurara esclarecer o assunto. Tinha todas as probabilidades de ganhar, mas a questo tinha de ser esgrimida em tribunal, por melhores que fossem as perspectivas. 
A no ser, claro, que Camille desistisse, coisa muito pouco provvel depois de ter-se agarrado durante tanto tempo ao que considerava seu. - No me importa ir para 
os tribunais. - Camille olhou-a com um sorriso nos lbios.
       - No quero tirar-te a manso, minha filha.
       Sabrina teve vontade de a esbofetear e de lhe bater com a cabea no cho. Era possvel que depois de a ter torturado quase seis meses, invadindo a sua vida 
e fazendo os possveis por lhe roubar o filho, dissesse que no queria tirar-lhe a manso? E atrevera-se a chamar-lhe "filha".
       - Estou quase com cinqenta anos, e no sou sua filha. Nunca o fui. No tenho nada a ver consigo. Mete-me nojo. E, se dependesse de mim, punha-a a pontap 
na rua agora mesmo.
       - Partirei esta semana... - A voz era um insidioso sussurro - ...se me pagares o preo da minha renncia.
       Sem dizer palavra, Sabrina fechou-lhe a porta na cara.
       Para Andr, era torturante ter de assistir ao sofrimento de Sabrina sem poder fazer nada. A dezesseis de dezembro, assistiu ao julgamento na companhia dela 
e, pela primeira vez, Camille estava com ar plido e assustado. Fora longe demais, e deu-se conta disso quando tentou lisonjear o juiz, que ficou chocado tanto com 
a sua verso dos fatos como com o seu descaramento de se instalar na Manso Thurston, atormentando Sabrina durante tanto tempo, depois de a ter abandonado quando 
ainda era criana. Amlia fizera um depoimento em Nova Iorque. Apesar da sua idade, tinha uma memria excelente, e descrevera com perfeita coerncia os acontecimentos 
relacionados com o caso que haviam tido lugar uns quarenta e seis anos antes. Camille quase estremeceu ao olhar ao seu redor, na sala de audincias. Estava s, e 
comportara-se como uma louca. Nunca imaginara que as coisas chegassem to longe. Sempre pensara que Sabrina lhe daria dinheiro para se livrar dela, e agora falava-se 
que tinha de pagar uma indenizao  filha por perdas e danos e uma renda relativa aos seis meses de ocupao ilcita da manso. Tambm vieram  baila as elevadas 
faturas, tanto dela como de Jon, que havia por pagar. E, quando tudo terminou, teve de dar graas a Deus por ter recebido apenas uma forte reprimenda do juiz. Este 
ameaara mand-la para a cadeia, e deu-lhe exatamente uma hora para, sob a vigilncia de um ajudante do xerife, fazer as malas e sair da Manso Thurston.
       Sabrina nem queria acreditar que o pesadelo chegara ao fim. E, enquanto Camille descia a escadaria principal pela ltima vez, observou-a sob a suntuosa cpula 
de vitrais. No havia dio nos olhos de Sabrina. No havia absolutamente nada. Perdera demasiado durante aqueles ltimos seis meses para sentir algo por Camille 
naquele momento. Perdera a paz de esprito e, pior ainda, o seu filho.
       - Pensei que, depois de tudo terminado, poderamos ser amigas - disse Camille com voz nervosa e hesitante. Brincara com o fogo e queimara-se E agora tinha 
de voltar para Atlanta com o rabo entre as pernas. Ver-se-ia obrigada a viver de novo com o jovem Hubert. Nunca pensara que voltasse a precisar dele, mas enganara-se
       Falando com voz suficientemente forte e clara, de modo que o ajudante do xerife tambm pudesse ouvir, Sabrina disse para Camille.
       - No quero v-la nem ouvi-la nunca mais. E, se voltar a importunar-me, chamarei a Polcia e comunicarei ao tribunal. Entendido? - Camille fez um mudo gesto 
afirmativo com a cabea. - E mantenha-se afastada do meu filho.
       Sabrina perdera aquela batalha. Pde comprov-lo, no dia seguinte, quando, depois de ter recuperado a lucidez e tranqilidade, telefonou a Jon e este lhe 
respondeu que no iria passar o Natal em casa. Estava a pensar apanhar o comboio para o Oeste no dia dezoito. Ia para Atlanta. O tom de voz era acusador.
       - Ontem, falei com a av. Disse que subornaste o juiz. Sabrina ficou perplexa. E, pela primeira vez desde que o juiz ordenara a Camille que abandonasse a 
manso, os olhos inundaram-se-lhe de lgrimas. Seria possvel que Jon nunca viesse a compreend-la e que continuasse a odi-la at ao fim da vida, e que fosse to 
parecido com a av.
       - Jon, no fiz tal coisa. - Esforou-se por conservar a calma. - Nem sequer creio que o tivesse podido fazer. O juiz era um homem honesto, e viu bem o tipo 
de pessoa que ela .
       - Ela  apenas uma velhota  procura de um lugar onde possa viver. Sabe Deus para onde  que ir agora.
       - Onde  que estava antes?
       - Em casa de um sobrinho, a viver da caridade das pessoas. Agora, no ter outro remdio seno voltar para l.
       - Esse  um problema dela.
       - E tu ests-te nas tintas.
       - Pois estou. Lembra-te de que ela tentou tirar-me esta manso, Jon!
       Porm, o filho negou-se a compreend-la. E no parou de lhe chamar pega.
       Nessa noite, Sabrina pde, finalmente, descansar na cama, sozinha na casa que, novamente, voltava a ser sua. Mas tinha a perfeita conscincia de que, depois 
de tudo, no ganhara. Camille Beauchamp Thurston  que ganhara: roubara-lhe Jon.
       
      31
       
       Esse Natal, sem Jon, teria sido desoladoramente solitrio para Sabrina se no tivesse contado com a companhia de Antoine e Andr. No a deixaram ficar sozinha. 
Apareceram na Manso Thurston com um abeto e ponche de ovo que Antoine preparara, e brincaram com ela, fazendo os possveis para a animar. Depois, foram  missa 
do galo e entoaram cnticos de Natal, enquanto as lgrimas corriam pelas faces de Sabrina. Os trs formavam um grupo alegre e Sabrina estava-lhes grata por isso. 
Sem os dois homens, teria ficado sozinha em casa, a chorar e a pensar no sofrimento que Camille lhe fizera passar, mas, com os dois franceses ao seu lado, foi-lhe 
impossvel ter um s instante de depresso. No dia de Natal, o seu estado de esprito melhorara muito, e Antoine regressou a Napa para voltar a reunir-se aos seus 
Mas Andr ficou com Sabrina para poderem ir juntos ao banco no dia seguinte. Embora estivesse tudo a correr bem, queriam pedir outro emprstimo para comprar o equipamento 
de que necessitavam. Andr mostrava grande habilidade e acerto na forma de conduzir as coisas. Nessa altura, j haviam limpo os terrenos.
       - At a minha selva me parece agora maravilhosa - gracejou Sabrina. - J nem a reconhecia.
       - Espere at provar o nosso vinho.
       - Andr levara uma garrafa de Moet & Chandon. Quando Antoine saiu, sentaram-se ambos a contemplar em silncio a rvore de Natal. Andr voltou-se, ento, para 
Sabrina com o olhar transbordante de admirao. Sofrera imenso nesse ano. Mas, como Amlia lhe dissera h muito tempo, era uma mulher de uma fibra incrvel. Extraordinria. 
Amvel e afetuosa, mas mais forte do que qualquer outra mulher que conhecera. Talvez at mais do que Amlia. Esta era como Sabrina desejaria que fosse a sua me. 
Mas j no podia iludir-se. Sabia exatamente como era a me. Uma cadela, uma pega, que tentara despoj-la desonestamente de tudo o que tinha. Inclusive, antes de 
abandonar a manso, roubara-lhe um pequeno quadro, escondendo-o numa das malas. Sabrina sentiu uma enorme sensao de alvio ao ver-se livre dela.
       - Foi um ano impressionante, no acha? - perguntou Sabrina, com os olhos fixos na rvore.
       - Se foi! - Andr riu-se dos termos que ela utilizou e da sua expresso de surpresa, mas Sabrina sorriu.
       - Para mim, foi bom e foi mau. Voc e Antoine foram os melhores presentes que eu podia ter. - Andr oferecera-lhe uma bonita camisola de caxemira vermelha 
e um chapu a condizer. Sabrina comprara-lhe um casaco e um par de luvas. - No foi mau de todo.
       - Claro que no.
       Porm, ambos sabiam que ela estava triste por causa de Jon. Embora Sabrina falasse pouco dele, era-lhe impossvel esconder a tristeza que lhe ia na alma. 
Sendo algo demasiado penoso para fazer disso objeto de conversa naquele momento, optou por dissimular a sua dor gracejando com Andr.
       No dia seguinte, depois da reunio no banco, partiram juntos para Napa, onde Sabrina passou o resto da semana. J no tinha medo de deixar a Manso Thurston 
sem vigilncia. Mandara mudar as fechaduras no mesmo dia em que Camille partira, e nem sequer Jon tinha ainda as novas chaves. Sabrina dispunha agora dos seus prprios 
aposentos na casa de campo que Andr alugara oito meses antes. Ele e Antoine estavam j a planejar a construo da sua outra casa, mas, de momento, alojavam-se todos 
na nica que tinham, o que no desagradava a Sabrina. Os homens demonstravam-lhe grande afeto, e ela comeava j a arranhar o francs com eles.
       Depois do dia de Ano Novo, Andr levou-a de novo para a Manso Thurston. Atravessaram a Bay Bridge, subiram a Broadway Street, cortaram, ento, para sul, 
para a Califrnia Street, depois,  direita, para a Taylor Street, chegando, finalmente, a Nob Hill. Andr estacionou o carro em frente da Manso Thurston e levou 
as malas para dentro. Queria ficar um ou dois dias na cidade a trabalhar com Sabrina. Antoine podia tomar conta das coisas em Napa. Nessa noite, passaram vrias 
horas na biblioteca a tratar de papelada. Partilhavam a responsabilidade do negcio e, de certo modo, aquela tarefa trouxe  lembrana de Sabrina os velhos tempos 
nas minas, depois da morte do pai. Ao referir isso a Andr, este disse-lhe:
       - Deve ter sido uma poca muito difcil para si.
       - Se foi! - Sorriu. - Mas aprendi muito.
       - J me dei conta disso. Mas no se pode dizer que tenha sido uma maneira agradvel de aprender.
       - Talvez no estivesse destinada a aprender as coisas da maneira mais fcil.
       Sabrina voltou a pensar em Camille e Jon e na decepo que lhe haviam causado. Andr mirou-a nos olhos e fez-lhe uma pergunta inesperada, sobre algo em que 
andava a matutar h muito tempo. H j dez meses que eram bons amigos, mas nunca haviam falado de certas coisas. Sabrina raramente falava de John Harte, e eram poucas 
as vezes que Andr lhe falava da esposa. Ela morrera quando Antoine tinha apenas cinco anos, e este vivera sem companhia feminina durante muito tempo. Nos seus ltimos 
tempos em Frana, apaixonara-se por uma mulher, mas agora tudo terminara. Numa carta recente, ficara a saber que ela se inclinara para outro homem. Mas a notcia 
no o deixou de corao destroado. J temia isso quando, ao deixar a Frana, ela no o quisera acompanhar at  Amrica. Agora interessava-lhe muito mais a vida 
de Sabrina, e j tinha -vontade suficiente para perguntar.
       - Como era o seu marido? - Sabrina sorriu para o amigo.
       - Maravilhoso. - E deixou escapar uma gargalhada. - Para dizer a verdade, ao princpio, no nutramos muita simpatia um pelo outro. Ele andava sempre a tentar 
convencer-me a vender-lhe as minas. Era o dono de outra mina rival. - Andr riu-se ao imaginar as fascas que isso devia ter provocado. - Mas acabamos... - Esboou 
um sorriso nostlgico. - Acabamos por chegar a acordo. - O rosto retomou o ar srio. - Mas nunca permiti que fundssemos as nossas minas, nem sequer nos ltimos 
anos. Mas depois tive pena de no o fazer. Passou um mau bocado. E para qu? Depois da sua morte, acabei por as fundir. Foi uma estupidez no o ter feito antes.
       - Por que razo no o fez?
       - Julgo que queria provar-lhe algo: que era independente e no uma parte do meu marido. Ele fez-me a vontade e manteve as coisas como eu queria, mesmo sabendo 
que daquela maneira tudo ficava mais complicado. Tinha muita pacincia. - Fitou Andr nos olhos. - O que ento aprendi com ele permitiu-me ser agora uma melhor scia 
sua.
       -  uma mulher maravilhosa - disse ele, sorrindo, e depois fez uma careta. - Exceto a cozinhar e a falar francs!
       - Como pode dizer uma coisa dessas? - Ps-se a rir. - Na semana passada, fiz um omelete.
       Era uma da manh, e no se fartavam de rir, na biblioteca, apesar do cansao que sentiam, unidos num ambiente de perfeita harmonia.
       - E viu a indisposio que nos arranjou? - Andr adorava provoc-la, e puxou-lhe uma das tranas. Aos seus olhos, ela parecia muito mais jovem do que era. 
Quem no a conhecesse bem dar-lhe-ia menos uma dzia de anos. - Parece uma ndia. - Aquelas palavras fizeram com que Sabrina se recordasse de Lua da Primavera. E 
falou do fascnio que a rapariga ndia lhe despertava e contou-lhe que ela a salvara de ter sido violada por Dan. - No levou uma vida muito aborrecida. No acha 
que o negcio dos vinhedos  demasiado calmo para si?
       -  a melhor coisa a que posso dedicar-me neste momento. Julgo que no conseguiria voltar a suportar a intranqilidade e os problemas daqueles tempos. Um 
dia, mais de trezentos homens despediram-se das minhas minas. No queria voltar a passar por tudo isso.
       - E no voltar. A partir de agora, a sua vida no poder ser mais tranqila. Prometo. - Sabrina esboou um sorriso triste ao pensar que aquela paz era bem 
merecida.
       - Oxal a sua promessa se possa estender a todos ns - disse ela, pensando em Jon. - E voc, Andr? Que mais pode desejar da vida que termos xito com os 
vinhos? - Deu-lhe um belisco na orelha e Andr voltou a puxar-lhe a trana.
       - A coisa no  to fcil para mim, ma vieille... Que mais desejo da vida? - O semblante tomou um ar srio. Tinha uma boa resposta para aquela pergunta, mas 
no se atreveu a express-la. - No sei. Suponho que tenho tudo o que desejo. Aqui, s me falta uma coisa. - Aquelas palavras surpreenderam Sabrina. Parecia to 
satisfeito.
       - O que lhe falta?
       - Companhia. Preciso de algum com quem compartilhar a vida, alm do Antoine, porque sei que no vou t-lo sempre a meu lado. O natural  que um dia v para 
o seu prprio lugar. No sente tambm essa necessidade? - H muito tempo que Andr estava s, h quase um ano. Sabrina j levava muito tempo de solido, mas j se 
acostumara a ela. Desde John, no houvera outro homem na sua vida. J referira isso a Andr noutra ocasio. Este achou notvel, mas no o surpreendeu. Agora, conheciam-se 
bastante bem, e teria sabido se havia algum na vida de Sabrina. - Como conseguiu ficar s durante tanto tempo? - Aquele fato impressionara-o. Dois anos depois da 
morte da sua esposa, tivera uma aventura sria, seguida de outras menos srias e duradouras. Estava acostumado a ter uma mulher na sua vida, e agora era essa falta 
que sentia. -  possvel que no ache a sua solido insuportvel? - perguntou Andr, intrigado.
       Sabrina deixou-se rir.
       - No. A solido, s vezes,  agradvel. Tambm h momentos de desamparo, no o nego, mas basta no nos deixarmos arrastar e pormo-nos a pensar noutra coisa. 
 como ser freira - gracejou.
       - Que desperdcio. - Andr olhou-a com o seu ar tipicamente francs e riram-se. - No estou a brincar. Voc  uma mulher encantadora, Sabrina, e ainda  jovem.
       - Eu no diria tanto, meu amigo. Fao quarenta e oito em maio. No sou propriamente uma rapariguinha.
       - Est na primavera da vida.
       - Agora j sei que est louco, Andr.
       - De modo nenhum!
       A mulher com quem estivera envolvido em Frana era mais velha e muito menos bonita do que ela. Sabrina teria sido um presente requintado para qualquer homem. 
Era uma mulher muito especial e Andr tinha conscincia disso. Nunca se teria aproximado dela apenas para se divertir. Sabrina significava muito mais para ele. Eram 
duas da manh quando se separaram, e encontraram-se de novo ao pequeno-almoo, bem vestidos, com o aspecto de homem e mulher de negcios. Mas, desde a conversa mantida 
na noite anterior, sentiam-se mais unidos, Sabrina, mais  vontade para lhe falar de John, e ele de algumas das suas amizades femininas. Era como se estivessem a 
sondar-se. Inesperadamente, Andr disse-lhe que resolvera no regressar a Napa na quinta-feira, como previra e, em vez disso, convidou-a para jantar fora.
       - H algo para celebrar? - perguntou Sabrina, surpreendida. Estava fatigada. Fora uma semana muito longa, e ainda perdurava o cansao do julgamento, que tivera 
lugar no ms anterior. Ficara praticamente de rastos, e pouco sara desde ento. Talvez lhe fizesse bem, pensou.
       - Por acaso no podemos ir jantar fora pelo simples prazer de o fazer?
       - Tem razo, Andr. - A idia agradara-lhe. Retirou-se, ento, para os seus aposentos, para se vestir. Quando, pouco depois, voltaram a encontrar-se ao fundo 
das escadas, sob a cpula, Sabrina exibia um vestido negro que Andr nunca lhe vira.
       - Est muito elegante, madame - gracejou Andr, enquanto a Sabrina no passou despercebida a beleza do francs. Haviam-se acostumado tanto um ao outro dentro 
de um trato simplesmente amistoso, que Sabrina poucas vezes reparava na beleza de Andr, mas, nessa noite, sentia-se extremamente feminina e atraente.
       Andr levou-a no seu carro at ao restaurante e tomaram um aperitivo no bar. Pouco depois das oito, sentaram-se  mesa. Passaram um bom bocado. Ele, a contar 
coisas da sua vida em Frana; ela, a falar-lhe de pormenores da sua vida nas minas, assim como de si mesma. Depois, regressaram  Manso Thurston. Mas, nessa noite, 
ela convidou-o para a sua sala de estar privada. Habitualmente, reuniam-se na biblioteca, mas aquela sala era mais confortvel e mais ntima. Sabrina ps lenha na 
lareira e acendeu-a antes de Andr ir buscar algo para beber. Andr encheu dois clices de conhaque e beberam-no diante da lareira, com os olhos fixos no brilho 
das brasas. De repente, Sabrina voltou-se para ele.
       - Obrigada por esta noite maravilhosa, Andr... obrigada por tudo. Voc tem sido muito bom comigo. E esta sada fez-me muito bem.
       Andr ficou sensibilizado com o que ouvira e, esticando o brao, acariciou-lhe a mo com os dedos.
       - Faria qualquer coisa por si, Sabrina. Espero que saiba. 
       - J fez.
       Ento, como se ambos tivessem estado  espera disso, Andr inclinou-se e beijou-a nos lbios. Nenhum dos dois pareceu surpreendido. Acharam o fato natural... 
e assim continuaram, sentados lado a lado, de mos dadas, a beijarem-se, junto  lareira. Ento, ao fim de alguns instantes, esboou um sorriso terno.
       - Parecemos um par de midos.
       - E no somos? - E sorriu
       - No sei.
       Andr apagou com um beijo as palavras de Sabrina, e esta sentiu surgir de dentro de si um desejo por aquele homem que at ento no sabia existir no seu intimo. 
Tomou-a nos braos e, de imediato, deitaram-se no cho, diante da lareira Andr sentiu o seu corpo aquecer e as mos comearam a percorrer a pele de Sabrina, que 
ficou surpreendida consigo prpria por no se opor ao comportamento do amigo. Era como se ambos j estivessem  espera do que estava a acontecer. Andr esboou, 
ento, um sorriso confiante.
       - Acha que devo continuar? - sussurrou-lhe Andr ao ouvido. No queria fazer nada de que ambos se arrependessem mais tarde. Aquela mulher significava demasiado 
para ele, tanto como amiga como ser humano.
       - No sei - respondeu Sabrina, com um sorriso. - Que estamos a fazer aqui?
       - Acho que estou apaixonado por si.
       Sabrina no ficou surpreendida ao ouvir aquelas palavras. Deu-se conta de que estava apaixonada por Andr h j muito tempo, talvez desde o dia em que se 
tinham conhecido. Haviam construdo algo de muito belo juntos, com os seus coraes e as suas mos, com grande empenho, e ele trouxera-a de novo  vida. O que estava 
agora a acontecer mais no era do que a continuao de tudo isso. Sabrina encolheu-se, ento, entre os braos de Andr, que a levou para a cama, onde fizeram amor 
como se fosse algo natural entre eles. Finalmente, caram nos braos um do outro, sonolentos, enquanto Andr lhe acariciava os cabelos sedosos com as pontas dos 
dedos e adormecia com os lbios colados aos dela.
       Quando acordaram, no dia seguinte, Andr ficou aliviado ao ver que no havia qualquer ponta de arrependimento nos olhos de Sabrina. Beijou-a, ento, nos olhos, 
nos lbios e na ponta do nariz, enquanto ela no parava de rir... e voltaram a fazer amor. Era quase como uma lua-de-mel. Sabrina no conseguia imaginar como tudo 
acontecera com tanta facilidade. H quase vinte anos que no fazia amor com nenhum homem e, todavia, ali estava, radiante de felicidade, ao lado de Andr, que se 
mostrava louco por ela. De repente, inundou-a com o seu amor.
       - O que  que nos aconteceu? - perguntou ela, com olhar sonolento, depois de ter voltado a fazer amor. Era sbado e, portanto, no tinham de ir a lado nenhum. 
Estavam ss e apaixonados.
       - Deve ter sido de alguma coisa que comemos ontem  noite...
       - Talvez o champanhe... temos de fazer o nosso como esse.
       Ento, com um sorriso nos lbios, adormeceu de novo. Acordou ao meio-dia, precisamente no momento em que ele entrava no quarto com uma bandeja cheia de comida.
       - Isto  para que conserves as foras, meu amor - disse Andr. E bem precisou delas quando, mal acabaram o pequeno-almoo, ele a atacou de novo.
       - Meu Deus, Andr! - Riu, feliz e satisfeita. - s sempre assim?
       - No - respondeu ele, com ar srio, enquanto voltava a encostar-se a ela. Estava insacivel. Era como se tivesse libertado todas as energias acumuladas de 
um ano. - Operaste em mim algo de maravilhoso.
       - Posso devolver-te o cumprimento?
       Dormiram e fizeram amor durante toda a tarde. Finalmente, s seis horas, levantaram-se, tomaram banho e vestiram-se para sair. Desta vez, iam ao Bal Tabaria 
na Columbus Avenue. Realmente era como uma lua-de-mel.
       - Como  que isto nos aconteceu? - perguntou Sabrina, sorrindo por cima das sobremesas e de uma garrafa de champanhe.
       - No sei. - Andr fitou-a com ar srio. - Seja como for, merecemos, meu amor. Este ano trabalhamos muito.
       - Que bela recompensa!
       Andr pensou o mesmo quando, nessa noite, voltaram a fazer amor. Desta vez, havia lume na lareira do quarto de Sabrina. Era o quarto onde nascera Jon h quase 
vinte e dois anos, mas agora no pensava nisso. Pensava em Andr, em cujos braos dormiu profundamente at pouco depois do amanhecer. Olharam, ento, um para o outro, 
para voltarem a adormecer de seguida, e fizeram novamente amor das duas vezes seguintes que acordaram. Ento, Andr olhou-a com ar pensativo. J havia pensado nisso 
no dia anterior, mas esquecera-se.
       - Seria uma grosseria da minha parte se te perguntasse se tomas precaues para no engravidar, meu amor? - Andr deu-se conta de que durante aqueles dois 
dias no tomara nenhuma precauo. - Todavia, Sabrina no se mostrou preocupada.
       - A prxima vez que correr o perigo de ficar grvida j terei oitenta anos. No engravido com facilidade. Levei dois anos de cada vez que engravidei antes. 
Sou a mulher menos perigosa neste aspecto. E, agora, na minha idade, talvez me custe mais.
       - Pelo menos, fico mais descansado. Mas tens a certeza de que  assim como dizes?
       - Estou a falar a srio. De momento, no posso engravidar. Ainda no estava na menopausa, mas, no ano anterior, j tivera alguns sinais de que estava prxima.
       - No podes ter a certeza disso.
       - Farei qualquer coisa na semana que vem. Entretanto...
       Andr deixou de se preocupar e, ao chegar a noite de domingo, sentiam-se to felizes que resolveram passar outra noite na Manso Thurston antes de voltarem 
para Napa. Nenhum dos dois estava ansioso por acabar com aquela sbita lua-de-mel. Em dois dias, as suas vidas tinham dado uma volta completa, e nenhum deles lamentava 
o que haviam feito. Esse fato acrescentara uma nova dimenso  sua existncia. No dia seguinte, quando regressaram a Napa, Sabrina, com os seus longos cabelos sobre 
as costas, os olhos to brilhantes como os de uma rapariguinha, desatou a rir. Envergava a camisola de caxemira vermelha que ele lhe oferecera e calas de flanela 
cinzentas.
       - Que faremos agora em Napa? Os homens vo ficar surpreendidos. - Ao fim e ao cabo, eles no tinham nada com isso. E, quanto a Antoine, Sabrina achava que 
ele no devia saber, pelo menos de momento.
       - Parece que tenho de construir a minha casa quanto antes. Amanh mesmo telefono ao arquiteto!
       E riram-se. Nessa noite, Andr foi em bicos dos ps at ao quarto de Sabrina, e regressou do mesmo modo para o seu quarto ao amanhecer, com um sorriso de 
felicidade estampado no rosto. Tinha cinqenta e cinco anos, e nunca fora to feliz na vida como agora.
       
      32
       
       Durante as duas semanas seguintes, no pararam de andar em bicos dos ps de um quarto para o outro, e foram  cidade, pelo menos, uma vez por semana. Sabrina 
passava a maior parte do tempo na companhia de Andr e Antoine. Andr e Sabrina olhavam-se agora de maneira muito diferente. Havia um cdigo secreto s entendido 
pelos dois, embora Sabrina j tivesse apanhado uma vez Antoine a olhar para eles e a voltar-se rapidamente para no dar a sensao de estar a meter-se em assuntos 
que no eram contas do seu rosrio. Mais tarde, pareceu-lhe tambm que o rapaz os observava de sorriso nos lbios.
       - Achas que ele sabe? - perguntou Sabrina, certa noite, enquanto sussurravam na cama dela, na casa de campo de Napa. Andr j fora falar com o arquiteto. 
A construo da nova casa teria incio nessa Primavera. Portanto, teriam de continuar em bicos dos ps de um quarto para o outro durante mais algum tempo, at a 
casa ficar pronta.
       - No sei - respondeu Andr, enquanto lhe acariciava a cara ao luar. Nunca amara nenhuma mulher como Sabrina, e esta sentia por ele algo que nunca sentira 
por ningum, nem mesmo por John. Ento era muito mais nova e o seu amor no era to profundo como agora. - Estou convencido de que, se ele soubesse, ficaria contente. 
Ontem estive quase a dizer-lhe.
       Sabrina assentiu com a cabea. No se imaginava a dizer a mesma coisa a Jon. Ele j a acusara de ter relaes ntimas com Andr h muito tempo atrs, e no 
queria dar-lhe razo, embora no tivesse havido outro homem na sua vida desde a morte de John. Mas sabia que ele no entenderia. H um ms que no tinha notcias 
dele, nem de Camille, que regressara a Atlanta, mas Sabrina nem queria ouvir falar dela. E centrou de novo o seu pensamento em Antoine.
       - Achas mesmo que ele no ficaria aborrecido? - Era to diferente de Jon, e ela gostava tanto dele.
       Andr sorriu.
       - Por que razo  que iria ficar aborrecido? Pelo contrrio, ficaria encantado.
       Sabrina tambm presumia que sim. Nesses dias, mostrava-se extraordinariamente amvel com os dois, e ajudava-os nos terrenos quando trabalhavam juntos, coisa 
que Sabrina via com agrado. E foi precisamente quando se encontrava acompanhada de Antoine nos vinhedos, algumas semanas depois, que, aps passar um dia inteiro 
ao sol, cambaleou e caiu nos braos do rapaz, quase desfalecida. Este apressou-se a fazer uma compressa fria com o leno e a gua de um cantil que trazia consigo.
       - Devia andar com um chapu. - Antoine repreendeu-a como se fosse uma menina. Na realidade, Sabrina encontrava-se muito mal. Tudo parecia bambolear  sua 
volta e sentia um peso no estmago, mas conseguiu controlar-se e voltar para casa, em passo lento, pouco depois.
       - Antoine... no diga nada disso ao seu pai... por favor.
       Sabrina olhou-o com ar suplicante, mas ele franziu o sobrolho.
       - Por que razo? Eu acho que ele deve saber, no acha?
       Ento, de repente, temeu pela vida dela. A me morrera de cancro quando ele tinha cinco anos. Ainda a recordava, do mesmo modo que no se esquecera da tristeza 
do pai. Olhou para Sabrina com olhos preocupados. - No conto ao meu pai, se me prometer ir ao mdico imediatamente.
       Sabrina pareceu hesitar, mas Antoine insistiu, pegando-lhe num brao, impulsionado por aquelas remotas recordaes, e, com olhar severo, disse-lhe:
       - Estou a falar a srio, Sabrina. Caso contrrio, digo-lhe j.
       - Eu estou bem, eu estou bem. Isto foi do sol.
       Mas Antoine no achava que ela estivesse bem, e reparou que, nos dias seguintes, comeu muito pouco. Voltou a perguntar-lhe se pensava ir ao mdico, e ela 
ia dar-lhe uma desculpa qualquer, mas ele no iria permitir.
       - Estou bem.
       - Isso  que no est. - Antoine quase lhe gritara, mas aquela discusso nada tinha a ver com as que costumava ter com Jon. Era bvio que ele estava preocupado 
com ela, o que a deixou extremamente sensibilizada. A preocupao do rapaz confirmou-se quando, pouco depois, por volta do meio-dia, Sabrina esteve prestes a sofrer 
novo desmaio. Antoine quase a levou de rastos para casa. Felizmente, Andr encontrava-se no escritrio do arquiteto.
       - Bem, telefona voc ou telefono eu ao mdico.
       - Por amor de Deus... - Sabrina ficou algo desconcertada, mas Antoine estava disposto a levar a sua avante. Colocou-se junto ao telefone e olhou-a com ar 
ameaador. Sabrina acabou por desatar a rir. - Ainda bem que no  meu filho, Antoine. No teria a mnima chance contra si. - Mas Sabrina estava apenas a provoc-lo. 
Lanou-lhe um olhar de agradecimento e encaminhou-se para o telefone. Era bom saber que o rapaz se preocupava tanto com ela, alm do pai. Telefonou ao mdico e marcou 
a consulta para o dia seguinte. - E sabe o que o mdico me vai dizer?
       - Sei. - Antoine parecia intransigente. - Que trabalha demasiado. Deveria seguir o exemplo do meu pai. Tambm trabalha muito, mas dorme a sesta todos os dias. 
- Era um hbito que Andr trouxera de Frana La sieste, graas  qual se mantinha jovem e so.
       - No tenho pacincia para isso
       - Mas deveria dormir. - Antoine ficou satisfeito por ela ir ao mdico. Pelo menos, j conseguira que ela fizesse qualquer coisa. - Quer que a leve  cidade 
amanh?
       - No, no  preciso. Tenho outras coisas para fazer. - Sabrina no queria dar demasiada importncia ao fato, para que Andr no ficasse curioso por saber 
o que se passava.
       - Depois conta-me o que o mdico lhe disser?- Sabrina voltou a ver a mesma expresso de medo nos olhos de Antoine. Parecia um mido. Sabrina aproximou-se 
dele e olhou-o nos olhos. Era muito mais alto do que ela. E, com ar protetor, asseverou-lhe:
       - No ser nada de mal, Antoine. Estou de perfeita sade e garanto-lhe que me sinto tima. Suponho que tudo se deveu aos nervos que apanhei com o aparecimento 
da minha me, o julgamento e... - Ambos sabiam que ia acrescentar Jonathan  lista. - Julgo que tudo isso me esgotou, e agora estou a pagar as conseqncias.
       - Fiquei to triste com tudo aquilo que lhe fizeram. - Antoine fitava-a como se ela fosse sua me.
       - Tambm eu. Mas, pelo menos, serviu para aclarar a situao de uma vez por todas. - Sabrina continuava a sentir que perdera o filho. Vira uma faceta dele 
que nunca mais esqueceria. - E agora, quero que deixe de se preocupar comigo. Prometo que lhe digo tudo o que o mdico disser.
       Todavia, no dia seguinte, no consultrio do mdico, viu que no poderia cumprir a promessa feita a Antoine. Sentada, de olhar fixo no mdico, com a incredulidade 
estampada no rosto.
       - No pode ser...  impossvel... a ltima vez levou... Pensei que agora... - Estava de olhos pregados no mdico. Era inacreditvel.
       -  verdade, Sabrina. O teste no mente. Pelo menos, quando d positivo. E deu. Voc est grvida, minha querida.
       - Mas no  possvel. O ano passado, entrei na menopausa. Nunca mais tive o perodo desde a... - Contou pelos dedos e olhou para o mdico com cara de espanto. 
- Oh, no... - O mdico tinha razo. Estava grvida de dois meses. Na realidade, no associara aquele fato a Andr. A felicidade que sentira nesses dias contribura 
para que no se preocupasse com o que pudesse vir a acontecer. - Nunca pensei... meu Deus, se no tivesse quase desmaiado o outro dia nos terrenos... Talvez tivesse 
demorado vrios meses a inteirar-se do seu estado. - E, no entanto, continuava a no acreditar que fosse verdade. -  que das outras vezes demorei dois anos a engravidar, 
e pensava que...
       O mdico esticou o brao e deu-lhe umas palmadinhas na mo.
       - s vezes, as coisas mudam, minha querida. Alm disso, tanto quanto sei, o problema estava no John.
       - Oh, meu Deus...
       O mdico viu-a to desesperada que lhe ocorreu um pensamento terrvel.
       - Sabe quem  o pai, no sabe?
       - Claro que sim! - exclamou Sabrina, ainda mais surpreendida do que antes. - Mas no fao idia de como  que ele vai encarar isto... Somos scios e amigos, 
mas... na nossa idade... no fazamos tenes de... ns... - Os olhos inundaram-se-lhe de lgrimas, que rolaram pelas faces. Como o destino era cruel! Porque no 
conhecera Andr quinze anos antes? Ento, talvez... - E agora, que vou eu fazer? - Desatou a chorar, depois assoou-se ao leno que o mdico lhe dera. Ento, olhando 
para o homem com olhos suplicantes, perguntou: - Pode fazer alguma coisa para interromper a gravidez? - Era uma pergunta atrevida, pois ambos sabiam que aquilo que 
ela propunha era ilegal. Mas o certo era que Sabrina no sabia como solucionar o problema. Aquele mdico era o nico que conhecia, alm de um velhote de Santa Helena 
a que fora anos antes.
       - No posso fazer isso, Sabrina. Sabe bem que no.
       - Tenho quarenta e oito anos. No est a pensar que vou dar  luz esta criana, pois no? Nem sequer estou casada com o pai.
       - Ama-o? - Sabrina fez um gesto afirmativo com a cabea e assoou-se novamente. - Ento, porque no casa com ele e tem a criana?
       - No posso fazer isso. Ambos temos filhos crescidos. Seramos alvo de chacota. Ele tem cinqenta e cinco anos. Eu, quarenta e oito. Por amor de Deus, nesta 
altura, j poderia ser av!
       - E ento? No seria a primeira mulher a dar  luz j com uma certa idade. H dois anos, tive uma paciente que contava j cinqenta e dois anos. Passara-se 
o mesmo que consigo, com a diferena de que estava casada. E, por acaso, ela e a filha deram entrada ao mesmo tempo na maternidade para darem  luz. No ser a primeira, 
Sabrina.
       - Mas sentir-me-ia uma tolinha. E no quero obrigar o meu amigo a casar-se comigo... - Sorriu sem deixar de chorar. - Na minha idade, seria to ridculo pretender 
que um homem se casasse comigo por causa de uma gravidez. - Olhou para o velho mdico e comeou a chorar. Ento, com ar pattico, acrescentou: - Desculpe, tenho 
a cabea num caos.
       -  compreensvel.  um grande choque para qualquer pessoa. E tenho de reconhecer que, nas suas circunstncias, a situao no  fcil. Trata-se de um bom 
homem, pelo menos. Seria feliz com ele.
       - Claro que sim. - Mas nunca haviam falado de casamento, e Andr no tinha motivo nenhum para casar com ela. De momento, estavam bem conforme estavam. - Mas, 
perdoe-me que insista... um filho na nossa idade... - Pensou em Jon, e no beb que perdera, e que, segundo lhe disseram, era uma menina. Nessa altura, j no era 
propriamente uma jovenzinha... mas aos quarenta e oito anos... era inconcebvel... - Olhou novamente para o mdico. Sabia o que tinha de fazer, embora ignorasse 
onde devia dirigir-se. No consegue ajudar-me a encontrar algum que me faa abortar? No posso manter esta gravidez. No  justo.
       - No pode arvorar-se em juiz nessa questo. - O mdico franziu o sobrolho. - Pelo simples fato de ter acontecido, talvez seja justo. E talvez um dia descubra 
que foi a maior bno que Deus lhe concedeu. - E levantou-se para indicar que a visita terminara. - Agora, quero v-la de novo daqui a trs semanas, Sabrina. E 
descontraia-se o mximo possvel. No h razo para que na sua idade no se possa dar  luz uma criana s, mas ter de ter mais cuidado do que o que teve h vinte 
anos atrs.
       - Vinte anos... que situao mais ridcula. - De repente, sentiu-se irritada com o mdico, com ela prpria e com Andr por a ter metido naquele imbrglio. 
- Por amor de Deus... Grvida aos quarenta e oito anos. - De fato, s os faria em maio, e nessa altura j estaria de quatro meses. - Que desastre!
       Deixou o consultrio do mdico e dirigiu-se para casa com a cabea cheia de tudo o que ele lhe dissera... sobre o beb... e sobre Andr... que seria a maior 
bno que Deus lhes poderia dar... mas negou-se a reconhec-lo. Tinha de encontrar algum que a ajudasse a abortar, e com a maior rapidez possvel. Sabia que se 
adiasse a "operao" por mais algumas semanas poderia ser muito perigoso para si. E no fazia a mnima idia a quem se dirigir. Como  que se encontrava uma pessoa 
que fizesse abortos? Nunca pensara que alguma vez viesse a precisar disso, e tentou puxar pela cabea, mas, ao faz-lo, recordou-se do beb que perdera. Lembrou-se 
da sua dor e da de John. Como podia agora pensar em matar o seu beb s porque as coisas no haviam sado da maneira que queria? Mas tinha alguma alternativa? Deitou-se 
na cama a pensar no assunto. Pouco depois, tocou o telefone. Era Antoine.
       - Que disse o mdico? - Estivera preocupado durante todo o dia. O pai fora comprar algumas coisas que precisava para o trabalho, e aproveitou a ocasio para 
telefonar a Sabrina antes que Andr voltasse.
       - No  nada. Estou tima.  s cansao. - Mas a voz estava algo tensa, inclusive para os seus prprios ouvidos, e Antoine no ficou convencido.
       - Tem a certeza de que foi isso que ele lhe disse?
       - Juro. - Mentiu. Que outra coisa poderia fazer? - Regressarei amanh ou depois de amanh.
       - Pensei que regressava esta noite.
       Antoine voltava a mostrar-se preocupado, como se fosse seu filho, e a emoo que Sabrina sentiu inundou-lhe os olhos de lgrimas. Tinha de fazer os possveis 
por no deixar transparecer isso na voz. Ultimamente, tudo a fazia chorar.
       -  que lembrei-me que ainda tenho de fazer algumas coisas na cidade. Tudo bem por a, Antoine?
       - Sim, muito bem. - Contou-lhe o que haviam feito durante todo o dia. - Tem a certeza de que no h nenhum problema consigo? - Pareceu um pouco mais aliviado. 
No era o temido cancro.
       - Positivo. - "Positivo" era precisamente a palavra adequada, e Sabrina esboou um sorriso malicioso. Entretanto, Andr voltou e Antoine desligou.
       - Como vo as coisas por a, m'amie? - s vezes, tratava-a assim, exceto quando estavam sozinhos,  noite. - Ento, tratava-a por chrie ou mon amour.
       - Encontrei tanto correio que tive de atrasar um pouco o meu regresso para poder atend-lo. Talvez algum mo possa mandar quando ficar em Napa mais dias do 
que de costume.
       - Boa idia. - S ouvir a voz de Andr foi para Sabrina um alvio. Sentia uma vontade incrvel de lhe contar o que o mdico lhe dissera, mas no podia faz-lo. 
No queria pression-lo de modo algum. Era melhor no lhe dizer nada. Trataria de tudo sozinha, e ele nunca saberia. - Quando  que regressas? - Havia uma impacincia 
na sua voz que a fez sorrir. Amava-o, talvez mais do que nunca, e voltou a sentir pena daquilo no ter acontecido h quinze anos atrs. Nessa altura, provavelmente, 
ter-lhe-ia contado, ter-se-ia casado com ele e teria deixado viver a criana. Mas agora era impossvel.
       - Tentarei ir amanh ou depois de amanh. - Era o que estava a dizer ao Antoine. - Encontrei toneladas de correio.
       - No podes traz-lo para aqui? - No era costume demorar-se na cidade. - H algum problema, Sabrina?
       Andr conhecia-a demasiado bem; depois de um ano como scios e de dois meses a partilharem a mesma cama, conhecia-a na perfeio, at ao ponto mais recndito 
da sua alma. De certo modo, nunca conhecera ningum to bem como ela, apesar do curto tempo de amizade que levavam. O segredo estava em que eram duas almas gmeas 
em todos os aspectos.
       - No, no, est tudo bem. - Mentiu-lhe, tal como fizera com Antoine. -  srio. - Teve de reprimir as lgrimas de novo.
       - Soubeste alguma coisa do Jon?
       - No. Nada. Deve andar atarefado na universidade.  o ltimo ano... - Estava sempre a arranjar-lhe desculpas.
       Andr no queria fazer a pergunta, mas havia algo de estranho na voz de Sabrina.
       - E da Camille?
       - No, graas a Deus. - Sorriu. Apesar de ainda h poucas horas se terem visto, j sentia imensas saudades dele. Tinha a sensao de que, naquele instante, 
precisava mais dele que nunca, mas no podia deixar transparecer nada.
       - Bem, regressa o mais depressa possvel. - Andr ter-se-ia oferecido para a acompanhar, mas naquele momento tinha demasiado trabalho. - Estou mortinho de 
saudades, chrie - sussurrou, enquanto as lgrimas rolavam pelo rosto de Sabrina, que fazia um verdadeiro esforo para dar um tom normal  voz.
       - Tambm eu.
       Sabrina ficou acordada durante quase toda a noite, alternando entre as lgrimas e uma frrea determinao. Na manh seguinte, pegou na lista telefnica e 
escolheu o nome de um mdico de uma zona pouco atrativa da cidade. Quando, por volta do meio-dia, chegou, de txi, ao lugar indicado na lista telefnica, havia dois 
bbedos a dormir na rua. Entrou cautelosamente no edifcio, que tresandava a urina e a couves, e subiu por uns degraus que rangiam imenso. Respirou de alvio ao 
ver que a sala de espera estava irrepreensvel, e, quando uma velha enfermeira a conduziu para dentro do consultrio, viu um homem baixo, calvo e imaculadamente 
limpo, com um casaco branco vestido. Sabrina no sabia se se sentia aliviada ou decepcionada. Respirou fundo antes de falar, enquanto ele esboava um sorriso tranqilizador
       - Doutor... eu... eu peo desculpa de antemo se o que vou pedir-lhe  uma afronta para o senhor.. - De olhos umedecidos, olhou para o mdico. - Vim ter com 
o senhor porque estou desesperada..
       O mdico fitou-a, perguntando-se o que viria a seguir. Durante os quarenta anos que levava naquele consultrio, j vira de tudo.
       - Sim. Farei tudo o que estiver ao meu alcance.
       - Preciso de abortar. Escolhi o seu nome na lista telefnica. No sei a quem me dirigir, aonde ir... - Sabrina, com os olhos inundados de lgrimas, temia 
que o homem se levantasse de um pulo e lhe apontasse a porta da rua. Em vez disso, fitou-a compassivamente, enquanto parecia matutar nas palavras que ia dizer.
       - Sinto muito. Sinto muito que ache que no pode ter essa criana, Mistress Smith. - Ao fazer a marcao, havia-o feito com o nome de Joan Smith e, enquanto 
o mdico continuava a falar, recordou por que razo  que o mdico a tratava assim. - Tem a certeza de que no h maneira de continuar com a gravidez?
       O mdico ainda no se negara a nada, o que, lentamente, fez renascer as esperanas de Sabrina. Afinal, talvez tivesse vindo parar ao lugar certo.
       - Tenho quarenta e oito anos. Sou viva e tenho um filho adulto que est a acabar o ltimo ano da universidade. - Aquelas razes pareciam-lhe suficientes, 
mas no o foram para o mdico.
       - E o pai da criana?
       -  meu scio. Somos bons amigos. - Corou. - Como  bvio.  sete anos mais velho do que eu, e o filho  mais velho do que o meu. No fazemos tenes de casar... 
 impossvel.
       - J lhe disse?
       Sabrina hesitou e abanou a cabea.
       - S ontem  que soube que estava grvida. Mas no quero pression-lo. S quero fazer o aborto e voltar para casa.
       - Vivem em lugares diferentes?
       - Parte do tempo. - Foi intencionalmente vaga. No queria que o mdico soubesse quem era. Apesar de se esconder sob o nome de "Mrs. Smith", o mdico teria 
conseguido deduzir qual era a sua verdadeira identidade, e ele no precisava de saber.
       - No acha que ele merece que a senhora lhe d, pelo menos, uma satisfao? - Sabrina abanou a cabea, e o mdico olhou-a com olhos compreensivos. No era 
a primeira vez que lhe solicitavam aquele tipo de ajuda, e sabia que no seria a ltima. - Acho que no est a agir bem, Mistress Smith. Ele tambm tem o direito 
de saber. E a sua idade no me parece um impedimento assim to importante. J houve mais mulheres com a sua idade a darem  luz. Pressupe um risco ligeiramente 
maior, mas no se trata da sua primeira gravidez, o que reduz de modo considervel esse risco. Julgo que deveria seguir o meu conselho sem mais delongas. De quantos 
meses julga que est?
       - Dois meses. - Sabia que no podia ser mais do que isso, porque apenas h pouco mais de oito semanas  que dormiam juntos. Na noite anterior, calculara cuidadosamente 
o tempo de gravidez.
       O mdico assentiu com a cabea.
       - No lhe resta muito tempo para fazer o que quer que seja.
       - Ento, vai ajudar-me?
       O homem hesitou. No fazia abortos, embora os tivesse feito h muito tempo atrs, mas uma rapariga estivera s portas da morte, e ele jurara a si mesmo que 
deixaria aquela prtica para sempre. Alm disso, algo lhe dizia que seria um erro satisfazer os desejos daquela mulher.
       - No posso, Mistress Smith.
       - Ento, por qu... por qu... pensei que ao ouvir-me que...
       - Prefiro convenc-la a ter a criana.
       - Mas no quero t-la! - Levantou-se de um pulo, desatando num pranto. - Se no mo quer fazer, fao-o eu mesma.
       Por instantes, o mdico pensou que ela seria mesmo capaz de fazer aquilo que dizia, o que o assustou.
       - No posso ajud-la. Pelo seu bem, e pelo meu.
       Ele poderia perder a licena e nunca mais poder exercer. Arriscava-se, inclusive, a ir parar  cadeia. Mas havia outra possibilidade. J dera o nome de um 
indivduo a uma mulher, e ela ficara satisfeita com o trabalho. Puxou, ento, de um bloco e de uma caneta e, numa folha em branco, em que no figurava o seu nome, 
escrevinhou um nome e um nmero de telefone, e entregou-a a Sabrina.
       - Telefone para este homem.
       - Acha que ele me faz o aborto? - Os olhos de Sabrina fitavam-no com ar ansioso.
       O mdico, de semblante carregado, fez um gesto afirmativo com a cabea.
       - Sem dvida. Vive no Bairro Chins. Era um grande cirurgio, mas foi apanhado nessas prticas. J lhe mandei uma pessoa... - Olhou, com ar triste, para Sabrina, 
repetiu-lhe o que pensava. - Todavia, continuo a pensar que deveria ter essa criana. Se fosse pobre, ou estivesse doente... ou tivesse sido violada... ou fosse 
viciada em morfina... mas parece-me ser uma mulher decente, como o ser, muito provavelmente o seu amigo. Poderia dar a essa criana um lar cheio de amor. - Reparara 
na boa qualidade da l do vestido que Sabrina envergava. Era velho, mas devia ter sido caro. Talvez a sua situao econmica no fosse boa, mas uma mulher como aquela 
tinha de encontrar um modo de no cometer aquela barbaridade. - Pense bem, Mistress Smith. Talvez no volte a ter uma oportunidade como esta. E  muito possvel 
que algum dia lamente no ter tido essa criana. Pense bem nisso. Pense bem antes de telefonar a esse mdico. - E apontou para a folha de papel que Sabrina tinha 
na mo trmula. Depois do fato consumado j no poder voltar atrs, e ainda que um dia volte a ter outra criana, lamentar sempre no ter permitido o nascimento 
desta.
       As palavras do mdico recordaram a Sabrina a criana que perdera. Nem sequer Jon conseguira preencher esse vazio. Era um sonho que se desvanecera para sempre, 
e o mesmo sucederia agora... mas ela no podia permitir-se ter aqueles pensamentos. No tinha alternativa. Levantou-se e abanou a cabea.
       - Obrigada por me ajudar. - Sentia-se aliviada. Pelo menos, agora sabia aonde se dirigir.
       - Pense bem no assunto.
       As palavras do mdico ecoaram na cabea de Sabrina ao sair. Quando chegou a casa, sentou-se  secretria e a ficou largo tempo. Sentia-se indisposta e tremia 
violentamente. Finalmente, decidiu-se a telefonar. Teve de marcar trs vezes o nmero antes de dar com o correto. Uma mulher com sotaque respondeu do outro lado 
da linha.
       - Queria marcar uma consulta.
       - Quem lhe deu o nome do doutor? - A voz era desconfiada, e Sabrina, toda a tremer, ganhou alento e disse o nome do mdico a que acabara de ir. Instalou-se 
um longo silncio, como se a outra pessoa estivesse a controlar a chamada. Ento, a mulher respondeu-lhe: - Na prxima semana.
       - Quando? - Nova pausa.
       - Quarta-feira ao fim da tarde. - Sabrina achou estranho, mas no se tratava de uma consulta normal. - s seis. Dirija-se  porta das traseiras. Bata duas 
vezes, faa uma pausa e volte a bater outras duas vezes. E traga quinhentos dlares em dinheiro. - A voz da mulher era spera como as suas palavras, e Sabrina quase 
ficou sem alento, no pela quantia que lhe pediam, mas pela imagem que tudo aquilo sugeria.
       - Ele faz-mo?
       De nada servia fingir naquela altura. Ambas sabiam o que Sabrina queria dele. Talvez no se dedicasse a outra coisa. Mas por que  noite? Mas no lhe fazia 
diferena nenhuma. Perguntou-se quanto tempo  que duraria a interveno.
       - Sim. Mas se se sentir mal depois, no volte a telefonar-nos. Ele no poder ajud-la.
       Ficara tudo esclarecido. Sabrina perguntou-se, ento, a quem  que se poderia dirigir em caso de emergncia. Talvez ao mdico que lhe dera o nome do que a 
faria abortar. Ou talvez ao seu, ou... As perguntas revolteavam dentro da sua cabea como morcegos e, quando desligou o telefone, teve vontade de vomitar, e vomitou 
mesmo. Sentia-se extremamente mal. De joelhos no cho da casa de banho, no fazia mais do que pensar na consulta que tinha marcada quarta-feira, ao fim da tarde: 
s seis. Ainda faltavam seis dias, e estava apavorada. Mas j no podia voltar atrs.
       No dia seguinte, voltou para Napa, no seu carro, e fingiu que estava tudo bem consigo. Falou pelos cotovelos, trabalhou com afinco, como era seu hbito, e 
at se ofereceu para cozinhar, o que motivou algumas piadas da parte dos homens. Estes estavam habituados a cozinhar para ela, mas, quando lhe serviram a comida, 
no comeu quase nada, nem naquela noite, nem no dia seguinte. Apanhou Antoine a olhar para ela uma ou duas vezes, mas no voltou a perguntar-lhe mais nada sobre 
o mdico. Entretanto, Andr parecia no ter dado conta de nada. Fizeram amor quase todas as noites, exceto na tera-feira, quando Sabrina se voltou de costas para 
o seu amigo e fingiu dormir. Quando acordou, pouco antes do alvorecer, Andr foi dar com Sabrina sentada  porta de casa, de olhos fixos nos campos e nas colinas, 
absorta em pensamentos. Foi em bicos dos ps at junto dela e sentou-se a seu lado. Ela voltou-se para ele com um sorriso nos lbios
       - Que fazes j levantado, Andr?
       - Ia perguntar-te a mesma coisa, m'amie. - Eram amigos, mas no naquilo que ocupava a mente de Sabrina naquele momento. Deu uma olhadela para o relgio da 
cozinha. Eram seis e cinco. Da a doze horas estaria no Bairro Chins, a pagar quinhentos dlares para matar o seu filho. Aquele pensamento f-la vacilar e sentiu-se 
mal disposta.
       - Que se passa. - Andr sentou-se ao lado dela, tomou-lhe a mo e beijou-lhe os dedos. - Sei que no tens andado bem ultimamente, mas no te disse nada pois 
preferi que fosses tu a tomar a iniciativa de me contar o que se passa. - O aspecto de Sabrina era pior do que o que tivera durante toda a semana. Estava quase verde. 
- Que se passa, meu amor?  aquela mulher a atormentar-te de novo? - Receava que Camille a estivesse a apoquentar.
       Sabrina abanou a cabea, sem saber o que dizer, enquanto tentava conter as lgrimas. No queria mentir-lhe, mas no podia dizer-lhe o que se passava.
       - s vezes, Andr, h coisas que s a prpria pessoa pode resolver. E esta  uma delas.
       Era a primeira vez que se negava a responder a uma das perguntas de Andr. Este olhou-a com ar compreensivo, mas no contente com a explicao de Sabrina.
       - No consigo imaginar nada que eu no consiga compreender, m'amie. Alm disso, j sabes que estou sempre disposto a ajudar-te em tudo, seja o que for. Tem 
a ver com o Jon? - Sabrina negou com a cabea. - Problemas econmicos? - Sabrina repetiu o mesmo gesto.
       -  uma coisa que s eu posso resolver. - Ento, com um suspiro e endireitando as costas, acrescentou: - Tenho de ficar na cidade durante uns dias.
       Andr perguntou, ento, com voz temerosa:
        Trata-se de algo relacionado conosco? Se  isso, diz-me. - Amava-a tanto. Precisava de saber. Era j demasiado velho para sofrer novo desgosto amoroso. Ests 
arrependida de... Mas Sabrina tranquilizou-o rapidamente com um beijo, enquanto esboava um sorriso terno e lhe acariciava o rosto.
       - Nunca. Nem pensar.  algo exclusivamente meu.
       - No h nada que seja exclusivamente nosso, que no possamos partilhar.
       - Desta vez, no. - Com ar triste, Sabrina abanou a cabea.
       - No estars doente?
       Sabrina voltou a abanar a cabea.
       - No. Estou aborrecida, mas isto passa. Volto no sbado.
       Sabrina concedera-se trs dias para se recompor, e esperava que fosse suficiente. Trs dias de amarga dor e pranto pela morte do seu beb... por quinhentos 
dlares...
       - Por que razo ficas l tanto tempo?
       - Porque vou deixar crescer a barba e rapar o cabelo - gracejou Sabrina, enquanto o cu ia ficando cinzento, depois cor de prpura,  medida que o sol se 
ia elevando no firmamento.
       - Porque no me contas o que se passa?
       - Porque trata-se de uma dessas ocasies em que uma mulher tem de cuidar de si mesma sozinha.
       - Por qu? No existe nada que eu no possa partilhar contigo.
       Sabrina concordou com a cabea. Pensava o mesmo. Mas desta vez no podia ser... embora tivesse de fazer um verdadeiro esforo para esquecer as palavras dos 
dois mdicos... Ele tinha o direito de saber... devia dizer-lhe.. dar-lhe uma oportunidade...
       - Andr, deixa-me tratar deste assunto sozinha. No sbado, j estarei de volta e j tudo ter passado.
       De qualquer modo, Sabrina perguntava-se se conseguiria manter aquela atitude por muito tempo. Receava que ele suspeitasse que havia algum problema. Tentara, 
com grande esforo, mostrar boa cara, mas ele conhecia-a demasiado bem. Naquele instante, desceram dois trabalhadores franceses, e Sabrina subiu para o quarto a 
fim de se vestir. Havia um pequeno problema numa das mquinas, e chegara a pea nova. Antoine precisava da ajuda de Andr e, antes de voltarem a falar, Sabrina estava 
pronta para partir para a cidade. Eram duas horas. Se sasse naquele instante, teria tempo suficiente para passar pela Manso Thurston, tomar banho, mudar de roupa 
e ir para o Bairro Chins. Deu um beijo de despedidas a Andr e a Antoine, fingindo uma enorme jovialidade, que no convenceu nenhum dos dois, e entrou no carro.
       - At sbado... portem-se bem..
       - Telefono-te logo  noite - gritou-lhe Andr, mas no pareceu satisfeito. Fora um dia horrvel, e Sabrina no dava qualquer ajuda. Estava extremamente preocupado, 
e o seu olhar denotava isso mesmo, o que deixou Sabrina revoltada consigo mesma.
       - No te preocupes. Eu telefono-te.
       Esperava falar com Andr quando chegasse  manso. No fazia a mnima idia de quanto tempo poderia durar a interveno, de como se sentiria e de como voltaria 
para casa. Resolvera fazer a viagem no seu prprio carro, e voltaria do Bairro Chins da mesma maneira.
       Sabrina partiu, ento, deixando pai e filho preocupados.
       - Passa-se alguma coisa - disse Andr, quase entre dentes.
       - Acho que est doente.
       Andr voltou-se para o filho como que movido por uma mola.
       - Que te leva a dizer isso?
       - H mais de uma semana, nos vinhedos, esteve prestes a desmaiar nos meus braos.
       - Porque no me disseste logo? - retorquiu, com aspereza. Todavia, era um alvio ter algum com quem poder falar dela. H dias que ambos andavam preocupados, 
e continuarem a fingir que no estavam s piorava a situao.
       - Fez-me prometer que no te dizia nada. Disse-lhe que tinha de ir ao mdico, caso contrrio, eu mesmo a levaria.
       - J no foi mau, e depois...?
       - Quando voltou, disse que o mdico a encontrara de perfeita sade. - Mas Antoine no ficara convencido e, por fim, resolvera falar claro, por mais que as 
suas palavras doessem; e as lgrimas assomaram-lhe aos olhos. Embora j fosse adulto, ainda havia nele algo de criana. Tinha o queixo a tremer quando se voltou 
para Andr. - No creio que se encontre to bem como diz, pap... j a ouvi vomitar... e, o outro dia, quase voltou a desmaiar.
       - Merde. - Andr empalideceu. - E, apertando os punhos, perguntou a Antoine: - Sabes onde  que ela vai agora?
       Antoine abanou a cabea.
       - Talvez a fazer anlises? Ou  consulta... no sei. S me disse que estava tudo bem.
       - Mentirosa. V-se que no est. H mais de uma semana que est doente e no me disse nada. - Ento, com olhar resoluto, fez o que achava ser sua obrigao. 
Deixou cair a ferramenta que tinha na mo e, em passo largo, dirigiu-se para o carro.
       - Ou vas-tu? - Antoine correu atrs dele, mas j sabia qual era o seu destino.
       - Vou atrs dela. - Andr ps o carro a trabalhar. Ainda tinha as mos sujas de terra, mas pouco lhe interessava isso agora. S lhe interessava a mulher que 
amava e, naquele momento, ia atrs dela.
       Antoine despediu-se do pai agitando uma mo e sentiu-se aliviado quando o carro desapareceu ao longe. Sabrina s lhe levava vinte minutos de avano, mas tinha 
f no seu velhote. Sabia que iria at ao fundo da questo e obrigaria Sabrina a fazer o que fosse melhor para ela.
       Andr carregou no acelerador durante todo o caminho. Teve de abrandar a marcha por instantes por causa de um pequeno engarrafamento de trfego, depois, acelerou 
ao longo da Bay Bridge, dando graas por esta se encontrar aberta naquele momento. Pouco depois, entrou a toda a velocidade em Nob Hill, e divisou o carro de Sabrina, 
estacionado defronte da Manso Thurston. Uma onda de alvio e gratido invadiu-o ento. A sua amada estava ali, encontrara-a. Finalmente, iria esclarecer todas as 
suas dvidas. Mas, logo que entrou na rua que conduzia  manso, viu-a sair, vestida com ar sombrio: a cabea coberta com uma charpe, um casaco velho que ele nunca 
lhe vira vestido e sapatos rasos. Com ar apressado, correu para o carro. Movido pelo instinto, Andr resolveu segui-la. Fez marcha atrs para no ser visto e iniciou 
a perseguio quando Sabrina ps o carro em andamento. Virou para a Jackson Street e dirigiu-se para Este. Andr, que a seguia a uma distncia segura, ficou surpreendido 
quando a viu parar no Bairro Chins. Aquilo no fazia nenhum sentido, e era j hora de jantar. Por instantes, sentiu uma pontada no corao quando se interrogou 
se no haveria outro homem envolvido na histria. Mas no parecia estar vestida para uma situao dessas. Depois de estacionar o carro, Sabrina atravessou apressadamente 
a rua, para se deter diante de uma porta em muito mau estado. Bateu, hesitou por instantes, voltou a bater, e a porta abriu-se. Houve uma breve troca de palavras 
e depois entregou um sobrescrito a algum que se encontrava atrs da porta. Do stio onde estava, Andr conseguia ver que Sabrina exibia um ar cadavrico, o que 
podia indiciar que se encontrava perante algum perigo, que lhe ia acontecer algo pouco agradvel. Talvez a estivessem a ameaar ou a chantagear. Andr quase pulou 
do carro, deixando-o estacionado numa passadeira de pees e correndo para a porta onde ela desaparecera. No lhe importava os riscos que podia correr. Sabrina j 
passara muito na vida, e, se agora tentassem fazer-lhe mal, mataria os culpados. Bateu  porta, uma, duas vezes, mas ningum respondeu. Ento, comeou aos murros 
 porta e a comprovar a sua solidez para ver se conseguia arromb-la. Lamentava no ter trazido Antoine. Mas, enquanto teve aquele pensamento, a porta entreabriu-se.
       - Obrigado - disse Andr, surpreendendo a mulher que aparecera da parte de dentro da porta e dando-lhe com esta na cara ao entrar de rompante. Deparou-se-lhe, 
ento, um vestbulo lgubre, ao fundo do qual se viam umas escadas estreitas. A mulher quase pulou para cima dele.
       - No pode entrar aqui.
       - A minha esposa acabou agora mesmo de entrar - mentiu. - Est  minha espera. - Ao olhar para a mulher, que trazia um roupo imundo vestido e sapatilhas, 
voltou a perguntar-se que teria ido fazer Sabrina quele lugar. A menos que a sua intuio estivesse certa: - estavam a chantage-la.
       - Mistress Harte! Onde est?
       - No sei... no est c ningum... est enganado... - Sem perder mais tempo, empurrou a mulher contra a parede.
       - Onde est a minha esposa? Diga-me j! - berrou para a mulher, e os olhos desta voaram para o cimo das escadas, mas no to rpidos como os ps de Andr 
pelos degraus acima. A mulher seguiu-o aos gritos. Tentou evitar que o intruso abrisse a primeira porta do segundo piso, mas isso s tornou as coisas mais fceis 
para ele. Depois de a abrir com um empurro, entrou de rompante numa sala no maior do que uma cela, que tinha uma mesa comprida cheia de caruncho no centro. Ao 
lado, havia um tabuleiro de instrumentos cirrgicos. Sabrina, meio despida, encontrava-se a um canto da sala. De repente, apareceu um homem alto, de aspecto andrajoso. 
Empunhava uma pistola. Sabrina e a mulher gritaram. Andr ficou cravado ao solo, mas olhou para Sabrina quando o mdico lhe apontou a arma.
       - Ests bem? - Sabrina assentiu com a cabea. Andr voltou-se, ento, para o homem que empunhava a arma. - Por que razo est ela aqui? Mas, instintivamente, 
j sabia a resposta.
       - Ela veio por sua livre e espontnea vontade.  polcia? - retorquiu o mdico, sem deixar de apontar a arma a Andr. Sabrina conteve a respirao.
       - No. - A voz de Andr tomou um tom estranhamente calmo. - Esta mulher  minha esposa e no precisa de si para nada. Cometeu um erro. Pode ficar com o dinheiro, 
mas vou lev-la para casa. - Parecia que estava a falar com uma criana. Percebera que o homem estava bbedo. S de pensar no que ele poderia ter feito a Sabrina, 
ficou todo arrepiado. Mas no podia pensar nisso agora. Ento, voltou-se para Sabrina: - Veste-te! - ordenou, num tom ainda mais spero do que aquele com que falava 
com o homem. J sabia qual era o motivo da vinda dela ali. Vira um lugar daqueles em Paris, quando, aos vinte e um anos, l levara uma rapariga por quem se apaixonara. 
Ela sobrevivera, mas ele jurara que nenhuma mulher que ele amasse passaria por aquilo, e assim foi. Pelo canto do olho, viu que Sabrina j se vestira. Fez-lhe sinal 
para a porta e olhou novamente para o homem. - No sei o seu nome, nem quero saber. Nunca diremos a ningum que estivemos aqui.
       Andr empurrou Sabrina para a porta. O mdico, depois de um momento de hesitao, baixou a arma e deixou-a passar, mas ficou a olhar para Andr. Admirou a 
coragem dele e teve vontade de os ajudar.
       - Se quiser, fao-o num instante. Entretanto, pode esperar a fora.
       Andr sentiu-se enojado, mas disfarou. Agradeceu ao mdico e, agarrando Sabrina pelo brao, conduziu-a pelas escadas abaixo sem dizer palavra. Abriu a porta 
da rua por onde haviam entrado e empurrou a sua amiga para fora. Reinava o silncio no interior do edifcio. Andr respirou fundo e, sem dizer nada, conduziu Sabrina 
at ao lugar onde estacionara precipitadamente o carro dez minutos antes. No fora mais do que isso, e se tivesse chegado cinco minutos depois... ou dez... Sentiu 
um arrepio na espinha... no olhou para ela enquanto a arrastava at ao carro, abriu a porta do veculo e empurrou-a com alguma rudeza para o interior do mesmo.
       - Andr... - disse Sabrina, com voz trmula. - Eu tenho o meu carro... eu posso...
       Andr virou-se para ela, lvido de raiva.
       - No me digas nada! - gritou-lhe com voz tensa. Sabrina estava demasiado assustada, inclusive para chorar.
       Sem dizer palavra, conduziu-a at  Manso Thurston e estacionou o carro diante da casa. Sabrina tentou abrir a porta, mas as mos tremiam-lhe de tal maneira 
que no conseguiu. Andr arrebatou-lhe as chaves da mo, abriu a porta e entrou. Esperou que ela tambm o fizesse e fechou a porta. Ento, gritou-lhe:
       - Meu Deus! Que diabo estavas tu l a fazer? - Nenhuma palavra conseguiria exprimir o que lhe ia na alma. - Sabes que podias ter morrido em cima daquela mesa 
imunda? Sabes que ele estava bbedo? Sabias...? Escuta... - Agarrou-a pelos ombros com ambas as mos e sacudiu-a violentamente.
       - Larga-me! - Empurrou-o, chorosa. - Que alternativa  que eu tinha? Que querias que fizesse? Que o fizesse sozinha? Pensei nisso! No sei como...
       Deixou-se cair de joelhos, a cabea baixa, destroada por todo o impacto do que estivera prestes a fazer. E agora ele sabia. Sabrina levantou, ento, a cabea. 
Estava lavada em lgrimas. Queria falar, mas os soluos impediam-na. Ento, Andr puxou-a para si, estreitou-a nos braos, tambm com os olhos cheios de lgrimas, 
e afagou-lhe os cabelos.
       - Como pudeste fazer semelhante coisa? Porque no me disseste? Ento era isso... - Andr fitou-a, magoado por ela no ter confiado nele. - Porque no me disseste? 
H quanto tempo  que sabias?
       Andr puxou-a para um cadeiro e f-la sentar-se ao seu colo como se fosse uma menina. Sabrina dava a impresso de ir desmaiar nos braos de Andr, mas este 
no se sentia muito melhor do que ela.
       - Descobri a semana passada - disse Sabrina, com voz cansada e vacilante. Andr sentiu todo o seu corpo estremecer. De repente, Sabrina perguntou-se se, caso 
ele no tivesse aparecido, ainda estaria viva... Agora dava-se conta do erro que cometera... - Pensei que... devia solucionar o problema sozinha... no queria que 
te sentisses pressionado...
       As lgrimas rolaram lentamente pelo rosto de Andr.
       - Tambm  meu filho. No achas que eu tambm tinha o direito de saber?
       Sabrina fez um gesto de concordncia com a cabea, horrorizada, a voz embargada:
       - Perdoa-me. Eu. - No conseguiu prosseguir, vencida pelas lgrimas, e Andr envolveu-a de novo num abrao. - S que j tenho demasiada idade., no somos 
casados.. no quis que te sentisses...
       Andr afastou-a e olhou-a nos olhos.
       - Por que razo  que achas que estou a construir a casa? Para o Antoine? Para que  que achas que a mandei fazer?
       Sabrina fitou-o, desconcertada.
       - Mas nunca me disseste.. - Andr revirou os olhos.
       - Nunca pensei que fosses to tonta. Claro que quero casar contigo. Talvez este ano. Pensei que soubesses.
       - Como poderia eu saber? - balbuciou. - Nunca me disseste nada.
       - Merde, alors. - Fitou-a, incrdulo. - s a mulher mais inteligente que conheo, e, s vezes, a mais tola. - Sabrina sorriu por entre as lgrimas, e Andr 
beijou-lhe os olhos. Ento, o semblante deste tomou, de novo, um ar srio. Nenhum dos dois queria pensar no que sucedera uma hora antes. Fora a experincia mais 
horrvel da vida de Sabrina, e talvez at de Andr. Estivera em risco de se perder uma vida, uma vida que ambos desejavam. Ela nunca teria sido a mesma, tanto mental 
como fisicamente. Andr arrepiou-se s de pensar nisso. - Bem, agora diz-me uma coisa. Querias mesmo livrar-te do beb? - Era um problema que tinha de ser encarado. 
Ela devia estar desesperada para o querer fazer e suportar aquele pesadelo.
       Todavia, para assombro de Andr, Sabrina negou com a cabea.
       - No, mas quis faz-lo por ti...
       Era verdade. Nem sequer a sua idade parecia importar-lhe tanto como uma semana antes. Sabrina pensara muito no problema e chegara  concluso de que deveria 
livrar-se do beb por ele, para no lhe complicar a vida, para no dar a impresso de que queria obrig-lo a casar-se com ela...
       - Farias isso por mim? - Pareceu horrorizado, e sentiu as mos de novo a tremer. - Podias ter morrido. Sabias? J para no falar no nosso filho, que tambm 
o terias morto.
       - No digas isso. - Sabrina fechou os olhos. Ao faz-lo, as lgrimas que os inundavam correram pelas faces. - S pensei que... - Andr interrompeu-a. No 
eram necessrias mais reprimendas nem justificaes.
       - Erraste. Queres ter o nosso filho? 
       - Pelo modo como fez a pergunta, quem  que no teria querido? - Sabrina fez um gesto afirmativo com a cabea, de olhos fixos nele. - Quero. No achas que 
 ridculo na minha idade? - Sabrina esboou um tmido sorriso e Andr riu-se.
       - Ainda sou mais velho do que tu e no me sinto ridculo. Na realidade - beijou-a no pescoo, - ainda me sinto jovem e forte. - Sabrina sorriu e beijaram-se.
       - Queres o beb, Andr?
       - Claro que sim. Todavia, tenho de perguntar-te por que estavas to segura de que era impossvel engravidares... Lembro-me de que disseste que no havia nenhuma 
hiptese de isso acontecer... - gracejou Andr. O pesadelo do Bairro Chins comeava a dissipar-se.
       - Errei. - E esboou um largo sorriso. Exibia um ar quase vitorioso.
       - Aparentemente. Aposto que ficaste espantada.  bem feito.
       Sabrina revirou os olhos.
       - Nunca sabers quanto.
       As recordaes fizeram-nos recuperar o ar srio. Quando Andr voltou a falar, f-lo com ar severo.
       - Acontea o que acontecer nesta vida, Sabrina, por mais desagradvel, horroroso, srdido ou triste que seja, quero saber. No tens de me esconder nada. Nada. 
Percebido?
       - Sim. Desculpa... - Sabrina comeou a chorar de novo e Andr apertou-a contra si. - Estive quase a... - Recomeou a tremer e Andr embalou-a como um beb.
       - No penses mais nisso. Tivemos sorte. Cheguei a tempo de poder seguir-te. - Sabrina parecia atnita. - Sem saber por que, meti-me no carro pouco depois 
de partires. Tive o pressentimento de que algo de estranho estava a passar-se. E no me enganei. Mas j acabou tudo. - E esboou um sorriso radioso. - Vamos ter 
um beb, meu amor. No te sentes orgulhosa?
       - Sim, e tambm um pouco ridcula. Sinto-me a av do meu futuro filho.
       - Mas no s.
       - Como  que achas que o Jon e o Antoine vo encarar o fato?
       Andr suspeitava que Jon iria aceitar mal; quanto a Antoine, talvez aceitasse melhor. No estava bem seguro da reao dos rapazes. Mas tudo isso no tinha 
qualquer importncia para ele. S Sabrina e o seu futuro filho lhe interessavam.
       - Se no aceitarem bem, tanto pior para eles. Trata-se da nossa vida e do nosso filho. Eles j so adultos e donos das suas vidas. Quando quiserem ter filhos, 
no nos pediro opinio sobre a oportunidade de os pr no mundo, como tal, tambm no lhes pediremos opinio.
       Sabrina riu-se da simplicidade com que Andr encarava a questo.
       - Ora, nem mais. Bem, assim fica tudo resolvido.
       - De modo nenhum. - E riu-se. - Ests a esquecer-te de um pequeno pormenor. No achas que devamos fazer ao nosso beb o favor de o legitimar? Sabrina, meu 
amor, queres casar comigo?
       - Ests a falar a srio?
       Andr voltou a rir e, apontando para o ventre ainda plano da sua amada, perguntou?
       - E isto  algo srio?
       - Claro. - riu-se. Ainda tinha os olhos vermelhos das lgrimas, mas parecia muito mais feliz. - Muito srio.
       - Ento, tambm estou a falar a srio. Que me dizes? - Sabrina atirou os braos  volta do pescoo de Andr.
       - Sim, sim, sim... sim!...
       Andr beijou-a com ardor na boca, levou-a ao colo pelas escadas acima, at  cama, e depositou-a carinhosamente no lado onde ela dormia. Sabrina tivera Jon 
naquela cama, mas ambos sabiam que, desta vez, no seria assim. A sua idade no lhe permitiria ter o filho em casa e Andr queria que fossem tomadas todas as precaues 
necessrias. Contudo, o pensamento que agora predominava nas suas mentes no era o nascimento mas o casamento.
       - Quando queres casar, meu amor? - Andr sorriu e cruzou os braos. Sabrina achou-o mais encantador que nunca.
       - No sei... Talvez devamos esperar para quando o Jon vier passar as frias da primavera. Gostaria que ele c estivesse.
       Ao ouvir isto, Andr soltou uma gargalhada e apontou para a barriga da sua amada.
       - No ests a esquecer-te de nada? - Sabrina tambm se riu.
       - Bem... s capaz de ter razo... Talvez no devamos esperar tanto.
       - Quando  que nasce?
       - O mdico disse que em outubro.
       S faltavam sete meses. Ainda podiam fingir que nascera prematuramente. Na idade de Sabrina, era possvel que um beb nascesse dois meses antes do tempo normal... 
mas no antes que isso...
       - Que tal este sbado?
       Sabrina recostou-se nas almofadas e sorriu. Era a mulher mais bonita que alguma vez conhecera.
       - Acho timo... mas... tens a certeza de que  o que queres fazer?
       - Tenho querido faz-lo desde o dia em que nos conhecemos... S tenho pena de no nos termos conhecido h vinte anos atrs. - Sabrina tambm pensara o mesmo. 
Haviam perdido tanto tempo, mas talvez estivesse escrito que as coisas tinham de acontecer daquela maneira. - Como vs, o prximo sbado j no  assim to breve 
como isso.
       Sabrina, radiante de felicidade, perguntou:
       - Telefonamos ao Antoine e dizemos-lhe?
       - Telefono-lhe mais logo e explico-lhe tudo. Mas, primeiro, quero que descanses. O dia que passaste no foi precisamente o ideal para uma futura mam. De 
hoje em diante, vou cuidar de ti. Percebido? - Olhou de relance para o relgio. J passava das oito. - Vou preparar-te qualquer coisa para comeres. Agora, ters 
de comer por dois.
       Inclinou-se e beijou-a mais uma vez. Depois, desceu as escadas a correr, foi at  cozinha e fez um dos omeletes de que ela tanto gostava,  la franaise. 
Mas, naquela noite, Sabrina no comeu nem por um. Entre o cansao devido ao que haviam passado e o beb que comeava a crescer no seu tero, adormecera profundamente.
       
      33
       
       Na quinta-feira  tarde, Sabrina e Andr regressaram a Napa no carro deste e deixaram o dela em So Francisco. Andr pusera-o, ao princpio do dia, numa garagem 
que alugaram defronte da Manso Thurston Antoine viu-os chegar quando voltava dos vinhedos. Estava um dia soalheiro. Sabrina, com um ar de incontida felicidade, 
parecia uma rapariga. Era difcil de acreditar que fosse a mesma mulher que sara de casa no dia anterior. Antoine j percebera um notvel alvio na voz do pai quando 
falara com ele ao telefone, na noite anterior. Andr no lhe explicara nada, mas Antoine tivera a sensao, confirmada agora, de que tudo terminara em bem. Nessa 
noite, serviu uma taa de champanhe ao filho e disps-se a dar-lhe a notcia
       - Temos de dizer-te uma coisa.
       Antoine sorriu ao v-los to divertidos. Pareciam duas crianas. Imaginava o que lhe iam dizer, ou, pelo menos, parte. De momento, ainda no lhe diriam nada 
sobre o beb.
       - Posso adivinhar. - gracejou. - Vejamos. - Enquanto Sabrina dava risadinhas como uma mida pequena, Andr esboou um largo sorriso.
       - Bem, no puxes mais pelo caco. A Sabrina e eu casamo-nos no sbado.
       - To depressa?
       Foi a nica coisa que o surpreendeu. Pensava que lhe iam dizer que estavam noivos. Ento, desconfiou que algo mais se passava. Olhou para Sabrina com cautela, 
mas no conseguiu vislumbrar nenhum sinal delator Talvez ainda fosse muito cedo, pensou, mas, se fosse verdade, ficaria feliz por eles. Nunca lhe passara aquela 
idia pela cabea quando ela andava com ar doente. Agora, radiante de felicidade, beijou-os nas faces. Andr pediu-lhe que fosse o padrinho, e no sbado, na pequena 
igreja da povoao, l estava Antoine ao lado de Andr, enquanto Sabrina avanava, sozinha, em direo ao altar. S os trabalhadores assistiam  cerimnia. Quando 
o sacerdote pronunciou as palavras solenes, Sabrina no conseguiu evitar que as lgrimas lhe rolassem pelas faces. Depois de declarados marido e mulher, partilharam 
um suntuoso almoo preparado pelos prprios trabalhadores e uma caixa de champanhe, embora Sabrina s tivesse bebido uma taa. Na primeira oportunidade, Antoine 
abraou calorosamente a recm-casada.
       - Sinto-me muito feliz. Por si e pelo pap. O velho teve muita sorte.
       - Eu  que tive uma grande sorte. Tenho-vos aos dois...
       Quem lhe dera que Jonathan se tivesse mostrado to carinhoso quando recebeu a notcia. Sabrina telefonou para a residncia de estudantes para lha dar, e obteve 
como resposta, depois de um longo silncio do outro lado da linha, umas palavras geladas.
       - Qual foi a pressa?
       - Pensamos... Querido, tenho imensa pena que no tenhas podido estar aqui... - Sabrina j esquecera a mgoa que ele e Camille lhe haviam causado.
       - Eu no tenho pena nenhuma. Como  possvel que tenhas querido casar com esse campnio?
       - No devias dizer uma coisa dessas. - As palavras do filho magoaram-na. Era precisamente esse o seu objetivo.
       - De qualquer modo, felicidades!
       - Obrigada. Queres c vir passar a Pscoa, querido? Ter-lhe-ia pago a viagem.
       - No, obrigado. Vou para Nova Iorque com uns amigos. Mas, se quiseres, podes mandar-me para paris, em junho.
       - No  a mesma coisa, no achas? Pensava que gostarias de vir ver-nos a todos.
       - Prefiro ver a Frana. Quando nos formarmos, alguns de ns pensamos fazer a a nossa viagem de fim de curso. Que te parece? - Arrumara a questo do casamento 
e j estava a pensar s nele.
       - Discutimos isso noutra ocasio.
       - Por que no agora? Se for com eles, tenho de fazer os preparativos.
       - No gosto de ser pressionada. Falaremos disso mais tarde.
       - Por amor de Deus!...
       - Quando te formares, ters de comear a trabalhar. No tinhas pensado nisso?
       Se ele a pressionava, ela faria o mesmo. Tinha o mesmo direito, embora raramente o fizesse. Mas ficara furiosa com o comentrio que ele fizera sobre Andr... 
um campnio de Frana... Quem pensava ele que era?
       - Tenho a certeza de que o pai do Johnson me vai dar um emprego em Nova Iorque. - Sabrina sentiu um aperto no corao, mas j esperava algo parecido. - Alugaremos 
uma casa entre cinco.
       - Isso ser muito caro. Achas que ters condies econmicas para isso?
       - Porque no? Tu tens a Manso Thurston.
       - Sim, mas no pago aluguel. - Embora, se Jon e Camille tivessem levado a sua avante, talvez estivesse a pagar. - A propsito, como est a tua encantadora 
av?
       - Est tima. Recebi uma carta dela a semana passada. - Sabrina no disse nada. Limitou-se a suspirar. No gostava que estivesse em contato com Jon nem da 
afinidade que este parecia ter com ela.
       - Bem, vemo-nos no dia da tua formatura. - Esperava que Camille no estivesse l nesse dia. No queria voltar a v-la, mas era possvel que assistisse  cerimnia 
pelo fato de ser tia-av de um rapaz que tambm se formava naquele dia. Sabrina no perguntou nada ao filho a esse respeito, mas ele insistiu com as perguntas sobre 
a viagem a Frana. - Vou pensar nisso e depois digo-te o que decidi.
       Jon temia que ela fosse consultar Andr e que este a aconselhasse a dizer que no.
       - Decide j!
       - E se eu disser que no?
       - Nesse caso, arranjarei outro meio de fazer a viagem.
       - Talvez seja o melhor que tens a fazer. - Sabrina falava com voz tranqila. Reconhecia todos os erros que cometera com Jon e no queria comet-los de novo 
na educao do novo filho. Sentia o corao reconfortado s de pensar nisso... Estava  espera de beb... outro filho... perguntou-se se seria menino ou menina... 
com quem se pareceria... Aqueles pensamentos fizeram-na sorrir.
       - Bolas, mam! Preciso de fazer esta viagem!
       - Tu no precisas de a fazer. Tu queres faz-la, o que  muito diferente.
       Ao ouvir isto, Jon desligou o telefone sem se despedir da me, sem voltar a felicit-la e sem mandar cumprimentos para Andr. E s voltou a telefonar um ms 
depois, para a pressionar de novo sobre a viagem. Desta vez, Sabrina consultara Andr e este dera-lhe a sua opinio sincera, apesar de saber que no iria ser do 
agrado de Jon.
       - Queres saber o que penso disso? - At ento, abstivera-se de se pronunciar sobre aquela questo delicada. Considerava que o modo de ela lidar com o filho 
era da sua incumbncia.
       - Claro. Ele quer dar-me a sensao de que lhe devo essa viagem, mas no creio que uma prenda dessas seja boa para ele. Por outro lado, acaba o curso em Harvard 
e, claro, seria um prmio maravilhoso... - Olhou para Andr sem saber o que fazer.
       - Creio que  uma prenda demasiado bonita. Penso que, se queria fazer a viagem, deveria ter comeado a poupar h muito tempo. Nunca pensou no que te custa 
satisfazer-lhe os caprichos. Acha que o teu dever  esse.  um modo perigoso de um homem pensar e, mais cedo ou mais tarde, ter um choque doloroso com a realidade. 
No podes estar sempre a dar-lhe dinheiro. Quando sair da universidade, tem de aprender a sustentar-se sozinho.
       - Concordo. - Pouco a pouco, a sua atitude fora endurecendo perante as constantes exigncias de Jon. A sua m-criao levara-o longe de mais. - E a viagem?
       - Eu dir-lhe-ia que no. - Sabrina suspirou.
       - Penso o mesmo, mas temo dizer-lho.
       Andr fez um gesto de compreenso com a cabea. Sabia o mau bocado que Jon fizera a me passar e tinha imensa pena dela. Era um egosta, um rapaz de mau carter 
e sem sentimentos. E isso no se devia apenas ao fato de ter sido muito mimado. Havia algo mais. Parecia-se demasiado com a av, e j devia ter nascido assim.
       Era muito diferente de Antoine, que se mostrava extremamente simptico com Sabrina. Tinha quase vinte e seis anos e namorava com uma rapariga da cidade. Cada 
vez que olhava para Sabrina, pensava que as suas suspeitas no haviam sido infundadas, mas nenhum dos dois lhe dissera nada e ele no se atrevia a perguntar. Finalmente, 
num dia de Maio, olhou para Sabrina e sorriu.
       - Posso perguntar-lhe uma coisa?
       - Claro.
       Sabrina sorriu-lhe. Gostava dele como se fosse seu prprio filho e, em muitos aspectos, era mais carinhoso do que Jon. A exploso provocada pela recusa de 
Sabrina em custear a viagem para a Europa abrira uma enorme brecha entre me e filho. Estivera um ms sem falar com ele, embora mantivesse o propsito de ir a Cambridge, 
em Junho, assistir  cerimnia de formatura de Jon.
       - Sei que a pergunta talvez seja atrevida... - Antoine corou, realando o tom bronzeado da sua pele. Era um homem de beleza esplendorosa. Perguntou-se qual 
seria o grau de relacionamento que mantinha com a rapariga com quem saa e se seria ela o motivo do que agora lhe queria perguntar, mas tratava-se de algo muito 
diferente. - Vai... vou ter um irmo ou uma irm?
       Antoine no conseguia agentar aquela incerteza por mais tempo. Sabrina corou e, sorrindo, fez um gesto afirmativo com a cabea. Ele reagiu levantando-a com 
os seus fortes braos e dando-lhe um beijo na face.
       - Quando? - perguntou.
       - Pensou dizer-lhe o que ela e Andr haviam acordado dizer a toda a gente, mas considerou que era melhor contar-lhe a verdade. Ao fim e ao cabo, fora o primeiro 
a saber, quando ela desmaiara nos seus braos nos vinhedos. No era parvo e acabaria por saber. A nica coisa que ela e Andr queriam era que ningum mais soubesse.
       - Em outubro - respondeu, sorrindo. - Mas, oficialmente,  dois meses mais tarde.
       Antoine esboou um largo sorriso, grato pela sinceridade de Sabrina.
       - Tambm me parecia, mas no me atrevia a perguntar.- Ele sabia que o pai teria acabado por casar com ela. - O Jon sabe?
       - Ainda no. Dizemos-lhe no ms que vem, quando formos para o Este.
       - O pap est radiante, asseguro-lhe. - Desde que voltaram de So Francisco, uns dias antes do casamento, no tem parado de se pavonear por a como um mido 
vaidoso
       No perguntou a Sabrina o que acontecera naquele dia na cidade, mas sabia que desde ento tudo mudara para melhor. Era como se agora cada um dos dois tivesse 
plena conscincia do que significava para o outro. E Antoine invejava-os por isso. Gostaria de encontrar uma rapariga que amasse tanto como o pai amava Sabrina, 
mas no conseguira at ao momento. A rapariga com quem saa era divertida e gostava dela, mas sabia que a relao no iria durar muito tempo. No era muito inteligente. 
Nunca se ria das mesmas coisas que ele, o que era muito importante para Antoine.
       - Sinto-me muito feliz por vocs os dois e... espero que seja uma menina.
       E Sabrina, enquanto caminhavam, de mos dadas, at casa, sussurrou-lhe:
       - Tambm eu.
       O seu estado j comeava a notar-se quando andava de calas. A outra casa deveria estar acabada dentro de dois meses. Sabrina queria mudar-se para l antes 
da chegada do beb, embora o fosse ter em So Francisco. Andr insistia muito nisso. Queria que lhe dispensassem todos os cuidados possveis, mas, at ao momento, 
no tivera qualquer problema com a gravidez. Nem sequer a viagem para o Este foi motivo de preocupao. Por outro lado, quando se encontrou com o filho, instalou-se 
uma atmosfera tensa entre os dois. Jon ignorou Andr e olhou para a me com ar hostil.
       - Deves estar encantada com a notcia.
       - Que notcia? - Sabrina ficou algo confusa.
       - Escrevi-te a semana passada.
       - No recebi carta nenhuma. Deve ter chegado depois de termos partido.
       Havia lgrimas nos olhos de Jon quando falou. Sabrina ficou atnita.
       - A av foi atropelada por um autocarro, a semana passada. Teve morte imediata.
       Sabrina precisou de alguns instantes para perceber que se tratava de Camille. Ento, fitou o filho, surpreendida com a mgoa que ele parecia sentir. Ela no 
sentiu nada, apenas um certo alvio.
       - Sinto muito, Jon.
       - No sentes nada. Tu odiava-la.
       Voltava a comportar-se como um garoto. Andr observava-o do stio onde se sentara, junto da janela do quarto da residncia onde Jon se encontrava alojado. 
Sabrina estava sentada na cama e o seu nervosismo era evidente. Aumentara de peso e j no conseguia usar as antigas roupas. Tivera de comprar vestidos mais folgados, 
como o de seda azul que usava naquele momento. Era da mesma cor que os seus olhos e Andr achava-a ainda mais bonita do que de costume.
       - No a odiava, Jon. Eu mal a conhecia. E o que cheguei a ver dela no me agradou mesmo nada. Ters de reconhecer que, comigo, no se comportou como uma mulher 
decente. Tentou pr-me fora da minha prpria casa, depois de me abandonar quando ainda era uma criana pequena e de ter permanecido quarenta e seis anos fora da 
minha vida
       Jon encolheu os ombros. Era uma acusao difcil de negar. De repente, olhou para a me com ar de surpresa.
       - Ests mais gorda. A vida de casada deve estar a fazer-te bem. - Era uma observao desprovida de tato e Sabrina riu-se.
       - Sim, est a fazer-me bem, mas no  essa a causa do meu aumento de peso. - Tinha de dizer-lhe algum dia, e to bom era aquele como qualquer outro. - Sei 
que vais ficar surpreendido. E, para dizer a verdade, tambm nos surpreendeu a ns. - Ganhou flego e prosseguiu: - Vamos ter um beb no Natal, Jon.
       - Vocs.. O qu? - Ps-se em p de um pulo e olhou-os com ar horrorizado. - No... no  possvel.
       -  verdade. Vou ter um filho. - Sabrina continuou sentada tranquilamente. Olhou para Andr e depois pousou os olhos no filho. - Compreendo que seja um choque 
para ti, mas..
       - Como pudeste ter cometido tamanha estupidez? Meu Deus... - Todos se riro de mim! Tu j tens cinqenta anos e sabe Deus quantos anos  que ele tem...
       Apesar de Jon no se mostrar amvel, Sabrina no conseguiu evitar um sorriso. Estava to furioso que voltava a parecer um garoto. Exibia uma reao muito 
diferente da de Antoine, que fora a correr comprar o primeiro urso de pelcia ao beb. "E no se esquea de lhe dizer que fui eu quem lho dei!" No parava de dizer 
que ia ser uma menina, coisa que pouco importava a Jon, que no parava de andar de um lado para o outro, completamente fora de si.
       - Estas coisas acontecem - disse Andr, tentando acalm-lo. Lamentava o comportamento de Jon com a me, embora no lhe causasse a menor surpresa. Era um rapaz 
imaturo e extremamente mal-educado, que parecia andar sempre de machado em riste para a me.
       - Acabars por te habituar. Como ns. E como o Antoine. E ele  ainda mais velho do que tu. Quatro anos, para ser mais exata.
       - Que diabo  que esse patego sabe? A nica coisa que sabe fazer  plantar vides. J sou um homem, por amor de Deus!
       Andr levantou-se de um pulo, dominando a clera com dificuldade.
       - O Antoine  o meu filho. E agora  teu meio-irmo. Como tal, agradeo-te que fales dele com respeito, Jonathan.
       Por instantes, os dois homens trocaram furiosos olhares. Jon desviou, ento, o seu. No era parvo e Andr no era para brincadeiras. Voltou-se, ento, para 
Sabrina e fez-lhe sinal que estava na hora de se retirarem. Jon tinha planos para essa noite. No dia seguinte assistiriam  cerimnia de formatura e depois jantariam 
com ele e com um amigo. De seguida, Andr e Sabrina partiriam com ele para Nova Iorque. Jon embarcaria no Normandie trs dias depois. Andr conseguira arranjar o 
dinheiro, que no era pouco, para pagar a viagem, fato que deixou Sabrina impressionada. De caminho, ela e Andr queriam ir visitar Amlia.
       - At amanh, Jon.
       Sabrina aproximou-se com a inteno de lhe dar um beijo, mas ele evitou-a. Quando Andr e a esposa saram do quarto, Jon encontrava-se de costas voltadas 
para eles.
       - Tenho pena que ele no tenha aceite bem a minha gravidez disse Sabrina para Andr, enquanto tomavam um txi para voltar para o hotel.
       - Esperavas outra coisa? Ainda  muito jovem. E deu-lhe umas palmadinhas na mo. Quatro anos significam muito nesta idade. O Antoine j  um homem. O Jon, 
nem pouco mais ou menos. Mas l chegar. Talvez ache que o nascimento do nosso beb seja uma ameaa para ele, em termos do que um dia herdar de ti... a manso... 
as terras de Napa...
       Sabrina ainda no pensara nisso, mas agora assentiu com a cabea, perguntando-se se aquilo seria o que Jon pensava sobre o assunto.
       - Talvez tenhas razo. Que estranho aquilo que aconteceu  Camille, no achas?
       - No se perdeu grande coisa. Era uma mulher to ambiciosa, malvada e intil. Devia ter morrido anos antes, como pretendia o teu pai.
       Andr nunca perdoara a Camille aquilo que ela fizera  sua esposa. Durante todos aqueles meses, torturara Sabrina, enquanto ela esperava, impotente, a oportunidade 
de se defender perante os tribunais.
       -  estranho. No senti nada pela morte dela. O Jon, sim, ficou muito afetado.
       - No me admiro. J se conheciam h quatro anos e, aparentemente, tinham muito em comum. - Para desgosto de Sabrina.
       No dia seguinte, teve lugar a cerimnia de formatura, que decorreu sem o menor problema, e Sabrina chorou na altura em que Jon recebeu o diploma. Por pior 
que se tivesse portado com ela, sentia-se orgulhosa dele e do resultado de uns estudos que a haviam obrigado a vender as minas, a casa de Napa, os jardins em redor 
da Manso Thurston... Ambos haviam conseguido o seu propsito. Tinham mais do que motivos para estarem orgulhosos e para celebrarem; como tal, jantaram juntos nessa 
noite. Jon embriagou-se, mas Sabrina e Andr mostraram-se compreensivos. Nessa noite, foi mais amvel do que era habitual; muito mais amvel do que no comboio para 
Nova Iorque. Tinha vergonha de ser visto com ela.
       - Meu Deus, que pensaro as pessoas? - sussurrou a Sabrina, e esta, com um sorriso nos lbios, respondeu-lhe em voz baixa
       - Diz-lhes que como mais do que a conta.
       Depois, fizeram perguntas a Jon sobre as suas perspectivas de encontrar emprego. Segundo ele, comearia a trabalhar em setembro, quando voltasse, para o pai 
de um amigo seu. O nome do amigo era William Blake e quando foram despedir-se de Jon a bordo do navio, este apresentou-o a Sabrina Bill ia acompanhado de uma rapariga 
deslumbrante. Disseram-lhe que era irm de Bill e que tinha dezoito anos. A rapariga no tirava os olhos de Jon. Evidentemente, estava mais do que apaixonada por 
ele. Ela mesma se apresentou a todos, quando soube quem eram.
       - Ol, sou a Arden Blake. - Apertou a mo a Sabrina e a Andr, olhou despercebidamente para o folgado vestido vermelho que Sabrina trazia e ps-se a tecer 
elogios a Jon, enquanto este parecia olh-la com indiferena. - E o pap acha que ele vai fazer coisas extraordinrias.  por isso que vai mand-lo para a Europa 
com o Bill, como uma espcie de bnus antes de comear a trabalhar.
       Sabrina ficou furiosa ao ouvir aquilo, mas no o deixou transparecer. Jon dissera-lhe que conseguira o dinheiro com o seu prprio esforo, no que iria viajar 
em primeira classe no Normandie, j para no falar nos hotis onde ficaria instalado. Sabrina sabia que o velho William Blake era o banqueiro mais importante de 
Nova Iorque. Fizera alguns negcios com ele antes de vender a mina de John, relacionados com uns investimentos que este realizara. Olhou para o filho com vontade 
de o estrangular, mas era demasiado tarde para discusses. Em vez disso, continuou a falar com Arden sobre futilidades, recordando-se, com assombro, que dirigia 
as minas do pai com a mesma idade. Era incrvel pensar que aquela rapariga, com a sua doura e o seu ar de inocncia, estivesse to entusiasmada por Jon
       - A mam, o pap e eu tambm iremos para a Europa no ms que vem e encontrar-nos-emos todos no Sul de Frana. A rapariga quase se desvanecia de iluso ao 
pensar naquela perspectiva, o que fez sorrir Sabrina.
       - Veja l se o Jon se porta bem - disse em tom de aviso  bela loura de olhos verdes. - No me fio no meu filho.
       - A mam diz que  o rapaz mais estupendo que conhece. Ser o meu acompanhante na minha festa de dezembro.
       Quando se ouviu o toque para que os visitantes abandonassem o navio, Sabrina viu Jon beijar Arden nos lbios e, depois, mais trs raparigas. No grupo de estudantes 
que faziam a viagem, todos colegas de turma de Jon, havia quatro raparigas. Sabrina estava preocupada ao pensar nas complicaes que podiam derivar daquele fato. 
Mas o que mais a inquietava era saber que no era Jon que pagava a viagem. Para cobrir aqueles gastos, teria de enviar um cheque com uma quantia elevada ao velho 
William Blake. No podia permitir que Jon desfrutasse de umas frias to caras como convidado de outra pessoa. S Deus sabia que histria dramtica ele teria contado 
aos Blakes.
       - Falamos disso quando regressares. - Olhou-o com ar srio e entregou-lhe um sobrescrito que era a prenda de fim de curso que pensara dar-lhe. Sentira-se 
to orgulhosa pelo fato de o filho ter conseguido pagar a viagem com os seus prprios recursos, que resolvera oferecer-lhe mil dlares. De qualquer modo, ofereceu-lhos, 
com a sensao de que era mais uma despesa a juntar a tantas outras. - S bom com a Arden Blake - sussurrou-lhe. -  uma doura. - Mas teve a desagradvel sensao 
de que Jon iria aproveitar-se dela
       - Ela  o meu passaporte para o xito - afirmou, em voz baixa, e piscou o olho.
       Sabrina sentiu nuseas ao ouvir aquelas palavras. Mais tarde, viu como a rapariga dizia adeus a Jon, agitando freneticamente a mo, sob o olhar da me. Teve 
vontade de prevenir Arden sobre o carter do filho, mas como podia fazer semelhante coisa? Naquele momento, Jon encontrava-se na coberta do navio, defronte do seu 
luxuoso camarote, a sorrir para toda a gente. Sabrina achou-o mais bonito do que nunca. Era um homem alto e magro, de cabelos negros e olhar penetrante; tinha olhos 
azuis iguais aos de Camille e um rosto que faria morrer qualquer mulher. Pouco depois, quando o navio j se encontrava longe do cais, Sabrina voltou-se para Andr 
e, depois de exalar um suspiro, contou-lhe o que Jon dissera sobre Arden Blake. Tambm lhe explicou como  que ele financiara a viagem.
       - Pelo menos, sabes que ele nunca morrer de fome.  muito inteligente.
       -  muito inteligente para o que lhe convm.
       s vezes, gostava que o Antoine fosse um pouco assim. A sua carncia de sentido prtico  incrvel. S pensa em princpios, ideais e intelectualices.
       Sabrina esboou um sorriso terno. Andr fizera a descrio perfeita do filho, mas Antoine era um rapaz atilado. Era inteligente, mas desprezava o lado prtico 
da vida. Preferia ler filosofia a comer. Tinha mais tendncia a perseguir idias vagas e abstratas do que a conquistar as de carter prtico. De certo modo, era 
um sonhador, mas um sonhador brilhante.
       -  um moo encantador, Andr. Devias estar orgulhoso dele.
       - J sabes que estou. - Ajudou-a a entrar no txi e, quando se sentaram, olhou para a pequena protuberncia e sorriu. - E como est o nosso amiguinho? - Sabrina 
sentira-o mover-se pela primeira vez, umas semanas antes, e agora parecia faz-lo muito mais. - Anda aos saltinhos?
       - Creio que vai ser bailarina. Faz muitas piruetas. - Era mais mexido do que Jonathan ou o beb que perdera.
       - Ou futebolista. - Andr sorriu.
       Nessa tarde, foram visitar a sua velha amiga, que ficou encantada por v-los. Ela achava que as suas preocupaes a respeito da excessiva idade de ambos para 
ter um filho constituam um disparate.
       - Se eu pudesse, teria um! - Amlia tinha noventa anos e Sabrina ficou surpreendida ao ver o seu aspecto frgil. - Gozem todos os momentos de felicidade que 
ele vos proporcionar...  a melhor de todas as ddivas.
       Andr e Sabrina olharam para Amlia, sabiam que ela tinha razo. A sua experincia, depois de ter vivido noventa anos de bem-estar econmico e de verdadeira 
riqueza intelectual e afetiva, era quase infinita em muitas coisas. Era um exemplo para toda a gente... em claro contraste com Camille. Sabrina falou um pouco dela 
com Amlia, depois tiveram de sair quando a enfermeira entrou no quarto. Era a hora da sesta. 
       Amlia j dava mostras de cansao. Despediu-se de ambos com um beijo e, ao faz-lo, olhou Sabrina nos olhos.
       - s igual ao teu pai. Era um homem maravilhoso. No herdaste nada da tua me. - Mas Jon herdara, o que Sabrina lamentava amargamente. Mas, naquele momento, 
no disse nada a esse respeito. - Dai graas ao Cu por essa criana. No sei por que, mas tenho o pressentimento de que ser uma menina. Ps a mo na barriga de 
Sabrina e beijou-a de novo.
       No dia seguinte, voltaram a apanhar o comboio para regressar a casa e Sabrina disps-se a passar o vero em Napa. Em agosto, ficou terminada a nova casa, 
para onde se mudaram de imediato. Mas, em Setembro, transferiram-se para a Manso Thurston, para que Sabrina pudesse ficar perto do hospital. Quando Jon voltou da 
sua viagem  Europa, telefonaram-lhe. Disse que passara umas frias maravilhosas e referiu-se algumas vezes a Arden Blake. J comeara a trabalhar no seu novo emprego, 
que, na sua maneira de ver, era quase como um jogo, graas a Mr. Blake. Sabrina enviara a este um cheque para cobrir os gastos da viagem de Jon. Depois de ter devolvido 
o cheque uma ou duas vezes, foi finalmente aceite pelo banqueiro, que disse a Sabrina que, tal como toda a sua famlia, gostava muito de Jon, e este tambm parecia 
gostar dele.
       - Vou passar as frias com eles em Palm Beach - grasnou Jon, para decepo de Sabrina.
       - Pensei que virias a casa. Nessa altura, o beb j ter nascido...
       Mas Jon no estava interessado nisso.
       - No terei tempo de ir v-los. S disporei de duas semanas. Talvez o faa no prximo vero. Os Blakes vo alugar uma casa em Malibu e, provavelmente, passarei 
algum tempo com eles.
       - No tens de trabalhar?
       - Trabalho o mesmo que o Bill. E tenho as mesmas frias que ele.  essa a combinao.
       - Isso  extremamente cmodo.
       - Por que no? Trabalho o mesmo que ele.
       - Mas ele no estar em posio de vantagem?
       - Talvez, e talvez tambm seja esse o meu caso. - Jon mostrava-se extremamente confiante. - A Arden est louca por mim e Mister Blake acha que sou o mximo.
       - Parece que tiveste uma grande sorte ao encontrar esse emprego. Sem sombra de dvida. - E quando Sabrina tentou discutir a forma como ele conseguira o dinheiro 
para a viagem, Jon ripostou de imediato.
       - No tinhas nada que a ter pago. Mister Blake disse que a pagava.
       - No podia permitir uma coisa dessas. E tu tambm no, Jon.
       - Oh, por amor de Deus, mam! Se vais fazer um discurso moralista, vou ter de desligar.
       - Devias pensar no que fazes, Jon. Particularmente, no que se refere  Arden Blake. No te aproveites dessa rapariga.  uma criana doce e ainda cheia de 
inocncia.
       - Por amor de Deus! J tem dezoito anos!...
       - Sabes bem o que quero dizer. - Jon sabia-o bem, mas recusava-se a admitir.
       - No te preocupes. No vou violar ningum.
       - H muitas maneiras de faz-lo.
       Sabrina continuava preocupada com ele, embora parecesse feliz em Nova Iorque, a julgar pelos postais que lhe mandava de tempos a tempos. Chegou Outubro, e 
Sabrina perdeu o interesse em tudo menos nela. O beb estava cada vez maior e a futura me sentia-se cada vez mais desconfortvel. Mal conseguia subir as escadas 
da Manso Thurston, e quando o grande dia chegou sem que nada sucedesse, Sabrina e Andr comearam a dar grandes passeios a p.
       - Ela deve sentir-se bem l dentro - sussurrou Sabrina. - Ou me engano muito ou no sair to cedo. - Olhou com ar triste para Andr e este riu-se. Mal podia 
andar. Tinha de sentar-se ao fim de alguns passos. Sentia-se uma velha de cem anos com cento e cinqenta quilos, mas no perdera o sentido de humor.
       - Que fars se for menino? No paras de tratar o beb por "ela".
       - J nascer acostumado, pobrezinho.
       Contudo, trs dias depois do final do tempo, Sabrina acordou Andr do seu sono profundo, s quatro da madrugada, com o rosto iluminado por um radioso sorriso.
       - Chegou a hora, meu amor.
       - Como  que sabes? - Ainda estava meio adormecido e esperava que a coisa se prolongasse at ao dia seguinte. Ou pelo menos, at  manh seguinte.
       - Confia em mim. Eu sei.
       - De acordo.
       Andr virou-se penosamente, mas acabou de despertar por completo num pice ao ver Sabrina dobrar-se, de repente, sobre si mesma. Saltou da cama, rodeou-a 
com os braos e, depois, conduziu-a cuidadosamente at um cadeiro, enquanto ela o olhava com o pnico estampado no rosto.
       - Acho que esperei demasiado... - Arquejava ligeiramente e estava com um ar abatido. - No queria acordar-te... Primeiro, no tinha a certeza... oh... - Agarrou-se 
ao brao do marido, que se sentiu subitamente aterrorizado.
       - Oh, meu Deus... j telefonaste ao mdico?
       - No...  melhor... oh, Andr... oh, meu Deus... telefona...
       - O que se passa? - Com ar de pnico, conduziu-a de novo at  cama e pegou no telefone. - Que queres que lhe diga?
       Sabrina deixou escapar um gemido e torceu-se na cama.
       - Diz-lhe que j sinto a cabecinha... - continuou a gemer enquanto ele marcava o nmero. De repente, soltou um grito agudo.
       Andr nunca se encontrara em semelhante situao. Quando Antoine nascera, esperara na sala do hospital durante vrias horas at tudo ter terminado. No chegara 
a ver a mulher em trabalho de parto.
       O mdico atendeu e Andr explicou-lhe o que Sabrina dissera.
       - Sente uma forte presso para baixo?
       Andr tentou perguntar a Sabrina, mas esta no o ouvia. Agarrava-se desesperadamente ao seu brao e tinha o rosto crispado pela dor. Os acontecimentos haviam-se 
sucedido to rapidamente que o desconcerto de Andr era absoluto.
       - Sabrina, escuta-me... O doutor quer saber se... Sabrina... por favor...
       O mdico que os ouvia no outro extremo da linha, gritou, ento, para Andr:
       - Telefone para a Polcia! Vou j para a.
       - Para a Polcia? - Andr pareceu horrorizado, mas no tinha tempo de pensar nem de telefonar a quem quer que fosse. Sabrina rastejava, literalmente, pela 
cama e no parava de soluar.
       - Oh, meu Deus... oh, Andr... por favor...
       - Que posso fazer?
       - Ajuda-me... por favor...
       - Querida...
       Andr tinha os olhos inundados de lgrimas. Nunca se sentira to desesperado. Fora mais fcil arranc-la das garras do mdico que se dispunha a faz-la abortar 
sete meses antes. Aquilo s lhe exigira um pouco de sangue-frio e alguma coragem. Isto requeria conhecimentos especiais, de que ele no fazia a menor idia. Mas 
quando Sabrina se voltou para ele com ar desamparado, contorcendo-se com dores, esqueceu-se, de repente, de tudo o que no sabia e, instintivamente, estendeu os 
braos para ela, agarrou-lhe as mos e falou-lhe com voz meiga. J sabia que no a levaria para o hospital. Sabrina acordara demasiado tarde e os acontecimentos 
haviam-se precipitado. Depois de se ter despido completamente, jazia s coberta por um lenol, tal como acontecera muitos anos antes, de modo que a situao no 
lhe era estranha. Era como se se tivesse esquecido de tudo e, de repente, se lembrasse perfeitamente desses instantes, como se fosse um sonho distante. Olhou para 
Andr e, pela primeira vez numa hora, quase lhe sorriu. Tinha o rosto com olheiras e coberto de suor. De repente, fez presso com todas as suas foras, enquanto 
ele lhe segurava os ombros. Quando as dores abrandaram, levantou os olhos para ele e sorriu.
       - Eu disse-te... eu queria... que o beb... nascesse... nesta casa... - - Ao dizer estas palavras, fez fora de novo e Andr segurou-lhe, uma vez mais, os 
ombros, de modo que tinha a mesma perspectiva que ela e no sabia o que estava a passar-se. No conseguia ver nada e a nica coisa que sentia era a tremenda tenso 
do corpo da esposa de cada vez que fazia fora. Ento, lentamente, Sabrina comeou a gritar, num estado de profunda agonia, enquanto todo o corpo ficava em tenso; 
desta vez quase se sentou. - Oh, Andr... oh, meu Deus... oh, no... Andr...
       Tomou-a entre os braos e, com os olhos cheios de lgrimas, acariciou-a. Sabrina soltou um grito agudo e depois outro, apoiando-se em Andr de cada vez que 
as dores aumentavam. De repente, ele sentiu que o ritmo das contraes estava a aumentar. Ele sabia... ele sabia... era como se sentisse o mesmo que ela.
       - Vamos... continua... continua, querida... Sim, tu consegues...
       - No consigo!... - Sabrina gritava de dor.
       Andr tinha vontade de tirar o beb com as prprias mos para acabar com o sofrimento de Sabrina.
       - Tu consegues!
       - Oh, meu Deus... oh, no... Andr...
       Sabrina torceu-se de novo na cama, atirou violentamente o lenol para trs, agarrou-se  cama e fez fora at no conseguir respirar, nem mexer-se, nem gritar... 
Subitamente, vislumbrou-se uma cabecinha redonda... e ento quem gritou foi Andr.
       - Oh, meu Deus... Sabrina!
       Andr no conseguia acreditar no que via. A cabea estava voltada para eles, como se j soubesse o que tinha de fazer. Ele passou, ento, para o outro lado 
da cama e agarrou a cabecinha com extremo cuidado, enquanto Sabrina voltava a fazer fora, deixando os pequenos ombros livres. E a criana chorou pela primeira vez 
na vida, enquanto Andr a ajudava a sair suavemente do tero da me. Sabrina tanto chorava como ria e, ao fim de alguns instantes, depois de um pequeno esforo final, 
Andr tinha o beb nas mos. Olhou para o novo ser como se se encontrasse perante um milagre. E, mostrando o beb  me, exclamou:
       -  uma rapariga! - Andr no conseguiu conter as lgrimas. Nunca vira nada to bonito como a beb que segurava nas mos, nem como a mulher, que tanto amava. 
Foi at  cabeceira da cama, susteve os ombros de Sabrina para a ajudar a superar os tremores que ela sentia, voltou a cobri-la com o lenol e ps-lhe o beb nos 
braos. - Oh,  to bonita!... Bonita como tu...
       - Amo-te tanto... - O cordo umbilical ainda unia me e filha, e Sabrina sentia-se como se tivesse acabado de escalar o Evereste. Olhou para Andr com renovado 
amor e este beijou a me e depois a filha.
       - s uma mulher extraordinria.
       Era uma experincia que nunca esqueceriam. Andr, ao olh-la, sabia que nunca a amaria tanto como naquele momento. Nunca vira imagem mais terna e bela do 
que Sabrina com a filha nos braos.
       Ento, lentamente, e ainda a tremer, sorriu para o marido com uma expresso de profunda alegria.
       - No foi assim to mau para uma velha como eu, pois no, Andr?
       Ele estava completamente apaixonado por ela e pela filha. Fora a coisa mais maravilhosa a que alguma vez assistira. E quando o mdico chegou numa ambulncia, 
dez minutos depois de o beb ter nascido, Andr recebeu-o com um largo sorriso nos lbios.
       - Boa noite, meus senhores.
       Estava com um ar to feliz e orgulhoso que o mdico e a enfermeira que o acompanhava deram-se conta de que haviam chegado demasiado tarde. O mdico precipitou-se, 
ento, pelas escadas acima e encontrou Sabrina a embalar a filha.
       -  uma rapariga! exclamou ela, radiante, e o pai e o mdico riram-se.
       Ento, este fechou a porta, olhou para a me e para a filha, cortou o cordo umbilical e certificou-se do bom estado fsico de Sabrina. Depois, algo estupefato, 
disse:
       -Tenho de reconhecer que... No esperava que as coisas corressem com tanta facilidade.
       - Nem eu - proferiu ela, a rir. E, pegando na mo de Andr, disse-lhe, com um olhar de gratido: - No teria conseguido sem a tua ajuda.
       Ele ficou surpreendido com aquele elogio imerecido.
       - Limitei-me a assistir. Tu  que fizeste tudo. - Sabrina olhou para o beb, que nesse momento dormia tranquilamente a seu lado.
       - Foi ela que fez tudo sozinha. - Era um milagre ter a filha a seu lado.
       O mdico voltou a examinar a me. Ficou satisfeito. Por outro lado, a pequenina no podia estar melhor. Pesaria uns trs quilos e meio, ou talvez mais. Tanto 
a me como a filha estavam timas.
       - Eu devia lev-la para o hospital para descansar. O nascimento, porm, fora to normal que no havia necessidade disso. - O que acha?
       Sabrina no se mostrou muito agradada com a idia.
       - Prefiro ficar aqui
       - Foi o que pensei. - O mdico no se mostrou surpreendido.
       - Bem... permito que fique em casa, mas avisem-me se surgir algum problema, algo anormal ou uma inesperada subida de temperatura. - E, agitando um dedo para 
Sabrina, acrescentou: - E, desta vez, no espere tanto para dar o alarme!
       - Eu pensava que podia esperar mais. No queria acordar toda a gente a meio da noite
       Os dois homens riram-se. Acabara por acordar e de uma forma muito mais dramtica. Naquele momento, eram s cinco e um quarto e ainda estava escuro. Dominique 
Amlie de Vernay acabava de fazer a sua entrada no mundo. S se decidiram por "Dominique" depois de considerarem muitos outros nomes, mas h muito que estavam de 
acordo quanto ao segundo nome.
       Quando o mdico partiu na ambulncia, Andr levou uma xcara de ch  esposa. A criada, que esperara pacientemente no rs-do-cho pelo nascimento da beb, 
subiu para a lavar, devolvendo-a  me rapidamente. Depois, mudou a roupa da cama e lavou Sabrina. Quando estava de novo deitada a beber o ch e com Dominique ao 
peito, Andr, enquanto o cu empalidecia e o Sol fazia a sua ascenso no firmamento, contemplou-as com ar incrdulo. Subitamente, riu-se e disse:
       - Bem, o que vamos fazer hoje, meu amor? - Olharam um para o outro, perplexos, e desataram a rir.
       A espera fora longa, mas o desenlace no podia ter sido mais rpido e feliz. Sabrina estava a deixar-se vencer pelo sono, mas, antes de adormecer, recordou 
o lugar horroroso do Bairro Chins... e viu Andr a falar serenamente com o homem que empunhava a pistola... a fuga de ambos pelas escadas abaixo... e agora, como 
que por milagre, encontrava-se na sua cama com uma beb adormecida a seu lado e com o marido junto a ela.
       Quando Sabrina acordou, telefonaram a Antoine. Ia a sair para os vinhedos e atendeu o telefone com ar distrado. Andr foi direito  questo.
       -  uma menina!
       - J? - Antoine ficou emocionado. - Meu Deus, que maravilha!
       - Chama-se Dominique,  muito bonita e tem duas horas e... - Olhou para o relgio. - E catorze minutos.
       Antoine, radiante de felicidade, mal conseguia articular as palavras com alguma coerncia.
       - Oh, meu Deus... pap... C'est formidable!... Como est a Sabrina?... Est no hospital?
       Andr riu-se do desconcerto do seu primognito.
       - As respostas a tudo isso so sim, muito bem e no. Sim, est. formidable, est tima, e no se encontra no hospital. A beb nasceu em casa. - Sabrina no 
parava de sorrir enquanto Andr explicava tudo ao filho. Nunca esqueceria como ele a ajudara e animara. Para Sabrina, tinha muita importncia que Andr tivesse partilhado 
aqueles momentos com ele.
       - Como? - Antoine ficou pasmado. - Em casa? Mas pensei que...
       - Tambm eu. Mas a Sabrina pregou-me a partida. No quis interromper o meu sono e avisou-me demasiado tarde. E... voil, Mademoiselle Dominique chegou uns 
vinte minutos depois de eu acordar. E o mdico chegou dez minutos depois disso.
       -  incrvel!
       Com os olhos inundados de lgrimas, Andr tinha a sensao de estar a sonhar.
       - Sim, monfils,  incrvel. Foi a coisa mais bonita que vi em toda a minha vida.
       Andr s desejava uma coisa a Antoine: uma mulher que lhe tivesse tanto amor como aquele que ele tinha por Sabrina e o nascimento de um filho partilhado com 
a esposa Ao fim e ao cabo, estava feliz por tudo ter ocorrido na sua presena. O parto fora muito mais difcil e muito mais fcil do que ele pensara. Fora o trabalho 
mais duro, mais doloroso, mais aterrador e mais bonito de quantos realizara na sua vida., e Dominique nascera quase por si mesma. Fosse como fosse, no se podia 
negar que, desta vez, Sabrina tinha tido muita sorte. Quando Antoine nascera, a me estivera em trabalho de parto durante dois dias.
       - Tu fazes isso muito bem, sabes? - gracejou Andr, nessa tarde, enquanto estavam deitados lado a lado. Sabrina estava a comer e Dominique dormia profundamente 
no bero que fora de Jon, ornado com organdi branco e laos de cetim da mesma cor. Temos de repetir um dia destes.
       Sabrina olhou, atnita.
       - Olha l... o parto no foi assim to fcil... - Estava muito cansada e dorida, mas no surgira nenhum daqueles sinais de perigo indicados pelo mdico. No 
tenho muita vontade de voltar a tentar.
       Ambos sabiam que, na sua idade, seria pouco provvel que voltasse a ter outra oportunidade como aquela, mas davam graas a Deus pela ddiva recebida.
       Ficaram algo desgostosos por Jon ter ido almoar quando lhe telefonaram. Sabrina falou com a secretria que o filho partilhava com o jovem Bill Blake e Jon 
telefonou-lhe, mais tarde, para casa. Parecia um pouco embriagado e, ao princpio, no se mostrou muito interessado em saber qual a razo do telefonema. Todavia, 
quando ouviu a notcia, instalou-se tal silncio fnebre do outro lado da linha, que Sabrina pensou que a ligao cara.
       - Jon?.. Jon?... Jon?... Jon?... Oh, bolas... Andr, acho que... - E, ento, Jon voltou a ouvir-se.
       - No acredito que tenhas levado a gravidez at ao fim. - H quatro meses que no se viam. - Ao princpio, ainda pensei que no irias levar essa loucura at 
ao fim. Tinhas essa idia fixa. - E soltou uma gargalhada de bebedolas que enojou Sabrina.
       - Chama-se Dominique e  pequenina... e muito bonita. Espero que possas v-la em breve...
       Jon dera-se conta de uma coisa e, depois de contar pelos dedos, perguntou:
       - Ouve l... no esperavas a beb s para dezembro, mam? Suponho que s te casaste em abril, uma coisa dessas... - Jon no tinha nada de parvo.
       -  verdade. Mas a menina chegou dois meses antes do previsto.
       - No me digas que o francs se aproveitou de ti antes do casamento? No admira que tenham ficado surpreendidos, como me disseste em junho. S podiam ter 
ficado! - Jon ria a bandeiras despregadas e Sabrina s tinha vontade de o estrangular.
       - Bem, Jon, v l se vens ver a tua irmzinha.
       - Claro, mam. Oh... e os meus parabns aos dois... - Mas a voz no podia ser mais falsa.
       Que diferente aquela conversa telefnica da que mantivera com Antoine, pensou ela ao desligar. Antoine recebera a notcia com uma alegria e uma emoo que 
o puseram  beira das lgrimas; Jon mostrara-se cnico, ofensivo e insinuara que o beb fora concebido antes do casamento. Sabrina olhou para Andr com os olhos 
marejados de lgrimas e a alma dilacerada pela decepo.
       - No foi nada amvel. Parecia uma menina pequena.
       Andr deu-lhe umas palmadinhas na mo e beijou-a na face.
       - Est com cimes. Foi filho nico durante muito tempo. - Sabrina procurava sempre arranjar desculpas para o filho, mas estava cada vez menos de acordo com 
ele.
       - Tambm o Antoine foi. O Jon  uma pessoa egosta e de mau carter, e espero que um dia tenha o que merece. No se pode tratar as pessoas da maneira que 
ele o faz, sem se pagar o devido preo. - E, ao dizer isto, recordou-se de Arden Blake e desejou ardentemente que no viesse a sofrer s mos de Jon.
       S voltaram a v-lo no ano seguinte. Apareceu quando Dominique j tinha oito meses. No lhe dedicou a menor ateno quando entrou na Manso Thurston. Olhou 
 sua volta como se fosse o dono da casa. A me observou-o com certa surpresa. Estava ainda mais bonito do que no ano anterior, quando se formara. Com vinte e trs 
anos fazia-os da a um ms, era um jovem alto e magro, extremamente charmoso. Havia nele algo de to sofisticado que quase parecia decadente. Sabrina enleou-o nos 
braos e, com um sorriso nos lbios, olhou-o nos olhos. No o voltara a ver desde o dia em que, um ano antes, se despedira dele no Normandie, e estava muito contente 
em v-lo de novo. Sabrina tinha a pequenina ao colo, que se riu ao ver Jon, mas este no lhe ligou a mnima importncia
       - Bom, que tal achas Miss Dominique? - Sabrina olhou para o filho com ar orgulhoso.
       - Quem? Ah, essa...
       Sabrina no gostou de tanta indelicadeza e repreendeu-o.
       - Ouve, Jon, agradeo-te que no venhas com esses ares de homem importante e altivo. Lembro-me de quando tinhas esta idade, e no foi h muito tempo.
       Jon sorriu e pareceu mais afvel.
       - Est bem... est bem...  muito bonita. Mas no so as raparigas dessa idade aquelas de que gosto mais.
       - E de que idade  que gostas mais? - perguntou-lhe Sabrina, em tom de provocao, enquanto subiam as escadas e se dirigiam ao quarto dele. Nada mudara. Tinha 
sempre o quarto pronto para o receber, por pouco freqentes que fossem as suas visitas.
       - Oh, entre os vinte e um e os vinte e cinco.
       - Suponho que isso deixa a Arden Blake fora das tuas preferncias. - Ela no se esquecera do comentrio que Jon fizera acerca do fato de Arden ser o seu passaporte 
para o xito, o que a irritara. - Neste momento, no deve ter mais de dezenove anos.
       - Boa memria, mam. Dezenove anos, precisamente. Mas fiz uma exceo especial para ela.
       - Pobre rapariga. - Sabrina revirou os olhos.
       - No te preocupes com isso A propsito, ela e o Bill regressam de Malibu na prxima semana. Podem c ficar?
       - Se se portarem bem, sim. Podero, inclusive, ir conosco para Napa, se tu e o Bill no se importarem de partilhar o mesmo quarto. Podereis ocupar os dois 
quartos de hspedes que a temos. Adoraria que viessem - disse Sabrina, com um sorriso de felicidade. Era bom voltar a estar com ele, apesar das suas impertinncias.
       - Suponho que j no vives na mesma lixeira. 
       - Jon!
       - Bem, era o que era.
       - Foi um alojamento temporrio, enquanto o Andr construa a casa nova. H tambm um chal para o Antoine.
       - Ainda anda por a? - perguntou ele, com ar de enfado.
       - Dirige os vinhedos com o Andr. A propriedade no tem nada de pequena e as coisas comeam a avanar de forma satisfatria. O Andr no conseguia tratar 
de tudo sem ele. - Sabrina lembrou-se de Jon lhe ter chamado "campnio francs", mas, desta vez, no dissera nada depreciativo.
       - Talvez passemos uns dias l, se tivermos tempo. Eles preferem passar a maior parte do tempo aqui, em So Francisco.
       - H muito que ver na cidade. Mas talvez tambm gostem de Napa.
       Quando os irmos Blake chegaram, mostraram-se encantados com o vale de Napa. Jon estava visivelmente aborrecido, mas Bill ficou maravilhado com a extenso 
dos vinhedos. Disse que o pai, noutros tempos, realizara importantes investimentos em vinhos, em Frana, e fizera uma fortuna com eles.
       - Eu sei disse Andr, sorrindo. O vosso pai e eu samo-nos bastante bem naquele negcio.
       Bill ficou entusiasmado ao dar-se conta de quem era Andr. Voltou-se para Jon e explicou-lhe que Andr e o pai haviam-se conhecido h muitos anos. Andr recordou-se, 
ento, que o velho Bill Blake no assistira, no ano anterior,  cerimnia de formatura de Jon, nem estivera a despedir-se dele e de Bill quando embarcaram para a 
Europa.
       - A prxima vez que for a Nova Iorque, irei visit-lo. D-lhe cumprimentos da minha parte.
       - Assim farei.
       Depois daquela conversa, Jon pareceu mostrar maior interesse por Andr, embora ignorasse Antoine por completo. Sabrina e Arden haviam ido dar um longo passeio 
com Dominique, levando a menina num carrinho que Sabrina descobrira numa loja de antiguidades. Percorreram, durante horas, os caminhos que ela conhecia desde pequena. 
Quando regressaram, encontraram os quatro homens deitados  volta da piscina. Arden cumprimentou Andr e Antoine, que ainda no tivera ocasio de conhecer. Sabrina 
reparou que os olhos de Antoine quase lhe saam das rbitas quando apertou a mo da rapariga. J no tirou os olhos dela o resto da tarde e, nessa noite, ficaram 
a falar durante horas, enquanto Bill e Jon foram jogar pool  cidade. Estavam habituados a deixar Arden em casa e nunca nenhum deles se preocupava com esse fato 
Antes de sair, Bill perguntou a Antoine se queria acompanh-los, mas ele respondera que tinha coisas que fazer em casa, o que pareceu esquecer assim que eles partiram.
       Nessa noite, depois de pr a beb no bero, Sabrina sorriu ao contar o sucedido a Andr. Nesse momento, Antoine e Arden estavam sentados no alpendre e falavam 
animadamente
       - O Antoine est pelo beicinho. No reparaste.
       - Reparei - respondeu Andr, pensativo. - Achas que o Jon no vai gostar. Ele parece ter um leve fraquinho por ela.
       - No sei se o ter. - Sabrina sentou-se na cama. - O ano passado, disse uma coisa de que no gostei nada. Referiu-se a ela chamando-lhe o seu "passaporte 
para o xito", e sempre tive a esperana de que no estivesse a falar a srio. - O fato de se casar com a Arden asseguraria a Jon um cargo permanente no banco do 
Bill Blake, mas no gostaria que o meu filho se aproveitasse dela dessa maneira. No que Jon desse ouvidos quilo que a me lhe dizia, e Sabrina tambm no tinha 
quaisquer iluses a esse respeito. Andr no deu grande importncia ao comentrio da esposa.
       - No creio que dissesse com m inteno. Provavelmente uma gracinha que lhe saiu na altura.
       - Oxal que sim. De qualquer modo, o Jon no parece muito interessado nela. Demonstrava-o o fato de no ter tido a menor dvida em deix-la sozinha para ir 
jogar pool.
       - O mesmo no posso dizer do Antoine - afirmou Andr, sorrindo.
       Antoine acabara de romper com a rapariga da cidade e h alguns meses que dava a impresso de se sentir solitrio, coisa que no se devia sentir naquela noite 
na companhia de Arden Blake. Os dois brincaram interminavelmente com a beb, embalando-a, rindo e pegando-lhe ao colo. Ao contrrio de Jon, Antoine parecia encantado 
com Dominique.
       No dia seguinte, Arden levou a pequenina para a piscina e brincou com ela. Quando Antoine regressou depois de uma reunio na cidade com alguns distribuidores 
importantes, vestiu os cales de banho e juntou-se a Arden na piscina. Falaram e riram, brincaram com Dominique e, finalmente, entregaram-na a Sabrina, continuando 
a falar sem descanso, sob o olhar desta. Enquanto brincavam com a beb, pareciam um casalinho recm-casado. E j tinham idade suficiente para isso. Havia algo de 
tranqilo e de caloroso que emanava deles. Era como se tivessem sado do mesmo molde; at o louro dos cabelos tinha o mesmo tom. Pareciam o par ideal, embora nenhum 
dos dois se apercebesse disso. Ao contrrio de Jon, que, depois de mergulhar na piscina, emergiu entre Arden e Antoine. Nessa noite, Jon e Bill levaram a rapariga 
ao cinema, mas no convidaram Antoine. Sabrina encontrou-o sentado no alpendre, perdido nos seus pensamentos, com um cigarro nos lbios e um copo de vinho da sua 
prpria colheita na mo.
       - No te ocorre outra coisa melhor do que beber essa coisa? - gracejou Sabrina, sentando-se na cadeira de balano que havia a seu lado. - Sentes-te mesmo 
bem, meu querido?
       Sabrina estava sempre preocupada com ele. Era to calado que nunca se sabia o que lhe ia na cabea. Nunca queria aborrecer os outros e assumia demasiadas 
responsabilidades. Mas, precisamente por isso, era um maravilhoso chefe de operaes para Andr e uma excelente ajuda para os dois.
       - Estou bem. - Ainda conservava o mesmo sotaque francs do dia da chegada. a v.
       -  bonita, no ? - Ambos sabiam de quem falavam: Arden Blake.
       - Mais do que isso - sussurrou. -  uma rapariga diferente das da sua idade.  muito compreensiva e tem grande profundidade de sentimentos. Sabia que o ano 
passado trabalhou durante seis meses com um missionrio, no Peru? Disse ao pai que, se ele no a deixasse ir, sairia de casa. O homem teve de ceder. Fala fluentemente 
o espanhol e o francs. E sabe-se l quantas coisas mais fervilham naquela adorvel cabecinha loura. Suspeito que muitas mais do que o Jon imagina.
       - No acho que ele esteja interessado nela. - Sabrina continuava a achar que no, mas Antoine apercebera-se melhor da situao.
       - Ele s est  espera da ocasio adequada. Neste momento, ele s quer brincar com ela, e a Arden  ainda muito jovem. - Antoine fitou-a com uma expresso 
de experincia e sabedoria que ela nunca vislumbrara nele e que naquele momento lhe provocou uma profunda tristeza. - Ele vai casar com ela um dia. A Arden ainda 
no sabe nada, mas estou seguro disso. Quer conserv-la em gelo at ento, e se algum se aproximar de mais... - Ambos pensaram na reao de Jon ao levar a rapariga 
consigo nessa noite, apesar de nem ele nem Bill terem o menor interesse em que ela os acompanhasse. Mas Antoine aproximara-se demasiado. - Sei que tenho razo.
       Sabrina mostrou-se franca com ele.
       - Se ele se casar com ela, ser por razes obscuras, Antoine.
       - Sei disso. - Esboou um sorriso triste. - E estranho quando vimos o futuro dessa maneira. s vezes,  to fcil prever o que as outras pessoas faro. Podemos 
ter o desejo de as deter, mas no conseguimos.
       - Neste caso, conseguirias, Antoine. - De repente, desejou que ele conseguisse o que queria obter da vida, doesse a quem doesse. Antoine no devia absolutamente 
nada a Jon e este nunca mostrara o menor apreo por ele. Sem saber exatamente por que, no queria que Jon conquistasse Arden Blake. No por ele, mas pela rapariga. 
Sabia que a sua unio seria um tremendo erro. - Vai atrs dela, se  esse o teu desejo.
       -  demasiado jovem. - Suspirou, depois sorriu. - Alm disso, est louca por ele. Ao que parece, desde os quinze anos. No  fcil lutar contra isso. Talvez 
se d conta da realidade dentro de alguns anos, mas no agora.
       - Dar, com o tempo. - O Jon no se mostra muito afetuoso com ela.
       - Isso s piora as coisas. As raparigas dessa idade tm algo de masoquistas. - Antoine exibia uma lucidez impressionante para a sua idade.
       - Porque no passas algum tempo com ela?
       - J passei, hoje. E no creio que fique muito tempo por c.
       Ento, Sabrina teve uma idia e apresentou-a a Andr nessa noite.
       - No achas que deverias mandar o Antoine a Nova Iorque tratar do plano de vendas que discutimos?
       Andr fitou-a.
       - Por qu? Pensei que tnhamos combinado ir este outono.
       - Porque no o deixas ir?
       - No queres ir?
       - Podemos ir noutra altura.
       Andr olhou-a, algo desconcertado, e esboou um sorriso malicioso.
       - Ests outra vez grvida?
       - No, s pensei que a viagem lhe faria bem.
       - A h gato. Tu no me enganas. Que tens na manga, minha bruxinha?
       Andr atraiu-a para si, mas ela ps-se rgida.
       - Pra. Estou a falar a srio.
       - Eu sei. Mas de qu?
       - Est bem, est bem... - E p-lo ao corrente do interesse de Antoine por Arden Blake.
       - Porque no o deixas tratar da sua vida sozinho? Tem vinte e sete anos e j sabe tomar conta de si prprio. Se quiser ir a Nova Iorque, pode pagar do seu 
bolso. - Recebia um excelente salrio, mas aquele no era o fulcro da questo.
       - Ento, no ir.  demasiado cavalheiro para se interpor entre o Jon e a rapariga.
       - Talvez ele tenha razo. Porque no h-de manter-se  margem do assunto? - Andr parecia preocupado, mas ela no estava disposta a ceder.
       -  a rapariga ideal para o Antoine.
       - Ento deixa-o fazer as coisas  maneira dele.
       - Caramba, s impossvel!
       Todavia, o que Sabrina acabava de dizer-lhe no caiu em saco roto. No dia seguinte, Andr, como que por acaso, falou com Antoine sobre Arden, e no disse 
nada quando ele desapareceu durante toda a tarde para voltar tostado pelo sol e com a alegria estampada no rosto, depois de um piquenique perto de um nacho que haviam 
descoberto Antoine deu-lhe a provar alguns dos vinhos. Provavelmente, beijara-a uma ou duas vezes e, nessa noite, enquanto Bill e Jon saram atrs de umas coristas 
de que haviam ouvido falar, levou-a a dar um passeio tranqilo E quando Arden deixou Napa na companhia de Bill, para voltarem para Malibu, disse que esperava voltar 
a ver Antoine. Jon s ficou mais alguns dias e depois foi reunir-se a eles. Mais tarde, Jon e Bill apanharam o comboio de regresso a Nova Iorque em Los Angeles Ento, 
Antoine descobriu que tinha um assunto a tratar em Malibu e foi ter com Arden antes que ela partisse com a me. Mas disse muito pouco sobre aquela viagem a Sabrina 
e a Andr
       - Bem, vais mand-lo para Nova Iorque?
       Sabrina, que vivia a situao como se fosse o prprio Antoine, observou um sorriso misterioso nos lbios do marido.
       - Sim, mas s porque ele me pediu. Quer um pretexto para ir v-la a Nova Iorque, embora no me tenha apresentado as coisas dessa maneira.
       Entretanto, Jon telefonou de Nova Iorque. Parecia novamente interessado em Arden. Disse que a havia levado a uma srie de stios, a festas, ao teatro. Sabrina 
sabia que o filho andava a brincar com a rapariga. Antoine tinha razo. Queria conserv-la em gelo, guard-la para ele, e Arden ainda era muito jovem para se aperceber 
disso. De qualquer modo, Antoine foi v-la a Nova Iorque e voltou deprimido da viagem
       - O que se passou? Ele disse-te alguma coisa? - perguntou Sabrina a Andr logo que pai e filho tiveram a primeira conversa
       - Sim, que a rapariga est apaixonada pelo Jon.
       - No  possvel. Parecia louca pelo Antoine quando c esteve.
       - O Jon tem andado a paparic-la e a Arden at pensa que podero ficar noivos. Disse ao Antoine que no seria justo no contar-lhe a verdade. E, desta vez, 
nem sequer o beijou. Agora no te atrevas a dizer-lhe que te contei isto.
       - Claro que no. - Sabrina parecia to deprimida como Antoine. - Merda. Esse rapaz  maquiavlico.
       - No digas essas coisas do teu filho. E aconselho-te a que te mantenhas  margem do assunto. O problema  entre eles os trs. Se o Antoine a quer tanto, 
lutar por ela. Se o Jon andar a fingir, acabar por desistir. E se a Arden sabe o que quer, escolher aquele de que mais gostar. O melhor que podes fazer  deix-los 
em paz.
       -  que no consigo agentar esta incerteza.
       Os dois acabaram por rir. Mas ela sabia que Andr tinha razo.
       Passaram alguns meses sem que Antoine voltasse a falar em Arden. E Sabrina no viu chegar nenhuma carta dela, embora ele pudesse t-las recebido enquanto 
ela se encontrava na cidade. E quando, no Natal, falaram com Jon ao telefone, Sabrina s teve vontade de lhe torcer o pescoo.
       - Como est a Arden, querido?
       - Quem?
       - A Arden Blake. - "A rapariga que te apressaste a separar do Antoine", pensou, mas conteve-se. - A irm do teu amigo Bill.
       - Oh... claro. Est boa. Agora, ando com uma rapariga que se chama Christine.
       - Donde ?
       - Creio que de Manchester. - Riu-se. -  modelo aqui, em Nova Iorque.  inglesa, loura, muito alta... e muito sexy. Moreno como era, tinha um fraquinho por 
louras.
       -  boa moa? - perguntou Sabrina, fazendo rir Andr, que se encontrava junto ao telefone para cumprimentar Jon. - Deixa l. - Ficou encantada por saber que 
o filho deixara Arden e pensou que aquela informao podia ser til a Antoine. - No tens visto a Arden?
       - Uma vez por outra. V-la-ei esta semana quando for passar uns dias com eles em Palm Beach.
       - E quando  que c vens?
       - Provavelmente no prximo vero. Talvez leve a Christine. - Sabrina ficou entusiasmada. As notcias no podiam ser mais prometedoras para Antoine.
       - timo. D-lhe cumprimentos meus.
       Andr estava desconcertado quando Sabrina desligou.
       - De que lado ests?
       - Que achas? - retorquiu ela, sorrindo.
       Esperava que Antoine conseguisse, desta vez, aquilo que tanto desejava. Raramente o conseguia, ao contrrio de Jon, que alcanava tudo a que se propunha. 
J era altura de aprender a lutar por aquilo que queria e Sabrina sabia que, no fundo, ele no se importaria. No queria que ele ficasse magoado, mas tambm no 
queria que ele magoasse outra pessoa e sabia que ele magoaria Arden Blake, perante essa oportunidade. No dia seguinte, comunicou a Antoine que Jon andava a sair 
com outra rapariga.
       - timo. - Pareceu no dar grande importncia ao fato.
       - Antoine! - Sabrina procurava dizer-lhe, com a maior delicadeza, que Arden estava livre e que tinha de aproveitar os ventos de feio. - J no se encontra 
com a Arden.
       - Isso tambm  timo. - Sorriu, embora sem o menor sinal de alegria no rosto.
       - Ela j no te interessa? - "Estes midos!" No percebia nenhum deles. Olhou, surpreendida, para Antoine e beijou-o na face.
       
       - Continua a interessar-me e muito, querida me. - Agora, chamava-lhe quase sempre "me". - Mas  demasiado jovem e ainda no tem as idias bem organizadas. 
E no quero meter-me no meio deles.
       - Por que no?
       Antoine respondeu-lhe com a maior franqueza.
       - Porque sairia magoado da aventura.
       - E depois? - Sabrina estava surpreendida. - A vida  assim. Pelo menos, luta por aquilo que queres. - Quase se enfureceu com Antoine, mas este pareceu no 
fazer caso.
       - No estou em condies de ganhar esta batalha. Acredite. Sei que no. A Arden  cega aos defeitos do Jon. - Olhou para Sabrina com ar resignado, mas ela 
no pareceu ligar. Sabia muito bem quem Jon era, melhor do que ningum. - Quanto mais eu andasse atrs dela, mais ela iria atrs do Jon. - Tinha razo, mas Sabrina 
no conseguia suportar a idia.
       - Como pode ela ser to tonta?
       - Muito tonta.  da juventude. Ir crescer.
       - E depois?
       Antoine encolheu os ombros e disse, em tom filosfico:
       - Acabar por se casar com o Jon. A vida tem destas coisas.
       - E no te importas?
       - Claro que me importo. Mas no posso fazer nada para o impedir. Vi com os meus olhos quando estive em Nova Iorque. Foi por isso que andei to deprimido durante 
semanas. Mas no h nada que eu possa fazer. Seria uma luta inglria. O Jon  um rapaz insidioso e convincente, e ela acredita em tudo o que ele diz, pelo menos, 
superficialmente. Todavia, creio que, no fundo, tem tremendos receios e suspeitas sobre ele. O Jon mente-lhe constantemente sobre as outras raparigas e a Arden finge 
a si mesma que acredita naquilo que ele lhe diz. De qualquer modo, h uma parte dela que nunca ficar convencida. No est suficientemente madura para confiar nos 
seus instintos e deixar de dar ouvidos a vozes enganosas. Um dia f-lo-. - Olhou com ar triste para Sabrina. - Provavelmente, muito tempo depois de se ter casado 
e de ter tido dois filhos. A vida, s vezes, era assim.
       - E tu? - Essa era a sua principal preocupao. Se Arden era assim to tonta, ento tinha o que merecia. E Jon sabia cuidar de si. Mas Antoine... - Como  
que isto vai acabar para ti?
       - Com uma pequena cicatriz - respondeu, sorrindo, - e com uma valiosa lio para recordar. Alm disso, tenho outras preocupaes. Temos de cuidar do negcio 
e quero ir  Europa esta primavera.
       Porm, quando o fez, ainda voltou mais deprimido. Estava absolutamente seguro de que a guerra iria estalar. Hitler mostrava-se demasiado poderoso e a inquietao 
reinava por todo o lado. Depois do seu regresso, Antoine e o pai falaram disso durante semanas e, pela primeira vez, Andr sentiu medo.
       - Sabes o que mais me preocupa? - confessou  esposa, uma noite. - O que possa acontecer ao Antoine.  suficientemente jovem para se alistar, convencido da 
nobreza do seu gesto, por patriotismo, por todas essas porcarias, e ir entregar-se  morte... - Estremeceu s de pensar.
       - Achas que o faria?
       - No tenho a menor dvida. Disse-me mais de uma vez.
       - Oh, meu Deus, no... - Sabrina pensou em Jon. No o imaginava na guerra. Mas, quando falou com Antoine, todos os seus temores se confirmaram.
       - A Frana continua a ser o meu pas... sempre o ser... por mais tempo que viva aqui. Se atacarem o meu pas, irei defend-lo. To simples quanto isso.
       Todavia, a situao era mais complicada e aquela ameaa pairava sobre Sabrina e Andr sempre que ouviam as notcias. Ela s desejava que Antoine fosse atrs 
de Arden Blake. Talvez, se se casasse com ela, refreasse os desejos de ir defender a ptria. E o que ele dizia sobre a precariedade da paz comeava a confirmar-se. 
Era praticamente impossvel evitar a guerra. Andr e Sabrina s desejavam que no rebentasse to cedo e que Antoine mudasse de idias. Talvez conseguissem convenc-lo 
de que a sua presena era imprescindvel para o bom andamento do negcio. Mas ela suspeitava que ele iria de qualquer maneira e Andr pensava o mesmo.
       E, com o propsito de lhe tirar aquelas idias da cabea, Andr deu uma suntuosa festa na Manso Thurston para celebrar o qinquagsimo aniversrio de Sabrina. 
Assistiram quatrocentos convidados. Pessoas que adorava, pessoas que gozavam do seu apreo, algumas que mal conhecia, mas foi uma noite encantadora. Nem sequer faltou 
a presena de Dominique. A ama trouxe-a para o salo e a pequenina deu uns passinhos com o seu vestido de organdi cor-de-rosa, os caracis louros apanhados por uma 
fita de cetim da mesma cor, o sorriso angelical e os enormes olhos azuis. Era a alegria da vida dos pais. Gostavam cada vez mais dela. E Antoine estava to louco 
por ela como eles. Tambm trouxe uma rapariga muito bonita  festa. Uma jovem inglesa que estava a estudar em So Francisco h um ano. Era estudante de Medicina 
e parecia muito sria, mas faltava-lhe o fervor, o esprito e a ingenuidade de Arden Blake. Sabrina no conseguiu deixar de perguntar-se o que seria feito dela. 
Jon no voltara a aparecer por ali, mas falara nela nesse Vero, quando voltara  Manso Thurston. Referira apenas que voltara a sair com ela e tambm com Christine, 
e que, alm disso, havia uma francesa, outra modelo, e uma fabulosa judia alem que acabara de conhecer. Esta sara da Alemanha antes que as coisas aquecessem demasiado. 
Jon tivera uma acalorada discusso com Antoine sobre poltica, na noite antes de partir. Jon insistia na idia de que Hitler fora providencial para a economia alem 
e que, provavelmente, faria muito bem ao resto da Europa, se todas as naes se soubessem comportar adequadamente, o que enfureceu de tal modo Antoine que partiu 
dois copos e uma xcara. A disputa chegou a angustiar Sabrina, que tentou entrar na sala de estar ao ouvir os gritos, mas Andr impediu-a.
       - Deixa-os sozinhos. Faz-lhes bem. J so crescidos.
       - Devem ter bebido demasiado. Matam-se um ao outro.
       - No chegaro a esse ponto.
       Finalmente, Antoine sara a bufar da sala, e Jon, pouco depois, deitara-se no sof. E, milagrosamente, no dia seguinte, despediram-se como grandes amigos, 
com uma cordialidade jamais vista. Antoine chegara a dizer que lhe telefonaria para o banco quando voltasse a Nova Iorque, coisa que ele nunca sugerira. Sabrina 
ficou pasmada e disse a Andr que tinha razo.
       - Os homens so realmente muito estranhos. - Ainda estava atnita quando voltaram da estao, depois de se terem despedido de Jon. - Cheguei a pensar que 
iriam matar-se.
       - Sim, mas nunca o faro.
       A partir de ento, o vero deixou-lhes poucos momentos de descanso. As uvas cresciam admiravelmente e, ao chegar o outono, Antoine e Andr encontravam-se 
constantemente ocupados na superviso das vindimas. Pouco depois, Dominique fez dois anos. Ento, chegou o Natal e Jon passou-o de novo em Palm Beach com os Blakes. 
Antoine nunca mais falara de Arden. Entretanto, chegou a primavera, depois, o vero, e Jon telefonou em julho, dizendo que iria v-los dentro de um ms. Tinha inteno 
de chegar por volta do dia dezoito de Agosto. Falou tartamudeando e com muitos rodeios, e Sabrina s soube por que quando o viu descer do comboio. Vinha acompanhado 
da rapariga loura mais bonita que alguma vez vira. E quando a rapariga se dirigiu a eles, recebeu outra surpresa. A loura era Arden Blake, feita uma mulher. J tinha 
vinte e um anos e h dois que Sabrina no a via. Que diferena entre ela e a Arden que conhecera. Agora, estava lindssima, com um penteado sofisticado, maquiada 
na perfeio e o corpo mais esbelto que antes, mais na linha das preferncias de Jon. Formavam um par verdadeiramente deslumbrante. E Arden continuava to doce como 
antes.
       - Que tal achas a minha surpresa? - perguntou Jon, olhando para Arden, e depois para a me, mal acabaram de jantar nessa noite, na Manso Thurston.
       Antoine tambm estava presente. Sabrina, mais de uma vez, surpreendeu-o a olhar fixamente para Arden, mas mostrava-se muito reservado. O jantar no estaria 
a ser muito agradvel para ele.
       - Acho uma tima surpresa. H muito que no vamos a Arden.
       Sabrina olhou-a carinhosamente e ela corou, contrastando com o audaz vestido negro, que mostrava o incio do peito. Isso no fez mais do que aumentar a inquietao 
de Antoine, embora Jon no desse por nada. Sabrina esperava que ele no fosse dormir com ela.
       - Bem, mam, ainda temos outra surpresa para ti disse Jon, sorrindo entre dentes. Arden olhou-o como se tivesse perdido o alento e Sabrina teve a sensao 
de que o corao deixara de bater. Adivinhando o que o filho ia dizer, olhou de relance para Antoine, com o desesperado desejo de o proteger. Jon notou o olhar, 
mas prosseguiu: - Vamo-nos casar no prximo ms de junho. Estamos noivos.
       Sabrina olhou instintivamente para a mo esquerda de Arden, onde viu brilhar um bonito anel de safiras e diamantes.
       - Posso contar com a tua aprovao.
       Durante um longo instante, Sabrina ficou em silncio, sem saber o que dizer. E foi Andr quem ocupou o vazio.
       - Claro que sim. Estamos encantados com a vossa deciso.
       Arden teria vinte e dois anos quando se casasse com Jon e este vinte e seis. Antoine perdera definitivamente a batalha. Mas nada se notou no seu rosto quando 
brindou por eles, depois de ter ido buscar uma garrafa do melhor champanhe da sua safra.
       - Felicito-vos aos dois e desejo-vos uma longa vida e um amor eterno...
       -  sade! - exclamou Andr, secundando o brinde do filho, enquanto Sabrina tentava sair da surpresa inicial. Mas a noite foi extraordinariamente tensa, e 
s ficou mais aliviada quando todos se retiraram para os respectivos quartos e pde ficar a ss com Andr para lhe dizer o que pensava de tudo aquilo.
       O Antoine tinha razo.
       Ocorrera exatamente aquilo que ele previra, mas tambm previra o divrcio do casal ao fim de cinco anos e Sabrina achou que era possvel que tambm nisso 
ele no se enganasse. Por mais apaixonados que eles se mostrassem um pelo outro, Sabrina sabia instintivamente que aquelas aparncias no coincidiam com a realidade. 
E foi isso mesmo que disse a Andr.
       - O Jon no a ama. Eu sei. Vi nos seus olhos.
       - Sabrina... - Andr olhou-a com firmeza. - No podes fazer nada. A coisa mais sensata que poders fazer  unir-te a eles na sua felicidade. Se estiverem 
a cometer um erro, deixa-os descobrir por eles. S se casam daqui a dez meses.  para isso que servem os noivados. Podia revestir uma estrada desde aqui at ao Sio 
s com os anis de noivado devolvidos.
       - Espero que a Arden abra os olhos e junte o seu anel a esses outros que dizes.
       Desejou isso ainda com mais ardor quando, dias depois, chegou aos seus ouvidos o rumor de que Jon sara na noite anterior com duas coristas. Todavia, no 
lhe fez qualquer referncia a esse fato. Jon dissera apenas que ia sair com velhos amigos e deixara Arden em casa. Mas Sabrina no podia aprovar aquele comportamento. 
Jon continuava a ser o mesmo de sempre. Tal como Antoine e os seus sentimentos para com a noiva de Jon. Ainda havia um fulgor no seu olhar de cada vez que a fixava, 
e Arden parecia perceber. s vezes, os seus olhos encontravam-se e assim ficavam at Arden voltar a cara para o lado. Mas o verdadeiro choque teve lugar a trs de 
Setembro, o dia antes de o par regressar a Nova Iorque, quando Antoine trouxe a notcia. Tivera uma reunio de negcios na cidade e, a caminho de casa, ouvira a 
rdio. As suas previses estavam, mais uma vez, corretas. A Europa entrava em guerra. Quando chegou  Manso Thurston, encontrou Sabrina estupefata. Tambm ouvira 
a notcia.
       - Antoine... - No conseguiu dizer mais nada e as lgrimas comearam a rolar-lhe pelas faces.
       Pouco depois, chegou Andr, de semblante carregado.
       - Ouviram as notcias?
       Ambos assentiram com a cabea, temendo o pior. Mas Andr surpreendeu-os.
       - Por favor, no vs! - Andr falou com voz temerosa e entrecortada. Ficara aterrorizado ao ouvir a notcia e correra para casa para rogar ao filho que no 
se alistasse. No podia deix-lo ir para a guerra... Ainda era um mido... O seu filho primognito... Quando Antoine, movido pela emoo, o abraou, os olhos de 
Andr inundaram-se de lgrimas. Naquele momento, Arden descia lentamente as escadas e Antoine olhou para ela por cima do ombro do pai. Sabrina nunca soube se ela 
falou para a rapariga ou para todos eles.
       - Tenho de ir. Tenho de ir... No podia ficar aqui sabendo o que se est a passar.
       - Porque no? Este tambm  o teu pas - replicou Sabrina.
       - Sim, mas o pas onde nasci, a minha ptria, est do outro lado do oceano.
       - Ns tambm somos a tua ptria - disse Andr e, pela primeira vez, Sabrina observou sintomas de velhice no esposo. - Monfils... - As lgrimas correram-lhe 
pelas faces e Sabrina reparou que Arden tambm chorava. No desviava o olhar de Antoine, que se aproximou, lhe tocou no rosto e disse:
       - Um dia, voltaremos a ver-nos, Arden. - Soltou um profundo suspiro e voltou-se para os restantes. - Telefonei para o consulado h poucos minutos. Trataram 
de tudo para eu apanhar um comboio esta noite. Ir diretamente para Nova Iorque, depois embarcarei para Frana. A esta hora, muitos tero j feito o mesmo. - Olhou 
para o pai. - No tenho alternativa, pap. - Era uma questo de respeito por si mesmo. Educara-o demasiado bem, com demasiada integridade demasiado orgulho. Antoine 
nunca conseguiria ficar escondido, enquanto precisavam dele a dez mil quilmetros dali.
       A partir daquele momento, tudo pareceu um pesadelo.  noite, depois de Antoine ter feito a mala, levaram-no  estao. Antes, falara durante duas horas com 
o pai sobre assuntos do negcio que abandonava e desculpara-se constantemente por isso, mas no podia esperar nem mais um dia. At Jon achou o seu procedimento exagerado.
       - Por que diabo no esperas at amanh e vais conosco para Nova Iorque num comboio decente? Que perdes?
       - Tempo. Precisam de mim agora. No depois de me atulhar de comida durante quatro dias e de jogar s cartas na carruagem-salo. O meu pas est em guerra.
       Jon olhou-o ironicamente.
       - Que esperem. No vo suspender a guerra porque tu chegas uma semana depois.
       No entanto, Antoine no estava para graas, nem os seus acompanhantes, s duas da madrugada, quando o viram subir para o comboio com outros rapazes que tambm 
se dirigiam para este. S se ouvia falar francs no cais, no meio de um mar de rostos carregados, de um rio de lgrimas. Ento, de repente, enquanto se despediam, 
Antoine viu-se com Arden nos braos. Beijou-a na face e fitou-a por instantes.
       - Sois sage, mon amie. - Que podia traduzir-se por "s boa" ou "s sensata". Eram duas alternativas interessantes e, em breve, teria de optar por uma. Arden 
pareceu desconsolada quando o viu partir e chamou-o pelo nome quando o comboio se ps em marcha. Jon pegou-lhe no brao e puxou-a para o carro. Andr soluava, abraado 
a Sabrina. Haviam deixado Dominique em casa. Aquela despedida teria sido demasiado pesada para a pequena e, alm disso, no teria compreendido o que se estava a 
passar.
       - Nunca pensei que ele fosse... Nem sequer nestas ltimas horas, quando no parava de falar no assunto...
       Andr mostrava-se inconsolvel. Passou a noite a chorar nos braos de Sabrina. No dia seguinte, quando Jon e Arden partiram, foi outro tipo de agonia. Era 
como se a famlia tivesse ficado destroada de um dia para o outro. Quando Sabrina beijou Arden, as duas desataram a chorar sem que ningum soubesse por qu. Ambas 
choravam por Antoine, mas no podiam diz-lo. Ento, Sabrina voltou a beijar Jon.
       - Cuidem de vocs... voltem o mais breve possvel...
       Andr no viera despedir-se deles ao comboio. Teria sido demasiado para ele. Nessa noite, quando se dirigiram para Napa, foi Sabrina que conduziu o carro. 
Andr no proferiu uma nica palavra durante toda a viagem.
       Antoine telefonou-lhes antes de embarcar para a Europa. E s voltaram a ter notcias dele quatro meses depois, em janeiro. Estava so e salvo, e encontrava-se 
em Londres, temporariamente destacado na RAF, e mostrava extrema admirao por De Gaulle Na sua carta, quase s falava dele Sabrina ia a correr todos os dias at 
 caixa do correio, com Dominique agarrada s saias. E quando havia uma carta de Antoine, voltava ainda mais depressa e entregava a carta a Andr. Enquanto tivessem 
notcias de Antoine, tudo estaria bem Mas pareciam viver em constante sobressalto. Nem sequer o enlace de Jon com Arden atenuou aquele contnuo temor. Foi uma cerimnia 
magnfica e teve lugar em Nova Iorque. Andr e Sabrina assistiram a ela. Bill Blake foi o padrinho e Dominique ajudou a segurar o vu da noiva. Havia doze damas 
de honra e quinhentos convidados na Catedral de So Patrcio, no primeiro sbado de junho, mas Sabrina esteve absorta em pensamentos durante quase toda a cerimnia. 
No parava de pensar em Antoine e de perguntar-se como e onde ele estaria naquele momento. Parecia que j tinha partido h um sculo, mas, ao fim de trs meses, 
escreveu a dizer que vinha de licena. Sabrina sentou-se a chorar. Partira h treze meses e continuava vivo. Encontrava-se no Norte de frica com De Gaulle, mas 
teria oportunidade de ir aos Estados Unidos. S poderia passar uns dias com eles e, com um pouco de sorte, estaria em casa por ocasio do quarto aniversrio de Dominique.
       E assim foi. A alegria foi geral E desta vez, quando partiu, a despedida no foi to dolorosa. At Andr no estava to deprimido. Foi como se, depois da 
sua partida, a sua aura se tivesse mantido no ar. Falaram interminavelmente sobre a marcha do negcio vincola, Antoine andara com Dominique ao colo praticamente 
desde o momento da chegada at ao do regresso, e contara-lhe muitas coisas da guerra, e especialmente de De Gaulle, por quem tinha um profundo respeito.
       - Os Norte-Americanos tambm entraro na guerra muito em breve. - Estava absolutamente certo disso.
       - No  o que o Roosevelt - diz observou Sabrina.
       - Pois mente. Ele est a preparar-se para a guerra. Lembre-se do que lhe digo.
       Sabrina sorriu.
       - Ainda continuas com as tuas previses, Antoine?
       - Nem todas se concretizam, mas sei que, desta vez, no me engano.
       Antoine tambm perguntou por Arden e Jon, mas Sabrina no vislumbrou a menor emoo no seu rosto. Estava demasiado absorto na guerra, em De Gaulle e tudo 
o resto. Sabrina contou-lhe como fora bonita a cerimnia do casamento. Disse-lhe ainda que no pudera ver Amlia em Nova Iorque. Morrera alguns meses depois do nascimento 
de Dominique, com a idade de noventa e um anos. Desfrutara de uma vida longa, plena e feliz, e a sua hora chegara. Sabrina sentia imensas saudades dela.
       Antoine tinha inteno de ir visitar Arden e Jon antes de voltar a embarcar em Nova Iorque, mas no teve tempo. Encurtaram-lhe a licena, e teve que partir 
trs dias antes do previsto, na obscuridade da noite, num navio de transporte de tropas. S teve tempo de lhes telefonar. Atendeu Arden, pois Jon no se encontrava 
em casa.
       - Est num jantar de negcios com o Bill. Ficar com pena de no ter falado contigo. - Arden teve vontade de lhe dizer que teria gostado muito de v-lo, mas 
estava casada e tinha de ter cuidado com o que lhe dizia. - Cuida de ti. Como esto a Sabrina e o Andr?
       - timos, mas atarefados. Foi bom v-los. E a Dominique est enorme. - Riu-se, imaginando o rosto de Arden. - Esta fechou os olhos e sorriu, dando graas 
a Deus por ele ainda estar vivo. Pensava muitas vezes nele. Mas era feliz com Jon. Estava convencida de que fizera a escolha acertada. H quatro meses que estavam 
casados. Esperava engravidar em breve.
       - Devias ter visto a Dominique no casamento. Estava adorvel. - Mas Antoine ainda sentia uma mgoa enorme ao pensar no enlace. Alm disso, tinha de desligar. 
Havia muitos soldados  espera de usar os telefones que haviam sido instalados no cais, perto do navio.
       - -D cumprimentos meus ao Jon.
       - Eu dou... Tem cuidado...
       Arden ficou longo tempo de olhos fixos no telefone depois de ter desligado. Tinha vontade de esperar por Jon, mas, como era costume quando saa com o irmo, 
nunca chegava a casa antes das trs da madrugada.
       No dia seguinte, disse-lhe que Antoine telefonara, mas, vtima de uma horrorosa dor de cabea, Jon no pareceu dar grande importncia  notcia.
       - S um louco se metia numa coisa daquelas. Graas a Deus que este pas no entra naquelas loucuras.
       - A Frana no tinha alternativa - declarou Arden, com ar irritado.
       - Talvez, mas este pas tem. Ns somos mais inteligentes do que os franceses.
       E, no ano seguinte, expressou em Napa o mesmo ponto de vista, com total desaprovao de Sabrina.
       - No te iludas, Jon. Acho que o Roosevelt s nos est a atirar areia para os olhos. Entraremos em guerra dentro de um ano, se no tiver terminado antes.
       - Uma ova  que entraremos. - Jon bebera demasiado vinho. Era a visita anual do jovem casal a Napa. Arden andara deprimida nos ltimos dois meses. Perdera 
um beb em junho, e comportava-se como se aquilo tivesse sido o fim do mundo. No era mais do que um beb, por amor de Deus!... Bolas! Nem sequer chegava a isso.
       Mas Arden desatou a chorar, inconsolvel, e Sabrina sabia muito bem o que ela sentia. Recordou a dor quando da perda do primeiro filho, assim como o tempo 
que demorara a engravidar antes e depois do aborto.
       - Vais superar isso... Olha para mim!.. Tive o Jon.. e a tens a Dominique. - Trocaram um sorriso, enquanto viam a pequenina a brincar com um cachorro no 
relvado. Tinha quase cinco anos e, para os pais, era a criana mais encantadora do mundo. - Ters outro. s vezes, ao princpio,  um pouco difcil. Porque no arranjas 
qualquer coisa que te mantenha ocupada?
       Arden encolheu os ombros com os olhos inundados de lgrimas. S queria voltar a engravidar, mas Jon nunca se encontrava em casa e, quando isso acontecia, 
estava bbedo ou cansado. Mostrava-se pouco cooperante, mas Arden no quis dizer isso a Sabrina.
       - H que dar tempo ao tempo. Eu demorei dois anos a voltar a engravidar e estou certa de que no ters de esperar tanto.
       Arden sorriu, pouco convencida. Continuava a ter a impresso de que aquilo era o fim do mundo. Jon deixou-a em Napa durante todo o tempo que durou a visita. 
Entretanto, no parava de ir a So Francisco para ver antigos amigos seus, coisa que Sabrina no acreditava em absoluto.
       - Ele deixa-te sozinha em casa muitas vezes? - perguntou  nora, um dia.
       Arden hesitou antes de responder, depois acabou por fazer um gesto afirmativo com a cabea. Nesse ano, embora tivesse perdido muito peso, ainda estava mais 
bonita do que das outras vezes. Ela era, efetivamente, muito mais atraente do que as modelos que Jon perseguia sem descanso.
       - Sai muito com o Bill. H uns meses, o meu pai advertiu o meu irmo precisamente sobre isso. Ele achava que, se o Bill no o desencaminhasse, o Jon portar-se-ia 
melhor. - Olhou com ar resignado para a sogra, mas Sabrina fez-lhe sinal para continuar. - Mas so amigos h muito tempo. No h quem os separe. Nem sequer por uma 
noite. Creio que no sairia tanto se o Bill casasse. Mas o meu irmo diz que nunca se casar. - Sorriu. - E, por este caminho, cumprir o que diz.
       - A diferena  que o Jon j  casado. Ningum lhe recordou isso? - perguntou Sabrina a Andr nessa noite, no conseguindo manter a indignao. Mas ele no 
quis intrometer-se naquele assunto.
       - J  adulto, Sabrina.  um homem casado. E no admitiria que eu o chamasse  ateno, como se fosse um mido. Acho que no devo dizer-lhe nada.
       - Ento, digo-lhe eu.
       -  contigo.
       E quando o fez, Jon mandou-a para o inferno.
       - J anda outra vez com as choraminguices? Que chata! O irmo tem razo.  uma mida extremamente mimada. - Jon estava mal disposto, mais como conseqncia 
da horrvel ressaca do que por aquilo que a me lhe dissera.
       - A Arden  uma moa carinhosa, decente e encantadora, e  tua esposa.
       - Obrigado, j me dera conta disso.
       - A srio? A que horas vieste esta noite?
       - Que  isto? A Inquisio? Que tens a ver com isso?
       - Gosto dela. S isso. E s meu filho. E sei do que s capaz para ir atrs de umas saias Por amor de Deus, Jon, s um homem casado. Comporta-te como um bom 
marido. Estiveste quase a ser pai h uns meses atrs..
       Ele interrompeu-a.
       - A idia no foi minha. A culpa foi dela.
       - No querias o beb, Jon? - A voz de Sabrina era agora mais suave, mas triste Perguntou-se se a previso de Antoine estaria certa. As coisas pareciam no 
correr bem naquele casamento.
       - No, por agora, no quero nenhum. Desejo tanto ter um filho como ter um cavalo coxo. Por amor de Deus, tenho vinte e sete anos, ainda temos muito tempo 
para isso. - Jon tinha alguma razo, mas Arden ansiava por um filho. Ento, Sabrina no conseguiu evitar fazer-lhe uma pergunta que no lhe saa da cabea.
       - s feliz com ela, Jon?
       Jon olhou, com ar desconfiado, para a me.
       - Ela pediu-te que me perguntasses isso?
       - No. Por qu?
       - Porque isso  uma coisa que ela quer saber. No pra de fazer perguntas estpidas como essa. Diabos... No sei. Estou casado com ela, no estou? Que mais 
quer ela?
       - Talvez algo mais do que aquilo que lhe ds O casamento no  uma simples cerimnia. Requer carinho, compreenso, pacincia e tempo. Quantas horas dirias 
passas com ela?
       Jon encolheu os ombros.
       - No muitas. Tenho muitas coisas que fazer.
       - Como passar o tempo com outras mulheres? - Jon olhou-a com ar de desafio.
       - Talvez. E depois? No lhe faz mal nenhum. Ainda chega para ela. Engravidei-a, no engravidei?
       As atitudes de Jon indignavam-na.
       - Por que razo  que te casaste com ela?
       - J te disse h muito tempo. - Jon olhou-a nos olhos sem pestanejar. - Foi o meu passaporte para o xito. Enquanto estiver casado com a Arden, tenho emprego 
para a vida inteira.
       Sabrina esteve prestes a gritar ao escutar aquelas palavras.
       - Ests a falar a srio?
       Jon encolheu os ombros e virou a cara para o lado.
       -  boa mida. E sei que sempre esteve louca por mim.
       - Que sentes por ela?
       - A mesma coisa que sinto por qualquer outra rapariga, s vezes mais, outras vezes menos.
       - S isso?
       Sabrina olhou-o fixamente, perguntando-se quem era aquele homem repugnante, egosta e sem sentimentos que h muito carregara no seu ventre? Quem era ele?... 
Era Camille, disse uma voz dentro de si... mas tambm lhe corria o sangue materno nas veias... porm, no tinha corao.
       - Acho que cometeste um erro terrvel - observou Sabrina, numa voz firme. - Essa rapariga merece muito mais do que isso.
       - A Arden  feliz assim.
       - No, no . Sente-se triste e solitria e, provavelmente, sabe que te preocupas menos com ela do que com os sapatos que calas.
       Jon baixou a cabea, depois olhou de novo para a me. Pouco mais podia dizer.
       - Que queres que faa? Que finja? Ela sabia como eu era quando casou comigo.
       - Foi uma tonta. E agora est a pagar um preo alto por isso.
       - A vida  assim, mam.
       Jon fez uma careta e levantou-se. Sabrina reparou, uma vez mais, como ele estava bonito. Mas aquilo no bastava Pelo contrrio, f-la ter ainda mais pena 
de Arden. No dia em que partiram, quando se encontravam j na estao, Sabrina abraou-a durante um longo instante
       - Se precisares, telefona-me... - Olhou-a nos olhos. - Estou sempre aqui, pronta para te ajudar e receber.
       Insistira para que Jon e Arden fossem passar o Natal com eles, mas ele queria ir para Palm Beach. Era mais divertido e, alm disso, a teria Bill como companheiro 
de farra. So Francisco comeava a aborrec-lo. Para ele, era uma cidade demasiado provinciana que no tinha comparao com Boston, Paris, Palm Beach ou Nova Iorque. 
Mas Arden sentia-se mais feliz em Napa, na companhia de Sabrina, Andr e Dominique.
       - Veremos
       Arden manteve-se agarrada a Sabrina at ao ltimo momento e, quando o comboio se ps em andamento, os olhos inundaram-se-lhe de lgrimas. Durante semanas, 
Sabrina sentiu um peso de toneladas no peito, sempre que se recordava do que o filho lhe dissera Andr reconheceu com horror a verdade que as angustiadas palavras 
da esposa encerravam.
       - O Antoine tinha razo.
       - Sempre achei que sim. Ele deveria ter lutado por ela.
       - Talvez tambm tivesse razo em no o fazer. Sabia que no podia ganhar A Arden estava louca pelo Jon.
       - Enganou-se redondamente. Ele destroou-lhe a vida
       Era horrvel que uma me tivesse de falar daquela maneira, mas Sabrina dizia o que sentia. S espero que no engravide outra vez.  s disso que precisa Assim, 
se algum dia se der perfeita conta da realidade, estar livre para refazer a vida.
       Tambm era horrvel para uma me desejar que a nora se divorciasse do filho, mas era o que pensava. Todavia, no disse nada a Antoine quando ele voltou a 
casa a gozar nova licena. Desta vez, ainda que por pouco, no chegou a tempo de celebrar com eles o aniversrio de Dominique. Apareceu em finais de novembro e ficou 
uma semana. E precisamente no dia do seu regresso, quando se encontravam a caminho da estao com o rdio do carro ligado, ouviram a notcia da catstrofe de Pearl 
Harbor.
       - Oh, meu Deus! - Sabrina parou o carro e olhou fixamente para Antoine. Estavam sozinhos. Andr decidira no voltar a assistir s partidas do filho. - Meu 
Deus... Antoine... Que quer isso dizer? - Mas ela sabia muito bem o que significava: a guerra... e, para ela... Jon... Antoine olhou-a com ar triste.
       - Sinto muito, maman...
       Com os olhos marejados de lgrimas, Sabrina ps de novo o carro em andamento. No queria que Antoine perdesse o comboio, embora fosse o que mais desejava 
na vida. O que se passaria a partir daquele momento? O mundo inteiro estava em guerra e ela e Andr tinham dois filhos com que se preocupar: um, com De Gaulle, no 
Norte de frica; e s Deus sabia para onde mandariam Jon. Soube-o ao fim de uns dias. Alistara-se com Bill Blake na euforia da bebedeira que apanharam no dia em 
que ouviram a notcia. Agora, Jon estava louco de raiva. Bill seria destacado para perto de Fort Dix; Jon, para So Francisco. Depois, embarcariam para o seu destino 
definitivo. Jon iria trazer Arden consigo e esta poderia ficar com Andr e Sabrina na Manso Thurston, enquanto ele ficaria destacado na base de So Francisco.
       - Pelo menos, este ano passaremos o Natal juntos disse Sabrina.
       Mas aquela perspectiva no agradava a Jon. Estava de pssimo humor quando chegou, irritado com tudo e com a sensao de estar s, sem a companhia de Bill. 
E era a esposa que pagava as suas desventuras... ao ponto de, na vspera de Natal, Arden sair da mesa em que estavam a celebrar a consoada, lavada em lgrimas, quando 
Jon atirou o guardanapo ao cho.
       - Esta mulher d-me vmitos! - Mas no por muito tempo. Quatro dias depois, recebeu a guia de marcha e embarcou para a Europa.
       Sabrina, Arden, Andr e Dominique foram despedir-se ao porto. Havia uma multido imensa por todo o lado... Choros, soluos, lenos e bandeiras a agitarem-se... 
no cais, uma banda a tocar... Tudo parecia irreal, a fingir. Mas a realidade fez-se sentir duramente quando chegou o momento da despedida e todos o beijaram. Sabrina 
agarrou-o, ento, pelo brao.
       - Adoro-te, Jon. - H muito tempo que no lhe dizia tal coisa, pois Jon no era uma pessoa de fcil trato; mas, apesar de tudo, quis que ele soubesse o que 
ela sentia por ele.
       - Tambm te adoro, mam. - Os olhos umedeceram-se-lhe; depois olhou para a esposa com o seu irresistvel sorriso ao canto da boca. - Cuida de ti, mida! Escrevo-te 
de vez em quando.
       Arden, lavada em lgrimas, sorriu e abraou Jon com fora. Era incrvel que ele tivesse de partir. Mas, pouco depois, o navio zarpou. Arden ps-se a soluar 
convulsivamente. Sabrina rodeou-lhe o ombro com o brao e apertou-a contra si. Andr, com Dominique nos braos, pensava no filho, que, naquele momento, se encontrava 
to longe. Eram tempos terrveis para toda a gente e s pedia a Deus que os dois rapazes voltassem sos e salvos.
       - Anda, vamos para casa.
       Arden decidira ficar algum tempo com Sabrina e Andr. Quando chegaram  Manso Thurston, a casa parecia um tmulo. Pensaram que o melhor era irem para Napa 
quanto antes e assim fizeram nessa mesma tarde Apesar de tudo, a vida a era mais fcil de suportar. Ajudavam a isso a tranqilidade, a verdura dos campos, o cu 
azul. A, era difcil imaginar o caos em que o mundo mergulhara.
       E foi ento que chegou o telegrama, cinco semanas depois da partida de Jon. Um dia, um homem de uniforme bateu  porta principal e entregou-o a Andr. Enquanto 
o abria para Sabrina, sentiu o corao parar, mas as lgrimas turvaram-lhe os olhos antes de conseguir ler o nome escrito no papel... Era o de Jonathan Thurston 
Harte... "Lamentamos informar que o seu filho morreu. " Sabrina gritou como um animal ferido, o mesmo grito que soltara quando ele nascera, vinte e sete anos antes. 
Deixara o mundo do mesmo modo que entrara nele: atravs do corao da me. Ela procurou, ento, refgio nos braos de Andr. Entretanto, apareceu Arden, em estado 
de choque, e Sabrina foi logo ter com ela; ficaram os trs abraados at altas horas da noite. At Dominique chorou Compreendera o que se passava. O irmo morrera. 
E nunca mais voltaria.
       - Qual foi? - perguntou com insistncia a Andr, confusa.
       - Foi o Jon, querida... o teu irmo Jon. - Andr apertou-a contra si, aconchegando-a no seu colo, sentindo-se injustificadamente culpado de que se tratasse 
de Jon e no de Antoine, mas tambm aliviado por no ter sido o seu primognito. Aquele sentimento dominou-o de tal modo que, no dia seguinte, no conseguiu encarar 
Sabrina durante todo o dia. Mas ela notou. Conhecia-o demasiado bem.
       - No reajas assim. - O rosto estava praticamente irreconhecvel por causa do sofrimento e das lgrimas. - No foste tu que escolheste, foi Deus.
       E, ao ouvir aquelas palavras, Andr lanou-se nos seus braos a soluar e a pedir a Deus que no voltasse a escolher mais ningum naquela casa. No teria 
conseguido suportar a morte de Antoine. Pensou que talvez Deus tivesse levado Jon porque sabia que Sabrina era mais forte do que ele. De qualquer modo, fosse como 
fosse, nada daquilo fazia sentido. Ao longo dos anos, Deus no parara de dar e tirar, mas os homens jamais conseguiro compreender os seus insondveis desgnios.
       
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       - Que fazes hoje? - perguntou Sabrina, olhando sobre o ombro para a nora, que brincava com Dominique
       Arden resolvera ficar ali indefinidamente, sem saber por qu. No voltara a casa desde a ltima vez que entrara na Manso Thurston na companhia do marido. 
Corria o ms de junho de 1942 e Antoine vinha de licena em julho. Meses antes, fora atingido no brao esquerdo, mas o ferimento no era grave. Aquele percalo proporcionou-lhe 
a oportunidade de ser destacado para o quartel-general de De Gaulle, para grande alvio da famlia.
       - Queres ir a So Francisco comigo ou ficas aqui? - Arden pensou por instantes e, sorrindo, respondeu  mulher que tanto adorava:
       - Vou consigo. Que vai l fazer?
       - Tenho umas coisas para fazer na casa...
       No queria perturbar o esprito de Arden com nada. J estava refeita do choque Depois da morte de Jon, descobriram que estava novamente grvida, mas desta 
vez perdeu o beb quase de imediato. "J estava escrito para ser assim", disse-lhe Sabrina. Mas no eram palavras fceis de ouvir nem de dizer. Teria gostado de 
conhecer o filho de Jon... o seu nico neto... mas j era demasiado tarde para continuar a chorar e todos estavam a recuperar lentamente do choque que haviam sofrido. 
O sol continuava a nascer todos os dias, as colinas mantinham a sua verdura e as uvas no podiam estar mais bonitas. Tudo comeava a voltar  normalidade. Ao fim 
de certo tempo, a vida j no parecia to dolorosa. Durante muito tempo, Sabrina sentira-se como se andasse aos tropees, mas Andr ajudara-a a recuperar o nimo. 
Alm disso, tinha Dominique e Arden, que lhe alegravam o corao e a quem podia dar o seu amor.
       - H notcias do Antoine: -perguntou Arden, enquanto se dirigiam para a cidade. Levava Dominique ao colo. A criana adormecera. Adorava andar de carro com 
elas e adorava a tia Arden, como ela lhe chamava.
       - Pouca coisa. Encontra-se bem. Conta umas coisas engraadas de De Gaulle. - Sabrina franziu o sobrolho. Mas disse que vem na data prevista.
       Arden olhou para os campos que iam deixando para trs, depois olhou para a pequenina adormecida ao seu colo.
       -  um homem muito especial. - Era a primeira vez que Arden falava de Antoine desde a morte de Jon, e Sabrina perguntou-se se a rapariga no falava nele por 
possveis sentimentos de culpa. Jon portara-se muito mal com ela, no podia negar-se. No teria sido de estranhar que Arden tivesse desejado a sua morte uma ou duas 
vezes. Isso ter-lhe-ia tornado ainda mais duro o desaparecimento do marido... H muito tempo, estive quase a apaixonar-me pelo Antoine.
       Sabrina sorriu.
       - J sabia. - Depois, passando para um terreno mais delicado, acrescentou: - E creio que ele tambm esteve apaixonado por ti.
       Arden fez um gesto afirmativo com a cabea.
       - Eu sei. Mas andava to louca pelo Jon...
       - O Antoine sabia disso. Disse que te casarias com o Jon muito antes de o fazeres.
       - Disse isso? - Pareceu surpreendida. - Como  que ele sabia?
       Sabrina riu-se.
       - Tu disseste-lhe. O Antoine  um homem muito especial.
       As duas mulheres trocaram um sorriso enquanto atravessavam a nova ponte da cidade. Sabrina gostava da Golden Gate. Era uma ponte de linhas majestosas, muito 
mais elegante do que a Bay Bridge. Recordou os tempos dos vapores fluviais e dos comboios... Como o tempo passava!... Custava-lhe a crer que j tinha cinqenta e 
quatro anos. No se sentia assim to velha. Porque  que a vida era to curta? Porque no podia dispor de mais tempo?... Esses pensamentos recordaram-lhe Jon. Era 
o motivo que a levara naquele dia at  cidade. Fora ver a instalao da placa.
       Num dos lados da casa, havia um pequeno frnice que o pai de Sabrina mandara construir. Dissera  filha o destino que devia dar-se quela concavidade do muro 
e Sabrina cumpriu os seus desejos comeando por ele depois, John Harte e agora, Jon todos os que haviam vivido na Manso Thurston, para que ningum nunca os esquecesse 
para que estivessem todos juntos.
       Os homens aguardavam a chegada de Sabrina, que mostrou a pequena placa de bronze a Arden. Depois, foram dar uma volta pelo jardim, que havia sido to grande 
e que agora era to pequeno. Sabrina deu uma olhadela s plantas e s flores, enquanto os homens instalavam a placa Agora havia trs. Jeremiah Arbuckle Thurston, 
John Williamson Harte e Jonathan Thurston Harte. Causava tristeza ver os seus nomes ali, com as datas que haviam limitado as suas vidas.
       - Para que fez isso? Arden olhou-a com ar triste.
       - Para que ningum os esquea.
       - Eu nunca esquecerei. - Os homens haviam partido. - Para mim, far sempre parte desta casa.
       Sabrina sorriu-lhe, fez-lhe uma festa na face, depois olhou para as placas que exibiam os nomes dos homens que amara.
       - Para mim, tambm eles fazem parte da Manso Thurston o meu pai, o John, o Jonathan. - Aqueles nomes trouxeram os respectivos rostos  sua mente. Parecia 
que tinham voltado  vida. Sabrina olhou, ento, para Arden. - O meu nome tambm estar aqui um dia. O do Andr, o teu, o do Antoine. A nica pessoa da famlia que 
desaparecera sem deixar rasto fora Camille. No havia nenhuma placa com o seu nome. Preferira abdicar, e o seu nome fora apagado da memria de todos. - O passado 
 uma coisa importante. -o para mim e tem-no sido para esta casa pelos motivos que foi construda. - Pensou, ento, no pai Que a amou e a conservou. - Mas o presente 
tambm  importante. Essa parte pertence-te a ti. - Atreveu-se a dizer as palavras que traduziam a sua maior esperana. - Talvez o Antoine, talvez tu, iro viver 
aqui um dia. - Fez uma pausa e olhou para Dominique, que andava a saltitar dentro dos canteiros de flores. De repente, a pequenina parou, como se soubesse que a 
me estava a falar dela. - E o futuro pertence-lhe. A Manso Thurston ser dela, um dia... Espero que signifique tanto para ela como tem significado para ns. Nasceu 
nesta casa. - Sabrina sorriu ao recordar o nascimento da menina, com Andr a seu lado. - O meu pai morreu nesta casa. - Voltou-se para ela, para as salas que tanto 
amava e to bem conhecia. Ento, sorriu de novo para Dominique. - Era o legado que lhe deixava, ou deixaria um dia, das pessoas que por ela haviam passado, deixando 
a sua marca, o seu corao e o seu amor.
       
       
       
       
       
       
       
       


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